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Capítulo 2. A RECONSTRUÇÃO DA FUNDAMENTAÇÃO DO DIREITO AO TRABALHO NA TEORIA DAS NECESSIDADES

2.3. Necessidades humanas e racionalidade reprodutiva

3.3.4. Utilidades e a dupla redução moderna do trabalho

Pretende-se que necessidades, uma vez explicitadas em sua objetividade, propiciem um critério normativo. Ou seja, propiciem boas razões, não só para a existência de direitos fundamentais, em especial o direito do trabalho, mas também para que, ao fazê-lo, contribuam para a explicitação do conteúdo e das condições de implementação dos direitos.76 A argumentação embrenha-se entre duas cercas de espinhos venenosos: de um lado o relativismo, de outro a redução das necessidades à mera subsistência funcional ao sistema. Vimos diferenciando necessidades de valores, estabelecendo um primeiro critério normativo a partir das necessidades enquanto marcos de factibilidade, distinguindo ainda necessidades de preferências, interesses e desejos e situando sua objetividade com o apoio em um critério de dano. Cumprir o intento de atravessar essa trilha perigosa tem como requisito, ainda, diferenciar necessidades da noção de utilidades.

Esse debate é essencial, à medida que uma parte significativa da história recente da teoria das necessidades se deu em torno do utilitarismo77 e de sua apropriação, quer no âmbito de políticas de inspiração neoliberal, quer no âmbito de políticas de bem estar social.78 Considera-se que a redução das necessidades a utilidades implica a desconexão entre bens e valores de uso, assim como entre necessidades e corporalidade humana, resultando na primazia

76 Nesse sentido, LUCAS e AÑON ROIG, ob. cit., p. 75-77.

77 Para um exame crítico das diversas perspectivas utilitaristas e das críticas a estes, ver CARVALHO, Maria Cecília Maringoni. O utilitarismo em foco: um encontro com seus proponentes e críticos. Florianópolis, EdUFSC, 2007.

78 DOYAL e GOUGH, ob. cit., p. 34-35. HINKELAMMERT e MORA, Hacia una economía para la vida, p. 230-231.

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das necessidades do capital sobre as necessidades das pessoas humanas. É esse o prejuízo que se descreve a seguir.

Todas as necessidades, físicas, culturais, espirituais, demandam bens satisfatores, materiais ou imateriais, que são valores de uso, produzidos no processo de divisão social do trabalho, conceitos estes essenciais para a economia clássica. A subordinação das necessidades humanas e da divisão social do trabalho não mais ao sustento humano – o ser humano como fim – mas à valorização do capital – o ser humano como meio para esse fim – “tem sido o traço marcante do sistema do capital desde o seu início”.79

É, porém, com o utilitarismo de Jeremy Bentham, depois incorporado pela economia neoclássica, que a utilidade dos bens satisfatores de necessidades abstrai da incomensurabiidade dos seus valores de uso para, agora, pressupor a intercambialidade entre a utilidade dos bens. Essa manobra é indispensável para a viabilidade da fórmula benthamiana da “maior felicidade para o maior número”, que funda o cálculo utilitarista. Nessa perspectiva, as ações, regras, instituições, devem ser julgadas somente pelas conseqüências que geram em termos de maior utilidade total produzida.80 Se há, na visão utilitarista, um importante alerta para atentar-se às conseqüências concretas na vida das pessoas, a leitura dessas conseqüências em termos de “utilidades” esvazia o mérito do alerta.

79 MÉSZÁROS, István. Para além do capital: rumo a uma teoria da transição. São Paulo, Boitempo/EdUnicamp, 2002, p. 606.

80 SEN, ob. cit., p. 77-78.

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Ora, não faz sentido valorar, segundo um homogêneo grau de satisfação medido por um hipotético “utilitômetro”81, a opção entre ler um Guimarães Rosa e comer os deliciosos pães de queijo da padaria da esquina.

Tanto pães quanto livros podem ser úteis e agradáveis, mas pães não se lêem nem livros se comem. São meios para necessidades não só distintas, mas não intercambiáveis, incomensuráveis entre si. Os bens satisfatores de necessidades são valores de uso singulares e não valores de troca abstratos. A diversidade entre eles é qualitativa e não quantitativa.82 Essa infungibilidade refere-se não só às propriedades dos bens como valores de uso, decorre também do fato de que cada sujeito tem distintas necessidades e distintas capacidades para transformar bens em satisfatores de necessidades, de modo que bens idênticos têm, para cada uma delas, diferentes valores de uso. Desta forma, somente poderosas abstrações são capazes de possibilitar a intercambialidade entre distintos valores de uso e transmutá-los em utilidades homogêneas, para que sejam mensuráveis e calculáveis em termos de um quantum total de utilidade.

