UNIVERSIDADE ESTADUAL DO NORTE DO PARANÁ CAMPUS DE JACAREZINHO
CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA JURÍDICA
RODRIGO ANTUNES LOPES
O ATUAL PROCESSO DE ADOÇÃO BRASILEIRO E A IMPORTÂNCIA DO USO ADEQUADO DE NOVAS TECNOLOGIAS DIGITAIS PARA APERFEIÇOAR OS
SERVIÇOS JUDICIÁRIOS
JACAREZINHO/PR 2020
RODRIGO ANTUNES LOPES
O ATUAL PROCESSO DE ADOÇÃO BRASILEIRO E A IMPORTÂNCIA DO USO ADEQUADO DE NOVAS TECNOLOGIAS DIGITAIS PARA APERFEIÇOAR OS
SERVIÇOS JUDICIÁRIOS
Dissertação apresentada ao programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciência Jurídica (Área de Concentração: Teorias da Justiça - Justiça e Exclusão; Linha de Pesquisa: Responsabilidade do Estado: questões críticas), da Universidade Estadual do Norte do Paraná, para defesa final como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Ciência Jurídica.
Orientadora: Profª. Drª. Carla Bertoncini
JACAREZINHO/PR 2020
Au Antunes Lopes, Rodrigo
O atual processo de adoção brasileiro e a importância do uso adequado de novas tecnologias digitais para aperfeiçoar os serviços judiciários/Rodrigo Antunes Lopes; orientadora Carla Bertoncini Jacarezinho, 2020.
134 p. :il.
Dissertação (Mestrado Acadêmico Direito) - Universidade Estadual do Norte do Paraná, Centro de Ciências Sociais Aplicadas, Programa de Pós-Graduação em Ciência Jurídica, 2020.
1. Crianças e adolescentes. 2. Família. 3. Sistemas. 4. Inovação. 5. Secretaria Judicial. I. Bertoncini, Carla, orient. II. Título.
Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho, por qualquer meio convencional ou eletrônico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a fonte.
Ficha catalográfica elaborada pelo autor, através do Programa de Geração Automática do Sistema de Bibliotecas da UENP
RODRIGO ANTUNES LOPES
O ATUAL PROCESSO DE ADOÇÃO BRASILEIRO E A IMPORTÂNCIA DO USO ADEQUADO DE NOVAS TECNOLOGIAS DIGITAIS PARA APERFEIÇOAR OS
SERVIÇOS JUDICIÁRIOS
Dissertação apresentada ao programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciência Jurídica (Área de Concentração: Teorias da Justiça - Justiça e Exclusão; Linha de Pesquisa: Responsabilidade do Estado: questões críticas), da Universidade Estadual do Norte do Paraná, para defesa final como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Ciência Jurídica.
Profª. Drª. Carla Bertoncini Orientadora
Prof. Dr. Horácio Vanderlei Rodrigues Examinador 1
Prof. Dr. Marcos Cesar Botelho Examinador 2
Jacarezinho/PR, 10 de dezembro de 2020.
_________________________________________ Dr. Fernando de Brito Alves
Dedico este trabalho a minha esposa Liliane Milanezi Lopes, a minhas filhas Beatriz Milanezi Lopes e Larissa Milanezi Lopes, a quem eu sempre amei, amo e amarei. Também a minha mãe, Márcia Ribeiro Antunes, a meu pai, Adailton Ribas Lopes, e a meus irmãos, Juliano Antunes Lopes, André Antunes Lopes e Victor Prado Lopes, família na qual cresci e aprendi o amor, o respeito, a compreensão e as primeiras regras que permitiram minha formação e evolução como ser humano.
AGRADECIMENTOS
Agradeço a Deus e a todos que, de alguma forma, contribuíram para a elaboração dessa dissertação e para conclusão de meu Mestrado. Agradeço ao Tribunal de Justiça do Paraná e a meus colegas de serviço, Guilherme da Costa Diniz, Matheus Verillo Miranda Ortiz de Oliveira e Lucas Manfré pelo companheirismo diário contribuindo para o aperfeiçoamento de vários assuntos aqui tratados. Agradeço ao Meritíssimo Alarico Francisco Rodrigues de Oliveira Junior, Juiz de Direito da Vara da Família e anexos da comarca de Jacarezinho, pela compreensão e auxílio em muitas questões sobre adoção. Agradeço a todos os estagiários que passaram pela Vara da Família e anexo de Jacarezinho pela enorme ajuda, sempre com muita vontade e responsabilidade demonstrando, sobretudo nos assuntos referentes à adoção. Agradecimento especial ao Grande Mestre Rogério Cangussu Dantas Cachichi, que sempre me ajudou e me levou a participar do grupo de estudos GPCERTOS do Prof. Dr. Ilton Garcia da Costa, com quem aprendi muito e também tem meu agradecimento especial. Agradecimento especial ao Professor Paulo Machado que me incentivou a fazer o Mestrado, mesmo estudando para concursos de Cartório, além de me ajudar a superar diversas outras crenças limitantes. Também agradeço a meu Mestre de Taekwondo, Gilberto Dias de Oliveira que, com seus excelentes e rigorosos treinamentos, reforçou minha disciplina e saúde física e mental. Agradeço ao meu orientador Prof. Dr. Jaime Domingues Brito, que muito me ajudou no início dos trabalhos. Agradeço muito especialmente à Profª. Drª. Carla Bertoncini, minha orientadora, por aceitar conduzir este trabalho, pela paciência, por seu apoio, por sempre me instigar a evoluir, por me auxiliar sempre que precisei e por continuar a nos ensinar, mesmo durante a pandemia do Covid-19, permitindo que concluíssemos o curso, propiciando, em suas excelentes aulas, um grande aprendizado bem como a elaboração de uma apresentação em vídeo repleta de recursos tecnológicos. Agradeço ao Prof. Dr. Renato Bernardi, por incentivar e extrair o máximo de minha criatividade em suas excelentes aulas. Agradeço ao Prof. Dr. Valter Foleto Santin, que possibilitou que fizéssemos “mágica” com as políticas públicas. Agradeço ao Prof. Dr. Edinilson Donisete Machado e à Profª Drª Josilene Hernandes Ortolan Di Pietro por me permitir que, além de aprender com meus colegas, aprendesse comigo mesmo. Agradeço ao Prof. Dr. Jorge Sobral da Silva Maia pelos grandes ensinamentos. Agradeço ao Prof. Dr. Maurício de Aquino, por ajudar a compreender melhor o conceito de direitos humanos. Agradeço ao Prof. Dr. Paulo Henrique de Souza Freitas pelos grandes conhecimentos compartilhados. Agradeço ao Prof. Dr. Vladimir Brega Filho, pelas
orientações transmitidas. Agradeço à Profª Drª Marinez Meneghello Passos pelas noções de análise qualitativas. Agradeço à Maria Natalina da Costa pelo incansável trabalho e paciência. Agradeço ao Coordenador do Mestrado Prof. Dr. Fernando de Brito Alves, pelo excelente curso proporcionado. Agradeço à Universidade Estadual do Norte Pioneiro – UENP pela excelente oportunidade de crescimento intelectual e a todos meus colegas de turma, que muito contribuíram para minha formação. Muito obrigado a todos!
“Seu trabalho vai preencher uma parte grande da sua vida, e a única maneira de ficar realmente satisfeito é fazer o que você acredita ser um ótimo trabalho. E a única maneira de fazer um excelente trabalho é amar o que você faz.”
LOPES, Rodrigo Antunes. A utilização de tecnologias digitais para aperfeiçoar os serviços judiciários brasileiros e acelerar o processo de adoção no início da pandemia do covid-19. 2020. Dissertação de Mestrado – Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciência Jurídica – Universidade Estadual do Norte do Paraná – UENP.
