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O aplicativo A.Dot

No documento RODRIGO ANTUNES LOPES (páginas 101-106)

No Brasil, em relação aos pretendentes à adoção e as crianças aptas à adoção existe um problema complicado e de difícil solução. Embora o número de pessoas interessadas em adotar seja muito maior que o número de crianças aptas à adoção, o perfil entre eles não se corresponde.

Segundo o Diagnóstico Sobre o Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento – 202011, elaborado pelo Conselho Nacional de Justiça – CNJ, divulgado em 25/05/2020, informou que, na data do fechamento da pesquisa, em 05/05/2020, havia 5.026 crianças e adolescentes disponíveis para adoção (CNJ-g; 2020, p. 11) e 34.443 pretendentes. (CNJ-g; 2020, p. 25)

O que acontece é que os pretendentes querem adotar crianças de pouca idade, e o interesse decresce na medida em que a idade das crianças vai aumentando. De acordo com o relatório, do total de adoções realizadas, 5.204 (51%) foram de crianças de até 3 anos completos; 2.690 (27%) foram de crianças de 4 até 7 anos; 1.567 (15%) foram de crianças de 8 até 11 anos; e 649 (6%) foram de adolescentes acima de 12 anos. (CNJ-g; 2020, p. 14)

11 Disponível em: https://www.cnj.jus.br/wp-

Porém, na realidade, a grande maioria das crianças disponíveis à adoção possui idades um pouco mais avançadas que as desejadas pelos adotantes. Por isso, do total de 34.443 pretendentes cadastrados, 93,8% não estão vinculados a qualquer criança ou adolescente (CNJ-g; 2020, p. 25). Como já visto no tópico anterior, desde que coincidam os perfis, o sistema faz a vinculação automaticamente toda noite. Portanto, esse grande número de pretendentes não vinculados deve-se ao fato de que o sistema não encontrou nenhuma criança apta à adoção com o perfil indicado por esses pretendentes para que a vinculação fosse efetivada. A grande maioria dos pretendentes deseja crianças abaixo de 7 anos, por isso, 93% das crianças ou adolescentes não vinculados possuem 7 anos ou mais de idade (CNJ-g; 2020, p. 26).

Sensível a essa situação, a Corregedoria-Geral da Justiça do Estado do Paraná, Conselho de Supervisão dos Juízos da Infância e da Juventude do Paraná (CONSIJ-PR); Agência Bla Blu e Grupo de Apoio Adoção Consciente (GAACO), em parcerias com a Comissão Estadual Judiciária de Adoção (CEJA); Ministério Público do Estado do Paraná e o Tribunal Regional do Trabalho – 9ª Região, tiveram uma criativa ideia e desenvolveram o Aplicativo A.Dot.

Esse aplicativo consiste em uma plataforma digital, disponível para Android e IOS, que, utilizando os aparelhos celulares, procura, por meio de um novo mecanismo, encontrar famílias para crianças maiores, adolescentes, grupos de irmãos e acolhidos com deficiência ou problemas de saúde, que se encontram disponíveis para adoção e que não possuem pretendentes habilitados interessados.

Segundo o Manual A.Dot do TJPR12, esse tipo de estratégia foi escolhido em virtude de diversos motivos, mormente pelo fato de que 70% dos brasileiros acessam a internet por meio de celulares, além de proporcionar uma experiência mais rica, dinâmica e capaz de possibilitar notificações diretas ao pretendente. (TJPR; 2017/2018, p. 18)

Trata-se de uma forma de busca ativa, isto é, procura, especificamente, encontrar famílias para as crianças e adolescentes que, apesar de estarem disponíveis para adoção, não estão dentro do perfil dos pretendentes habilitados.

Essa estratégia de busca ativa possibilita a sensibilização daqueles pretendentes inicialmente habilitados para realizar adoção apenas de crianças menores, com idade abaixo dos 7 anos, procurando quebrar preconceitos contra a adoção de crianças maiores,

12 Disponível em: https://www.tjpr.jus.br/documents/11900/15142432/Manual_ADOT.pdf/4e0703f0-31be-52d4- 7e54-e4a7143c04b4. Acesso em: 13 jul. 2020.

adolescentes, grupos de irmãos, e os acolhidos que possuam algum tipo de doença ou deficiência, aumentando suas chances de serem adotados.

