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Capítulo 2. A RECONSTRUÇÃO DA FUNDAMENTAÇÃO DO DIREITO AO TRABALHO NA TEORIA DAS NECESSIDADES

2.3. Necessidades humanas e racionalidade reprodutiva

2.3.3. Necessidades, preferências, interesses e desejos

A partir da racionalidade reprodutiva, que delimita os marcos de factibilidade das escolhas, fica mais evidente que necessidades não são redutíveis a preferências, o mesmo valendo para interesses ou desejos. “La satisfación de las necesidades hace posible la vida, la satisfación de las preferéncias puede hacerla más o menos agradable.” Contudo, para poder ser agradável, é preciso, antes, como condição lógica, que a vida seja possível.61 As necessidades, portanto, expressam uma prioridade sobre interesses, preferências ou desejos, que lhes impõe limites.

Essa prioridade advém da objetividade das necessidades, o que decorre de uma opção teórica de diferenciá-las de outros conceitos que se reportam a aspectos ligados à motivação ou à vontade. Desejos, interesses e preferências dizem respeito à esfera da volição.62 Enquanto preferências e interesses são conscientes, desejos podem ser conscientes ou inconscientes. Já as necessidades são involuntárias.63 A diferença entre necessidades e desejos fica explícita quando se diz: “desejo intensamente fumar, mas necessito parar,

60 HINKELAMMERT e MORA, Hacia una economía para la vida, p 127. Texto de acordo com a 2ª edição, inédita.

61 HINKELAMMERT e MORA, Hacia una economía para la vida, p. 35.

62 GUSTIN, Miracy. Das necessidades humanas aos direitos: ensaio de sociologia e filosofia do direito.

Belo Horizonte, Del Rey, 1999, p. 23.

63 LUCAS, Javier de e AÑON ROIG, Maria José, Necesidades, razones, derechos, In Doxa, Cuadernos de Filosofía del Derecho. Alicante, 1990, n. 7, p. 61. Em sentido diverso, HELLER, ob. cit., para quem todas as necessidades são conscientes.

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pois minha saúde está abalada”.64 Pode-se desejar ou não algo necessitado e mesmo desejar o oposto do que determina uma necessidade, de modo que no conceito de necessidade não está implícita a desejabilidade do necessitado. O

“necessitar”, no sentido de ter uma necessidade, é algo independente do aspecto voluntário ou intencional,65 e mesmo do desejo,66 ainda que a realização dessa necessidade possa implicar uma atividade intencional, como é o caso do trabalho.

O necessitar do trabalho é involuntário, ainda que o trabalho seja sempre intencional.

O que determina esse caráter objetivo das necessidades é que ele pode ser expressado publicamente em termos de uma razão objetiva que justifica que a satisfação dessa necessidade é uma mediação necessária, em última instância, para a reprodução e desenvolvimento da vida de sujeitos concretos. O desejo de fumar não afasta a necessidade de parar de fumar, pois isto é uma condição para a reprodução da vida desse sujeito. Também é por isso que pode a mãe dizer ao filho “mesmo que você prefira ver TV, você precisa ir à escola”, justificando-o por razões de necessidade, ao passo que tais razões não são comparáveis à reação do filho dizendo “mas eu tenho vontade de ficar vendo TV”

– razões de preferibilidade. Por fim, no que diz respeito aos interesses, embora estes também possam ser publicamente justificados por razões objetivas, somente quando se referem a necessidades é que se vinculam ao critério de reprodução e

64 DOYAL e GOUGH, ob. cit., p. 68.

65 PLANT, Raymond. Needs, rights and welfare. In VVAA, Political Philosophy and Social Welfare, Routledge and Kegan Paul, London, 1980, p. 30.

66 Aqui se abre todo um campo de intersecção entre a teoria das necessidades e a psicanálise, à medida que desejos expressam necessidades da corporalidade. As necessidades pretendem dizer aquilo que o desejar expressa em termos de exigências da corporalidade. Contudo, há uma profunda diferença entre o objeto desejado e o objeto necessitado. Aprofundar este aspecto, porém, extrapolaria as possibilidades deste trabalho.

