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2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA DA ADC

2.1 Os postulados teóricos da ADC

2.1.5 Quinto postulado

Um quinto postulado pode ser agora introduzido: perante a ADC, o discurso é o elemento central onde se travam as relações ideológicas de dominação social.

Como já dissemos, falar de ADC é apresentar uma teoria de como a ideologia funciona dicursivamente, tomando esse termo no sentido marxista, sob um viés negativo, como um obstáculo a ser superado.

Segundo a teoria da ideologia de Thompson (1990), trabalho este no qual se baseia a ADC, a teoria da ideologia, aplicada à análise da linguagem, nos convida a vê- la como algo além de um sistema de signos ou de frases bem formadas, ou para expressar mensagens, mas como um fenômeno sócio-histórico que traz em si a marca do conflito. Segundo esse autor, “estudar a ideologia [...] é estudar os mecanismos através dos quais o sentido (ou a significação) serve para sustentar relações de dominação” (p. 4). Na obra do mesmo autor (2002), ele desenvolve a sua teoria e apresenta um modelo dos diferentes tipos de expediente ideológico:

Modos Gerais Algumas Estratégias Típicas de Construção Simbólica Legitimação Racionalização

Universalização Narrativização Dissimulação Deslocamento Eufemização

Tropo (sinédoque, metonímia, metáfora) Unificação Estandardização Simbolização da Unidade Fragmentação Diferenciação Expurgo do outro Reificação Naturalização Eternalização Nominalização/passivização

Quadro 4 – Estratégias do funcionamento ideológico (reproduzida de THOMPSON, 2002, p. 81).

De acordo com o autor, a análise da ideologia trata do modo como as formas simbólicas se entrecruzam com relações de poder, sustentando relações de dominação. Ele

retoma a perspectiva de Foucault (2004b), que se recusava a trabalhar com esse termo, dada a sua polissemia, preferindo tratá- lo como expressão do poder, cuja disseminação social não se dá apenas em termos de dominação entre classes, sendo pulverizado no universo social fragmentário em que vivemos. Por essa razão, diz ele, a dominação entre classes é apenas um tipo de poder expresso pela ideologia, existindo também nas relações sociais estruturadas entre homens e mulheres, entre grupos étnicos e Estados-Nação hegemônicos, apenas para citar alguns exemplos.

Em nossa pesquisa, propomos que a análise dos textos jurídicos que descrevem o papel do juiz na sociedade indicam de que modo ele sofre uma série de interdições de dizer e o posiciona estruturalmente em relação ao poder, como garantidor de determinados valores e prerrogativas de classe pelas quais deve zelar. Esse processo ordenador do discurso judicial opera de variadas maneiras, e segue a proposta de trabalho ideológico aqui apresentada por Thompson.

No concernente ao tópico legitimação, essa noção estaria vinculada à obra de Weber, que a concebe como uma maneira de se obter a adesão dos comandados pelo exercício do poder. Para ele, questionar a legitimação é verificar por qual razão essa relação de dominação é considerada justa e digna de apoio. Assim sendo, o trabalho legitimatório se socorre do trabalho dos sentidos e de sua naturalização, enquanto expressão simbólica de uma verdade absoluta baseada numa ordem inquestionável, que pode ser obtida através do apelo à razão, à tradição ou, ainda, ao carisma de um indivíduo – que exerce a liderança, por exemplo. Fazendo um contraponto com esses itens da teoria de Weber, Thompson ressalta os três expedientes do modo legitimatório da ideologia verificados na tabela 6 acima. Pelo primeiro expediente, a estrutura simbólica reforça uma cadeia de raciocínio que procura justificar, de maneira irrefutável, um conjunto de práticas ou saberes sociais tidos como evidentes à luz da razão, e que por óbvios, não devem ser questionados. Um segundo expediente é a universalização, que toma estas mesmas práticas ou acordos institucionais como elementos gerais ou mesmo comuns a qualquer tipo de organização humana. Em último lugar, temos a narrativização, onde verificamos o uso de histórias reportadas ao passado para explicar o presente, como se tudo não passasse de uma continuação daquele, tentando produzir uma naturalização do mundo, tornando-o “transparente”.

