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2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA DA ADC

2.1 Os postulados teóricos da ADC

2.1.4 Quarto postulado

A assertiva anterior nos remete a uma quarta afirmação necessária, que sustenta que, para a ADC, a língua é uma rede material e simbólica, a um só tempo, que impõe uma certa classificação do mundo.

A estreita relação entre homem e sociedade, através da linguagem, é feita por meio da atividade simbólica da cultura, tendência inaugurada por Sapir (2007). Só por meio dela é que o homem significa, construindo a sua subjetividade e a do seu interlocutor. A linguagem, portanto, importa em mediar o homem e o mundo, e o homem e os seus semelhantes (ORLANDI, 2001).

Mas essa mediação não é transparente: entre homem e sociedade não existe uma relação unívoca, de um-para-um, assim como nem todos os objetos do mundo são designados pela linguagem da mesma maneira (vide o conhecido caso da palavra neve, que tem um sentido mais ou menos unívoco para as línguas européias – água congelada e precipitada – enquanto que ele é múltiplo para os esquimós, de acordo com a sua densidade e funcionalidade como fonte de maior/pior acesso à comida). Todo o saber é histórico e condicionado culturalmente.

A língua, como sustentam Halliday (2004) e Harré & Gillet (1994), tanto é parte da experiência deste mundo (através das sensações) quanto da interpretação intersubjetiva desta experiência, através da cultura. E para que haja interpretação é necessário que exista uma função simbólica que lhe sirva de apanágio. O saber sobre a linguagem é simbólico posto que todo ele é sustentado por uma prática cultural. Toda cultura, portanto, capacita o homem enquanto tal a ser um “ser” semiótico, que não consegue se relacionar apenas com as propriedades moleculares dos objetos referenciados mas, e mais importante, com os sentidos que são depositados neles em termos de sua pertinência social. A semiose, destarte, impõe que a relação entre língua e mundo seja sempre aberta e passível de abordagens diferentes, o que se refletirá na modalidade, como veremos mais à frente. A ligação entre os signos e os referentes é uma relação culturalmente mediada.

É importante dizer, com Ricoeur (1987), que o aparato semiótico em si não é bastante para explorar o potencial significativo da língua. Isso ocorre porque o termo semiótica, desde que fora cunhado por Saussure, descreve um sistema ideal que não se reporta a qualquer exterioridade (o que resulta na sua proposta de eliminação do referente)9. O signo semiótico não tem uma existência ontológica. Sua essência não está nele mesmo, mas na relação com outros signos, através da teoria do valor. Tal dispositivo teórico, caso seja levado ao extremo, converte-se em idealismo em seu mais alto grau, por considerar que o sistema sígnico basta a si mesmo, sem que seja considerado como um aparato funcional humano, o que gera o efeito do estranhamento ideológico, da seguinte forma: a semiótica, uma vez criada pela cultura, parece ganhar uma vida independente das condições sócio-históricas que motivaram a sua geração.10

Não basta dizer que a ADC se vale da semiótica em sua teoria, já que esta afirmação poderia ser interpretada como parcela de uma doutrina idealista, o que acabaria por contradizer tudo o que até então expusemos em termos de crítica marxista acerca da materialidade do discurso. Seria mais correto, então, dizer que a ADC se vale de uma teoria do discurso enquanto instância semiótica vinculada materialmente, onde os signos nele empregados significam não por si mesmos e nem em relação diferencial com os demais, apenas, mas, principalmente, enq uanto tributários das condicionantes materiais e históricas que sustentam esse ato de significação. Assim sendo, para a ADC o estudo da mediação entre palavra e mundo, que é apreendida no interior de uma cultura, só pode ser corretamente analisada no interior de uma teoria do discurso, termo esse que expressa bem a vinculação entre a linguagem e as suas condições de produção, coisa que não aferimos pelo termo “semiótica”.

O discurso, assim, se afasta de um “saber individual” para conjugar o indivíduo e a sociedade, em simbiose recíproca, numa teoria que deve incluir a ação. O discurso, como afirma Jäger (2006, p. 34) consiste no poder expressado através do saber, ou seja, “[...] um fluxo de conhecimento – e/ou todo o conhecimento social armazenado – através do tempo [...], o que determina a ação individual e coletiva e/ou a ação formativa que molda a

9

Devemos alertar que esta modalidade de abordagem do ser semiótico é peculiar a Saussure, já que outros filósofos, como Pierce (2003), pensam uma relação triádica do signo, aí incluindo o referente.

10 Existem autores que distinguem semiótica de semiologia, entendendo que aos últimos cabe a análise dos signos em geral, como entendia Saussure, e ao primeiro a análise de como os signos são apropriados intencionalmente no trabalho comunicativo (vide INDURSKY, 2006, p. 57). Nós não nos aprofundaremos nesta diferenciação, que nos parece por demais específica, e trataremos os termos como sinônimos.

sociedade, e assim exerce poder.”11 O discurso, então, não é uma estrutura passivamente dada, mas um dispositivo voltado para a ação, para a plasticidade do agir comunicativo dos agentes e para a conformação desse agir com seus propósitos políticos.

Esses parâmetros baseiam-se, como se pode notar, na noção de ideologia da filosofia marxista, que toma o termo como um modo coercitivo de se significar a realidade, imposto ao proletariado por uma classe burguesa dominante. Também podemos encontrar raízes deste pensamento na Escola de Frankfurt que, assim como Marx, concebia ser possível aos dominados pela ficção ideológica alçar um alto grau de esclarecimento ou emancipação, o que significaria o fim do capitalismo e a implementação do socialismo.