RESUMO
O trabalho tem como objetivo principal demonstrar o grande potencial que o uso de novas tecnologias possui quando adequadamente utilizadas por operadores do direito capacitados, melhorando todo o Sistema Judiciário e, principalmente, acelerando e aperfeiçoando o processo de adoção. Para tanto, percorrem-se aspectos relevantes da história, para evidenciar que as crianças sempre foram tratadas com negligência, insensibilidade e crueldade, de tal forma que a invenção de um instrumento arcaico e rudimentar, como a Roda dos Expostos, pode ser considerada um grande avanço para época, evitando que fossem abandonadas no mato e servissem de comida para animais selvagens ou morressem de fome. Abordaram-se os principais institutos referentes à adoção, como a destituição do poder familiar e a prévia habilitação de pretendentes à adoção, com o objetivo de proporcionar uma compreensão mais plena do instituto da adoção, destacando-se vários fatores práticos que podem contribuir para que os procedimentos sejam mais efetivos. Em seguida, apresentaram-se diversas novidades e recursos tecnológicos que estão revolucionando o desempenho do Poder Judiciário em todo o Brasil e que foram potencializados por esse momento histórico de distanciamento social causado pela pandemia da doença denominada de Coronavírus (Covid-19). Por fim, esmiuçaram-se mais especificamente alguns dos principais recursos tecnológicos auxiliares do instituto da adoção, como o Curso de Preparação On-line disponibilizado pelo Tribunal de Justiça do Paraná, o Aplicativo A.Dot e o novo Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento – SNA. Utilizou-se, preponderantemente o método dedutivo, por meio de revisão bibliográfica, análise normativa, de produções científicas e de dados estatísticos. Todo o trabalho foi enriquecido com experiências práticas e sugestões, tornando os estudos um pouco menos teóricos e mais próximos do que acontece na realidade. Concluiu-se que o Estado tem a responsabilidade de desenvolver soluções, utilizando-se da tecnologia para melhorar seus serviços e acelerar o processo de adoção, mas os servidores também necessitam ser proativos e buscar capacitação para que possam alimentar e operacionalizar adequadamente esses sistemas, bem como extrair o melhor desses instrumentos tecnológicos. Também os pretendentes à adoção devem conhecer os procedimentos para que possam auxiliar e fiscalizar a razoável duração do processo, bem como desempenhar adequadamente a sagrada missão que pretendem exercer. Pois, é dever de todos, família, sociedade e Estado assegurar às crianças e aos adolescentes, com absoluta prioridade, a convivência familiar.
ABSTRACT
The main objective of the work is to demonstrate the great potential that the use of new technologies has when properly used by trained legal operators, improving the entire judicial system and, mainly, accelerating and perfecting the adoption process. Therefore, relevant aspects of the history are covered to show that children have always been treated with negligence, insensitivity and cruelty, in such a way that the invention of an archaic and rudimentary instrument, such as the Wheel of the Exposed, can be considered a great advance to the time, preventing them from being abandoned in a bush and serving as food for wild animals or starving to death. The main adoption institutions were approached, such as the destitution of family power and the previous qualification of applicants for adoption, with the objective of providing a fuller understanding of the adoption institute, highlighting several practical factors that can contribute to procedures to be more effective. Then, several innovations and technological resources were presented, which are revolutionizing the performance of the Judiciary throughout Brazil, and which were enhanced by this historic moment of social distance caused by the pandemic of the disease called Coronavirus (Covid-19). Finally, some of the main auxiliary technological resources of the adoption institute were examined more specifically, such as the Online Preparation Course made available by the Paraná Court of Justice, the A.Dot Application and the new National Adoption and Reception System - SNA. The deductive method was used predominantly, through bibliographic review, normative analysis, scientific productions and statistical data. All the work was enriched with practical experiences and suggestions, making the studies a little less theoretical and closer to what happens in reality. It was concluded that the State has the responsibility to develop solutions, using technology to improve its services and accelerate the adoption process, but, the servers also need to be proactive and seek training so that they can properly feed and operate these systems, as well as extracting the best from these technological instruments. Adoption applicants must also know the procedures so that they can assist and supervise the reasonable duration of the process, as well as adequately perform the sacred mission they intend to exercise. For it is the duty of all, family, society and the State to ensure children and adolescents, with absolute priority, family life.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1: A Roda dos Expostos 1 ... 29
Figura 2: A Roda dos Expostos 2 ... 29
Figura 3: Projudi ... 77
Figura 4: Robôs substituem estudantes japonesas em cerimônia de formatura afetada pelo Coronavírus em 28/03/2020 BBT UNIVERSITY ... 88
Figura 5: Ju, o primeiro robô humanoide do Brasil ... 89
Figura 6: Sala de Descompressão ... 95
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
Art. Artigo
BBT University Business Breakthrough University
CC Código Civil
CEJA Comissão Estadual Judiciária de Adoção
CF Constituição da República Federativa do Brasil
CLT Consolidação das Leis do Trabalho
CNA Cadastro Nacional de Adoção
CNCA Cadastro Nacional de Crianças Acolhidas
CNJ Conselho Nacional de Justiça
COE-nCoV Centro de Operações de Emergências em Saúde Pública CONSIJ Conselho de Supervisão dos Juízos da Infância e da Juventude
Covid-19 Coronavírus
CPC Código de Processo Civil
CPF Cadastro de Pessoa Física
DUDH Declaração Universal de Direitos Humanos
ECA Estatuto da Criança e do Adolescente
e-SAJ Sistema de Automação da Justiça
ESEJE Escola dos Servidores do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná
EUA Estados Unidos da América
FEBEM Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor
FUNABEM Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor
GAACO Grupo de Apoio Adoção Consciente
IA Inteligência Artificial
IJUSLAB/ES Laboratório de Gestão e Inovação do Espírito Santo JFES Justiça Federal Seção Judiciária do Espírito Santo
JFPR Justiça Federal do Paraná
JFRS Justiça Federal Seção Judiciária do Rio Grande do Sul
LINO Laboratório de Inovação
LIODS Laboratórios de Inovação, Inteligência e Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
nº número
OCDE Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento
OMS Organização Mundial de Saúde
ONG Organização Não Governamental
ONU Organização das Nações Unidas
PDF Formato de Documento Portátil
PGI Programa de Gestão da Inovação
PJe Processo Judicial Eletrônico
PROJUDI Processo Eletrônico do Judiciário
SAIJ Serviço de Auxílio à Infância e Juventude
SAM Serviço de Assistência ao Menor
SARS-CoV-2 Síndrome Respiratória Aguda Grave Coronavírus2
SIJE Sistema Inteligente de Juizados Especiais
SNA Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento
SSP/PR Secretaria de Segurança Pública do Paraná
TJPR Tribunal de Justiça do Paraná
TJRR Tribunal de Justiça de Roraima
TJRS Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul
TST Tribunal Superior do Trabalho
UENP Universidade Estadual do Norte do Paraná
UNICEF Fundo das Nações Unidas para a Infância
UNINTER Centro Universitário Internacional
UNIVIRTUS Ambiente Virtual de Aprendizagem do Centro Universitário Internacional
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 15
2 CONHECER O PASSADO PARA CONSTRUIR UM FUTURO MELHOR ... 21
2.1 Um tratamento histórico de descaso e sofrimento ... 22
2.2 Descaso e sofrimento também na História do Brasil ... 27
2.3 A Roda dos Expostos ... 28
2.4 Mudanças de tratamento no período do Império e na República Brasileira ... 32
3 OS PRINCIPAIS INSTITUTOS REFERENTES À ADOÇÃO ... 37
3.1 A complexa questão da Destituição do Poder Familiar ... 37
3.1.1 A tentativa de manutenção da família natural ou extensa ... 38
3.2 Habilitação à Adoção ... 56
3.2.1 Requisitos para Habilitação à Adoção ... 56
3.2.2 Procedimentos para a Habilitação à Adoção ... 60
3.3 A Adoção ... 66
4 A EVOLUÇÃO DAS TECNOLOGIAS DIGITAIS E SUAS MÚLTIPLAS APLICAÇÕES NO SISTEMA JUDICIÁRIO ... 72
4.1 O Processo Eletrônico ... 75
4.1.1 Quando a criatividade e a atualização fazem toda a diferença ... 77
4.2 O Teletrabalho ... 81
4.3 Videoconferências ... 84
4.4 Justiça 4.0 – Inteligência Artificial e soluções tecnológicas utilizadas pelo Tribunal de Justiça de Roraima ... 89
4.5 Laboratórios de inovação ... 91
5 INSTRUMENTOS TECNOLÓGICOS AUXILIARES DA ADOÇÃO ... 97
5.1 Curso de Preparação para Adoção On-line do TJPR ... 97
5.2 O aplicativo A.Dot... 100
5.3 O Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento - SNA ... 105
5.3.1 A possibilidade do pré-cadastro no SNA pelos próprios pretendentes ... 106
5.3.2 Acesso ao sistema pelo próprio pretendente ... 115
5.3.3 Colorindo com significado ... 116
5.3.4 Vinculação da criança apta à adoção em um dia ... 118
5.3.5 Nem tudo são flores ... 120
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 122
APÊNDICE A - Breve histórico do cadastro de pretendentes à adoção da Vara da Infância e Juventude da comarca de Jacarezinho ... 134
1 INTRODUÇÃO
A Constituição da República Federativa do Brasil, em seu artigo 226, deixa evidente a importância da família ao preceituar que ela é a base da sociedade e que tem especial proteção do Estado.
