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Capítulo 2. A RECONSTRUÇÃO DA FUNDAMENTAÇÃO DO DIREITO AO TRABALHO NA TEORIA DAS NECESSIDADES

2.9. Trabalho, necessidades e direito ao trabalho

Já se viu como as necessidades estão em estreita relação com o trabalho. É no processo de divisão social do trabalho que se criam, atualizam e reprimem necessidades, produzem-se ou postergam-se os bens satisfatores e disputa-se o acesso aos mesmos.

Tampouco resta dúvida da afirmação sócio-histórica do trabalho como necessidade, pelo menos desde os princípios da história do capitalismo. Na gênese da luta pelo direito ao trabalho está a dilacerante negatividade produzida

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pela expansão do mecanismo automático do mercado autorregulável do sistema capitalista sobre as instituições que mediam a satisfação de necessidades humanas. Em todos os espaços em que se tratou de instituir um mercado de trabalho, os modos de vida das pessoas constituíam uma força de resistência que obstaculizava a transformação do trabalho em mercadoria. Para que se chegasse a um mercado de trabalho em condições de assegurar a rentabilidade exigida pelo crescente sistema industrial, foi essencial, antes, a produção artificial de um contexto de escassez que compeliu, pela fome ou ameaça da inanição individual, à separação entre trabalho e vida dos sujeitos em comunidade. Nas palavras de Marx,

“[…] esta separación absoluta entre la propiedad y trabajo, entre la capacidad viva del trabajo y las condiciones de su realización, entre el trabajo objetivado y el trabajo vivo, entre el valor y la actividad creadora de valor”.212

As condições de possibilidade da forma social capitalista não foram produto do capitalismo mesmo, mas lhe antecedem. Para tanto, foram necessários pelo menos três fatos históricos: 1) a dissolução das formas de trabalhar e de produzir em que o trabalhador era proprietário dos meios de produção: a terra e os instrumentos de trabalho e, bem assim, aquelas nas quais a pessoa do trabalhador mantinha um vínculo pessoal com o processo de trabalho;

2) a instituição da liberdade jurídica de contratar associada à compulsão econômica para a venda da força de trabalho, por meio da dissolução da relação entre o homem e os meios de consumo para sua subsistência; 3) a acumulação

212Apud DUSSEL, La producción teórica de Marx, p. 226.

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de capital, por meio da usura, tributos, arrendamentos e comércio internacional, nas mãos de homens livres para investi-los na produção.213 Um processo que, certamente, não foi linear, sem resistências e contramovimentos. E a história desses movimentos, marcada por mortes, tragédias, miséria, mas também por reorganização coletiva, construção de autoestima e conquistas históricas, expressou-se constantemente por meio da reivindicação do trabalho como necessidade. Um périplo já tratado em vasta literatura que aqui seria inviável resenhar.

Cabe agora destrinchar as relações entre trabalho e necessidades em categorias mais abstratas e específicas, que informarão os diversos aspectos do direito ao trabalho. Os discípulos de György Lukács, integrantes da chamada Escola de Budapest, deram especial atenção à relação dialética entre trabalho e necessidades, como destaca Herrera Flores, citando Agnes Heller:

el trabajo no aparece solo como actividad, sino, asimismo, como necesidad humana general. “el trabajo pertenece a nuestro ser específico; sin trabajar no podemos en modo alguno desarrollar nuestra personalidad [...] la satisfacción de la necesidad del trabajo es un placer, el placer de hacer algo coronado por el éxito. Y el reconocimiento del éxito y precisamente ese placer se pervierte en las necesidades alienadas del tener y del tener-más-cada-vez.” El trabajo aparece como una necesidad y a la vez está influido por la naturaleza de las necesidades que pretende satisfacer. 214

Neste texto, aparecem diversas relações entre trabalho e necessidades, que poderiam ser classificadas e aclaradas, para os efeitos desta

