Uma das formas de aproveitamento dos recursos tecnológicos que está se transformando na mais utilizada atualmente consiste no teletrabalho.
Seu uso no Poder Judiciário não é tão recente assim. O Tribunal Superior do Trabalho foi o primeiro órgão do Judiciário a aderir ao teletrabalho, implementado em 2012 como projeto piloto e efetivado em 2013. (TST, 2020).
A previsão legal para o teletrabalho no setor privado pode ser encontrada no artigo 6º da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), uma vez que afasta as distinções entre o trabalho realizado no estabelecimento do empregador, o executado no domicílio do empregado e o realizado a distância, desde que estejam caracterizados os pressupostos da relação de emprego.
Todavia, a Reforma Trabalhista (Lei 13.467/2017) introduziu um novo capítulo na CLT dedicado especialmente ao tema: é o Capítulo II-A, “Do Teletrabalho”, com os artigos 75-A a 75-E). (TST, 2020).
O art. 75-B, da CLT considera teletrabalho a prestação de serviços preponderantemente fora das dependências do empregador, com a utilização de tecnologias de informação e de comunicação que, por sua natureza, não se constituam como trabalho externo, sendo que o comparecimento às dependências do empregador para a realização de atividades específicas que exijam a presença do empregado no estabelecimento não descaracteriza o regime de teletrabalho.
Não obstante o Tribunal Superior do Trabalho ter sido o pioneiro no uso do teletrabalho, outros Tribunais também começaram a fazer uso dessa forma de trabalho, cada um com seu regulamento institucional próprio.
Diante disso, a fim de uniformizar o teletrabalho em todo o país, o Conselho Nacional de Justiça – CNJ, por meio da Resolução nº 227 de 15/06/2016, regulamentou o teletrabalho no âmbito do Poder Judiciário, ressaltando, entre suas considerações, que o avanço
tecnológico, notadamente a partir da implantação do processo eletrônico, possibilita o trabalho remoto ou a distância.
A referida Resolução não obriga os tribunais brasileiros a adotarem programas de teletrabalho, sendo que cada órgão pode editar regulamentações próprias sobre o tema, em virtude de suas peculiaridades e características de gestão. Entretanto, as regulamentações de cada tribunal não podem contrariar os dispositivos previstos na Resolução nº 227/2016, devendo estar em consonância com o regramento e as diretrizes do CNJ. (LIMA, 2018, p. 44)
Em decorrência disso, vários Tribunais de Justiça passaram a aceitar o teletrabalho elaborando regulamentos de acordo com a Resolução 227/2016 do CNJ.
O Tribunal de Justiça do Estado do Paraná – TJPR, por meio da Resolução nº 221/2019 de 08 de abril de 2019, regulamentou o teletrabalho no âmbito do Poder Judiciário do Estado do Paraná. Resumidamente, a adesão ao teletrabalho é facultativa e deve respeitar um percentual mínimo de 30% da lotação efetiva do órgão. Além disso, estabelecer-se-ão metas de desempenho e plano de trabalho entre 15% a 20% superiores àquelas dos servidores que ali desempenham atividades semelhantes, com reuniões para avaliação de desempenho e reajustes de metas, sendo que o prazo máximo que o servidor poderá permanecer em teletrabalho, será de 1 ano, permitida a prorrogação.
Diversos são os benefícios do teletrabalho que podem ser citados.
Para os tribunais, haverá um aumento da produtividade, redução de despesas em virtude de menor utilização de materiais para escritório, de mobiliário, de materiais de limpeza, economia no custo de energia elétrica e no consumo de água, redução de atrasos e faltas.
Para os servidores em teletrabalho, haverá uma melhoria da qualidade de vida, mais concentração para o desempenho de suas atividades (sem as interrupções constantes provocadas por jurisdicionados e advogados no balcão da secretaria), economia com vestuário e deslocamento até o trabalho, eliminação de riscos de acidentes entre esses deslocamentos, menos estresse no trânsito, aumento de tempo com a família, maior autonomia para organizar seu modo de trabalhar.