Tal fato reflete a preocupação do legislador em assegurar ambiente propício ao desenvolvimento, em estrutura que irá se tornar o primeiro ponto de identificação social de uma pessoa. (DIAS, 2016, p. 656)
No mesmo sentido, em seu artigo 227, a Constituição determina que é dever do Estado, da família e da sociedade assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à convivência familiar. Assim, a família, a sociedade e o Estado não apenas devem buscar meios para efetivação dos direitos mencionados, como devem fazer isso com absoluta prioridade, sendo que, o termo por absoluta prioridade deve ser entendido de forma que a criança e o adolescente sempre deverão estar em primeiro lugar na escala de preocupação dos governantes. (VERONESE, 2006, p. 15).
Isso acontece porque a convivência familiar é imprescindível para uma melhor estruturação e formação do caráter do indivíduo, ou seja, do ser em desenvolvimento, pois é nas relações familiares que se aprende a conviver com outras pessoas, a seguir regras, nesse ambiente seguro é que normalmente se desenvolvem a empatia, o respeito e outras tantas virtudes extremamente necessárias ao sadio desenvolvimento da pessoa em sociedade. Nela começam a ser plantadas as sementes da solidariedade, do amor, da tolerância e da compreensão, valores tão escassos e necessários na atualidade. Portanto, a convivência familiar consiste em um direito fundamental e essencial para o crescimento saudável do ser humano.
A família sempre desempenhou um papel relevante na vida do homem, não apenas na forma pela qual ele se relaciona em seu meio, mas também por priorizar a sua plena realização pessoal com base no afeto, na busca pela felicidade, no respeito à dignidade da pessoa humana e em seus direitos fundamentais. (PADILHA, BERTONCINI; 2017, p. 119)
Ainda, a Constituição Federal em seu artigo 1º, III, ressalta o princípio da dignidade da pessoa humana, descrevendo-o como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil. Para que uma pessoa cresça dignamente, obrigatórios são os vínculos familiares, já que não se pode considerar digna a falta de respeito a direitos tão fundamentais como o da convivência familiar.
Não apenas na Constituição brasileira estão expostos esses direitos das crianças e adolescentes, mas também em tratados internacionais. Como exemplo, pode-se citar a Convenção Sobre os Direitos da Criança, promulgada pelo Decreto nº 99.710/1990, que retrata a necessidade de os Estados-partes reconhecerem e assegurarem à criança os direitos e cuidados necessários a seu bem-estar e desenvolvimento.
Ademais, pode-se citar o Estatuto da Criança e Adolescente como uma das mais importantes legislações na defesa das crianças e adolescentes no Brasil. Nesse viés, a Lei nº 8.069/1990, que instituiu o Estatuto da Criança e do Adolescente, determina que é direito da criança e do adolescente ser criado e educado no seio de sua família e, excepcionalmente, em família substituta.
Com a entrada em vigor da Lei 12.010/09, ou ainda mais recentemente a Lei 13.509/2017, evidenciou-se ainda mais a necessidade de o Estado investir em mecanismos capazes de garantir a convivência familiar a todas as crianças e adolescentes hoje institucionalizados.
Constata-se, portanto, que a convivência familiar consiste em um direito fundamental de todas as crianças e adolescentes, possuindo bases sólidas na Constituição Federal, em tratados internacionais, bem como em legislações infraconstitucionais, razão pela qual deve ser garantida pelo Estado pela sociedade e pela família.
Entretanto, na prática, não é isso o que se vê acontecer. Na dura realidade, constatam-se inúmeras violações aos direitos desconstatam-ses constatam-seres que, por sua natureza, são vulneráveis.
Esforçando-se no intuito de combater essas mazelas e tentar acelerar e efetivar a consecução dessas garantias constitucionais, internacionais e legais, o Estado tem se utilizado cada vez mais de recursos tecnológicos. Isso ficou claro na substituição dos processos físicos pelos virtuais em quase todo o Judiciário brasileiro, o que, além de uma grande economia com materiais de escritório e benefícios ao meio ambiente, revigorou e imprimiu muito mais velocidade a um moroso e burocrático Sistema Judiciário.
E não só isso, hodiernamente, a internet iniciou uma verdadeira revolução. Seu uso tem diminuído distâncias e facilitado muitos procedimentos que antigamente eram extremamente demorados e repletos de formalismos desnecessários.
A importância do uso de recursos tecnológicos ficou ainda mais cristalina nesse momento em que o mundo enfrenta uma terrível pandemia. Ressalte-se que segundo o Boletim Epidemiológico 03, do Centro de Operações de Emergências em Saúde Pública (COE-nCoV), da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, o agente
etiológico foi oficialmente denominado, quanto à doença, de Coronavírus (Covid-19) e quanto ao vírus, foi intitulado de síndrome respiratória aguda grave cononavírus2 (SARS-CoV-2). (BRASIL, 2020, p. 6)
Não é descabida a afirmação de que uma das mazelas sociais mais graves, repugnantes e perniciosas consiste nos abusos de genitores com relação a seus filhos e filhas. Muitas crianças e adolescentes são abandonados, malcuidados, explorados sexualmente, violentados física e psicologicamente por seus pais, traumatizados e expostos a diversas situações periclitantes que podem resultar na perda do poder familiar.
Para proteger essas crianças, muitas vezes, não resta alternativa ao Estado a não ser retirá-las de suas famílias biológicas, colocando-as em instituições coletivas denominadas de abrigos ou casa lar. Porém, dessa solução acabam decorrendo vários efeitos colaterais, pois, as crianças e adolescentes têm violado seu direito de conviver em família, além disso, estudos realizados pelo psicanalista René Árpad Spitz, como se verá adiante, indicam que quanto mais tempo uma criança fica desprovida de uma relação familiar, mais intenso é o trauma sofrido e maior o comprometimento de seu desenvolvimento físico e psicológico.
Portanto, urge ao estado a colocação dessas crianças em uma família substituta que, de acordo com o artigo 28 do Estatuto da Criança e Adolescente, far-se-á mediante guarda, tutela ou adoção.
Consequentemente, muitos aplicativos e sistemas foram e estão sendo desenvolvidos, na intenção de aperfeiçoar e acelerar o processo de adoção, cabendo ao Estado fomentar, implementar e fiscalizar o uso dessas tecnologias. A compreensão e competência para fazer uso dos sistemas e aplicativos, que agilizam os procedimentos e diminuem as distâncias, aproximando os menores aptos à adoção dos pretendentes habilitados a adotar, são indispensáveis para se conquistar a eficiência e conseguir melhorar essa realidade, trazendo inúmeras vantagens para a sociedade em geral.
