Não é só ao professor que é exigida uma mudança de atitudes e mentalidade face ao ensino online. Se o professor precisa de adoptar uma postura mais flexível e desenvolver novas competências, também o aluno não está isento de ver o seu papel radicalmente alterado. O uso da tecnologia não será para os alunos um factor de preocupação, antes gerará uma adesão imediata, pelo que a imersão em ambientes digitais e virtuais não
apresenta problemas, mas não há ainda a habituação de associar naturalmente este tipo de ambientes ao contexto escolar.
“Os que aprendem num ambiente online precisam de compreender a dinâmica desse ambiente, como a aprendizagem online se desenvolve: interacções, relações, percepções, papel dos aprendentes e dos instrutores. Os aprendentes devem compreender o papel do instrutor como facilitador ou guia. Elespodemter expectativas relativamente à instrução e podem sentir que o instrutor não está a ensinar quando, na verdade, o ensino, surge sob outras formas: facilitando, guiando, numa aprendizagem apoiada (scaffolding learning).” (Vonderwell & Savery, 2004, p. 38)
Atingir o sucesso num ambiente virtual de aprendizagem depende muito do grau de motivação do aluno, sendo certo que são os alunos mais disciplinados, organizados e que melhor planeiam o seu tempo e actividades, aqueles que melhor se adaptam a experiências deste tipo. Os alunos devem ser preparados para uma aprendizagem mais autónoma e para a necessidade de uma maior disciplina pessoal. Há novas normas a aprender, desde a netiquette própria de uma plataforma, fórum ou chat utilizados em contexto educativo, às competências requeridas para usar determinadas ferramentas, há conceitos novos que é necessário dominar (o que é uma wiki, como funciona, qual o seu fim, por exemplo), há uma dependência do professor que é preciso abandonar (se é normal colocar dúvidas em contexto de sala de aula a todo o momento, não é expectável que se enviem mensagens ou e-mails constantemente ao professor).
“ Um e-aluno tem de ser capaz de identificar e estabelecer prioridades relativamente às lacunas que sente relativamente às suas capacidades e deve gerir a experiência de aprendizagem, o que inclui estabelecer objectivos claros, planos específicos e assegurar que tem os recursos necessários.” (Birch, 2002, s/p)
A inexistência de contacto presencial não é impedimento para o estabelecimento de uma relação e para o desenvolvimento da comunicação. Se pensarmos em experiências de b-learning, esta questão nem sequer merece discussão, uma vez que os membros da comunidade conhecem-se e relacionam-se presencial e virtualmente. Neste caso, o relacionamento que mantêm online, é semelhante ao que teriam habitualmente através de uma rede social, por exemplo.
Essencial ao sucesso de uma comunidade de aprendizagem virtual e, acima de tudo, à transformação dos seus membros em alunos virtuais bem sucedidos é a própria concepção que estes têm deste novo modelo de aprendizagem. “(…) o estudante virtual mantém a crença de que uma aprendizagem de grande qualidade pode acontecer em qualquer lado e a qualquer momento.” (Palloff & Pratt, 2003, p. 12)
Palloff e Pratt (2003) continuam referindo que as características do aluno virtual podem ser categorizadas em sete grandes áreas: a) acesso à informação através de computador pessoal, ligação à Internet e competências para lidar com o software; b) abertura face à necessidade de partilhar detalhes pessoais sobre a sua vida, trabalho e experiências educacionais; c) competências comunicativas que lhe permitam interagir mesmo sem ter contacto visual com o interlocutor, sendo capaz de lidar com questões emocionais em forma textual e de criar uma presença online através da personificação da comunicação; d) envolvimento no curso dedicando-lhe o tempo necessário ao desenvolvimento do trabalho e à consecução dos objectivos; e) colaboração com outros membros da comunidade, quer na prossecução dos objectivos quer na construção de um todo coerente através da partilha de opiniões e saberes. Esse trabalho colaborativo deve ser posteriormente avaliado pelos alunos, os quais devem ser capazes de avaliar o seu desempenho e dos restantes membros do grupo, a forma e o resultado dessa colaboração; f) reflexão sobre todo o processo de ensino e aprendizagem que possa funcionar como uma avaliação formativa sobre o seu desempenho e sobre a forma como o curso está estruturado, permitindo futuros ajustes e melhoramentos; g) flexibilidade e adaptabilidade perante novas formas de aprendizagem e adopção do conceito de lifelong learner.
