2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA DA ADC
2.1 Os postulados teóricos da ADC
2.1.9 Nono postulado
Finalizando, propomos um último postulado: o discurso é heterogêneo e essa heterogeneidade se diferencia em mostrada e constitutiva, e tem reflexos na noção de autoria para a ADC.
A repetição de argumentos e a impossibilidade de cada um de nós ser “dono” de nosso próprio dizer, já que tudo o que dizemos é pertinente a uma estrutura enunciativa, também designada discurso, e algo que a Teoria da Informação designa por redundância. Segundo Pignatari (2002) toda informação nova gera uma instabilidade no sistema, o que é expressado pela terminologia entropia negativa, que está ligada à idéia de surpresa, inovação e originalidade. Por isso, nenhuma mensagem pode conter elementos exclusivamente novos, visto ser essencial que ela seja, em alguma medida, redundante para que possa fazer sentido. Em virtude disso, exemplifica o autor, batemos na porta duas vezes já que, se o fizéssemos apenas uma, poderia haver confusão entre os ruídos do entorno e a nossa vontade de entrar.
A intertextualidade serve, na teoria do discurso, ao mesmo propósito. Se ouço alguém dizer, por exemplo, “O PT é corrupto”, logo se instala, quer se concorde ou não com a assertiva, uma rede de “já-ditos” que se acoplam a ela. Logo lembramos das notícias veiculadas pela mídia em geral, revelando as relações do partido com “caixa 2”, corrupção dos seus dirigentes, carros recebidos de presente, dinheiro transitando em peças íntimas, e tudo o mais que se pode reunir sob tal formação. Assim, o que é dito sempre é dito de uma
determinada posição na estrutura enunciativa, o que faz com que este dito articule todo novo enunciado a uma rede de redundâncias.
Como sustenta Maingueneau (1997, 2005), a teoria do discurso impõe que ele seja visto como uma coleção de fragmentos cujo fechamento é sempre provisório por se constituir em terreno movediço. Assim, a partir da noção de discurso e de formação discursiva, retirados de Foucault, ele propõe que esses se conjugam em relações de afinidade e exclusão em relação a outros, formando assim espaços discursivos, no interior do qual estariam pelo menos duas formações discursivas conflitantes. Abarcando os espaços discursivos estariam os campos discursivos e nesses, o universo discursivo, consistente na reunião de todos os discursos possíveis (o que poder-se-ia comparar com a noção de episteme foucaultiana). Veja- se uma esquematização desta teoria na figura abaixo:
Figura 2 – Elaborado pelo autor a partir da leitura de Maingueneau (1997).
O próprio autor se defende antecipadamente dizendo que os recortes entre discurso/formação discursiva/espaço discursivo/campo discursivo/universo discursivo não são nítidos, o que torna a precisão de tal demarcação bastante difícil. Ainda assim o esquema tem a virtude de demonstrar, figurativamente, essa característica que reputamos constitutiva do discurso que é a sua heterogeneidade, pela sua fragmentação e tessitura aberta.
Por essa perspectiva, poder-se- ia dizer que a intertextualidade nos permite considerar os textos já existentes como parte de múltiplos códigos que tornam possíveis diversos efeitos de significação, atitude que permite compreender a linguagem como fruto de um processo, um trabalho que toma corpo integrado à perspectiva da produção social geral.
Tendo isso em vista podemos dizer que o discurso implica numa estratégia de compreensão que não estanque na descrição, como diz Orlandi (2006), o que impõe ao
Discurso Formação Discursiva Espaço Discursivo Campo Discursivo UNIVERSO DISCURSIVO
estudioso a construção de um dispositivo de análise que, dentre outras finalidades, encontra na tríade discurso- intertextualidade- ideologia a possibilidade de destacar as regras constituintes e a rede de contatos e repulsas discursivas entre o corpus estudado e os que com ele dividem as regiões fronteiriças tentando, através deste gesto de cotejamento, indicar sínteses constitutivas de cada um deles, assim como as suas peculiaridades. A esse conjunto, Pêcheux (1990) deu o nome de memória discursiva, que distribui o discurso em um eixo vertical, e que é da esfera do pré-construído, e outro horizontal, da linearidade, o que aproveita o esquema estruturalista de Saussure e a diferença entre paradigma e sintagma para aplicá- la à teoria do discurso.
Authier-Revuz (2004) desenvolve a teoria da heterogeneidade discursiva, segmentando-o em heterogeneidade constitutiva (inerente ao discurso, ainda que essas marcas não sejam explicitadas no texto, e que tem a ver com o dialogismo) e heterogeneidade mostrada, termo cunhado pela mesma autora – também abraçado por Maingueneau (1997) – que se revela de distintas maneiras como no discurso relatado (indireto e direto), glosas ou metadiscurso (melhor dizendo...; na verdade...), pressuposição pragmática, uso de aspas para marcar distanciamento (não existe uma “verdade” transcendente...), paráfrase (ou seja...; dito de outra forma...), discurso indireto livre e ironia, entre outros.
