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CAPÍTULO III ASPECTOS METODOLÓGICOS DA PESQUISA

3.1 NOSSO SUJEITO, SEUS FAMILIARES, AS INSTITUIÇÕES E O

ESCOLAR DE P

O sujeito do estudo, P, conforme descrito na introdução desta tese, está, atualmente, com quatorze anos de idade34. P é filho de mãe surda e pai ouvinte. Ele reside com os pais e avós maternos em um município do interior do Estado do Paraná. Nos anos iniciais do ensino fundamental, P estudou em uma escola da rede municipal de ensino. Nessa escola, ele enfrentou sérios desafios para concluir sua escolaridade. Apesar de ingressar à escola, entre cinco e seis anos de idade, diretamente no 1º ano, sem passar pela pré-escola, sabendo ler e escrever, P não se sentia motivado para realizar as atividades na escola ou em casa (tarefas). Isso fazia com que os professores também se desmotivassem em relação ao comportamento de P que, de acordo, com os docentes, era muito difícil de compreender e lidar. Por isso, além

33 Após esclarecimentos e assinaturas do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), pelos envolvidos na pesquisa (sujeito, comunidade escolar, familiares e outros), o Comitê de Ética da Universidade Estadual de Ponta Grossa aprovou o projeto dessa pesquisa. O Termo de aprovação encontra-se anexado na última página dessa tese.

de diversos bilhetes encaminhados à mãe, o avô materno era chamado com frequência pela escola para tentar solucionar esses problemas.

Nos boletins escolares, as notas de P estão, em sua maioria, abaixo da média (6.0). Como forma de tentar entender a ‘indisciplina’ de P, em sala de aula, a escola o encaminhou à psicóloga, ao Serviço de Convivência (SC) e, no 5º ano, para a Sala de Recursos (SR).

Quando P foi transferido de escola, para cursar os últimos anos do EF (6º ao 9º ano), uma vez que a primeira escola não oferece essa modalidade, todos os aspectos comportamentais e de aprendizagem simplesmente desapareceram, ou seja, não houve mais reclamações dos docentes em relação a ele. Muito pelo contrário, P começou a se destacar em sala de aula por suas elevadas notas e conhecimentos.

Nesse sentido, por meio dos dados coletados, pretendemos desvelar os motivos pelos quais P enfrentou tantas dificuldades nos anos iniciais do ensino fundamental e, ao ser transferido para outra instituição, para os anos finais, essas dificuldades foram sanadas ou, simplesmente, desapareceram.

Essa suposta mudança de P é um aspecto que nos causa certa inquietação, tendo em vista que a transição dos anos iniciais (1º ao 5º ano) para os anos finais (6º ao 9º ano) do EF, normalmente, é encarada com muita dificuldade pelos alunos. Uma dessas dificuldades está atrelada ao modo como as disciplinas são distribuídas. Cada disciplina é ministrada por um professor diferente. O tempo das aulas também é diferente, passando por vários professores no decorrer da semana. Entretanto, isso não se configurou como obstáculo para P, pelo contrário, ele encarou tudo isso como algo muito dinâmico e diferente. Diante desse panorama, no próximo capítulo, além das entrevistas com os participantes, relatórios, atas etc. analisaremos alguns excertos de entrevistas, concedidas por P, as quais nos ajudam a compreender as tantas contradições no desenvolvimento escolar desse aluno, em ambas as instituições.

A família de P pertence à classe média baixa. O avô (71 anos de idade) estudou até a 4ª série do EF. Ele trabalha como autônomo e é o principal mantenedor da família. A avó (74 anos de idade) frequentou a escola até a 3ª série do EF. Ela não trabalha fora, visto que apresenta sérios problemas nas pernas que a impedem de andar por muito tempo.

O pai de P (45 anos de idade) possui o ensino médio completo. É uma pessoa bastante simples, tímida e de pouca fala. Ele é descendente de ucranianos e a comunicação entre seus pais sempre ocorreu por meio da Língua Ucraniana e da Língua Portuguesa. Por isso, quando ele fala, em Português, traz marcas dessa língua. Atualmente, ele trabalha em um frigorífico na mesma cidade em que reside.

A mãe de P (40 anos de idade) possui o Ensino Médio completo. Ela ficou surda aos seis meses de idade depois de uma brusca queda do colo de sua tia, quando bateu fortemente a cabeça e desenvolveu, assim, um edema grave, o que causou a surdez. Ela faz uso da Libras para se comunicar, especialmente com seus dois filhos, P e M. Com seus pais e esposo, ela se comunica por meio de gestos caseiros, leitura labial e escrita, visto que eles não dominam a Libras. Atualmente, ela tem se dedicado aos serviços do lar e, nas horas vagas, faz toalhas e tapetes de crochê para vender. Antes de os filhos nascerem, ela trabalhava em lojas e supermercados da cidade, mas, devido aos problemas de saúde de sua mãe (a avó de P), ela precisa tomar conta da casa e dos filhos, por isso não voltou a trabalhar fora, nem a estudar.

No início de 2016, ela decidiu se separar do marido (pai de P). Agora precisa tomar conta dos filhos em tempo integral, pois o pai visita os filhos uma ou duas vezes por semana, durante poucas horas. Seu pai (avô de P) fica muito tempo ausente de casa devido sua profissão e a mãe (a avó de P), conforme descrito anteriormente, apresenta problemas de saúde e nem sempre está disposta para os afazeres domésticos e os cuidados com os netos. Por isso, é ela, a mãe de P, quem sempre faz as compras de supermercado, roupas, remédios, materiais escolares para os filhos; acompanha o filho menor à escola todos os dias e participa das reuniões escolares, festinhas de aniversário, enfim, faz tudo o que qualquer outra mãe faz em relação aos filhos e à família. Ela parece ser uma pessoa muito dedicada, pacienciosa, carinhosa e responsável.

P tem apenas um irmão (6 anos de idade), já exposto acima. Ele também deveria fazer parte desta pesquisa, mas, pelas razões já explicadas, resolvemos excluí-lo do estudo. P e seu irmão são bastante companheiros. Na pesquisa de mestrado, observamos que P tem exercido a função de ensinar a LS ao seu irmãozinho, de forma natural e espontânea.