Como exemplos de sistemas que auxiliam no processo de adoção, podem ser citados o Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento – SNA, desenvolvido pelo Conselho Nacional de Justiça – CNJ, e o aplicativo A.Dot, desenvolvido pela Corregedoria-Geral da Justiça do Estado do Paraná.
O uso da tecnologia tem um potencial enorme para contribuir, aperfeiçoar e acelerar o processo de adoção, porém, diversas impropriedades são constatadas no decorrer da prática jurisdicional, uma vez que muitas crianças acabam abandonadas nos abrigos, crescendo sem a proteção e os valores do amor familiar.
Infelizmente, na prática quotidiana, pode-se constatar que os sistemas são muito mal alimentados pelos servidores responsáveis por tais tarefas. Em contato com esses servidores, alguns alegaram não terem recebido nenhum tipo de treinamento para utilizar os sistemas, outros diziam que estavam sobrecarregados de serviços, não sendo possível dar a devida atenção àquele procedimento específico, mas também houve aqueles casos em que ficaram transparentes a negligência e a despreocupação na execução de mais uma atividade entre tantas outras que possuíam.
Diante dessas diversas incoerências, verificou-se uma grande carência de conhecimento e treinamento dos operadores do direito para trabalhar adequadamente com esses sistemas e aplicativos, uma vez que, muitas vezes, não receberam nenhum tipo de curso para executarem seus serviços, nem tiveram a necessária proatividade para procurar sua própria formação, levando um já sobrecarregado Sistema Judiciário a diversas diligências desnecessárias e improdutivas, mormente nos processos de adoção.
Os sistemas também demonstravam a necessidade de um rápido desenvolvimento, sobretudo o anterior Cadastro Nacional de Adoção – CNA, cuja ineficácia era tão escancarada que, já no ano de 2019, foi substituído pelo Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento – SNA, que trouxe consigo diversas melhorias.
Inconformado com esse cenário inaceitável, o objetivo principal do presente trabalho consiste em demonstrar o grande potencial de melhoramentos que o uso de novas tecnologias adequadamente utilizadas por profissionais capacitados podem trazer a todo o Sistema Judiciário e, principalmente, acelerar e aperfeiçoar o processo de adoção, mas que está sendo subutilizado em virtude de uma incapacidade de manejo eficaz por parte dos servidores.
Além disso, o estudo ressalta a responsabilidade do Poder Judiciário em prestar um serviço eficiente, de fiscalizar sua utilização, capacitar seus servidores e fomentar o desenvolvimento de novas tecnologias e mecanismos a fim de garantir os direitos que são previstos a todos os cidadãos, mormente às crianças e aos adolescentes.
Tal pesquisa adquire especial importância, em virtude do grande descaso que a criança sempre sofreu durante toda a história da humanidade, mas, sobretudo nas não raras hipóteses em que o Estado, por meio do Poder Judiciário, é obrigado a destituir o poder familiar de pais irresponsáveis e que não cumprem com seu dever, retirando uma criança de uma família desestruturada e encaminhando-a para um abrigo, no qual ela, muitas vezes, passa toda a sua infância e juventude, por não ser adotada, sendo que, ao completar 18 anos, terá que enfrentar as vicissitudes do mundo sozinha, desprovida de uma família para servir-lhe de apoio e
suporte, além de possuir muitos traumas advindos de seu desenvolvimento incompleto em virtude de um ambiente insalutífero.
As questões que serão abordadas trarão reflexões importantíssimas acerca da imprescindibilidade de se acompanhar o desenvolvimento tecnológico, principalmente para se aperfeiçoar e agilizar o processo de adoção, bem como a necessidade de se impor um treinamento adequado para aqueles que irão manusear essa tecnologia, procurando garantir às crianças e aos adolescentes seu direito fundamental à convivência familiar.
Ainda, apresentar-se-ão alguns dos principais institutos relacionados à adoção, como a destituição do poder familiar e a habilitação para adoção, destacando-se seus principais preceitos.
Procurar-se-á identificar os principais sistemas e aplicativos que estão sendo utilizados hodiernamente para aperfeiçoar todo o Judiciário, sobretudo para acelerar o processo de adoção, buscando-se esclarecer seus principais objetivos e sugerindo novas possibilidades para a adoção.
Pretende-se também ressaltar a necessidade de se fomentar adoções de crianças com idade um pouco mais avançadas, bem como apontar novos mecanismos hábeis a instigar uma maior possibilidade de interação do pretendente à adoção com o adotante que possua um perfil que já tenha ultrapassado a idade predileta ou que, devido a algumas de suas características, são a priori, mesmo sem nenhum tipo de contato ou apresentação, sumariamente rejeitadas.
Com o intuito de tornar o presente trabalho o mais completo possível, na investigação realizada, enfatizou-se o método de pesquisa indutivo, com a utilização de análises normativas e comparativas, partindo de situações específicas para se chegar a conclusões gerais, não se eximindo, em alguns momentos oportunos, do auxílio de outros métodos de procedimentos científicos apropriados. Além disso, utilizou-se a técnica de pesquisa de revisão bibliográfica, consultando-se grandes e consagrados autores do direito e da psicologia, bem como, dados de instituições públicas e privadas, publicados na rede mundial de computadores ou divulgados em trabalhos de outros pesquisadores.
Para o enriquecimento da obra com análises qualitativas, apresentaram-se ainda diversas experiências empíricas ocorridas na Vara da Infância e Juventude da comarca de Jacarezinho, relatando-se algumas das dificuldades enfrentadas, bem como as soluções encontradas e utilizadas para a resolução de situações práticas, para que esses registros não se dissipem e possam servir de orientação para outras serventias ou operadores do direito
interessados nesse assunto. É claro que essas soluções apresentadas não são estagnadas ou insuscetíveis de variações, podendo existir respostas diferentes ou até mais apropriadas, sendo certa a necessidade de constantes atualizações, haja vista os infinitos fatores que podem influenciar nos resultados e a dinâmica modificação das situações sociais. Nada obstante, as orientações transmitidas por esse trabalho têm o desígnio de facilitar futuras tomadas de decisões, podendo servir de diretrizes ou orientações em casos semelhantes. Com isso, evita-se que, a todo momento, evita-seja necessário “reinventar a roda”, permitindo a funcionários de uma secretaria judicial e a outros operadores do direito concentrarem seus esforços em novas soluções, contribuindo na edificação de um órgão público de excelência que procurará incansavelmente sua evolução, tornando-se cada vez melhor e apta à execução de suas funções.
Sobretudo nesta época em que a tecnologia se aperfeiçoa em uma velocidade vertiginosa, muito oportuna e salutar a pesquisa sobre o uso dessas tecnologias e sistemas no Poder Judiciário, que deveriam auxiliar e acelerar um procedimento extremamente importante, mas que, muitas vezes, acaba produzindo um efeito contrário, atrasando e agravando a situação de um já sobrecarregado sistema judiciário.
Portanto, o presente estudo contribuirá não apenas analisando e informando sobre os diversos mecanismos modernos que procuram garantir o direito à convivência familiar e à responsabilidade estatal no uso dessas tecnologias, mas também, fomentará a discussão sobre o tema e trará soluções práticas que contribuirão na melhoria da qualidade e agilidade de processos relativos à adoção das crianças e adolescentes que perderam suas famílias, procurando, dessa forma, minimizar os efeitos perniciosos e traumáticos inerentes a um processo de adoção lento e ineficaz.
2 CONHECER O PASSADO PARA CONSTRUIR UM FUTURO MELHOR
Neste capítulo, abordar-se-ão, de maneira sucinta, o descaso e as condições ignóbeis com que foram tratadas as crianças no decorrer da história.
Não se pretende, com isso, dar uma falsa ideia de que houve uma evolução histórica, sempre em sentido crescente, uma vez que nem sempre isso acontece. A história é volátil e inconstante, variando sempre, de acordo com diversos fatores sociais, legais, axiológicos, religiosos, interesses dominantes, entre outros tantos.
