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O abandono e a alta rotatividade do psiquiatra do CAPS

3.7 A atividade do psiquiatra em seu ponto de vista

3.7.5 O abandono e a alta rotatividade do psiquiatra do CAPS

Por conseguinte às reflexões até agora apresentadas, exclusivamente, pela compreensão que apresentamos sobre o trabalho real nos CAPS estudados, situamos aqui o processo do abandono/rotatividade do trabalhador/psiquiatra. Trata-se de um assunto complexo e polêmico - que esteve presente em nossas análises desde nossa entrada em campo -, que remonta o percurso da implantação e da implementação dos CAPS, desde a organização dos processos de trabalho, até a gestão administrativa, política e de recursos humanos. A fala seguinte é emblemática e nos ajuda a dialogar sobre o assunto, apresentando-se, de início uma interrogação:

Eu não estou aqui discutindo demanda. eu sei que a demanda psiquiátrica é enorme... de dar remédios... de fazer... o que eu tô dizendo é o seguinte... nós não podemos também diante dessa demanda... falar assim... “precisa de alguém, muita gente pra dar remédio, pra dar receita...” Eu sei... eu tô dizendo é o seguinte... “por que que os psiquiatras não têm

suportado ficar nos CERSAM’s”? (Psiquiatra 12, grifo nosso)

Vale ressaltar que o abandono de psiquiatras esteve presente nos quatro CAPS estudados, mostrando-se mais evidente em três, assim como a rotatividade mostrou-se mais recorrente em dois deles. As razões do abandono e da rotatividade foram, praticamente, as mesmas, salvo algumas particularidades (mais complexas) em dois CAPS, cujos processos foram marcantes em nossas observações e análises sobre o trabalho, gerando o mecanismo que chamamos de alta rotatividade.

Localizamos o abandono diversificadamente, uma vez que entrevistamos ex- trabalhadores/psiquiatras que estiveram por dez anos ou mais nos CAPS, outros que estão na lida há mais de dez anos e também psiquiatras que acabaram de chegar e, logo em seguida, começaram a construir suas saídas. Enquanto alguns psiquiatras “ranhetaram”, subjetivamente dizendo, sobre o processo de trabalho dos CAPS, outros apresentaram “reclamações” mais objetivadas ao contexto. Coisas do tipo: que o CAPS é muito aberto,

que os muros são baixos, que não há segurança, que é muito cansativo o trabalho, que o volume de trabalho é grande e os salários são baixos, que conseguem trabalhos mais tranquilos e que pagam melhor, que são sobrecarregados, que as condições de trabalho não são boas, que é desgastante, que são o menor número de trabalhadores dos CAPS, que é esgotante, que só medicam, que são mal recebidos, que são desrespeitados, enfim...

Vejamos algumas conversações esclarecedoras de percursos de abandono. Um psiquiatra disse que eles merecem ser mais ouvidos, o outro foi categórico em dizer que as políticas de saúde mental não os seduzem. A fala seguinte é esclarecedora da situação em termos macros de análise, refletindo os campos de pesquisa.

(...) é muito ditatorial. A gente quando reclama ou fala que alguma coisa não está legal,

eles falam que a gente não tem perfil pra trabalhar em CERSAM... que se a gente não

está satisfeito, que é pra gente sair. Então, é muito... não tem uma conversa legal, a gente não tem uma tramitação legal com nossa coordenação. (Psiquiatra 4, grifo nosso)

A prefeitura, atualmente, como a saúde mental é pensada no município, ela não atrai

psiquiatras ao serviço. Ela não seduz o psiquiatra. Aí você pode dizer assim “Então... por

que você não pega as suas trouxas e vai embora? Fazer uma outra coisa...”. Eu digo pra você porque eu acredito no projeto... acredito de uma maneira diferente. (Psiquiatra 24, grifo nosso)

A situação é merecedora de maiores investigações, quanto aos aspectos de falta de sedução ao psiquiatra. Quer dizer, o que seria sedução para uns, pode não ser para outros. Foi também dentro desse intercalado que encontramos o campo das arbitrariedades e autoridades na lida com os trabalhadores no geral. A formação dos psiquiatras também mostrou-se constituinte do processo de saída dos mesmos, a situação será melhor analisada no capítulo seguinte.