É essa semiótica sustentada por uma dada relação material de produção que permite a construção das subjetividades, tendo em vista as posições de hierarquia estabelecidas na ordem do discurso. É isso que faz com que o sujeito que ocupada a posição- juiz use os verbos no imperativo, na sala de audiência, ou ordene à testemunha a dizer, de modo autoritário, que fale o que sabe, advertindo-a a não mentir sob pena da prática de crime. Há, ainda, a possibilidade do juiz organizar o tempo de reflexão ínsito ao ato enunciativo do seu interlocutor na medida em que pode pedir ao falante que seja objetivo, que não se perca em detalhes desimportantes, obrigando-o a dizer como sabe o que sabe (se diretamente ou através do relato de terceiros), no tempo em que ele considera adequado12. De igual maneira, as partes num processo judicial são instadas a todo instante a receber a opinião do juiz, a permitir que ele faça considerações acerca de suas vidas e suas atitudes – em casos como a tentativa de conciliação das ações de divórcio e separação, por exemplo – ainda que na vida cotidiana isto não fosse suportado sem algum tipo de resistência explícita13.

Veja-se a seguinte passagem da fala de uma juíza carioca, dirigindo-se a um menor infrator, retirada do filme Juízo (2007), que exemplifica a nossa tese:

(1) Juíza Luciana Fialla: Eu fico espantada porque é um menino com saúde, podia estar fazendo uma coisa lícita, lavando um carro, vendendo uma bala. Mas não, está roubando os outros.

11

[...] the flow of knowledge – and/or all societal knowledge stored – through all time [...], which determines individual and collective doing and/or formative action that shapes society, thus exercising power.

12

No filme Justiça (2004) os juízes filmados, conduzindo o interrogatório de réus em sala de audiência, freqüentemente dominam os turnos de fala, impõem ao interlocutor que respondam o que lhes foi perguntado quando acham que a resposta é evasiva, provocando interrupções e retomadas, usando -se também de gestos, como o levantar de mão quando acham que o réu deve parar de falar, o que indica um desnivelamento do agenciamento dos turnos e uma situação de efetivo desequilíbrio de poder.

13 Não estamos querendo dizer que o sujeito é impotente à fala judicial, mas que a organização institucional do Poder Judiciário implica numa diminuição da possibilidade de contestação imediata da versão de mundo apresentada pelo juiz. Todo discurso, para a ADC, pode ser sustentado pelo seu contrário. Não existe possibilidade de uma hegemonia absoluta.

Observe-se o imperativo velado pela modalidade hipotética da construção lingüística apresentada pela Juíza: ao invés de dizer ao garoto “Vá trabalhar!” são construídas hipóteses de ação alternativa (parafrásticas) à violênc ia praticada por ele: “(...) podia estar fazendo uma coisa lícita, lavando um carro, vendendo uma bala.” Estas palavras têm por finalidade criar um mundo alternativo ao vivido na situação experimentada na sala de audiência, e é exatamente nesse espaço entre o real e as hipóteses de conduta satisfatória mencionadas pelo sujeito enunciador que se dá o trabalho da ideologia. A finalidade ilocutória do ato de fala se revela num aconselhamento cumulado com censura ao ato perpetrado pelo menor. Este método é pouco efetivo para tentar motivar o interlocutor a mudar o seu modo de ver o mundo, já que não serve para tentar resolver o locus real do conflito que subjaz ao ato infracional, que diz respeito à partilha desigual de bens materiais na sociedade brasileira. Em suma, a juíza postula que o menor se acomode em sua situação de pessoa desprivilegiada, e se acostume a realizar trabalhos de pequena monta, para que possa preencher o seu tempo – sem emprego, sem educação de qualidade, sem opções de lazer – de maneira a não delinqüir. O trabalho discursivo visa assegurar o princípio capitalista da propriedade, que foi violado pela atitude do menor, razão pela qual ele deve ser penitenciado, o que começa, inicialmente, pela atividade discursiva. A reprovação proferida pelo sujeito qualificado pelo lugar de “juiz” é uma tentativa de fazer o sujeito posto no lugar de “menor infrator” internalizar a concepção de mundo da classe dominante capitalista para que ele evite querer o que não seja seu, e muito menos use expedientes delituosos para obter o alheio, devendo dar valor ao trabalho.

A juíza fala do lugar de autoridade, que lhe gabarita e permite fazer avaliação da vida alheia. O menor, por sua vez, não recebe essa mensagem passivamente já que a conformação do mundo nos dois discursos – da juíza e do menor infrator – não é o mesmo, operando aí duas maneiras de ligar os signos e os referentes: num impera a ordem e a lei; no outro o interesse particular, a vantagem própria, o acesso a bens que estão ligados a um mundo de objetos de consumo que, de outra modo, ele não terá como desfrutar a não ser por recurso à conduta ilícita. A resistência do menor ao discurso capitalista-judicial fica clara quando um destes garotos, ao se dirigir ao diretor do filme, expressa o seguinte:

(2) Interno do Instituto Padre Severino: “Saindo daqui, eu quero comprar um tênis de 450 Reais. Tô trabalhando, só ganhando 350, vou comprar como? Tem que voltar e vender droga.

Desses exemplos pudemos verificar que, como sustenta Althusser (1983), as representações do real não são unívocas exatamente posto que a semiose que as rege atende a propósitos ideológicos distintos, sendo esses, então, as verdadeiras forças- motrizes da práxis significativa que cabe ao analista do discurso descrever e tentar explicar.