2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA DA ADC
2.1 Os postulados teóricos da ADC
2.1.8 Oitavo postulado
O oitavo postulado teórico postula que entre texto e discurso existe uma relação de contigüidade, porém não de identidade.
É importante que fique claro que no atual trabalho não usamos os termos texto e discurso como sinônimo, diferenciação esta por demais recente.
A semiótica de Greimas & Courtès (1993, p. 102) não distingue propositadamente os dois termos: “[...] O discurso é o objeto do saber visado pela lingüística discursiva. Nesse sentido é sinônimo de texto.” (grifo nosso)18. Isto se dá visto que tal análise é voltada para a construção, a partir de mecanismos de significação gerais, de esquemas gerais de significação, que se fecham no texto, o que leva a Indursky (2006, p. 66) a apontar que “[...] a semiótica francesa, em sua formulação básica, fica circunscrita, em sua atuação, pelos contornos internos do texto, do qual examina o plano do conteúdo, visando a apreender como um texto faz para produzir sentido.”
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Previamente aos estudos críticos do discurso, como vimos, o texto era tido como vinculado à escrita e esta igualada ao discurso. Ricoeur (apud CHARAUDEAU & MAINGENEAU, 2004), por exemplo, o tinha como “todo discurso fixado pela escritura” (p. 466) o que o identificava com o documento e com o discurso, que eram termos intercambiáveis. Isso decorre da forte influência da análise lingüística dos anos 70, quando a noção de texto começou a se desenvolver, tentando estabelecer os elementos que pudessem conferir-lhe autonomia e, portanto, constituí- lo num novo objeto de estudo. Koch (2007, p. 7) esclarece que:
A partir da descrição de fenômenos lingüísticos inexplicáveis pelas gramáticas de frase – já que um texto não é simplesmente uma seqüência de frases isoladas, mas uma unidade lingüística com propriedades estruturais específicas -, tais gramáticas têm por objetivo apresentar os princípios de constituição do texto em dada língua.
A obra de Halliday & Hasan (1976) acerca da coesão e coerência foi um dos marcos deste início de trabalho teórico, seguindo-se a ele, com não menor importância, o trabalho de Beaugrande e Dressler (1981), entre muitos outros.19 Certo é que esses estudos vêm o texto como um objeto fechado em si mesmo, cuja abertura para o mundo se dá exclusivamente pela dêixis e pela referenciabilidade. Não existe discussão acerca do papel cultural ou social do texto, como também é o caso de Van Dijk (1993) que, antes de se voltar para a ADC, trabalhava influenciado pela perspectiva gerativista, com o estudo das macroestruturas textuais.
Com a evolução dos estudos sobre o discurso, entretanto, esse último termo passou a ter uma significação específica. Para a ADC o texto implica um ou mais discurso(s) que o(s) produz(em), e dentro de cujo(s) parâmetro(s) estrutural(is) ele(s) deve(m) ser aferido(s). Com base na linha francesa, podemos dizer que a relação entre discurso e texto é aquela vista nas equações abaixo formuladas por Adam (2004, p. 39):
Discurso = Texto + Condições de Produção Texto = Discurso – Condições de Produção
Apesar de um pouco simplista em demasia, ela nos parece destacar o ponto que queremos frisar: a análise da gramática textual leva em consideração o texto em si mesmo, isolando-o de suas condições de produção, e empobrecendo-o cognitiva e pragmaticamente. Apenas o discurso, enquanto saber complexo (MORIN, 2000) que agrega à teoria do texto o
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Uma análise pormenorizada das origens dos estudos da lingüística textual podem ser encontrados no capítulo 1 da obra de Adam (2004), não sendo o objetivo deste trabalho desenvolver em maior minúcia estas idéias.
contexto, aqui entendido de maneira global, a ele aliando uma discussão acerca das marcas do poder e ideologia de onde derivam as opções paradigmáticas de sua formação, é que se pode desenvolver uma percepção verdadeiramente crítica do mesmo.