213 Ibidem, p. 240-246. GRIMALDI, El trabajo, p. 190-191.

214 HERRERA FLORES. Los derechos humanos desde la escuela de Budapest, p. 61-62.

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investigação e com certa liberdade em relação aos autores citados, tomando em conta, ainda, os estudos anteriores, da seguinte forma: a) o trabalho é, ele mesmo uma necessidade: o humano não se realiza sem trabalhar, no sentido de fazer atuar, sempre de modo intersubjetivo, sua atividade humana específica, de transformar o mundo humanizando a natureza e a si mesmo, inclusive aos integrantes de uma comunidade215; o trabalho é parte absolutamente essencial do conteúdo da autonomia; portanto, essa forma de ver o trabalho também significa valorá-lo como uma capacidade humana sem a qual não é possível uma vida digna;216 b) o trabalho, sempre entendido como processo coletivo e inserido na divisão social do trabalho, também produz objetos que satisfazem necessidades dos sujeitos viventes ou servem como instrumentos de trabalho; bens materiais ou imateriais, ou seja, valores de uso217, os quais são hierarquizados entre si em sistemas de valores e ainda podem ser avaliados segundo sua utilidade abstrata e escalas de preferências; as possibilidades desiguais e hierarquizadas de acesso a esses objetos satisfatores e de sua transformação em satisfatores concretos condicionam a perspectiva de implementar algum projeto de vida; cabe, ademais, acrescentar que o trabalho também degrada potencialmente os recursos naturais, afetando negativamente a satisfação de necessidades; c) a inafastável atividade

215 “La historia es el proceso de creación y continuada formación del hombre por su propia actividad, por su propio trabajo, en el sentido de una universalidad y una libertad crecientes, y la característica primordial del hombre es precisamente esa autocreación que forma su propio sujeto.” MARKUS, György. Marxismo y

“antropología”. Barcelona, Grijalbo, 1974, p. 54.

216 “El valor de esa capacidad para la vida digna es lo que convierte en un derecho la posibilidad de ejercerla y en un deber político poner las condiciones para que cualquier ciudadano pueda ejercerla. El lenguaje de los derechos, para tener sentido, exige el de las valoraciones y las capacidades, concretamente la valoración de ciertas capacidades como posibilidad irrenunciable en una sociedad justa” CORTINA, Adela e CONILL, Jesus. Cambio en los valores del trabajo. In Sistema: Revista de Ciências Sociais, n. 168-169 (2002), p. 4.

Veja-se nota supra, sobre a relação entre necessidades e capacidades.

217 É claro que, além de satisfatores, o trabalho também produz bens de capital e bens de luxo e outros que não integram sistemas satisfatores, como armamentos, conforme ressaltam DOYAL e GOUGH, Teoria de las necesidades humanas, p. 288.

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do trabalho no ser social determina o caráter histórico das necessidades:218 mediante o trabalho, no âmbito da divisão social do trabalho, os seres humanos atualizam e criam novas necessidades, que se adicionam ou se chocam com as existentes, exigindo novas valorações, novas relações de preferências dentro de um determinado sistema de necessidades, ou mesmo a alteração global desse sistema de necessidades;219 d) por fim, se trabalhar é uma necessidade (a), ao mesmo tempo o trabalho, ele próprio, é um bem, um valor de uso, como diretamente satisfator de necessidades de desenvolvimento da corporalidade, o que implica em que tenha condições de duração, intensidade, segurança acidentária e sanitária e, especialmente, de conteúdo concreto capaz de favorecer a autonomia do trabalhador, pela possibilidade de participação no controle do conteúdo dos processos de trabalho e de estimular a sua autoestima, pelo reconhecimento do trabalho realizado.220

É claro que estes momentos não são estanques ou se justapõem, mas se interpenetram dialeticamente na dinâmica do ser social. Tal separação analítica, contudo, tem por finalidade evidenciar os diversos momentos do

218 MÁRKUS, ob. cit., p. 16.

219 Nas palabras de Henri Lefebvre: “O trabalho é produtor de objetos e de instrumentos de trabalho. Mas ele também é produtor de novas necessidades; necessidades na produção e necessidades da produção. As necessidades novas em quantidade e em qualidade reagem sobre aqueles que lhes deram origem. Assim, pouco a pouco, a necessidade atinge as formas mais altas e mais profundas, mais sutis e mais perigosas.”

Apud FRAGA, ob. cit., p. 181.