Uma das conclusões mais evidentes que se pode traçar do fenômeno intertextual implica na mitigação do conceito de autoria, em detrimento do que Foucault (2004, 2006) chama de função do autor já que nenhum enunciador é dono, propriamente dizendo, de suas próprias palavras, já que
O discurso, assim concebido, não é a manifestação, majestosamente desenvolvida, de um sujeito que pensa, que conhece, e que o diz: é, ao contrário, um conjunto em que podem ser determinadas a dispersão do sujeito e sua descontinuidade em relação a si mesmo. (FOUCAULT, 2005, p. 61)
A diferença entre autor e sujeito consiste em que o primeiro é um termo criado pela tradição literária para constituir a instânc ia legitimatória da interpretação das obras, como o repositório de sua intenção ou sentido último. O sujeito, a função autor de Foucault, ou a forma-sujeito de Pêcheux (1990), ao contrário, nos dizem que o ato enunciativo nunca é livre posto que o sujeito só pode falar o que é permitido do lugar onde está situado. Não tem cabimento interpretar- lhe as palavras como sendo a busca pelo sentido daquilo que “ele quis dizer” já que a significação do dito está muito mais vinculada às condições de produção discursivas do que à uma intencionalidade transcendente que o texto serve para aglutinar. O sujeito nasce a partir do ato de interpelação ideológica que, por sua vez, lhe dá a impressão de
que é a origem de seus sentidos quando, na verdade, apenas os está rearticulando dentro de uma dada formação discursiva por meio dos equívocos e paráfrases, entre outros mecanismos intertextuais abordados acima.21
Segundo Foucault (2006, p. 32), toda a sua obra consiste no exame de um material que não recebe o status de obra ou que não tem um autor, já que foi ele colhido em arquivos históricos sem que as pessoas que os elaborar tivessem alcançado notoriedade, pois para ele o importante não está em sondar o conteúdo do que está ali escrito mas “[...] encontrar as regras pelas quais eles tinham formado um certo número de conceitos ou de teorias que se podem encontrar nas suas obras” regras essas que expressam a dimensão discursiva em que estes textos se inscrevem.
A autoria e a obra, portanto, são termos postos em cheque, que não valem por si mas tendo em vista o propósito que se alcança através destes instrumentos operatórios, que consistem, basicamente, em três: a) assegurar “uma função classificativa; [...] reagrupar um certo número de textos, delimitá- los, selecioná- los, opô- los a outros textos” (FOUCAULT, 2006, p. 44-45); b) fornecer um argumento de autoridade ou um estatuto de fiabilidade à informação que se diz extrair da escrita de certo autor; c) estabelecer a autoria como resultado de uma operação complexa que a identifica com um poder criador, um projeto, ou a fonte ou a originalidade do texto. O autor, assim, tem o seu estatuto questionado criticamente, verificando-se que não consiste num elemento de ontologia autônoma, mas um conceito operatório de uma certa teoria literária burguesa que estabelece níveis hierárquicos de elaboração e valorização de determinados textos (canônicos) em relação a outros, considerados de consumo imediato.
Barthes (1988) é outro crítico do autor. Analisando o discurso literário – cujas conclusões poderiam ser ampliadas para qualquer tipo de discurso – expõe que o escrever implica num fenômeno dual: a) a criação da obra e b) a morte de seu produtor, na medida em que a escrita não é um ato original, puro, mas um ato na cadeia enunciativa, que permite retomar os ditos anteriores e permitir que ele se suceda através do produto escrito. Assim sendo, a ficção da autoria não passa de uma prática moderna, oriunda desde a criação da tipografia. Antes, as narrativas primitivas eram disseminadas oralmente, em sua maioria, sem que se pudesse destacar “o” autor como uma fonte original de sentido.
21 Orlandi (1993, 2006) também diferencia os conceitos de sujeito e autor. O autor seria uma espécie qualificada de sujeito, marcada por um maior apagamento e institucionalização do que enuncia posto deste produto se exige coerência, respeito aos padrões, obediência à gramática normativa, originalidade, relevância da obra, unidade, etc.
Uma vez afastado o Autor, a pretensão de ‘decifrar’ um texto se torna totalmente inútil. Dar ao texto um Autor é impor-lhe um travão, é provê-lo de um significado último, é fechar a escritura. [...] Na escritura múltipla, com efeito, tudo está para ser deslindado, mas nada para ser decifrado; a estrutura pode ser seguida, ‘desfiada’ (como se diz de uma malha de meia que escapa) em todas as suas retomadas e em todos os seus estágios, mas não há fundo; a escritura propõe sentido sem parar, mas é para evaporá-lo: ela procede a uma isenção sistemática do sentido. (BARTHES, op. cit., p. 69 – grifos do original)
Barthes nos possibilita substituir a autoria pela escritura, ou seja, a noção de essência que é vinculada à idéia do “autor” pela dispersão fragmentária, pela permissão de trabalhar o texto de maneiras diferentes que a escritura admite, assim como as virtudes da polifonia e da polissemia desde que social e historicamente justificadas. Este último reparo, que não se encontra propriamente na obra de Barthes é importante que seja aqui levantado. Apesar de que a morte do autor nos permite a liberdade da interpretação e significação, não podemos crer que esta liberdade se estabelece fora de qualquer limite coerente com as balizas espácio-temporais levantadas pelo intérprete. Assim sendo, como dizia Freud, às vezes uma gravata é só uma gravata e não uma representação fálica. Nem sempre os sentidos estão nos pregando peças.
Em suma, a heterogeneidade constitutiva e mostrada e a morte do autor implicam dizer que os textos significam apenas dentro de diferentes formações discursivas que podem encontrar sentidos conflitantes ou solidários entre si. Para além destas formações, no ent anto, todo texto implica num discurso e pode ser dissecado em níveis nem mais nem menos profundos, mas que atendem ao dispositivo analítico de quem se dispõe a estudá- los.
Observadas esses postulados a respeito da ADC, é chegada a hora de abordar o material que compõe o corpus de nossa análise.