Também não se pretende julgar de forma negativa as pessoas, os indivíduos que viveram em épocas passadas, pois, suas ações, de uma maneira geral, apenas retratavam valores correntes na época, ou seja, naquele momento histórico específico, a forma geral como as crianças foram tratadas não era repudiada, mas sim, práticas normais e recorrentes daquelas sociedades.
Espera-se dos leitores uma interpretação amadurecida para que se consigam rever fatos históricos, muitas vezes curiosos e surpreendentes, e construir um pensamento crítico, para sedimentar certezas de que certas situações não devem ser repetidas.
No caso em questão, esse estudo de fatos passados será extremamente útil para que se possa perceber a essência do raciocínio de que, em certas circunstâncias, abandonar uma criança em um mecanismo, que foi denominado como roda dos expostos, possa ser considerado um grande avanço social. Compreender o âmago desse pensamento poderá quebrar preconceitos e facilitar a aceitação do uso de novas tecnologias utilizadas, principalmente, nos casos de busca ativa.
Não se pretende falar do Código de Hamurábi, no sentido proposto pelo professor Luciano Oliveira em seu ensaio (2004, p. 10-12), ou seja, apresentar uma parte histórica desnecessária ao raciocínio e compreensão do trabalho, nem, tampouco, há a intenção de apontar nele as origens do instituto da adoção. Pretende-se, sim, deixar claro que desde a antiguidade há indícios de maus-tratos a menores, inclusive, em certos períodos, com a previsão de penas de mutilação para crianças que ousassem desafiar seu pai adotivo.
Não obstante, seguir-se-ão os conselhos de Oliveira ao trazer para este trabalho várias experiências práticas do que realmente acontece nas secretarias judiciais durante o uso de tecnologias nos trâmites dos processos de adoção. (OLIVEIRA, 2004, p. 24)
Entende-se que o conhecimento de certos aspectos da história mostra-se imprescindível para deixar claro que os direitos das crianças nem sempre foram respeitados da
forma como são hoje e que é preciso defendê-los sempre, para que certas situações não voltem a se repetir. Conhecer o passado pode evitar e afastar injustiças praticadas e erros grotescos, indicando caminhos mais seguros a seguir.
Nesse sentido, afirma Norberto Bobbio:
Do ponto de vista teórico, sempre defendi – e continuo a defender, fortalecido por novos argumentos – que os direitos do homem, por mais fundamentais que sejam, são direitos históricos, ou seja, nascidos em certas circunstâncias, caracterizados por lutas em defesa de novas liberdades contra velhos poderes, e nascidos de modo gradual, não todos de uma vez e nem de uma vez por todas. (BOBBIO, 2004, p. 55)
Dessa forma, os novos institutos jurídicos devem, dentro do plausível, analisar as situações de forma holística, completa, para que sempre se extraia a melhor solução possível e não se corra o risco de que certas omissões resultem em retrocessos de direitos e garantias fundamentais.
Enfim, tenciona-se demonstrar que direitos, tão recentemente conquistados, devem ser preservados, defendidos e discutidos, sempre pensando no maior interesse das crianças e dos adolescentes, rechaçando eventuais possibilidades de involução.
2.1 Um tratamento histórico de descaso e sofrimento
Para melhor absorver e interpretar a importância da adoção, mostra-se oportuno um estudo, ao menos em aspectos gerais, de como os menores foram tratados e qual era a importância das crianças para a sociedade em outras épocas.
Portanto, apresentar-se-á uma visão geral de alguns aspectos da história relacionados às crianças e aos adolescentes, ou seja, um pouco da Babilônia, outros aspectos da Roma antiga, passando pela Idade Média e chegando até nossos tempos.
Hodiernamente, é notório e de conhecimento geral que a criança e o adolescente são sujeitos de direitos e, como tais, reconhecidos nacional e internacionalmente. Todavia, nem sempre isso foi assim.
Já na Babilônia antiga, os filhos adotivos eram submetidos a tratamentos que hoje seriam considerados odiosos.
No Oriente Antigo, o Código de Hamurábi (1728/1686 a.C.) previa o corte da língua do filho que ousasse dizer aos pais adotivos que eles não eram seus pais, assim como a extração dos olhos do filho adotivo que aspirasse voltar à casa dos pais biológicos (art. 193). Caso um filho batesse no pai, sua mão era decepada (art. 195).
Em Roma, conforme Pereira (2008), os recém-nascidos eram entregues a uma espécie de família substituta, na qual existiam pessoas específicas para amamentá-los e educá-los. Constituíam a “vice-família”. Ainda assim, o jantar era considerado algo cerimonial, por isso, sempre jantavam com seus pais. Talvez, por isso, este seja um costume que se prolatou no tempo, comum em muitas famílias até hoje. Nas casas ricas, a vice-família morava no campo, portanto, não existiam laços familiares muito grandes entre pais e filhos.
Segundo Philippe Ariès e Georges Duby:
O nascimento de um romano não é apenas um fato biológico. Os recém-nascidos só vinham ao mundo, ou melhor, só eram recebidos na sociedade em virtude de uma decisão do chefe de família; a contracepção, o aborto, o enjeitamento das crianças de nascimento livre e o infanticídio do filho de mãe escrava eram práticas usuais e perfeitamente legais. Só serão malvistas e depois, ilegais, ao se difundir a nova moral que, para resumir chamamos de estoica. Em Roma um cidadão não ‘tem’ um filho: ele o ‘toma’, ‘levanta’ (tolkre); o pai exerce a prerrogativa, tão logo nasça a criança, de levantá-la do chão, onde a parteira a depositou, para tomá-la nos braços e assim manifestar que a reconhece e se recusa a enjeitá-la. (ARIÈS; DUBY, 2009, v. 1, p. 21)
No Direito Romano, outra situação interessante era a inexistência da maioridade legal, isto é, não havia menores, mas “impúberes”, os quais deixavam essa situação quando o pai ou tutores chegassem à conclusão de que eles estavam na idade de tomar as “vestes viris”. Porém, mesmo assim, o filho permanecia subordinado à autoridade paterna e só seria um “pai de família” depois da morte do pai, este sim o detentor do Pátrio Poder. Esse sistema de pátrio poder foi gradualmente atenuado, mormente a partir do século III d. C..
Durante a Idade Média, continuou a opressão familiar. Esse período foi marcado pela ideia de que as crianças deveriam acompanhar o destino dado à mãe, salvo os bebês oriundos da burguesia que continuavam sob a amamentação das amas-de-leite, instaladas nas moradias dos patrões. Esses dados apresentados por Roberto Senise Lisboa (1993) são acrescidos com a informação de que a mortalidade dos filhos aumentava especialmente junto aos camponeses e, nos períodos das pestes, dada a fragilidade das crianças e a pouca proteção que lhes era
dispensada. Destaca o autor os elevados índices de infanticídios por enforcamento e o número considerável de abandonos, esclarecendo que poucos eram os filhos privilegiados que recebiam meios de se desenvolverem física, mental e socialmente.
Durante toda a Idade Média, o detentor do pátrio poder era visto como um ser sacrossanto. Seu poder se impunha de forma marcante, exercendo um controle total sobre os filhos. A relação pai e filhos se caracterizava por um profundo respeito e uma inteira reverência. Toda falta, toda rebelião, injúria e negligência era legitimamente punida pelo próprio pai ou pela justiça pública.
O que começou a mudar esse quadro foi o aparecimento de uma grande preocupação com a educação. Esse interesse incentivou vários eclesiásticos e juristas, a partir dos séculos XVI e XVII, a iniciarem uma verdadeira moralização da sociedade. Ensinavam aos pais que eles eram guardiões espirituais e responsáveis, perante Deus, pela alma e, até mesmo pelo corpo de seus filhos.
Elizabeth Badinter (1985) destaca um fenômeno especial no último terço do século XVIII: a imagem da mãe, de seu papel e de sua importância, modifica-se radicalmente. A partir de 1760 inúmeras publicações recomendavam às mães cuidar pessoalmente dos filhos e lhes “ordenavam” amamentá-los. Com isso, começa a se deslocar o foco ideológico da autoridade para o amor, ressaltando-se a importância da mãe.