220 “El trabajo no especializado, excesivamente repetitivo y de mecánico automatismo, casi por definición no puede estimular las facultades de la persona trabajadora ni proporcionarle una sensación de autoestima positiva. El amplio resumen efectuado por Warr de los resultados de algunas investigaciones demuestra que las posibilidades de control del trabajo que uno realiza, de utilización en el mismo de las aptitudes propias y de variación de tareas afectan, tanto en conjunto como por separado, al bienestar del trabajador. En particular, la privación de control del contenido del trabajo que se realiza da lugar a depresión, ansiedad y falta de autoestima. Las exigencias del trabajo, cuando son excesivas o, por el contrario, demasiado escasas, pueden también minar el bienestar”. DOYAL e GOUGH, ob. cit., p. 253. Trabalho e reconhecimento estão indissoluvelmente ligados, tanto no plano mais geral da sociedade, quanto no plano localizado da empresa, como se abordará no capítulo seguinte.

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processo e o prejuízo que cada um deles projeta para a participação social ativa e crítica. A redução do trabalho ao aspecto a, apagando os demais aspectos, leva ao elogio idealista ao trabalho. A redução do trabalho ao aspecto b, leva ao produtivismo. A redução ao aspecto c, leva ao relativismo. A redução ao aspecto d, leva a um hedonismo do trabalho desconectado da realidade da divisão social do trabalho como sistema produtivo. Já a negação desse mesmo aspecto d leva às noções do trabalho como pena ou como mero instrumento de subsistência; vê-se o trabalho apenas como uma obrigação da qual tem o trabalhador que vê-se desincumbir e esquece-se que este tem também um direito ao conteúdo do próprio trabalho. A negação do aspecto c, mantidos os demais, leva à desistoricização das necessidades e da corporalidade humana. A negação do aspecto b leva ao esvaziamento do âmbito reprodutivo da vida humana. A negação do aspecto a é a súmula da redução moderna do trabalho e seu desgarramento do âmbito das necessidades.

Essas quatro diferentes relações entre trabalho e necessidades devem comparecer na noção de direito ao trabalho. Nenhuma delas esgota, por si, o âmbito dessa categoria jurídica central. Uma vez que se concebe o direito como mediação para a vida, ou seja, que as instituições somente se justificam enquanto se subordinam aos seres humanos, não os seres humanos às instituições221, um sistema jurídico somente tem sentido enquanto efetivamente realiza esse fim e se contradiz sempre que não o faz. Nos termos da Filosofia da Libertação, trata-se de articular direitos humanos e fundamentais desde um princípio de produção,

221 SÁNCHEZ RUBIO, Filosofia, derecho y liberación en América Latina, p. 201.

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reprodução e desenvolvimento da vida humana, necessário, mas não suficiente.222 Pode-se afirmar que este princípio está implícito em todo ordenamento jurídico e já explícito naqueles em que se consagra a dignidade da pessoa como fundamento e ponto de inflexão do ordenamento jurídico.

Repete-se que os direitos não satisfazem diretamente necessidades, senão secundariamente, mas são mediações necessárias e insuficientes para propiciarem-se bens satisfatores. Reconectar o direito às necessidades qualitativas e funcionalizá-lo à dignidade humana, implica delimitar o marco de variabilidade dos sistemas de valoração que se institucionalizam no sistema jurídico. O direito ao trabalho, a partir dessa concepção, apresenta-se como o direito mais proximamente vinculado à produção, reprodução e desenvolvimento da vida digna dos sujeitos em comunidade, nas diversas formas em que se relaciona com as necessidades. Uma sociedade que não assegura em alto grau hierárquico o direito ao trabalho e não desenvolve instrumentos para sua efetividade é uma sociedade que denega qualquer pretensão de busca de uma vida digna.

Considerando-se o específico sistema jurídico brasileiro, de acordo com a hierarquia que lhe é atribuída pela Constituição, trata-se de dar cobro ao caráter fundamental desse direito, o que implica desenvolver plenamente as suas potencialidades eficaciais, a sua força normativa. Entre outros aspectos – culturais, institucionais, políticos –, impõe-se, além de explorar sua aplicabilidade direta, reconfigurar o sistema conceitual e os comandos da legislação infraconstitucional, assim como os posicionamentos jurisprudenciais e o aparato

222 Idem, ibidem, p. 158.

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do direito do trabalho que não estejam em consonância com essa fundamentalidade unificadora de todo o sistema normativo do trabalho em sua integralidade de sentido.