No caso da dissimulação, parte-se do pressuposto de que as relações de poder são gerenciadas por meio de negações ou obscurecimento, como uma maneira de desviar-se a atenção das pessoas. No exemplo do filme Justiça, que vimos a pouco, a juíza dissimula um grave problema social que lhe chega por meio da prisão do menor infrator com a sugestão de

que o infante deve procurar se acomodar com a realização de trabalhos de pequena monta, em detrimento da desigualdade social que ele experimenta. Pelo deslocamento, os atributos de um objeto ou pessoa são transladados para outro elemento, o que enfatiza os seus aspectos positivos ou negativos, como vimos no caso das frases enunciadas pelos representantes da oposição ao atual governo petista, estabelecendo frames de recepção que evocam a libertinagem e o mundo do crime.

Outra estratégia é a eufemização, ou seja, a reescrita de situações de modo a dar- lhes uma conotação positiva, como quando a dissolução de um protesto é relatada na mídia como a “restauração da ordem” ou quando, como veremos, o Ministro Carlos Velloso, ao apreciar o pedido de Habeas Corpus formulado por Flávio Maluf – filho do famoso político paulista Paulo Maluf – desvia o foco acerca da legitimidade ou não da prisão de ambos para destacar que a soltura merece ser deferida, tendo em vista o constrangimento que todos aqueles que são pais devem estar sentindo por saberem que os pacientes estão presos numa mesma cela14. O tropo consiste na operacionalização argumentativa pelo uso de figuras de linguagem, sinédoque, metonímia e metáfora. Vimos com Lakoff e Johnson (1999) que boa parte de nossa atividade cognitiva se dá por meio de metáforas através das quais pautamos as nossas vidas e em relação ao papel do juiz, elas são especialmente numerosas, equiparando este profissional com um semideus, com um sacerdote, dentre outros exemplos que serão melhor esmiuçados no penúltimo capítulo.

A unificação implica num trabalho de consolidação dos agentes comunicativos numa identidade coletiva que lhes enfatize os laços de solidariedade, o que é gerado pelo expediente da estandardização de rotinas judiciais, por exemplo, como garantia de igualdade, ou ainda uma suposta tentativa de preservação da língua nacional por meio de propostas legislativas que chegam a ponto de criminalizar o uso de estrangeirismos, como vemos na análise crítica dessas propostas, verificadas nas obras de Silva e Rajagopalan (2004) e Cruz (2008). Por meio da simbolização da unidade temos o recurso à criação de símbolos de identificação coletiva, como a bandeira de uma nação.

A fragmentação é o recurso através do qual relações de dominação podem ser mantidas não aglutinando pessoas, mas segmentando os seus interesses de tal forma que a sua dispersão torne-se a chave para a sustentação de sua diferença. Pela diferenciação dá-se a

14 Veja -se que neste exemplo também poderíamos explorar o expediente de universalização ideológica mencionado por Thompson, na medida em que o referido Ministro toma como tal sentimento de constrangimento como universal, o que demonstra que os eventos constituídos discursivamente e analisados sob o palio da metodologia da ADC não obedecem a fronteiras rígidas de tipificação.

ênfase na distinção e no gosto, que foram analisados na obra de Bourdieu (1979) e que verificaram que a sua distribuição entre alto/baixo, leve/pesado, fino/grosseiro, brilhante/medíocre, por exemplo, não atendem a necessidades descritivas de coisas e pessoas que estão no mundo, mas à formação de interesses da elite e da massa proletária. O esforço que a classe dominada empreende para superar esta distinção, buscando cópias e acesso alternativo a este mundo, apenas serve para reforçá- lo, subjugando qualquer possibilidade de sua transformação. Pelo expurgo do outro dá-se a construção de um inimigo que deve ser combatido, o que vemos nos vários relatos acerca da guerra norte-americana no Iraque e mesmo a caracterização dos judeus na literatura nazista anterior à segunda Guerra Mundial.

Por fim, temos a reificação, onde uma situação transhistórica é tomada como permanente e atemporal. Esse termo se baseia em Marx que, no entanto, fala da fetichização dos objetos pelas noções dos valores de uso e de troca. Por isto a reificação, por meio da naturalização, eternalização e nominalização/passivização implicam, acima de tudo, o ofuscamento do caráter histórico dos fenômenos ideológicos, retratando-o como permanentes e irrefutáveis.