Outro fator de considerável importância e que influenciou muito a história da proteção infanto-juvenil ocorreu a partir do século XVIII, na Europa, com as grandes navegações. Iniciou-se, então, um levantamento demográfico da população, inclusive crianças abandonadas e prostitutas, visando ao seu proveito como forças potenciais, sobretudo, na povoação das colônias.
O Estado esforçava-se para manter vivas as crianças abandonadas, até mesmo isentando de serviço militar a aldeia que quisesse cuidar dessas crianças até que entrassem para o Exército, no qual seriam obrigadas a servir até 25 ou 30 anos. Dessa forma, substituíam o marinheiro e o soldado que custavam mais ao Estado do que o custo anual de uma criança. Diante disso a criança tornava-se um valor mercantil em potencial e, portanto, sua importância começava a aumentar.
Nessa mesma época, o discurso da igualdade e da fraternidade de Rousseau demonstrava uma preocupação com a criança e o poder dos pais, partindo da ideia da família como única sociedade natural. Da mesma forma Voltaire demonstrava o interesse do homem pela felicidade não como uma questão individual, mas diante da possibilidade de vivê-la na
coletividade. Essas ideias impuseram modificações políticas e sociais consideráveis na Europa daquele período.
Cabe destacar que, a partir do século XVIII, foi criado um sistema de ensino duplo, em que cada ramo correspondia não a uma idade, mas a uma condição social: o liceu e o colégio para os burgueses (o secundário) e a escola para o povo (o primário). A criança, que antes não era objeto de grandes preocupações e zelo, passa a ser o centro da atenção dos pais. Esse cuidado inspira novos sentimentos, nascendo assim a família moderna.
Desse modo, a escola e a família preconizada levaram a diversas exigências para as crianças. Um sistema educacional que lhes infligiu o chicote, a prisão e outros castigos corporais, antes reservados apenas aos condenados.
Na Europa do século XIX, a correção paterna e os castigos corporais se tornaram cada vez mais populares e essa situação apenas começou a ser contestada no final do século, sendo amplamente usada até 1935. “Nesse ano, um decreto-lei elimina o encarceramento, mas mantém o internamento, similar àquele em virtude da situação calamitosa das instituições correcionais”. (Airès e Duby, 2009, p. 280)
Não é inoportuno ressaltar que a Revolução Francesa trouxe uma maior proteção à infância, mas especificamente ao bastardo. Isso principalmente como desdobramento do princípio da igualdade por ela amplamente defendido. Roberto Senise Lisboa (1993, p. 455) elucida que esse período marca a facilitação da adoção e a limitação do chamado direito de corrigir, que tinha o detentor do Pátrio-Poder. O pensamento protetivo do menor ganhou mais corpo nas esferas civis e penais com a prevenção, inclusive, da delinquência juvenil.
Mas, foi no século XX que os direitos das crianças começaram a ser mais efetivamente reconhecidos. É o século da descoberta, valorização, defesa e proteção da criança. Nele, foram formulados os seus direitos básicos, reconhecendo-se, com eles, que a criança é um ser humano especial, com características específicas, e que tem direitos próprios. (MARCÍLIO, 1998, p. 47)
O Fundo das Nações Unidas para a Infância - UNICEF foi criado no dia 11 de dezembro de 1946. Seu objetivo é defender e proteger os direitos de crianças e adolescentes, procurando ajudar a atender suas necessidades básicas e contribuir para a criação de condições para o seu desenvolvimento, sendo que em 1965, o UNICEF recebeu o Prêmio Nobel da Paz. (UNICEF, 2020)
Em 1945 é fundado o Conselho Econômico e Social das Nações Unidas. Após a Segunda Guerra Mundial, em 1946, este Conselho recomenda a adoção da Declaração de Genebra numa tentativa de chamada de atenção para os problemas das crianças surgidos no pós-guerra, e nesse mesmo ano é fundada a UNICEF – United Nations International Children's Emergency Fund. (GONÇALVES, SANI; 2013, p. 188)
Após os horrores cometidos durante a Segunda Guerra Mundial, surge uma convicção geral de que as atrocidades perpetradas pelo nazi-facismo deveriam ser evitadas a todo custo. Para tanto, fez-se necessário adoção de normas comuns, fundamentadas no reconhecimento dos direitos humanos e que deveriam ser respeitadas por todos os Estados nacionais. Então, em 10 de dezembro de 1948, a Assembleia Geral da recém-criada Organização das Nações Unidas aprova a Declaração Universal dos Direitos Humanos - DUDH. (MARCÍLIO, 1998, p. 48).
Vladimir Brega Filho (2002, p. 17) realça que os direitos humanos proclamados pela Assembleia Geral das Nações Unidas na Declaração Universal dos Direitos do Homem são inerentes à pessoa humana, revelando que a sua existência independe de qualquer vontade ou formalidade.
“Sendo assim, não há discussão que, se os Direitos Humanos envolvem a universalidade de pessoas da humanidade, os grupos vulneráveis estão presentes no raio de atuação destes.” (JUNIOR, BERNARDI; 2019, p. 82)
Portanto, em seu artigo XXV, item 2, a Declaração Universal dos Direitos Humanos preconiza que “a maternidade e a infância têm direito a cuidados e à assistência especiais. Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozarão da mesma proteção social.”
Não obstante, provavelmente, um dos maiores avanços na luta pelos direitos das crianças e adolescentes ocorreu em 20 de novembro de 1959, com a proclamação da Declaração Universal dos Direitos da Criança, também conhecida como Declaração de Genebra dos Direitos da Criança, em virtude do reconhecimento de sua grande vulnerabilidade e que, por isso, merece absoluta prioridade na defesa de seus direitos.
O ano de 1959 representa um dos momentos emblemáticos para o avanço das conquistas da infância. Nesse ano, as Nações Unidas proclamaram sua Declaração Universal dos Direitos da Criança, de significativo e profundo impacto nas atitudes de cada nação diante da infância. Nela, a ONU reafirmava a importância de se garantir a universalidade, objetividade e igualdade na consideração de questões relativas aos direitos da criança. A criança passa a ser considerada, pela primeira vez na história, prioridade
absoluta e sujeito de Direito, o que por si só é uma profunda revolução. (MARCÍLIO, 1998, p. 49)
Ante o exposto, pode-se observar que apenas recentemente os menores tiveram uma proteção realmente mais efetiva, que teve inicio quando se passou a reconhecer na educação e na igualdade a importância que elas realmente possuem. Infelizmente, somente depois das barbáries e horrores repugnantes perpetrados durante a segunda guerra mundial que o conceito de direitos humanos ganhou força, e a sociedade reconheceu que as crianças têm direito a cuidados e à assistência especiais, devendo ter seus direitos prioritariamente defendidos.
Observando o longo caminho percorrido até que se alcançasse a doutrina de proteção integral, percebe-se que as mudanças ocorridas e os direitos conquistados foram frutos de muita luta e persistência. Portanto, os direitos das crianças e adolescentes não podem ser menosprezados, sob pena de se correr o risco de serem enfraquecidos e relegados a um segundo plano. Esse passado de descaso nunca deve ser esquecido, para que as crianças e adolescentes nunca mais tenham que suportar abusos semelhantes aos que foram submetidos no decorrer da história.
2.2 Descaso e sofrimento também na História do Brasil
Para que se tenha uma visão mais completa e profunda, denota-se conveniente estreitar um pouco o tema e estudar também como foram tratados os direitos das crianças e adolescentes no Brasil.
A trajetória da criança e adolescente no Brasil é marcada por diversas privações e dificuldades. Ao estudá-la evidenciam-se diversos problemas enfrentados por elas, tais como, maus tratos, abusos sexuais, mortalidade infantil, miséria, fome, crianças sem teto, sem família, escrava do trabalho, isso tudo sendo causado por negligência do Estado, da família e da sociedade em geral. (HENICK; FARIA, 2015, p.5)
As crianças abandonadas no Brasil eram quase que exclusivamente preocupação da Igreja. Valiosas foram as contribuições da religião em relação à infância e à juventude, mormente nos primeiros anos da colonização brasileira.