Experiências anteriores, no modelo de “busca ativa”, em outros Estados da Federação, como Espírito Santo, Pernambuco, e Minas Gerais, além de iniciativas locais, tais como o “Projeto Encontro”, realizado pelo Grupo de Apoio Adoção Consciente (GAACO), em parceria com a ONG Recriar, e o “Projeto Dindo”, das Varas de Infância e Juventude de Curitiba e Região Metropolitana, têm apresentado indicadores bastante positivos, a partir da desconstrução de estereótipos e da descoberta da possibilidade de outros perfis de adoção, voltados às crianças mais velhas, crianças com deficiências e adolescentes, inclusive os pertencentes aos grupos de irmãos. (TJPR; 2017/2018, p. 14)

O projeto visa garantir a todas as crianças e adolescentes o direito fundamental à convivência familiar, por meio da adoção, a fim de que sejam rompidas as barreiras psicológicas que impossibilitam a vinculação dos perfis distintos. Portanto, em consonância com o texto constitucional, garantindo a busca do melhor interesse do menor, tenta assegurar que sejam notados, permitindo que essas crianças e adolescentes privados da convivência familiar, ou impossibilitados de retornar ao convívio das famílias naturais, saiam da invisibilidade, sejam vistos e conhecidos por aqueles que procuram e desejam realizar o sonho da adoção, procurando, dessa forma, desfazer eventuais estereótipos e, sobretudo, permitir que os postulantes possam conhecê-los um pouco melhor.

Com o aplicativo A.dot, essa visibilidade se dará por meio da inclusão de fotos, desenhos, cartas e vídeos, por meio dos quais a criança ou o adolescente fala de si e de suas expectativas. Em geral, o conteúdo dos vídeos será gravado por voluntários selecionados e capacitados. (TJPR; 2017/2018, p. 20)

Esse projeto está em consonância com o artigo 50, § 4º do ECA, que orienta que sempre que possível e recomendável a preparação dos pretendentes incluirá o contato com crianças e adolescentes em acolhimento familiar ou institucional em condições de serem adotados. Mesmo sendo feito um contato de maneira virtual, não se pode negar que o aplicativo A.Dot é uma forma de dar cumprimento a esse artigo. Além disso, não é inoportuno ressaltar que, nesses tempos de pandemia do Covid-19, essa forma de contato virtual ganhou uma importância extremamente maior.

Nesse rumo, a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) também é respeitada. Esse diploma legislativo, em sua Seção III, Capítulo II, disciplina o tratamento de dados pessoais de crianças e de adolescentes, que passou a vigorar a partir de agosto de 2020. A

aludida Lei 13.709/2018, em seu artigo 14, dispõe que o tratamento de dados pessoais de crianças e adolescentes deverá ser realizado em seu melhor interesse. Ora, é inegável que a tentativa de encontrar adotantes para crianças e adolescentes que estão fora da faixa de idade preferida pela maioria dos adotantes é feita em prol dos próprios interesses dos adotandos.

Ressalte-se que várias providências são tomadas no sentido de proteger a criança e adolescente, ou seja, de forma nenhuma é um tipo de exposição despreparada, sendo tomadas diversas providências para que a criança ou adolescente participem do projeto.

Inicialmente, há de se destacar que é imprescindível a anuência do magistrado responsável pela Vara da Infância e Juventude responsável pelo trâmite do processo do menor, tanto no início quanto depois de realizadas as gravações.

Apesar de os trabalhos de gravação da entrevista e de filmagens serem feitos por voluntários, que não serão remunerados por isso, eles receberão previamente um manual com uma relação de perguntas a serem feitas e terão diversas orientações em relação à abordagem às crianças e ao preparo das gravações. Inclusive, uma delas é que se apresente e converse antes com a criança e adolescente a fim de lhe explicar como serão as filmagens e mostrar-se confiável. Também é importante que não seja feita nenhuma promessa ao menor, para não criar nenhum tipo de expectativa. Ademais o voluntário assinará um termo de responsabilidade da imagem que está produzindo, sendo certo que nenhuma imagem, nem mesmo dos bastidores poderá ser usada sem prévia autorização do magistrado responsável pelo respectivo processo.

Não será promovida a exposição da criança e do adolescente de modo a lhe causar constrangimento, pois, além de não se expor sua identificação, uma vez que será usado apenas o prenome, outros cuidados serão tomados para que não seja possível localizá-lo sem o auxílio da Equipe de Gestão do projeto. Por isso, nas orientações, já constarão advertências de que a gravação não deve ser feita próximo a algum monumento ou ponto histórico ou acidente geográfico que permitam a sua identificação, bem como evitar aparecer alguém, como a assistente social ou psicóloga, que possam facilitar a identificação da cidade ou a instituição em que o menor está abrigado.