O objetivo declarado de tal abstração, em sua concepção mais acabada, aquela levada a efeito pelo utilitarismo, seria a matematização da moral, mediante o cálculo racional da maior utilidade – ou satisfação, prazer, felicidade – possível. Como ressalta Hannah Arendt, para Bentham era necessário converter a utilidade, até então entendida como valor de uso e que, assim, “não é mensurável e, portanto, não ‘nos leva a considerar o número’, sem o qual a ‘formação do critério de certo e errado’ seria impossível”. Assim, a fórmula da “maior felicidade

81 A expressão é usada por SHAPIRO, ob. cit. p. 32.

82 HINKELAMERT e MORA, Hacia uma economía para la vida, p. 32-33.

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para o maior número”, é deduzida da utilidade mediante a separação da utilidade da noção de uso.83

Bentham, no século XVIII, acreditava na possibilidade de um terceiro calcular a utilidade de um bem ou medida, comparando o maior ou menor grau de prazer que propicie a distintos sujeitos. Assim, alguém, de posse do

“utilitômetro”, estaria legitimado a uma intervenção geral na liberdade de ação para maximizar a soma total de utilidades. São conhecidos os problemas dessa visão, sendo os exemplos mais típicos a possibilidade de defesa da eugenia, racismo ou infanticídio.

Já os economistas neoclássicos transferiram a crença nos poderes do “utilitômetro” para o mercado, que cumpriria essa função definidora.

Segundo Vilfredo Pareto, é impossível, além de desnecessário, fazer comparações interpessoais entre o grau de utilidade de uma medida para diferentes sujeitos afetados. Essa doutrina introduziu no utilitarismo a ideia da autonomia individual, em uma versão abstrata de maximização individual de utilidades, pela qual toda pessoa é independente para decidir suas preferências.84 O grande mediador das utilidades abstratas seria, assim, o dinheiro. Embora o dinheiro, como expressão última da quantificação utilitária, possa ser um mediador universal, que permitiria a cada qual transformá-lo em

83 Para a filósofa alemã, esta separação, que constitui um marco na história do utilitarismo, esvaziando radicalmente a ideia de utilidade do mundo das coisas em função de seu uso pelo homem “transformou o utilitarismo num egoísmo verdadeiramente ‘universalizado’ (Halévy).” Essa transformação afetou radicalmente os destinos produção moderna, pois “o produto final do processo de produção já não é um fim verdadeiro e a coisa produzida é avaliada não em relação ao seu uso predeterminado mas em relação à sua capacidade de ‘produzir outra coisa’, então pode-se obviamente objetar ‘que ... seu valor é apenas secundário, e um mundo que não contem valores primários tampouco pode conter valores secundários’ (Lafleur)”.

ARENDT, Hannah. A condição humana. 10ª ed., Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2004, p. 321-322.

84 Cf. SHAPIRO, ob. cit., p. 50-70.

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satisfatores de suas necessidades qualitativas85, propriedade enfaticamente comemorada por Heller, há inúmeras necessidades que não são passíveis dessa conversão, como as necessidades espirituais, assim como, de resto, em maior ou menor medida, todas as demais. Amartya Sen deu contornos definitivos à demonstração dessa limitação, ao evidenciar que a pobreza vai muito além do aspecto da renda. Mas não se trata só de que o dinheiro nem sempre possa mediar a satisfação pessoal de necessidades. O que caracteriza os nossos tempos é que também o dinheiro deixou de estar funcionalizado como um possível mediador das necessidades. Como já demonstrara Polanyi, na primeira metade do século passado86, essa mediação das necessidades da vida pelo dinheiro foi substituída pela sua inteira funcionalização à maximização da rentabilidade.

Diferentemente das necessidades, as utilidades perdem o seu vínculo com a corporalidade humana. Embora, no utilitarismo clássico, o critério de felicidade esteja vinculado à corporalidade pelas noções de prazer e dor, nessa concepção o valor dos bens é determinado apenas por um único critério, pelo desejo, como demanda por prazer.87 Tal posição, desde logo, afronta a

85 É notório o slogan de uma companhia de cartão de crédito que expressa essa utopia.