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desenvolvimento da vida humana e podem ser articulados em termos de razões prioritárias sobre as razões de mera preferência.

A pretensão das teorias de necessidades, portanto, é obter um critério avaliativo que independe das preferências subjetivas, fornecendo razões objetivas para pretensões e propiciando a fundamentação de direitos.67 Nada impede que o conteúdo de interesses, preferências ou desejos específicos eventualmente coincida com o de necessidades, mas são estas que fornecem àqueles as razões objetivas para o seu atendimento.

Neste ponto, situa-se um dos aspectos mais delicados da teoria contemporânea das necessidades. Dada a dificuldade de se definirem positivamente as necessidades, sem recair-se em uma posição fisiologista de necessidades, as principais teorias recentes vêm intentando precisar o caráter normativo das necessidade a partir de um critério negativo: o dano.68 Necessidades se diferenciam de meros interesses, preferências ou desejos quando a sua não realização resulta em um dano sério às potencialidades humanas – à saúde física, no primeiro exemplo acima, do fumo; ao desenvolvimento da capacidade de autonomia, no segundo exemplo, da televisão –, afetando negativamente a participação ativa e crítica na comunidade, prejuízo

67 LUCAS e AÑON ROIG, ob. cit., p. 61.

68 Para uma análise dessas teorias, ver AÑON, ob. cit., 150-193. Não se trata, porém, do critério dúplice de dano, estabelecido por John Stuart Mill, que separa o âmbito do benefício ou dano individual, que seria incognoscível para terceiros e inteiramente relegado à autonomia individual, do âmbito intersubjetivo em que o dano aos demais justificaria a intervenção da sociedade. Nessa versão “o único propósito para o qual o poder possa ser legalmente exercido sobre qualquer membro de uma comunidade civilizada, contra sua vontade, seja evitar dano a outros.” MILL, John Stuart. Ensaio sobre a liberdade. São Paulo, Escala, 2006, p. 27. Tal concepção, que compatibilizou o utilitarismo com o liberalismo, está na base da noção de autonomia de Carlos Santiago NINO, pela qual o jusfilósofo argentino sustenta haver um importante lugar para as necessidades em uma concepção liberal. NINO, C.S. Autonomia y necesidades básicas, ob. cit., p.

21-34. Idem. La constitución de la democracia deliberativa. Barcelona, Gedisa, 1997, p. 75-78.

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este que perdura enquanto tal privação permanecer. É essa negatividade de um dano que se mantém enquanto não forem atendidas, que possibilita um juízo objetivo sobre as necessidades, atribuído-lhes o caráter obrigatório e diferenciando-as de meros interesses, preferências, ou desejos. 69

Nas palavras de Miracy Gustin:

Como dano, privação ou sofrimento grave entende-se tudo aquilo que interfere, de forma direta ou indireta, no plano de vida da pessoa ou do grupo em relação às suas atividades essenciais, inviabilizando-as ou tornando-as insuficientes.70

A compreensão das necessidades a partir de uma conceituação negativa, de prejuízo grave ou dano, tem vantagens evidentes, ao passo que introduz um risco importante.

As vantagens vão no sentido de propiciar maior objetividade ao conceito, possibilitando erigir-se um critério normativo a partir de necessidades. O dano inafastável sem a realização da necessidade é uma medida não variável que se refere, por sua vez a padrões variáveis. O critério de dano se associa ao padrão de vida, que é relativamente oscilante em cada contexto. Relata Adam Smith, vivendo na Europa no século XVIII, que “um trabalhador diarista respeitável