Em termos individuais, deparamos com uma situação de difícil análise, devido às particularidades dos psiquiatras na ressignificação e ressingularização de cobranças e exigências prescritivas, inclusive com relação aos processos político-ideológicos de Reforma Psiquiátrica e do MLA, conforme já elucidamos ao longo de nossa pesquisa. Nesse campo, percebe-se também a necessidade de mais pesquisas para melhor esclarecer a complexidade de nossos achados empíricos. A maioria dos psiquiatras entrevistados reclama da situação, inclusive da suposta prevalência do discurso psicanalítico e que não são valorizados em suas práticas e discursos clínicos. Por outro lado, eles também não se posicionam de forma a remontarem suas perspectivas político-clínicas em visibilidade.

Novamente, retornamos à temática do vazio de conversas sobre a atividade. Os psiquiatras acabam trabalhando solitários em meio a uma coleção de trabalhadores, onde a cronificação do fazer vai se fazendo presente, inclusive apontando para a repetição do velho

no novo - o que se mostrou uma realidade em nossas análises. Um psiquiatra vem nos dizer: “Eu saí do CERSAM por uma certa cronificação de um lugar que eu não sentia possibilidades de fazer outra coisa no meu horário de trabalho por uma falta de profissionais, eu até tinha idéias, né?” (Psiquiatra 12). Ele continua tecendo seus comentários na mesma direção, apresentado-nos uma significação para a saída de psiquiatras dos CAPS:

Eu acho que é porque eles não acham um espaço junto ao gestor pra poder haver um entendimento de que a Psiquiatria não é só medicação, principalmente na reforma. (...)

Saindo, porque pra ficar num CAPS só medicando é melhor dar um plantão no Raul Soares doze horas, porque isso fica menos cobrado, ele vai lá, dá seu plantão, atende, dá seu

Haldol com Fenergan e acaba o plantão, ele vai embora, ele não tem que se haver com o paciente... (Psiquiatra 12, grifo nosso)

O trabalhador seguinte anuncia o sentido de seu abandono do CAPS, inclusive deixando uma interrogação e reapresentando-nos a metáfora do ateliê:

Que aqui já foi um ateliê e deixou de ser. Eu quero fazer um trabalho criativo, artístico, artesanal. E não uma linha de montagem. Então, podemos voltar a transformar isso aqui em um ateliê? Podemos. Tentei, tentei e depois de um tempo eu desisti. Desisti de transformar o

CERSAM de novo em um ateliê. Aí eu falei: bom desisti e agora o que me resta? Ir embora. Por exemplo, eu acho que a retransformação desse lugar em ateliê... não sei como,

viu? (Psiquiatra 31, grifo nosso)

As duas falas abaixo reconstroem e ressiginificam saídas em momentos de partida dos CAPS. Desiste-se de trabalhar nos CAPS, mas não do processo de Reforma Psiquiátrica no geral:

Mas, foi muito interessante poder sair de lá e voltar pra um centro de saúde, como PSF, pensar essa relação do CERSAM com centro de saúde na rede, quer dizer, eu acho que a

gente circular, é uma coisa que facilita... essa coisa do trabalho não ser só um ganha pão,

né? Porque quando você fica muito tempo num lugar, você começa a se identificar com as neuras daquele lugar... com as disputas internas dos grupos, é inevitável que com o tempo isso aconteça, por isso que eu acho que, de vez em quando, é bom cê andar. (Psiquiatra 16, grifo nosso)

A trabalhadora seguinte vem estabelecer um tempo de suportabilidade das exigências de trabalho nos CAPS e apresenta a metáfora do tempo de criação e abandono do filho - o CAPS.

É tipo assim, a gente fez um filho e agora esse filho tá adolescente... e a gente tem que se haver com ele... é um filho problemático... né? Mas, que ele vai amadurecer, vai envelhecer também. Então, a gente tem que aprender a lidar com ele... e ajudar a dar um rumo na vida, entendeu? Assim... a gente não pode só pular fora não, à vezes, eu sinto isso, assim... que muita gente tá caindo fora, né? Mas, a gente não deve fazer isso, a gente deve insistir e

achar um caminho. (Psiquiatra 2, grifos nossos)

Não encontrando caminhos de sentido para continuarem nos CAPS, o abandono vai se refazendo, repetidamente, figurando elementos importantes do mecanismo da (alta)

rotatividade: processos gerenciais, atritos e adoecimentos, conforme já elucidamos: “(...) profissionais... que vêm e ficam aqui um tempo e saem... as licenças de muitos profissionais que têm adoecido, né? Eu tô repetindo isso aqui diversas vezes...mas... isso demonstra esse desconforto... já houve diversos atritos entre colegas aqui dentro do CERSAM” (Psiquiatra 22).