Reproduzimos aqui o seguinte esquema que nos parece bastante elucidativo a este respeito:
Análise do Discurso
Operações de Segmentação Períodos e/ou Proposições seqüências Enunciados Operações de Ligação LINGUÍSTICA TEXTUAL TEXTO Gênero Inter- discurso Língua Forma- Interação ções Sócio- discursivasFigura 1 – A relação entre Análise do Discurso, texto e Lingüística Textual (reproduzido de ADAM, 2004).
Como podemos ver do esquema, o texto é uma das pedras fundamentais da Análise de Discurso, mas com ele não se identifica. Como salienta Kress (1997, p. 55), o texto é “[...] meio, local e registro de interacções sociais, contestações e resoluções (mais ou menos temporárias), e o efeito destas na linguagem.” Ele não pode ser isolado do resto já que, para a teoria do discurso, ele faz parte de um processo peculiar de enunciação através de sua atribuição a uma ou mais formações discursivas. Ao analista cabe reconstituir esta cadeia de significação, esclarecendo como os sentidos são produzidos e consumidos, assim como de que forma eles se entrelaçam com os demais gêneros do discurso e com os outros textos.
[a] concepção interacional (dialógica) da língua, na qual os sujeitos são vistos como atores/construtores sociais, o texto passa a ser considerado o próprio lugar da interação e os interlocutores, como sujeitos ativos que – dialogicamente – nele se constroem e são construídos. Desta forma há lugar, no texto, para toda uma gama de implícitos, dos mais variados tipos, somente detectáveis quando se tem, como pano de fundo, o contexto sóciocognitivo dos participantes da interação.
Adotando-se esta última concepção – de língua, de sujeito e de texto – a compreensão deixa de ser entendida como simples ‘captação’ de uma representação mental ou como a decodificação de mensagem resultante de uma codificação de um emissor. Ela é, isto sim, uma atividade interativa altamente complexa de produção de sentidos, que se realiza, evidentemente, com base nos elementos lingüísticos presentes na superfície textual e na sua forma de organização, mas que requer a mobilização de um vasto conjunto de saberes (enciclopédia) e sua reconstrução no interior do evento comunicativo. (KOCH, 2005, p. 17 – grifos do original)
O texto, isolado, nada significa. Para que ele possa ser visto como significante, há de ser encarado como unidade semiótica, dentro de uma certa cultura. Como diz Petöfi (1990) a textualidade não é uma propriedade inerente aos objetos verbais. Ela só pode ser caracterizada como tal se essas marcas sonoras estiverem conectadas a uma intenção do emissor em uma dada situação comunicativa. Esta análise, no entanto, leva em consideração somente a produção oral. Consideramos ser possível reescrever esta afirmação, de maneira mais global, dizendo que um texto é uma propriedade inerente às marcas visuais, escritas, orais ou mesmo auditivas, que fazem sentido apenas quando vislumbradas como parte integrante de um sistema semiótico cultural, que deve ser analisado conjuntamente com o contexto e os repositórios cognitivos dos usuários desse sistema, que expressa o que chamamos de discurso.
Destarte, o texto significa o início de um percurso. O texto não é a ponta do iceberg e nem é tarefa do analista ir “ao fundo” dele para encontrar os sentidos soterrados do texto: o seu objetivo é desmistificar essa busca pelo sentido como idêntica a de um tesouro, explicitando que não existe “o” sentido enquanto unidade perene mas sempre “uns” sentidos que são reflexo das condições de produção e interpretação do texto, do gênero discursivo ao qual ele pertence, etc.20 Como diz Orlandi (2001, p. 22), “na realidade, não há um sentido (conteúdo), só há funcionamento da linguagem”. É exatamente a análise de como o texto “funciona” como repositório aglutinador de um valor cultural comunicativo para uma determinada sociedade, entre ausências e presenças dialógicas que ele evoca, deslizamentos de sentido e paráfrases, que ele tem a sua importância para a AD.