Porém, de uma maneira geral, não existia um conceito de proteção e sentimento em relação à criança, isto é, elas eram consideradas como se fossem animais, ainda mais os filhos dos escravos, cuja força de trabalho era aproveitada enquanto durassem suas curtas vidas, pois tinham uma expectativa de vida muito baixa.
Pode-se dizer que no Brasil nossa história de colonização e dominação construiu o pertencimento das crianças de forma diferente. Além disso, no que tange ao tipo de relação intergeracional direcionado às crianças, crianças escravizadas eram colocadas muito cedo numa posição de exploração perante adultos brancos. (LIBARDI; CASTRO, 2017, p. 899)
Durante o período escravocrata, a mortalidade infantil era muito alta. Algumas vezes, as próprias mães praticavam infanticídio no intuito de livrar seus filhos da sofrida vida de escravo.
Já na época da escravidão o destino das crianças que sobreviviam da decorrência de diversos fatores, como os abortos por maus-tratos, a alta mortalidade infantil em virtude das péssimas condições do cativeiro e os infanticídios praticados pelas mães como forma de livrar seus filhos da escravidão. (POLETTO, 2012, p. 2)
Em decorrência da forma insana como eram tratadas as crianças, um mecanismo de tecnologia bastante rudimentar foi inventado e utilizado para tentar minorar um pouco esse problema. Passar-se-á a um rápido estudo desse aparelho.
2.3 A Roda dos Expostos
Como visto, a falta de condições sociais, a miséria, a necessidade e outros tantos fatores levavam a uma situação calamitosa de abandono e falta de cuidado com as crianças.
Diante disso, uma infinidade de crianças eram jogadas em rios ou deixadas ao tempo, ali morriam por ataques de animais, doenças ou fome.
O fenômeno de abandonar crianças é muito antigo, na época da Colônia muitas crianças eram largadas por diversos fatores, tais como falta de recursos financeiros, filhos fora do casamento, escravas que tinham filhos com seus senhores e entre outros, e então depois que nasciam as mulheres precisavam dar um “fim” na criança, momento no qual aconteciam os casos
de bebês jogados em becos, lixeiras, nas portas de outras famílias, igrejas. (HENICK; FARIA, 2015, p.7)
Com o intuito de tentar minimizar essa situação ultrajante, foi criado um estranho e rudimentar mecanismo denominado de Roda dos Expostos ou Roda da Misericórdia.
Figura 1: A Roda dos Expostos 1
Fonte: Palavras em Transe1
Figura 2: A Roda dos Expostos 2
Fonte: Roda dos Expostos: Primeiro programa de assistencialismo à criança
1726 - 19502
Tratava-se de um cilindro de madeira ou metal colocado nos Conventos e Casas de Misericórdia a fim de receber crianças enjeitadas, fruto de gravidezes indesejadas ou do abandono e do desespero.
A pessoa que abandonava a criança deixava-a nesse cilindro e evadia-se do local sem ser notada ou reconhecida. Normalmente, quando a criança começava a chorar, alguém do estabelecimento buscava o bebê e prestava-lhe os primeiros cuidados.
Esse mecanismo teve sua origem em Portugal, no período em que antecedeu à sua implantação no Brasil.
1 Disponível em: https://medium.com/resenhas-analises-e-criticas/a-roda-dos-expostos-da-idade-media-ao-seculo-xxi-e31714c68d4b. Acesso em: 04 jun. 2020.
As primeiras instituições de assistência direta à criança abandonada, em Portugal, foram criadas mediante os esforços conjuntos da sociedade, do clero, e da coroa. Destaque-se aqui a iniciativa das mulheres da alta nobreza, infantas e rainhas apoiadas no surgimento das Confrarias de Caridade, instituições de assistencialismo mútuo com a finalidade de colocar em prática as Obras de Misericórdia narradas pelo papa Inocêncio III no século anterior. (MARCÍLIO, 1997, p. 56)
Além desse mecanismo, havia ainda uma intrincada rede de atendimento, composta por várias pessoas com funções específicas.
Em Portugal, dependendo da importância econômica do lugar, autorizava-se a contratação de funcionários encarregados de recolher os recém-nascidos abandonados em lugares públicos. Eram os “pais dos enjeitados” ou “pais dos meninos”. (VENÂNCIO, 1999, p. 26)
Pode-se identificar, nessa função, um serviço público praticado para auxiliar as crianças que eram abandonadas.
No século VII, o Senado e a Câmara já incluíam mulheres no exercício destas funções. Suas residências cumpriam o papel de estabelecimento de acolhida, sendo ponto de referência para todos os que destinassem os filhos à caridade pública. (VENÂNCIO, 1999, p. 26)
Não apenas os homens tinham suas funções, mas principalmente as mulheres contribuíam nesse auxílio. Ressalte-se ainda o registro desses bebês e também o papel do Juiz dos Órfãos em escolher pessoas para cuidarem dessas crianças.
Inscritos no “Livro de matrícula dos expostos”, cabia ao “Juiz dos Órfãos” indicar tutores para os enjeitados, bem como, velar para que eles não fossem transferidos de domicílio sem prévia autorização como determinavam as ordenações do reino de 1603. (VENÂNCIO, 1999, p. 26)
Cumpridas as formalidades, o bebê era entregue à ama-de-leite, paga as expensas da municipalidade, por um período de três anos; finda a época da amamentação, o menino ou menina permanecia na casa da ama que a partir desta data tinha o salário reduzido, sendo contratada como “ama-seca” até que os “expostos” completassem sete anos. Atingida a “idade da razão”, o “juiz dos Órfãos” deveria dá-los aos lavradores para que “servissem deles para guardar o gado, bestar e outros serviços, quando lhes cumprir, contando que, principalmente, os ocupassem nas lavouras”. (Ordenações, Livro 1, título 88). (VENANCIO, 1999, p. 27)
A partir do Século XVIII, entre os anos de 1710 e 1720, é que foi implantada no Brasil a Roda dos Expostos. A estrutura funcional tomou por base a mesma gestão utilizada em
Portugal, todavia, com algumas adaptações, ou seja, surgiram de acordos entre as Câmaras locais e as Santas Casas, as quais, com recursos doados por benfeitores ou fruto de contratos, passavam a cuidar das crianças mediante o pagamento de uma soma anual.
O dia-a-dia da Roda era da responsabilidade da “Ama-seca”, também conhecida como “Rodeira”; cabia-lhe a função de entregar as crianças às “amas-de-leite” internas; as crianças permaneciam um tempo reduzido nas instituições, sendo logo entregues às “amas-de-fora”, também conhecidas como “amas-do-termo” as quais cuidavam das crianças até que completassem sete anos. As “amas-de-empréstimo” eram encarregadas de levar as crianças do hospital para as “amas-de-fora”. Juntamente com os visitadores e mordomos elas compunham o corpo de fiscalização do sistema das Rodas. Na realidade, o organograma de instalação das “Rodas Hospitalares Coloniais” nunca se instalou efetivamente conforme a orientação da Coroa Portuguesa. (VENÂNCIO, 1999, p. 29)
Não obstante a Roda dos expostos ter sido um meio encontrado para garantir o anonimato do expositor, protegendo a imagem de senhores burgueses que, de forma cômoda, colocavam na roda filhos enjeitados, possivelmente, para proteger interesses mesquinhos de herança ou outras conveniências sociais e egoístas, não há como negar que ela também evitava que bebês enjeitados fossem abandonados em caminhos, bosques ou jogados no lixo, como era o costume naquela época, o que fazia com que tivessem um fim ainda mais trágico, pois acabavam morrendo de frio, fome, desnutrição, ou mesmo, devorados por todo tipo de animais.