86 POLANYI, A grande transformação, p. 89-98. Idem. El sustento del hombre, Barcelona, Mondadori, 1994, p. 155-203, onde descreve minudentemente a importância e as funções do dinheiro como mediador na satisfação das necessidades nas várias sociedades. Essa mediação é inteiramente transformada quando, por conseqüência da introdução do sistema fabril numa sociedade mercantil, o trabalho, a natureza e o dinheiro passam a ser tratados como mercadorias fictícias e reguladas pelo sistema de preços no mercado, de modo que

“quaisquer medidas ou políticas que possam inibir a formação de tais mercados poriam em perigo, ipso facto, a auto-regulação do sistema. [...] Seguindo-se esse raciocínio, a sociedade humana tornara-se um acessório do sistema econômico.” A sociedade humana só não foi aniquilada em função das iniciativas institucionais de controle desse mecanismo destrutivo, para regular esses três mercados essenciais. A grande transformação, p. 94-97. O que se assistiu nas últimas décadas foi o progressivo desmantelamento dessas mesmas instituições, sob a mesma e renovada crença na autonomia autorreguladora dos mercados. O ano de 2008 marca uma nova derrocada dessa utopia, que deixa rastros não intencionais de desequilíbrios econômicos, experimentados sempre como acentuação da miséria dos mais vulneráveis.

87 Ressalva-se, neste aspecto, a posição de G. E. Moore, que negava essa prioridade do prazer, acrescentando que algo não é bom por ser desejado mas é desejado por ser bom, o que, inclusive o excluiria de ser

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experiência, pois há muitas coisas desejáveis pelas pessoas, além do prazer.

Muitas vezes, aquilo que mais desejamos só se obtém com sacrifício e dor e o esforço é, por si, uma parte relevante do desenvolvimento da corporalidade.

Ademais, uma corporalidade vista assim não tem necessidades que não sejam redutíveis à mera utilidade do consumo de bens no mercado.88 A compulsão para o consumo, que nossa sociedade produz, é alheia e mesmo avessa à efetiva satisfação de necessidades que tal consumo produza. Mais intensa será a procura de bens, quanto maior for a insatisfação das necessidades.89 Tal desgarramento da corporalidade acarreta a degradação dos valores, pela perda do seu referencial concreto. Sua exacerbação levaria à conclusão moral absurda, já identificada por Nozick, de que o melhor dos mundos seria aquele em que os corpos dos indivíduos estariam ligados a máquinas sensoriais de prazer e eliminação da dor, enquanto bóiam, sem saber, em tanques insosos.90

Mas o problema central está em que, na versão dos economistas neoclássicos, o utilitarismo acaba por perder definitivamente até mesmo esse remoto contato com as necessidades da corporalidade, substituindo a medida de máximo prazer para o maior número de pessoas por um equilíbrio nas trocas cujo

considerado propriamente um utilitarista, como sustenta Darlei DALL’ANGNOL. Valor Intrínseco:

Metaética, ética normativa e ética prática em G. E. Moore. Florianópolis, Editora da UFSC, 2005, p.266-283. Outras versões do utilitarismo vão afastar-se do rigor hedonista de Bentham, substituindo o prazer, como medida da felicidade, por meras preferências, interesses ou bem-estar, mas com isso degradam ainda mais o seu fundamento normativo. É o caso de John C. Harsanyi. Cf. VITA, Álvaro. O que há de errado com o utilitarismo de preferências? In CARVALHO, ob. cit., p. 201-231.

88 DUSSEL, Ética da libertação, p. 108-115, onde o autor destaca, ainda, que a ética utilitarista desconsidera que a produção dos produtos que fazem a felicidade dos consumidores é a causa da infelicidade da maioria dos produtores (trabalhadores). Essa contradição só pode ser (falsamente) resolvida pela mística da mão invisível, introduzida por Adam Smith, que assegura que a busca do autointeresse levará à maior utilidade possível para todos.

89 AÑÓN, ob. cit., p. 56.

90 Cf. SHAPIRO, ob. cit., p. 35.

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ponto ótimo pode significar a morte por inanição de parcela da população. A utilidade ótima não leva em consideração a dignidade de todos e de cada um.

Deste modo, se o gozo máximo de alguns, com a aniquilação dos restantes, resulta em resultado matemático maior que o gozo mediano de todos, é a primeira situação aquela que deve ser alcançada. Diante dessa “utilidade ótima” não haveria qualquer base que legitime a intervenção da sociedade. O utilitarismo de Pareto vê como positivas ou indiferentes, do ponto de vista da maior utilidade subjetiva, situações inaceitáveis do ponto de vista da realização das necessidades pessoais. Com razão, neste ponto, Shapiro, ao dizer que a optimalidade de Pareto somente é atraente para os já se encontram favorecidos pelo estado atual de coisas:

As pessoas que possuem uma grande quantidade daquilo que outras necessitam podem induzi-las a concordar “voluntariamente” em se tornar prostitutas, em trabalhar por salários de fome, em vender a si próprias como servos sem registro, ou mesmo, em alguns casos, como escravos.91

A posição utilitarista – na versão do utilitarismo de preferências individuais – é flagrantemente inconsistente, à medida que a realidade dura de negação de satisfação das necessidades é determinante para a readequação e

“rebaixamento” dos desejos, afetando, à partida, o próprio desejar de quem não percebe determinados bens como algo factível em sua vida e, portanto, sequer se lhe apresenta a perspectiva de preferir ou menos ainda de ter um direito a tal bem.

