CAPÍTULO 2 – DESIGUALDADES REGIONAIS EM ANGOLA 2.1 Histórico e Periodização da Economia Angolana
2.1.4 O Aparecimento do Crescimento Propriamente Dito
Segundo o Ministério das Finanças, em 2004, as tendências negativas começaram a mudar, sendo já visíveis sinais de crescimento efetivo, observando-se um aumento no PIB nacional de 43,7%. As tendências gerais de crescimento dos setores produtivos confirmaram-se, igualmente comprovadas pela variação no volume das intenções de investimento privado aprovadas, as quais e segundo informações da Agência Nacional do Investimento Privado, passaram de 180,1 milhões de dólares em 2003 para 364,3 milhões de dólares em 2004, ou seja, uma variação de 102,3%.
“No entanto, não se registrou qualquer alteração estrutural na economia, continuando os setores petrolíferos (52%) e diamantíferos (entre 3 e 5%) a dominarem o processo de geração anual de riqueza. Os elevados preços do petróleo e o aumento da produção tiveram um importante contributo para o aumento do PIB em dólares correntes e para o incremento das importações. O saldo positivo da balança comercial ficou a dever-se, ao desempenho positivo da extração de petróleo, já que as vendas internacionais de diamantes diminuíram entre 2003 e 2004 em cerca de 132 milhões de dólares” (MINFIN, 2006).
No essencial a estrutura econômica nacional, manteve-se sem sinais de modificação de 2003 a 2004, continuando a extração de petróleo a deter mais de 50% do valor global do PIB. Com o aumento da produção do petróleo a nível nacional e, com constante subida do preço do barril de petróleo no mercado internacional a economia nacional continuou a apresentar taxas de crescimento muito elevadas, o PIB atingiu 30 mil milhões representando uma taxa de crescimento de 20,6%, em 2005 (MINFIN, 2006).
Para além dos benefícios do fim da guerra e da estabilização política, a excelente performance ou desempenho do crescimento do PIB nos últimos anos é explicada, acima de tudo, por um contexto muito favorável no mercado do petróleo, com o preço do barril a subir de USD 30 para valores próximos de USD 70 entre o final de 2002 e 2007.
Este contexto favorável tem sido por sua vez, potenciado por um aproveitamento crescente dos recursos petrolíferos do país entre outras. Desde cerca de 750 mil barris/dia em 2000, a produção de petróleo terá aumentado para cerca de 2 milhões de barris/dia (mb/d) atualmente (MINFIN, 2006 & MINPLAN, 2007). Ainda, segundo desses ministérios, espera-se que este output mantenha uma tendência crescente nos próximos anos, atingindo cerca de 3 mb/dia no final da década. Com as reservas comprovadas de crude estimadas em cerca de 5 mil milhões de barris, Angola deverá poder manter níveis de produção elevados pelo menos até à década de 2020.
A perspectiva favorável para a economia angolana baseia-se também no forte crescimento potencial dos recursos naturais (agricultura, minérios). A procura mundial de diamantes em bruto tem vindo a crescer de forma contínua, estimando-se que esta tendência se mantenha ao longo da próxima década. Por outro lado, a capacidade de oferta (novas reservas) não se alterou significativamente, esperando-se uma queda de
produção nalgumas minas, em resultado do esgotamento de reservas (ex. África do Sul, Austrália).
Contudo, Angola pode desempenhar um papel fundamental na satisfação da procura mundial nos próximos anos. Os EUA, o Médio Oriente, a China e a índia são, neste momento, os principais mercados para os produtores de diamantes.
As contas públicas têm igualmente beneficiado da conjuntura favorável no mercado do petróleo, uma vez que cerca de 80% das receitas do Governo estão associadas a este setor. O saldo orçamental deverá ter atingido um excedente de 3.2% do PIB em 2006, com o contributo de um aumento de 4 p.p. do PIB nas receitas fiscais petrolíferas. Para 2007, o Governo esperava um déficit moderado, de 3.3% do PIB. A ligeira deterioração das contas públicas face a 2005 pode ser explicada pelo esforço associado ao investimento público em infraestruturas (MINFIN, 2006).
“O financiamento do déficit orçamental em 2006 e 2007 assentou, sobretudo, num aumento da dívida externa (uma tendência visível nos últimos anos, com um papel cada vez mais importante da China, e à qual são afetadas receitas futuras do petróleo). No seu conjunto (vertente interna e externa), o financiamento público líquido deverá ascender a 92.5 mil milhões de kwanzas em 2007. Espera-se, em 2007, uma amortização de dívida externa num montante de 389 mil milhões de kwanzas” (MINFIN, 2006).
Tendo em conta a expectativa de aumento da produção de petróleo e a persistência dos respectivos preços em níveis elevados, o aumento estimado das receitas petrolíferas deverá contribuir para uma redução da dívida pública nos próximos anos, com o FMI a antecipar uma queda para valores inferiores a 20% do PIB no final da década (BESA, 2007apud MINFIN, 2006).
Esta perspectiva favorável para as contas públicas está sujeito a um elevado grau de incerteza, dada á extrema dependência da evolução do preço do petróleo. Em 2006 e 2007 observa-se um aumento da despesa pública em face de 2005 (para valores ligeiramente acima de 40% do PIB), o que constitui um risco para a estabilidade macroeconômica em médio prazo e para as projeções otimistas aqui apresentadas (em particular na eventualidade de uma evolução negativa do preço do petróleo).