O texto, portanto, é uma unidade empírica, material, com começo e fim, a quem pode ser atribuído um autor imediato que o trabalha de modo a dotar- lhe de coesão e coerência, com certa finalidade comunicativa. Se a semântica exprime um potencial abstrato de significação, então o texto é a atualização deste potencial, um processo de escolhas alinhado com os objetivos do seu produtor, levando em conta o contexto da enunciação e o gênero do discurso. Ele traz em si implícita uma interpretação do mundo e um interlocutor ideal. O sentido nasce da interação entre, pelo menos, a historicidade inscrita no enunciado, a formação institucional de onde ele emerge (discurso burocrático, cotidiano, escolar, etc.) e o
20 Maingueneau (2005) concorda que o discurso não está na profundeza do texto: “um discurso não tem nenhuma ‘profundeza’, que sua especificidade não se localiza em alguma ‘base’ que seria seu fundamento, mas que se desdobra sobre todas as suas dimensões.” (p. 19)
mecanismo simbólico e imaginário que posiciona os sujeitos como sujeitos simbólicos, em determinados lugares de fala e interpelação (ORLANDI, 2001).
A relação entre texto e discurso não é estática, pois ela sempre é constituída pelo analista na medida em que o discurso não é uma unidade já pronta, mas fruto de um trabalho de elaboração. Além do mais, há de ser destacado que nem todo texto é afetado por uma única discursividade. Elas formam “teias” que o englobam, provocando tensões entre elas cuja explicitação é relevante para a análise da significação. Assim sendo, não existe “a” Análise de Discurso mas análises que variam de acordo com a quantidade e a qualidade das peças do “jogo de linguagem” que o analista se dispõe a jogar.
O discurso, como adverte Possenti (2004), não atua apenas quando a gramá tica não dá conta dele: é impossível compreender um texto, segundo entende a AD, sem apelo ao discurso como regra metodológica elementar visto que as seleções da construção e encaixamento das próprias frases refletem a organização ideológica do autor, como vimos ao analisar os trabalhos de Hodge & Kress (1988, 2003). Assim, a organização gramatical não é um expediente “neutro” ou “inocente”. Funcionando por detrás desta suposta transparência de sentido é que está a afirmação de uma pauta valorativa que sempre visa reforçar algum tipo de desigualdade discursiva. Este é o lugar da ideologia enquanto ficção de uma “verdade” ou “realidade” unívoca, que não existe.
Foucault (2004, 2005), por sua vez, define o discurso como o sistema historicamente determinado, que estrutura o modo como percebemos a realidade, estabelecendo por meio de regras produtivas aquilo que pode ser dito e toda uma série de controles, seleções, organizações e redistribuições de temas e enunciados em mecanismos de exclusão externa do discurso (tabu, rejeição, oposição entre o discurso “verdadeiro” e o “falso”), exclusão interna (comentário e função autor), entre outras.
Esse autor considera que o discurso pode ser caracterizado por um princípio de: a) inversão – ali onde se supõe a fonte ou sentido do discurso, deve ser reconhecido que ele não passa de um recorte, e que nele não há profundidade a ser escandida;
b) descontinuidade entre os discursos, enquanto práticas que não se alinham paralela e ordeiramente mas enquanto uma teia onde os discursos são nós que se cruzam, se debatem e se ignoram;
c) especificidade, na medida em que cada discurso tem as suas próprias regras e incorporam o mundo material e os valores sociais de maneiras distintas;
d) por fim, exterioridade, que impõe que todo discurso somente possa ser discutido se conjugado às suas condições de existência.
Assim compreendido o discurso, ele dá origem a diversas derivas:
a) a episteme consistiria nas relações discursivas de convergência e divergência dentro de um espaço onde impera a heterogeneidade e a dispersão dos discursos;
b) a formação discursiva consistiria na associação regular de agrupamentos de certos tipos de enunciados que tratam um determinado tópico de uma forma semelhante e que, em seu interior, também lidam de modo similar os outros discursos que lhe são concorrentes/contestatórios, o que deixa claro que a homogeneidade discursiva absoluta é um mito.
Devemos estar atentos para essa distinção quando da abordagem do corpus.