Segundo autores como McGhee e Kozma (2001), estudos permitiram concluir que o uso das novas tecnologias no ensino levava os alunos a assumir os papéis de self-learner, team member e knowledge manager. Há uma maior autonomia por parte dos alunos, capazes de, com apenas alguma orientação, desenvolver um percurso formativo. Eles têm acesso a um vasto leque de recursos e programas que lhes permitem gerir a forma como, quando e onde aprendem e como apresentam os seus conhecimentos. Ao mesmo tempo, as ferramentas colaborativas utilizadas e o simples facto de que, juntos, estão a explorar um novo ambiente e novas práticas, despoletam um sentimento de entreajuda e de pertença ao grupo. A aprendizagem passa a estar centrada no aluno, o qual ao trabalhar frequentemente em equipa, colabora mais e torna-se responsável pelo produto final. À medida que o trabalho avança e se solucionam problemas desenrola-se a construção de conhecimento.
A tecnologia é um suporte importante no desenvolvimento destes três novos papéis. A nível da gestão de conhecimento, o aluno tem acesso a vastas fontes de informação e possui as ferramentas necessárias para transformar essa informação em conhecimento e, como membro de uma equipa, tem ao seu dispor ferramentas que facilitam a comunicação.
A utilização da tecnologia é benéfica dentro e fora da sala de aula porque é, em primeiro lugar, uma forma de ultrapassar as dificuldades do trabalho de grupo ou dos encontros extra-escola. Usar uma plataforma de aprendizagem, um fórum, chat ou qualquer outro ponto de encontro virtual facilita, em termos espácio-temporais, o trabalho colaborativo. Outros benefícios comummente referidos prendem-se com o sentimento de à- vontade experimentado pelos alunos que consideram a interacção online menos intimidatória do que a presencial, o rápido feedback ao trabalho desenvolvido, a partilha de diferentes perspectivas, o enriquecimento de competências de leitura, escrita e análise, bem como de competências tecnológicas e a habituação ao trabalho em comunidade.
Numa pesquisa da qual dá conta Roper (2007) os alunos que participam em experiências de aprendizagem online identificam alguns aspectos que consideram relevantes para que um curso deste tipo seja bem sucedido:
- os alunos aprendem a desenvolver uma estratégia de gestão do tempo e tornam-se mais auto-disciplinados: à excepção das actividades síncronas, todas as outras poderão ser feitas no momento mais conveniente para o aluno. Os receios de que a aprendizagem online possa não resultar provaram ser infundados, uma vez que a maioria dos alunos faz o log in diariamente. A marcação de trabalhos e estabelecimento de prazos por parte do professor ajuda também a um maior controlo da assiduidade em ambiente virtual.
- os alunos aprendem a tirar partido das discussões online: a interacção ocorre sobretudo através de discussões assíncronas onde alunos e, por vezes, o professor trocam opiniões, fundamentando-as. Tal permite-lhes desenvolver competências ao nível da escrita e da estruturação do pensamento reflectindo, pesquisando, seleccionando argumentos e organizando uma resposta ou comentário válido através dos quais se enriquece a discussão e desenvolve a interacção na comunidade.
- é possível usar na prática o conhecimento adquirido: quando determinados conceitos são discutidos e trabalhados em comunidade é mais fácil consolidar conhecimentos.
- colocar questões ou dúvidas é uma forma de aprofundar conteúdos. Os alunos desenvolvem o hábito de apresentar questões pertinentes que contribuem para a construção de um conhecimento colectivo. A apresentação, debate e síntese de todas as respostas enriquece não só os que se envolveram, mas todos quantos contactam com a discussão. - é essencial manter um nível elevado de motivação: os alunos estabelecem objectivos próprios para a aprendizagem online. As classificações são importantes, mas as relações entre a comunidade são essenciais para manter o interesse e altos níveis de participação.
- o instrutor tem um papel importante no envolvimento do aluno. Embora apreciando a autonomia que um curso online proporciona, os alunos consideram positiva a presença e intervenção do professor orientando, apoiando, criando novas pistas e motivos de interesse. - o estabelecimento de relações com outros alunos ajuda a criar um sentimento de comunidade e enriquece a aprendizagem.
A utilização da tecnologia, em particular de plataformas de aprendizagem e ambientes virtuais online cria um novo aluno que interage de forma diferente com o professor, com os conteúdos, com os colegas e até com todo o interface onde decorre a aprendizagem. Ele adquire consciência do seu papel activo na construção do saber e das vantagens de aprender em comunidade.
O grande desafio que se coloca relativamente à constituição e sucesso de uma comunidade de aprendizagem online é a manutenção de um elevado grau de motivação por parte dos alunos e de um sentimento generalizado de pertença à comunidade, de envolvimento num projecto comum. É necessário que, iniciando-se com o professor e passando progressivamente também aos alunos, se crie uma teia de relações, aquilo que Garrison (2006) apelida de weaving.