Mas, o forte aumento das despesas públicas é explicado, sobretudo pelo crescimento das despesas de capital, associado ao justificável esforço de reconstrução do país no período pós-guerra” (MINFIN, 2006, apud BESA, 2007 apud). No passado,
o Banco Central angolano seguiu consistentemente estratégias de financiamento monetário dos déficits, o que alimentou alguns dos principais desequilíbrios macroeconômicos um rápido crescimento da massa monetária e uma inflação extremamente elevada (superior a 300% em 2000).
“Nos anos mais recentes, a inflação tem seguido uma trajetória consistente de queda, atingindo cerca de 12% no início de 2007.11 O
Orçamento para 2007 prevê uma inflação anual de 10% para este ano. Um menor recurso aos Bancos e, sobretudo, ao Banco Central no financiamento da despesa pública contribuiu para uma desaceleração significativa da massa monetária. No entanto, o sucesso no controlo da inflação resulta, sobretudo, da "política do Kwanza forte” adotada pelas autoridades nos últimos anos e, concretizada essencialmente através de intervenções no mercado cambial suportando a divisa e, desse modo, pressionando em baixa os preços das importações - em particular, dos bens alimentares, que no seu conjunto representam cerca de 46% do índice de Preços no Consumo” (BNA, 2006 apud BESA, 2007).
No entanto, dado a perspectiva favorável para o preço do petróleo e dado o compromisso do Governo para com a estabilidade de preços a curto e médio prazo, o controlo da inflação deverá continuar a assentar, de uma forma eficaz, na manutenção de uma divisa forte. A forte queda na inflação observada nos últimos anos permitiu uma descida pronunciada das taxas de juro de referência, bem como das taxas de juro dos empréstimos da Banca comercial aos particulares e às empresas.
Segundo BESA (2007), o aparecimento de novos Bancos (com práticas e instrumentos mais sofisticados), a estabilização da economia, o maior dinamismo da atividade e uma melhoria da legislação e supervisão por parte do Banco Central deverão contribuir, no seu conjunto, para o desenvolvimento do sistema financeiro angolano, incluindo: o aumento da concorrência no setor; uma maior captação de recursos; diversificação de produtos financeiros; eventualmente, o desenvolvimento de um mercado de capitais. Os primeiros sinais desta evolução favorável são visíveis na resposta da Banca Comercial à descida das taxas de juro de referência, com uma redução significativa das taxas de juro para os empréstimos ao setor empresarial e um aumento significativo do crédito ao setor privado.
“No final de 2006, o crédito bancário à economia angolana atingia perto de 280 mil milhões de kwanzas, ou cerca de 8% do PIB. Este é um valor ainda relativamente reduzido por padrões internacionais,
11Atualmente a inflação atingiu um clímax da história em Angola, atingindo um valor pela primeira vez
mas em clara tendência de crescimento (taxa de crescimento de cerca de 90%). Entre os setores da economia, o peso do crédito bancário assume valores mais significativos nos particulares, no comércio, na indústria extrativa, nos serviços às empresas, nas atividades imobiliárias, nos transportes e comunicações e na construção” (BANCO ESPIRITO SANTO – PERSPECTIVAS ECONÔMICAS DE ANGOLA, 2007. p.12).
O BESA (2007, p.13) informa que “os Bancos estatais continuam a ter um peso importante no crédito à economia - no seu conjunto, o BPC e o BCI representam cerca de 32% do crédito total. Nos Bancos privados, destaca-se o BFA (BPI), com um peso de cerca de 24%”. Ainda segundo esse autor:
“o forte crescimento das exportações de petróleo e de diamantes permitirá a manutenção de excedentes comerciais nos próximos anos, contribuindo para que a Balança Corrente mantenha saldos positivos, com impactos favoráveis nas necessidades de financiamento externo e na evolução das reservas externas. No que se refere à Balança de Serviços e de Rendimentos deverão manter-se deficitárias (em função, respectivamente, das fortes necessidades de importação de serviços no setor do petróleo e dos elevados fluxos de repatriação dos lucros das empresas petrolíferas estrangeiras)” BESA (2007, p.14).
Por fim, realmente a partir de 2004 se começa a notar anos de glorias para a economia angolana, isto é, atingindo taxas de crescimentos galopantes de 18%, 21% e 23% nos anos de 2005 a 2007, ou seja, o crescimento propriamente dito começou neste ano. Os fundamentos externos positivos continuarão a favorecer a estabilização das principais variáveis macroeconômicas de Angola. O PIB deverá manter taxas de crescimento reais elevadas (cerca de 35% em 2007 e 16% em 2008), com o contributo dos setores do petróleo e dos diamantes e com o esforço, atualmente em curso, de investimento em infraestruturas. Esta evolução deverá ser acompanhada por um desenvolvimento do setor dos serviços, destacando-se aqui o papel do setor financeiro (BESA, 2007). 12
Nos finais de 2007, com o aproximar da crise e durante o ano da crise, o governo começou a estruturar políticas de diversificação da economia para minimizar os efeitos externos da dependência do petróleo, com vista a manter os indicadores macroeconômicos e a estabilidade da economia, que por sua vez, virão ajudar no desenvolvimento socioeconômico.
12Banco Espírito Santo (BESA): Perspectivas econômicas em Angola, 2007. Disponível em:
No aproveitar desses indicadores, se falava pouco do desenvolvimento regional do país, embora o programa do governo sobre a política do incentivo fiscal ao investimento privado no interior das províncias já vigorava. Por via de tudo isso, o subtema seguinte vai deslumbrar com pormenores a problemática do desenvolvimento regional do país.
2.2 Desigualdades Regionais em Angola: Uma análise da distribuição da