As crianças e adolescentes que participarão desta ação deverão estar cientes de sua aplicabilidade, e serão incluídos apenas se aceitarem a proposta, sem que sejam compelidas a tal. Inclusive, a equipe técnica da instituição de acolhimento e auxiliares da Vara da Infância e Juventude farão uma preparação para que não sejam criadas falsas expectativas, uma vez que

a participação no projeto não garante a adoção, sendo apenas mais uma oportunidade de ser visto e conhecido.

Vários cuidados serão tomados com os adolescentes em relação à higiene e ao vestuário das crianças para que as gravações sejam as melhores possíveis. Isso não quer dizer que se pretenda passar uma falsa imagem, pelo contrário, é necessário que a gravação procure capturar a essência do menor com todas as suas peculiaridades, mostrando suas principais características de uma maneira mais honesta o possível, a fim de que também não se criem expectativas falsas em eventuais pretendentes.

Poderão acessar ao aplicativo os pretendentes, nacionais e internacionais, desde que devidamente habilitados à adoção, servidores e Magistrados autorizados do Poder Judiciário, Ministério Público e membros indicados dos Grupos de Apoio à Adoção.

Após fazer o download do aplicativo que está disponível no Google Play Store e no App Store, o interessado deverá fazer seu cadastro, indicando certas informações, como nome, o tipo de usuário que é (pretendente, membro do judiciário, membro de grupo de apoio à adoção), informar um e-mail, etc. Não se esqueça de que, após o preenchimento do cadastro, você terá que aceitar um termo de compromisso que é composto de três telas com poucas linhas de texto, mas que devem ser lidas para que se abra a possibilidade de aceitar o compromisso. Em seguida, você receberá um e-mail com a seguinte mensagem: “Você solicitou acesso ao aplicativo A.dot. Aguarde o código para validar o cadastro e ter acesso aos dados do aplicativo.”. Após a devida confirmação dos dados informados, será validado seu cadastro e você poderá acessar o aplicativo com o CPF e a senha informada.

Existe um excelente vídeo para capacitação para produção de vídeos destinado aos voluntários que realizarão as filmagens que pode ser acessado no canal do YouTube do A.Dot13. Sugere-se também que se assista a um emocionante depoimento da Adoção de Fernanda, no mesmo canal14.

O Tribunal de Justiça do Paraná – TJPR tem demonstrado uma real preocupação com o tema da adoção, talvez, por isso, tenha se destacado no Relatório Diagnóstico do SNA como sendo o Estado com maior número de adoções do Brasil, ou seja, 1.904 adoções, na frente até mesmo do Estado de São Paulo, que ficou em segundo lugar com 1724 adoções, e do Rio Grande do Sul, que ficou em terceiro lugar, com 1579 adoções. (CNJ-g, 2020, p. 19)

13 Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=TbfT6xRtVzY. Acesso em: 18 jul. 2020. 14 Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=OOH50RQa04g. Acesso em: 18 jul. 2020.

O Paraná destacou-se também por ser o Estado com o maior quantitativo de crianças e adolescentes em acolhimento familiar, que, como já visto, é bem melhor que institucional. (CNJ-g; 2020, p. 45)

Inspirado nesse brilhante exemplo do aplicativo A.Dot, o autor teve uma ideia de que, talvez, futuramente, possa ser desenvolvido um jogo de realidade virtual com o objetivo de preparar melhor aos interessados em adotar.

Esse aplicativo pode conter várias fases, auxiliando desde o momento pré-habilitação, iniciando com perguntas e informações sobre a destituição do poder familiar, a habilitação à adoção, e a própria adoção, até um momento pós-adoção.

Com certeza, o mais interessante, seria a ajuda que daria na preparação para a pós- adoção, pois, com a ajuda de experiências de pais adotivos e psicólogos, ele poderia simular algumas situações que os pais adotivos poderão enfrentar, desde as mais triviais, como alimentar o bebê, comprar roupas, calcular o quanto se gastará por mês com fraldas, matricular a criança em uma instituição de ensino, como algumas mais complexas e estressantes como disparar durante a noite imitando o choro de um bebê ou simular uma briga ou desentendimento pelo qual a criança queira sair de casa.

Para cada ação proposta o pretendente deverá tomar alguma atitude. Essas atitudes podem ser pontuadas e no final do jogo haverá um ranking. Esse programa poderá emitir um relatório no final, com sugestões de como o pretendente pode melhorar em alguma situação específica, ou, quem sabe, até mesmo ser juntado aos processos de habilitação para ajudar a confirmar que o pretendente está apto à adoção.

No documento RODRIGO ANTUNES LOPES (páginas 101-106)