Contudo, sob o esvaziamento que sofreu na modernidade capitalista – o que foi acentuado em determinadas concepções de bem estar social e levado ao extremo na experiência socialista soviética – o trabalho, a princípio, é visto apenas na forma descrita acima no item “b”, como meio para a produção de objetos satisfatores de necessidades. É o que se pode chamar de reducionismo produtivista. A produção fabril faz com que esse tipo de trabalho se torne cada vez mais desrealizador e a relação entre trabalho e necessidade passa a ser uma relação negativa: se expressa em termos de necessidade de aumento de tempo livre desse trabalho. O trabalho não é mais um satisfator direto de necessidades da corporalidade, não tem mais valor de uso por si. É esse o enfrentamento analisado por Marx no primeiro volume de “O Capital”, na luta pela redução da jornada de trabalho. Certamente quando, ante o trabalho vivo, o trabalho objetivado se comporta como um ente alheio, qualquer pessoa “si el capital quisiera pagarle ‘sin’ hacerla trabajar, aceptaría de buena gana tal negocio”.223

Mas a redução de sentido mais importante – pois o princípio da sociedade capitalista não é o produtivismo e sim a valorização do valor – está em que as necessidades, por sua vez, foram reduzidas a meras utilidades ou preferências, ou seja, sem referência à corporalidade do sujeito e às condições de factibilidade de projetos e formas de vida, deixando assim de servir de fundamento

223 Marx, Grundrisse, apud HELLER, Teoría de las necesidades en Marx, p. 111.

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às relações sociais, um aspecto acentuado sob a hegemonia neoliberal. Assim, tendo sido reduzido a instrumento de produção de bens materiais, o trabalho sofre uma segunda redução, que o desconecta da racionalidade reprodutiva dos sujeitos, invertendo a relação entre dignidade e mediação pelas instituições.

É preciso, pois, resgatar esses dois passos da redução moderna do trabalho. Não basta procurar recuperar apenas uma dimensão da ação desarticulada com a racionalidade reprodutiva, preservando a mais brutal das operações que foi a eliminação da relação do trabalho com os valores de uso e, portanto, com a reprodução e desenvolvimento da vida.224

O que fez a modernidade capitalista, inclusive por meio do desenvolvimento tecnológico, foi, antes de tudo, desativar os dispositivos normativos da racionalidade reprodutiva da vida humana. A humanidade foi, pela primeira vez, colocada diante da decisão de seu próprio destino: há capacidade técnica tanto para sustentar com bens essenciais toda a humanidade e o equilíbrio planetário necessário à vida, quanto para ultimar o processo de destruição de ambos. Trata-se de tomar posição por um ou outro caminho. Mas a maquinaria social que produziu esse desenvolvimento – leia-se: mercado, direito, instituições políticas, sociais, culturais – e à qual cumpriria desativar os efeitos deletérios dessas “leis compulsivas” destrutivas, é uma maquinaria que caminha sem freios para um suicídio cada vez mais eficiente: a progressiva desqualificação ética,

224 Essa é a tendência que se identifica em ARENDT, Hannah. A condição humana, que, embora situe corretamente o “fracasso do homo faber”, como sujeito produtor de valores de uso, vê aí uma deplorável ascensão do labor como atividade reprodutiva da vida. Tal visão decorre da separação um tanto maniqueísta que faz a autora entre vida física, biológica, e vida política e entre ação, trabalho e labor. Onde a modernidade capitalista nos levou não foi a uma absolutização do âmbito de reprodução da vida, mas ao seu total abandono. Uma capacidade de destruir-se, com uma aparente incapacidade para não fazê-lo, que nenhum outro animal jamais desenvolveu.

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cultural e econômica das condições de vida, exclusão (subintegração) de grandes contingentes populacionais e esgotamento dos recursos naturais.

O trabalho, enquanto produtor de riqueza material, deve ser reconectado ao trabalho como produtor do humano e à sustentabilidade da vida em sua amplitude de sentido. Cuida-se de resgatar o trabalho como necessidade de autoprodução, de autorrealização material, afetiva, do humano como sujeito sempre constituído desde as relações comunitárias e sociais. Como tal, é a mediação necessária para os demais direitos fundamentais – como direitos a bens fundamentais – e, ele próprio, um satisfator imediato da necessidade humana de desenvolvimento da corporalidade, que engendrará e atualizará novas necessidades. Neste último sentido, pode-se afirmar que há um valor de uso do trabalho para o sujeito, que situa um direito ao conteúdo do próprio trabalho e que se encontra obscurecido sob a forma do assalariamento. É esse obscurecimento que induz ao reducionismo de ver no valor de troca do salário o único objetivo do trabalhador225, mas não é eliminado como realidade.