Outra dimensão do trabalho ideológico, destacada por Fairclough (1997) e Pêcheux (1990, 1997, 2006), está nos procedimentos vinculados ao silêncio e ao conhecimento pressuposto, como uma forma de objetivação dos sentidos. A ideologia está na sensação de que, quando se afirma alguma coisa, ela nos parece “natural”. Ou, ainda, que pode ser extraído implicitamente do que fora dito não merece questionamento15. E, também, no interdiscurso, ou seja, nas relações que relacionam as distintas ordens de discurso entre si enquanto formas simbólicas de fazer sentido.

O discurso tem uma existência material, está inscrito na história, tem um passado, o que nos traz à discussão do segundo aspecto do discurso que diz respeito ao interdiscurso como a marca privilegiada desta historicidade do sentido, que antecede os sujeitos que dele se utilizam, sob uma aparência (inerente efeito ideológico) de novidade. O interdiscurso “se conjuga sobre um discurso prévio, ao qual ele atribui o papel de matéria-prima” (PÊCHEUX, 1997, p. 77). Além disso, ressalva o autor que nenhum sentido vale-se por si mesmo, posto que está em relação paradigmática com tantos outros que lhe fazem oposição ou confirmação. Só há sentido num discurso se ele é levado em conta em meio aos demais “discursos

15 Pêcheux (1997) trabalhando o que já dissera Althusser (1983), sustenta que toda formação discursiva dissimula, pela transparência do sentido que aí é constituído, sua dependência em relação ao “todo complexo com dominante” das formações discursivas, intrincada no complexo das formações ideológicas anteriormente definidas.

possíveis” (PÊCHEUX, 1997, p. 79), o que fará com que ele, mais tarde, sustente que o processo discursivo somente possa ser pensado através de relações de substituição, paráfrases, sinonímias e metáforas em relação a outras formações discursivas, o que nos faz repensar a teoria do valor e das relações paradigmáticas de Saussure como elementos inspiradores diretos desta porção de sua teoria.

Outro aspecto crucial e necessário, na ADC, para a análise da ideologia é a sua perspectiva de unir uma mirada estrutural e também actancial, unindo as esferas macro e micro-discursivas (Fairclough, 1997). Todo discurso, portanto, leva em conta as representações imaginárias entre o enunciador e o enunciatário, que os leva a relacionar, a partir de uma dada posição ideal, uma projeção discursiva. Assim, a partir do lugar A (por exemplo, do juiz, ou do deputado, ou do professor, ou do aluno, etc.) os enunciadores estabelecem relações discursivas que são constituintes dos sentidos. Por exemplo, o juiz fala de um lugar de autoridade, numa sala de audiência. O acatamento de sua palavra, em silêncio, é o que se espera daqueles que lhe ouvem neste local. Esse contexto, portanto, permite que ele esteja imbuído do poderio do Estado e possa proferir enunciados veridictórios que impõem a distribuição do que ele diz numa hierarquia com o discurso, digamos, do réu ou de seu advogado, considerados inferiores. Em caso de qualquer destes atritar tal posição, dispensando tratamento considerado por ele desrespeitoso, ele sairá do local de produção ideológica retomando a sua função do Aparelho de Estado Repressor, emitindo ordem de prisão por desacato.16

Podemos concluir que o trabalho ideológico é uma atividade complexa e destacadamente refratária numa miríade de expedientes que, longe de serem totalmente distintos, são complementares e multiplamente incidentes num mesmo caso concreto. Ele é um fenômeno dialógico, onde se estabelecem relações de dominação e se relacionam com a estrutura discursiva que definem o que Foucault (2004) chama de “ordem do discurso” e as interdições que ele impõe ao dizer, assim como na esfera dos eventos discursivos, que põem essa estrutura para funcionar e através de cujos textos podemos recuperar esta imbricada rede de coerções e imperativos, que é exercida sobre todo utente de qualquer língua.

16 Note-se que o próprio Althusser (1983), informa que nem os AIE operam somente pela via ideológica e nem os Aparelhos de Estado Repressor apenas pela força, havendo uma predominância de cada um destes expedientes em cada um deles que não é excludente.