O suprimento ou não de determinadas necessidades básicas pode afetar

91 SHAPIRO, ob. cit., p. 70. Note-se que, como o próprio autor sugere, p. 2, seu texto é utilizado, aqui, como fonte de explicitação do pensamento utilitarista, sem analisar-se a tese do próprio Shapiro quanto à legitimidade política. Os comentários sobre sua avaliação do marxismo não caberiam aqui.

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intensamente a “preferibilidade” das pessoas em relação a um sem número de situações relacionadas ao trabalho, a exemplo da opção entre trabalhar e ir à escola de uma criança cujos pais não tenham condições de sustento. Assim, não há como propiciar-se qualquer critério moral, político ou jurídico decorrente da concepção de utilidade, seja em termos de comparação interpessoal, seja em termos de preferibilidade pessoal.92

Cabe, agora, concluir o enlace entre a abstração das utilidades e o trabalho na sociedade contemporânea.

A supremacia do valor de troca, desgarrado dos valores de uso, foi essencial à implantação do princípio capitalista da produção como instrumento de valorização do capital.93 Se algo é útil, para o consumidor, pela medida de prazer que lhe pode proporcionar ou por qualquer outra medida de felicidade, ao inverter-se o ponto de vista para aquele do sistema de produção, é útil aquilo que faz aumentar a produtividade. No dizer de Arendt, o princípio da utilidade, sob o moderno utilitarismo, “[...] deve referir-se basicamente não a objetos de uso, e não ao uso, mas ao processo de produção. Agora, tudo o que ajuda a estimular a produtividade e alivia a dor e o esforço torna-se útil.”94

A concepção de trabalho, aí, se submete à noção tecnológica de rendimento, advinda da física. Se o trabalho é mero esforço necessário para a obtenção de um resultado na produção, o que se impõe é a obtenção de um produto máximo com um trabalho mínimo.95

92 DOYAL E GOUGH, ob. cit., p. 50-51. VITA, ob. cit., p. 213-215. SEN, ob. cit., p. 81-82 e 87-88.

93 MÉSZÁROS, Para além do capital, p. 606.

94 ARENDT, A condição humana, p. 322.

95 VATIN, ob. cit., p. 17.

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Aparentemente, haveria aí uma exacerbação do produtivismo, como acredita Arendt. Neste aspecto, o utilitarismo representaria uma justificação moral da dinâmica capitalista sob o argumento da liberdade de escolha. Sem embargo, como demonstrou Marx – e é Agnes Heller quem o salienta, em sua primeira versão da teoria das necessidades – o produtivismo dos economistas clássicos não evidencia a essência do mecanismo capitalista, melhor traduzido pelo apenas aparente “produtivismo” utilitarista, pois “quién regula el mecanismo del capitalismo no es el principio ‘producción por la producción’, sino el principio

‘producción para la valorización’.”96 Essa inversão – que nada mais é que a inversão da dignidade humana pela dignidade do capital – é explicitada nas palavras de Marx:

(...) a antiga visão na qual o ser humano aparece como a finalidade da produção, (...) parece muito grandiosa quando comparada ao mundo moderno, no qual a produção aparece como o objetivo da humanidade e a riqueza como o objetivo da produção.97

Isso não significa que o trabalho, enquanto atividade de transformação do real, intercâmbio orgânico com a natureza, pela qual o homem, produzindo valores de uso, também constrói a si mesmo como indivíduo e a totalidade social, tenha desaparecido. O modo de produção capitalista sempre convive, hegemonicamente, com outros modos de produção, inclusive deles se aproveitando. Sem o trabalho concretamente realizado na produção de mercadorias que também são valores de uso, não existe produção de valor –

96 HELLER, Teoría de las necessidades en Marx, p. 98.

97 Marx, Grundrisse, apud MÉSZÁROS, Para além do capital, p. 606.

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trabalho abstrato, na linguagem marxiana98. Embora o capital somente possa valorizar-se, incorporando mais-valia, mediante processos de trabalho, o sentido da produção não é obter bens satisfatores de necessidades, mas o processo de autovalorização do capital por meio da apropriação do trabalho vivo, sendo meramente acidental a produção de valores de uso.99 Por conseguinte, o que a utilidade valoriza é a eliminação máxima possível do trabalho humano e a sua máxima produtividade.