A rotatividade aqui é muito grande, é pressão demais, realmente, por parte da ... da... eu acho que excesso de trabalho, pressão também por parte da gerência e tudo... muitas

vezes a gerente se coloca, vamos dizer assim... ela se põe numa posição muito autoritária e,

muitas vezes... num tô só fazendo críticas, tem lá as virtudes dela, é claro que tem, é uma pessoa austera... e tudo, mas muitas vezes, ela coloca, vamos dizer assim, ela é autoritária,

assim... age de uma maneira autoritária, ríspida e a coisa, muitas vezes, não é colocada

assim... num diálogo não e sim numa coisa impositiva, tem que ser feito assim, né?

(Psiquiatra 22, grifo nosso)

Agora, o que chamamos de alta rotatividade? Primeiro, podemos dizê-la decorrente do processo repetitivo do abandono, mas o campo de investigação é muito complexo, ou seja, percebemos que são várias as nuanças que fazem parte desse mecanismo, porém, apresentamos um recorte de análise, que se aplica aos CAPS estudados, com exceção de um deles.

Em termos numéricos, por exemplo, a entrada e saída, em média, é de 25 psiquiatras dentro de um dos CAPS num período de 4 anos, sendo que a média de tempo do psiquiatra num CAPS tem sido, aproximadamente, de dois a três anos, porém, neste referido CAPS, houve relatos de psiquiatras que ficaram somente três meses.

A rotatividade foi analisada mais detalhadamente, em termos ergonômico- ergológicos, dentro de um dos CAPS estudados. Vejamos de perto o processo em questão que engendrou a alta rotatividade neste local. Revisitamos todos os campos do CAPS, referentes ao trabalho e encontramos uma imensidade de problemas. Alguns foram mais esclarecidos, outros deixaram-nos com respostas incompletas de sentido. O processo que localizamos foi dividido em três tempos: “o antes da crise, a crise, e o depois da crise”, segundo os entrevistados. Que crise seria essa? Esse foi o primeiro desafio.

Caminhamos em nossas investigações e a situação foi se desvelando em partes. Primeiro, antes da crise: o momento em que o trabalho ocorria em coletividade, coincidente aos primeiros anos de implantação do referido CAPS. Segundo, a crise: a quebra do coletivo. Por último, o depois da crise que, consequentemente, confirmou o mecanismo da alta rotatividade e estigmatização do mesmo CAPS. Se na crise a equipe foi, praticamente, toda trocada, recentemente, a situação é outra: o coletivo ainda não se restituiu, mas o trabalho tem sido ressignificado em outros moldes. Com relação ao “antes da crise”, nossas

considerações já foram contempladas no capítulo: a coleção e o coletivo de trabalho, quando localizamos um fazer-juntos de trabalhadores. Aqui, os achados de pesquisa são da mesma ordem.

Portanto, do que se tratava a crise? Um desafio. Nesse sentido, encontramos mais interrogações do que explicações. A situação ultrapassou nossa compreensão como pesquisadores. Disseram os trabalhadores e ex-trabalhadores de desrespeitos por todos os lados do CAPS: alguns explícitos e outros mais velados, “perversamente”, dizendo. Concretamente dizendo, o momento político-partidário da crise era favorável aos peleguismos, ao favoritismo. Na intenção de desmantelar o coletivo de trabalho - que, no imaginário dos gestores da época, era entendido como trabalhadores-problema, para não dizer “petistas” -, houve um “atravessamento político”. Ou seja: “Porque eu acho que vinha de cima pra baixo... que as coisas não foram discutidas coletivamente... tudo que vem de cima pra baixo e que não é discutido coletivamente, não é consensual, eu não acredito que possa dar certo!”(Psiquiatra 13). Assim, a gerente da época foi substituída, cedendo lugar a outras substituições gerenciais. Enquanto isso, grupos foram se constituindo e aquela gerente anterior também tomou o seu partido político-grupal. Disseram alguns trabalhadores: “privilégios para uns, para outros, o trabalho”. Esse foi o lema das trocas gerenciais que aconteceram. Daí, as relações interpessoais se complicaram: as palavras foram sendo esticadas (moldadas pelo poder em forma de narcisismos interpessoais) sob o limbo do “fuxico”, das prevaricações, das “tiranias”:

Quer dizer, já falei do momento atual, do início... houve um período em que tava tudo bom né? Foi um auge mesmo... tava bom de se trabalhar... mas a coisa foi se desfazendo... muito por essa coisa que eu falei anteriormente... da relação entre as pessoas, não pela capacidade... das pessoas, pela capacidade técnica... pela dificuldade das pessoas

conseguirem se interagir... tiranias... as discussões deixaram de ser coletivas... ficaram mais

individuais... então... tanto que houve um grande adoecimento no local, físico, psíquico... de grande parte da equipe. (...)Questões políticas, ideológicas, políticas, inicialmente... e questões gerenciais... que aí vem... que é a mesma coisa que falar de questões políticas... né? O gerenciamento é um cargo político. Acho que a coisa começou a ficar muito cheia de

protocolos... uma palavra que eu detesto sabe... eu queria colocar aqui sabe... querer colocar tudo num certinho... isso, ou isso, portanto é isso, faz isso, você não pode fazer isso... sabe,

houve algumas dificuldades nesse sentido. (Psiquiatra 13, grifos nossos)

Depois de instaurada a crise, veio a seguinte consequência:

As pessoas se adoeceram mesmo, o ambiente ficou insuportável de trabalhar... como você vai trabalhar num ambiente que você não cumprimenta o seu colega, né? Complicado. Sem ter ninguém pra fazer essa intermediação, as pessoas não precisam nem se amarem, nem se

odiarem no trabalho... elas estão ali pra trabalhar e precisam ter uma relação, pelo menos,

cordial... e educada. (Psiquiatra 13, grifos nossos)

Rompidas as relações pessoais, o adoecimento foi grande e a equipe foi toda trocada, praticamente. Também, como consequência, o CAPS entrou num processo de remontagem do

“resto”, porém, em moldes de hospital psiquiátrico: setorizado e fragmentado em lugares de tratamento separatistas. Se antes existia um coletivo de trabalhadores, mesmo com grandes diferenças entre eles, depois da crise, coleções de trabalhadores foram se formando. Os espaços físicos foram literalmente delimitados e reocupados: o espaço do ambulatório, do acolhimento e da permanência-dia, porém, com a interrupção de conversas sobre a atividade. A “ocasião de palavra” inexistia. Em consequência da crise, os novos psiquiatras chegavam e deixavam o serviço muito rapidamente, o tempo era de compreensão do caos, em seguida de partida. Instalou-se a alta rotatividade.

Dá pra discutir o serviço a partir de um caso? Dá, mas nem sempre... né? Prioridades pra determinadas pessoas ou não, determinadas pessoas podem ir... tão liberadas da reunião...

outras não... né? A agenda de fulano num pode marcar ninguém, mas as do outro pode... esse tipo de coisa. Essa coisa aconteceu, acontecia. E aí ficou insustentável, tanto que a equipe

toda... saiu do serviço, só tem uma pessoa, de nível superior, que continua na equipe, que tá lá desde 1996... E as pessoas que foram chegando, os psiquiatras que foram chegando, vêm com uma outra formação... com um outro olhar né... eu acho que são pessoas muito

mais farmacológicas, mais biológicas, menos com o social, trabalhando menos a inserção do louco ali na sociedade, no mundo, na vida. (Psiquiatra 13, grifos nossos)

O novo psiquiatra que chegava era aquele que repetiria a prescrição de pacientes que estavam há mais de dois anos com a mesma prescrição medicamentosa, sendo, esporadicamente, “visto” por um outro trabalhador, menos pelo o trabalhador/psiquiatra. O outro que chegava, a ele era contado o caso daquele paciente para que ele soubesse, no mínimo, alguns detalhes da passagem daquele paciente pelo CAPS e, em seguida, refazer a prescrição. Só não era esclarecido aos psiquiatras que chegavam no serviço, a história que levou à fragmentação do coletivo de trabalho. Assim, os psiquiatras que entravam não topavam a empreitada. Até que, mediante, este processo repetitivo de recepção de psiquiatras, poucos começaram a permanecer um tempo maior, uma vez que se encaixaram na setorização (de espaços do ambulatório, da PD e da urgência), reproduzindo o velho modelo no “novo” (fragmentado). Coisas do tipo: “eu só faço ambulatório...”, “eu só atendo a urgência...”, “eu tô na permanência-dia...”. Em nossas análises sobre o processo de alta rotatividade deste CAPS, compreendemos que estes últimos psiquiatras tamponaram o vazio da conversação.

Voltamos ao CAPS, num terceiro momento da pesquisa. Pelo viés da restituição do real, pelo trabalho real, percebemos que as velhas significações do “trabalho coletivo” perdido encontram-se em refazimento através do restabelecimento de conversas sobre a atividade: um campo ergológico-ergonômico instituinte de sentido de novas investigações.