Dessa forma, é muito importante que se compreenda que, embora a Roda dos Expostos não seja uma solução ideal, ela retrata um avanço, pois se conseguiu, por meio do uso de uma tecnologia bastante rudimentar, precária e cheia de defeitos, uma melhora considerável na forma de tratamento que se dispensava aos diversos bebês enjeitados, pois, agora, havia uma forma menos gravosa de conduta, que se não fosse a melhor, ao menos permitia uma possibilidade de sobrevivência e, sobretudo, um comportamento menos indigno, principalmente se comparado à opção que era comumente utilizada na época, ou seja, o abandono em bosques e florestas para um fim tormentoso e cruel.
2.4 Mudanças de tratamento no período do Império e na República Brasileira
Durante o período imperial, a situação começou a mudar, principalmente com relação aos filhos da nobreza, todavia, com relação aos filhos dos escravos, a situação continuou muito precária.
Nesse sentido, afirma André Viana Custódio (2009, p. 11) que em 1822, século XIX, o Brasil foi marcado pela rígida divisão de classes, na qual a nobreza descobriu a infância de suas crianças, mas os escravos tiveram de esperar algumas décadas para esse reconhecimento.
Passou-se a dar atenção à educação, à saúde, e à assistência das crianças, todavia, como afirma Josiane Rose Petry Veronese (1999, p. 26) não se pode desconsiderar que a herança político-social das raízes coloniais brasileiras e a manutenção da escravidão tiveram grande influência numa estrutura hierarquizada que visava a uma unificação do território nacional, a defesa de suas fronteiras e nutrido de um forte poder centralizador, no qual a criança tinha pouca importância.
Gradativamente a infância passou a ser reconhecida como uma etapa do desenvolvimento, o que embora melhorasse a situação dos menores, isso não ocorria de maneira igualitária.
Essa situação serviu para demarcar uma radical diferença de classe, privilegiando as crianças da elite mediante o reconhecimento de uma identidade própria e particular que se afirmou diante dos demais segmentos estigmatizados como órfãos, expostos, menores (MAUAD, 2000, p.25).
Durante o Império, não obstante ter havido uma melhora considerável em relação aos filhos dos burgueses, o mesmo não ocorreu em relação aos filhos dos pobres e dos escravos, os quais foram quase que totalmente ignorados. Sua importância se resumia à exploração de seu trabalho, principalmente frente ao modelo liberal que se fortalecia em busca do progresso, com a instauração da República.
Desse modo, em 1888, a abolição da escravidão não significou a abolição da exploração do trabalho das crianças, mas tão somente substituiu um sistema por outro, considerado mais legítimo e adequado aos princípios norteadores da época.
Pior, com a abolição da escravatura, multiplicaram-se as crianças que circulavam pela cidade em busca de comida. Essas eram tidas como “baderneiras”, ou seja, a presença da pobreza incomodava a classe alta, pois tais crianças traziam consigo a “criminalidade”, furtando a beleza e a paz social (CUSTÓDIO, 2009, p. 14)
Não é inoportuno ressaltar que, segundo Maria Luiza Marcílio (1998, p. 52), em 1900, a demografia brasileira era predominantemente rural e tinha um perfil de áreas agrícolas atrasadas, com altíssimos índices de natalidade, aliados a igualmente altíssimos índices de mortalidade. A partir de então, iniciaram-se as mudanças estruturais marcantes. Destaque-se que, segundo a autora, a mortalidade infantil foi a primeira taxa a cair de forma contínua e sustentada, graças aos avanços científicos e tecnológicos importados das áreas mais desenvolvidas.
O pensamento daquela época era no sentido de que as correções nas ações e condutas das crianças deveriam ser realizadas o quanto antes para que, no futuro, pudessem se transformar em adultos honestos e cidadãos melhores. Nesse diapasão, em 1927 foi aprovado o Código de Menores, que tratou um pouco mais especificamente do Direito do Menor no ordenamento jurídico brasileiro.
O Código de Menores de 1927 representava a elite dominante da época. Carregado de um conteúdo moral, surgiu para resolver os “incômodos da delinquência”, ignorando por completo as desigualdades sociais e a exploração econômica. Veronese (1999, p. 28) ensina que o código instituía uma perspectiva individualizante do problema do menor: a situação de dependência não decorria de fatores estruturais, mas do acidente da orfandade e da incompetência de famílias privadas, portanto culpabilizava de forma quase que exclusiva a desestrutura familiar.
Por meio do Decreto-Lei nº 3.779, em 1941, foi criado o Serviço de Assistência a Menores – SAM com o escopo de proporcionar amparo social aos menores desvalidos e infratores, em todo o território nacional. Tinha-se como meta centralizar a execução de uma política nacional de assistência, desse modo, o SAM se propunha a ir um pouco além do caráter normativo do Código de Menores de 1927. (VERONESE, 1999, p. 32)
Além de se preocupar com o aspecto corretivo, o Serviço de Assistência a Menores era bem intencionado, pois possuía alguns objetivos de natureza assistencial, destacando a importância de estudos e pesquisas, bem como o atendimento psicopedagógico às crianças e aos adolescentes carentes e com problemas de conduta. No entanto, o SAM não conseguiu cumprir suas finalidades, devido à sua estrutura truncada, emperrada, sem autonomia e sem flexibilidade, bem como a métodos inadequados de atendimento, que geraram revoltas naqueles que deveriam ser amparados e orientados. (VERONESE, 1999, p.32)
Assim sendo, o SAM funcionava de forma equivalente a um sistema penitenciário voltado para os menores de idade, com separação entre os
adolescentes que teriam praticado ato infracional e o menor abandonado. Para o primeiro, era feita a internação em reformatórios ou em casas de correção, enquanto que os abandonados eram encaminhados para aprender algum ofício. (OLIVEIRA, 2017, p. 348)
Essa forma de tratamento dos menores fatalmente acabou sendo desacreditada uma vez que não surtia os efeitos desejados.
Diante disso, atendendo a exigência da sociedade em relação ao descrédito em que caiu o Serviço de Assistência ao Menor – SAM, em 1º de dezembro de 1964 foi criada a Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor – FUNABEM. Competia à FUNABEM formular e implantar, em todo o território nacional, a Política Nacional do Bem-Estar do Menor. A partir daí, criaram-se as Fundações Estaduais do Bem-Estar do Menor (FEBEM), com responsabilidade de observarem a política estabelecida e de executarem, nos Estados, as ações pertinentes a essa política.
“Essas diretrizes estabelecidas pela Fundação Nacional do Bem-estar do Menor (FUNABEM) eram contrárias aos métodos aplicados pelo Serviço de Assistência a Menores (SAM). Elas visavam à garantia de programas direcionados à integração da criança e do adolescente na comunidade”. (OLIVEIRA, 2017, p. 249)
Dessa forma, o estado se resumia por meio do assistencialismo, em criar instituições próximas de famílias para “cuidar” das crianças, ou seja, estas eram retiradas de suas famílias “desestruturadas” e colocadas a conviver com pessoas que não conheciam, tudo pelo “bem da nação” (CUSTÓDIO, 2009, p.19).
No final da década de 1970, a FUNABEM era alvo de profundas críticas. Dentro desse cenário ,surge o Código de Menores de 1979, Lei nº 6.697, de 10 de outubro de 1979, no Ano Internacional da Criança. Surge, então, um novo termo: “menor em situação irregular”, que, segundo CUSTÓDIO (2009, p. 35) dizia respeito ao menor de 18 anos de idade que se encontrava abandonado materialmente, vítima de maus-tratos, em perigo moral, desassistido juridicamente, com desvio de conduta e ainda o autor de infração penal.
“Destarte, o Código de Menores de 1979, Lei nº 6.679/79, vigorou no Brasil objetivando a proteção e a assistência da criança e do adolescente.” (OLIVEIRA, 2017, p. 350)
O Código de Menores de 1979 não possuía nenhuma grande novidade em relação ao que foi o Código de Menores de 1927, não reconhecendo nenhum direito novo aos menores. Portanto, embora tivesse uma aparência de inovação, a doutrina da situação irregular retratava a imposição de um modelo que reduzia a criança a mero objeto e não sujeito de direitos.