A satisfação do direito ao trabalho, assim, apresenta-se como uma

“necessidade radical”, cuja satisfação projeta a transformação integral dos marcos de dominação da sociedade capitalista.226 Limitar-nos, porém, a este ponto de

225 “Os assalariados, como no seu caso o objetivo único do trabalho é o salário, o dinheiro, um quantum determinado do valor de troca no qual se desvaneceu toda e qualquer particularidade do valor de uso, são totalmente indiferentes em relação ao conteúdo do seu trabalho e, portanto, ao tipo particular de sua atividade”. MARX, Capítulo VI inédito de O Capital, p. 103.

226 Essa é a opinião de COMPARATO, A afirmação histórica dos direitos humanos, p. 345-346, que afirma, com razão, que a implementação do direito ao trabalho não depende apenas das políticas públicas mencionadas no art. 6º do PIDESC, mas pressupõe “a instauração de uma nova ordem econômica, em que o trabalho não esteja sujeito à dominação dos proprietários ou capitalistas”. Contudo, entende-se que há aí um entendimento limitado do papel do direito, haja vista que conduz à inércia dos juristas no esforço de concretização do sentido do direito ao trabalho nos termos do sistema jurídico vigente, relegando tudo para o dia em que instaurada a “nova ordem econômica”.

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reconhecer o trabalho como necessidade radical ineliminável pelo capitalismo mas imprescindível para sua existência, acaba fazendo recair em mera legitimação dessa forma social.227 É preciso apontar vias de institucionalização para sua satisfação. Certamente, trata-se de uma pretensão irrealizável de imediato, mas cujo reclamo, nos níveis mais elementares de sua satisfação, pode e deve ser articulada à realidade das relações de trabalho presentes e reconduzida pelo nível institucionalizado do discurso jurídico vigente, deslocando e transformando o sentido atual das categorias do direito do trabalho.228

Neste ponto, um último esclarecimento – last but not least – sobre a criação de necessidades e as possibilidades do direito ao trabalho deve ser feito.

Foi dito acima que o processo de divisão social do trabalho não só cria necessidades e satisfatores, mas também reprime necessidades e posterga a produção de bens que as satisfaçam. Isso pode ser esclarecido utilizando duas categorias que Heller obtém de Jean-Paul Sartre.229 Segundo o filósofo francês, existem necessidades enquanto manque (deficiências) e necessidades enquanto projet (projetos). A primeira se refere à consciência da existência de uma necessidade e a segunda é a consciência das formas de satisfação das necessidades e uma atividade consciente para esse fim. Quando os bens e

227 HERRERA FLORES, Los derechos humanos desde la escuela de Budapest, p. 89.

228 Agnes Heller ressaltava que as necessidades se desenvolvem histórica e culturalmente e não só economicamente, desdobrando-se em novas necessidades. Destaca, aí, as necessidades radicais, como exigências que demandam a construção de uma nova sociedade que “son todos aquellas que nacen en la sociedad capitalista como consecuencia del desarrollo de la sociedad civil, pero que no pueden ser satisfechas dentro de los límites de la misma. Por lo tanto las necesidades radicales son factores de superación de la sociedad capitalista.” Apud DUSSEL, Hacia una economía política crítica, p. 252-253. Assim, nessa sociedade, o direito ao trabalho, em sua integralidade, mais que a luta por “tempo livre”, expressa uma necessidade radical de transformação, como horizonte utópico inspirador e regulativo, ainda que se possa pensar em desenvolvê-lo a partir dos marcos desse mesmo sistema, tal qual ocorreu com a liberdade, que foi uma necessidade radical diante dos socialismos reais.

229 HELLER, Una revisión de la teoría de las necesidades, p. 71-74.

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instituições sociais que podem satisfazer uma necessidade real, enquanto manque, são sistematicamente impedidos ou ideologicamente inviabilizados, inclusive pela afirmação de que são impossíveis230, impede-se que ela passe de

instituições sociais que podem satisfazer uma necessidade real, enquanto manque, são sistematicamente impedidos ou ideologicamente inviabilizados, inclusive pela afirmação de que são impossíveis230, impede-se que ela passe de