69 Para LUCAS e AÑON ROIG, ob. cit., p. 58: “A través de esa idea se quiere expresar que la carencia de aquello que se necesita repercute directamente en la calidad de vida humana y que tal perjuicio respecto a algún aspecto de la vida, se mantiene a menos que se satisfaga la necesidad en cuestión, no habiendo otro tipo de alternativas, por tanto no es un mero contratiempo pasajero, sino una ‘degeneración’ permanente de la calidad de vida humana que se mantiene en tanto no se obtiene la satisfacción adecuada”. Em Amartya SEN, Desenvolvimento como liberdade, São Paulo, Companhia das Letras, 2000, p. 28-29, 95 e passim, a passagem do “ser” das necessidades para o dever-ser, dá-se pelo conceito negativo de privação de capacidades (capabilities), que gera privação de liberdade, ou seja, o impedimento de potencialidades humanas cuja realização é factível, mas não se dá pela ausência de funcionamentos necessários ao exercício livre dessas potencialidades. Também DOYAL e GOUGH, ob. cit., p. 78-80, sustentam o critério de prejuízo grave: “Estar perjudicado gravemente significa por tanto estar básicamente incapacitado en la búsqueda de la visión propia de lo bueno. Pensada en estos términos, la objetividad del perjuicio queda garantizada por medio de su no reductibilidad a sentimientos subjetivos contingentes como la ansiedad o la tristeza.”

70 GUSTIN, ob. cit., p. 27.

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sentiria vergonha de aparecer em público sem uma camisa de linho”71, o que, hoje, seria inteiramente dispensável. Há sempre uma ampla margem de variabilidade dos bens, ainda que dentro de marcos de invariabilidade: algum tipo de alimento é sempre necessário, assim como algum tipo de trabalho, de educação, de cuidado à saúde, de expressão artística, etc. Mas, independentemente da relatividade dos bens próprios de uma sociedade histórica, a privação de algo relevante para participar dessa específica forma de vida, seja qual for, desde que factível, não é relativa, mas absoluta. Trata-se daquilo que é necessário para a participação ativa e crítica em alguma das várias formas factíveis de vida, seja ela qual for. E isto está sempre vinculado à corporalidade humana, que não é infinitamente elástica. O dano, assim, se torna objetivo, apesar da relatividade do padrão cultural.

Além disso, centrar o foco nas condições sem as quais se prejudica gravemente a reprodução e desenvolvimento da vida em comunidade acentua a vinculação das necessidades à corporalidade humana – no sentido amplo explicitado a seguir. A negação dessas condições pode ser vista, então, como produto dos processos sociais de dominação e discriminação no acesso à produção e distribuição dos bens satisfatores. Se, em vez de falarmos de necessidades, o fazemos apenas de preferências, a negatividade produzida pela dominação e exploração se invisibiliza.72 É a visão do homem como um ser sem necessidades, mas com meros gostos ou preferências subjetivas, que está na

71Apud SEN, ob. cit., p. 94.

72 SÁNCHEZ RUBIO, Filosofía, derecho y liberación en América Latina, p. 190.

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base da teoria econômica neoclássica73 e que segue sobredeterminando o discurso jurídico sobre o trabalho.

“Si al proceso económico se lo ve exclusivamente desde el punto de vista de las preferencias de consumidores en el marco de cálculo de escasez de todos los actores, desaparece el punto de vista de la reproducción del ser humano y de la naturaleza”.74

Este ponto de vista da reprodução – e, com Dussel, desenvolvimento – da vida do ser humano, o que inclui o seu habitat planetario, é que instaura a racionalidade reprodutiva.

Por outro lado, a compreensão das necessidades como privação ou grave prejuízo traz consigo o risco, com o qual se viu o Estado de bem-estar ao absolutizar a racionalidade meio-fim, que é o de deslocar o problema da satisfação das necessidades a um marco de meras prestações de subsistência, “um marco em que a mera reprodução da força de trabalho é a protagonista”.75 Ou seja, substitui-se o caráter fundamental do direito ao trabalho enquanto via essencial de mediação autônoma da satisfação das necessidades, pela instrumentalidade da reprodução da força de trabalho de modo funcional à reprodução do sistema capitalista. Inverte-se, assim, o pólo de referência das necessidades, da corporalidade humana para a reprodução do capital. Expurgar esse risco é o que se pretende na continuidade da investigação.

73 HINKELAMMERT, Critica de la razón utópica, p. 149.

74 HINKELAMMERT e MORA, Cordinación social del trabajo, p. 269.

75 SÁNCHEZ RUBIO, Direitos humanos, ética da vida humana e trabalho vivo, in WOLKMER, ob. cit., p. 171.

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