Para o meio ambiente, também haverá benefícios, pois menos carros circularão pelas cidades, diminuindo não apenas engarrafamentos, mas também a emissão de gases poluentes e melhorando a qualidade do ar.
Nesse sentido, também foram as conclusões de Mauro Saraiva Lima (2018) em sua dissertação para o Mestrado Profissional em Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas: “Feita essa análise, considerando ainda os outros elementos identificados na pesquisa, foi possível demonstrar que o teletrabalho gera ganhos para tribunais e sociedade, conforme a convergência das evidências apresentadas e análise dos resultados.”.
Todavia, um dos maiores benefícios, nesses tempos de pandemia, foi a possibilidade de se manter os serviços prestados pelo Poder Judiciário em andamento, mesmo mantendo o isolamento social.
Atualmente, o planeta foi assolado por uma pandemia que atingiu proporções extremamente graves. Essa pandemia ocorre em virtude da grande transmissibilidade da doença de Coronavírus (Covid-19) e da falta de remédios ou vacinas que sejam eficientes para combatê-la. Segundo o Boletim Epidemiológico 03, do Centro de Operações de Emergências em Saúde Pública (COE-nCoV), da secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, os nomes oficiais desse agente etiológico são quanto à doença, ela foi denominada doença de Coronavírus (Covid-19) e quanto ao vírus, foi intitulado de Síndrome Respiratória Aguda Grave Cononavírus2 (SARS-CoV-2). (BRASIL, 2020, p. 6)
A Covid-19, doença causada pelo vírus SARS-CoV-2, teve seus primeiros casos apresentados em Wuhan, capital da província de Hubei, na China, no final do ano de 2019. Em poucos meses, espalhou-se por todo o globo terrestre ocasionando muitas mortes, sendo que, no dia 11 de março, a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretou estado de pandemia da Covid-19. (JACOBI et al., 2020, p. 5)
Nessa situação periclitante, o teletrabalho mostrou-se extremamente eficaz para se manter o Poder Judiciário em funcionamento, sendo que diversos tribunais anunciaram dados afirmando um aumento de produtividade nesse período, como exemplo, o Tribunal de Pernambuco que reporta que a atividade desenvolvida por juízes e servidores em trabalho remoto resultou num aumento de 56,4% em decisões interlocutórias; de 14,7% em despachos; e de 8,8% em sentenças. Ou seja, comparados os períodos entre março e maio de 2019 e de 2020, o número de decisões subiu de 32.903 para 51.457; de despachos cresceu de 224.262 para 257.208; e de sentenças passou de 64.459 para 70.150. (CNJ-a, 2020)
No site do Tribunal de Justiça do Paraná - TJPR, dados de 16/03/2020 a 28/06/2020, sobre a Produtividade do Teletrabalho, informam que foram realizadas 1.348.060 decisões e 998.779 despachos, realizando um total de 2.346.839 atos, não informando o número de sentenças individualmente. (TJPR-a, 2020)
Ainda, no mesmo sentido, o site do Conselho Nacional de Justiça mantém um controle de Produtividade Semanal do Poder Judiciário em Regime de teletrabalho em razão do Covid- 19, que, do período iniciado em 16/03/20 até 28/06/20, ou seja, 15 semanas, nesta data de 06/07/2020, apresenta um total de 7.792.205 Sentenças e Acórdãos; um total de 11.970.328 decisões e um total de 20.134.541 despachos. (CNJ-b, 2020)
Sem dúvidas, os Tribunais de Justiça mais atualizados e que já utilizavam do teletrabalho estavam mais preparados para enfrentar as dificuldades exigidas pelo fechamento dos fóruns e isolamento social, em face da pandemia do Coronavírus, ao passo que aqueles Tribunais que se abstiveram de acompanhar as novidades tecnológicas foram obrigados a se adaptar de maneira muito mais precária e enfrentaram maiores dificuldades, reforçando o que já foi afirmado: atualmente não é possível ignorar as novidades tecnológicas, sob pena de ficar para trás, prestar um mau serviço, ou, até mesmo, deixar de prestá-lo.