Mas a produtividade não tem por fim último a produção de bens satisfatores de necessidades. Uma vez que desconectado dos valores de uso e, em suma, do sustento humano como seu fim último, o princípio do capital não se destina à ampliação da base material para a satisfação de necessidades. Em vez disso, a produtividade está funcionalizada à valorização do valor, como um fim em si mesmo. Segundo Mészáros,

(...) já que o sistema produtivo estabelecido, sob a regência do capital, não pode reproduzir a si próprio, a menos que possa fazê-lo em uma escala sempre crescente, a produção deve não apenas ser considerada a finalidade da humanidade, mas – enquanto um modo de produção ao qual não pode haver alternativa – deve ser tomada como premissa que a finalidade da produção é a multiplicação sem fim da riqueza.100

98 Sérgio Lessa explicita a distinção entre as categorias trabalho e trabalho abstrato: “O trabalho abstrato é a relação social na qual é produzida valia. Nesse sentido, todas as atividades humanas produtoras de mais-valia são trabalho no sentido de trabalho abstrato. O trabalho enquanto categoria fundante é o complexo que cumpre a função social de realizar o intercâmbio orgânico do homem com a natureza, é o conjunto de relações sociais encarregado da reprodução da base material da sociedade.” LESSA Sérgio. Mundo dos homens:

trabalho e ser social. São Paulo, Boitempo, 2002, p. 30. Num mesmo ato empírico de “trabalho” pode-se ter apenas uma das duas categorias ou as duas.

99 MARX, Capítulo VI inédito de O Capital, p. 73 e ss.

100 MÉSZÁROS, Para além do capital, p. 612.

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O resultado societal dessa dinâmica está diante dos nossos olhos:

no momento em que o capitalismo se encontra no auge do seu poder produtivo e se obtém a maior capacidade técnica de produtividade de alimentos, além de outros bens essenciais, que a humanidade já teve, é quando atingimos a marca histórica máxima de 1.000.000.000 (um bilhão) de famintos no mundo. “Alguém pode pensar numa maior acusação para um sistema de produção econômica e reprodução social pretensamente insuperável do que essa (...) ?”101

Trata-se, pois, de uma dupla redução do sentido do trabalho, na modernidade. Reduzido inicialmente de dimensão essencial de atividade intencional de desenvolvimento das potencialidades humanas no intercâmbio orgânico com a natureza a um mero instrumento da produção (meio para um fim), ao final o trabalho, sob o paradigma do trabalho abstrato, esvazia-se inteiramente como mediação para a subjetividade e satisfação de suas necessidades, convertendo-se, aí, em exclusiva mediação para o capital. A redução produtivista do trabalho decai, no segundo momento em apenas um meio para a valorização do capital. O trabalho se reduz a produtor de valor – trabalho abstrato, uma condição material para o aumento da riqueza abstrata – autorrealização ampliada do capital –, por meio da apropriação do trabalho vivo no processo de produção de objetos desejáveis para o consumo, funcionalizando-se a produção humana à valorização contínua do capital e desqualificando-se o trabalho como produtor de valores de uso voltados à concretude necessitada do sujeito vivente.

Repisa-se, porém, aqui, nossa tese inicial: essa é a descrição do trabalho sob o capital. Este, como totalidade, nunca elimina inteiramente

101 Idem, A crise estrutural do capital, p. 21.

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dimensões de exterioridade com que coabita, embora quase todo o trabalho na atualidade se submete à forma de trabalho abstrato.

Portanto – e aqui ao revés do que afirma Arendt – a superlativização da utilidade no capitalismo não leva a modernidade à absolutização do âmbito da reprodução da vida pela hegemonia do labor (que, no caso de Arendt, significa a atividade correspondente ao processo de satisfação das necessidades da vida, entendida pela autora como mera vida física, biológica, do indivíduo ou da espécie102). Se, como diz Marx, só no capitalismo se trabalha

Portanto – e aqui ao revés do que afirma Arendt – a superlativização da utilidade no capitalismo não leva a modernidade à absolutização do âmbito da reprodução da vida pela hegemonia do labor (que, no caso de Arendt, significa a atividade correspondente ao processo de satisfação das necessidades da vida, entendida pela autora como mera vida física, biológica, do indivíduo ou da espécie102). Se, como diz Marx, só no capitalismo se trabalha