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7.1 Antecedentes relevantes

7.1.1 O caso Franz Paul Stangl

A primeira vez que Supremo Tribunal Federal enfrentou a questão da comutação da pena perpétua em pena privativa de liberdade com prazo certo, conforme determina a lei brasileira, foi nos pedidos de extradição n.º 272, 273 e 274, do austríaco Franz Paul Stangl, efetivado pelos governos austríaco, polaco e alemão, julgados em 07 de Junho de 1967.

Acusado pelo extermínio de centenas de milhares de pessoas, em campos de concentração, durante a Segunda Guerra Mundial, Franz Paul Stangl foi preso com base em mandado de captura expedido pela Interpol.

Franz Paul Stangl era servidor da Polícia Judiciária alemã e integrante do Partido Nazista, acusado de co-autoria em crimes de homicídio em massa e genocídio em campos de extermínio na Áustria (Hartheim) e Polônia (Sobibór e Treblinka).

Mesmo tendo sido colocado na lista internacional dos criminosos de guerra, residiu algum tempo em São Paulo.

A instituição de Hartheim, sob a direção de Stangl, internava enfermos mentais, idosos, incapazes para o trabalho e adversários políticos, com o fim de eliminá-los, por vários métodos.

Segundo a acusação, 180Sobibór era um campo de extermínio dos seres humanos, sob o comando de Stangl, que possuía câmaras de gás desfarçadas em casas de banho, onde eram mortos judeus, inicialmente os doentes, idosos e as crianças, aproveitando-se os fortes para os trabalhos, que depois, tinham o mesmo fim.

Treblinka, outro campo de extermínio com câmaras de gás, também foi administrado por Stangl, lugar em que as vítimas chegavam por estrada de ferro, em comboios fechados, enganadas a fim de não suspeitarem de seu destino.

A controvérsia deve-se à omissão do Decreto- lei n.º394 de 28/04/1938, que não inseriu no rol do seu art. 12 a possibilidade de comutação da pena perpétua como condição para a entrega dos indivíduos que praticaram crimes cuja pena seja prisão perpétua.

Dispõe o mencionado artigo que:

Art. 12 A entrega não será efetuada sem que o Estado requerente assuma os compromissos seguintes:

(...)

d) comutar-se na de prisão a pena de morte ou corporal com que seja punida a infração;

Identifica-se, portanto, a previsão expressa tão-somente de comutação das penas corporal ou de morte sem qualquer referência à pena perpétua. Fato que induz ao entendimento equivocado de que a ausência dessa previsão legal retira do Supremo Tribunal Federal a responsabilidade de exigí-la do Estado requisitante quando pretender aplicá-la ao extraditando sob a custódia desta Corte.

Após apreciação e longo debate sobre a problemática, o Egrégio Tribunal decidiu extraditar Franz Paul Stangl aos Estados requerentes sob a ordem de preferência, porém condicionando sua entrega à comutação da pena perpétua em pena de prisão com prazo certo de 30 (trinta) anos.

A partir desse julgado, a jurisprudência por alguns anos pautou suas decisões, exigindo do Estado requisitante conversão da privação definitiva da liberdade em pena de prisão com o prazo de trinta anos conforme a legislação brasileira.

Note-se que, embora o Supremo Tribunal Federal tenha decidido acertadamente no sentido de proteger o direito à liberdade do extraditando, permitindo que o extraditando

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BRASIL, Supremo Tribunal Federal. Extradição n.º272. Disponível em .http://www.stf.jus.br/portal/cms/verTexto.asp?servico=sobreStfConhecaStfJulgamentoHistorico&pagina=ext27 2. Acesso em: 21 Nov. 2010. Observa Artur de Brito Gueiros Souza, que o instituto de extermínio de Hartheim, foi instalado na Áustria, em 1940, já o campo de extermínio de Sobibor, construído em 1942, no mês de março- abril e finalmente o campo de extermínio de Trblinka, também foi construído na Polônia em junho de 1942. Em Hatheim morreram cerca de 12 ou 13 mil pessoas. Em Sobibór, cerca de 250 mil pessoas de origem judaica. Em Treblinka, cerca de 730 mil pessoas, a maioria de origem judaica. SOUZA, Arthur de Brito Gueiros. Op. cit.p.71.

reconquiste seu direito à liberdade após trinta anos de cumprimento da pena privativa de liberdade, a problemática não havia sido resolvida em definitivo no ordenamento jurídico brasileiro.

A controvérsia persiste até o presente. O novo Estatuto do Estrangeiro, a Lei n.º 6.815/80, lei geral que passa a regulamentar o procedimento extradicional passivo, repete o mesmo erro do supracitado Decreto- lei, não faz qualquer referência à pena perpétua, tão- somente à pena corporal ou de morte. Veja o que preceitua o art.90:

Não será efetivada a entrega sem que o Estado requerente assuma o compromisso: (...) III- de comutar em pena privativa de liberdade a pena corporal ou de morte, ressalvados, quanto à ultima, os casos em que a lei brasileira permitir a sua aplicação.

Como se pode perceber da redação do texto legal, a omissão legislativa é patente e não deixa margem dúvida para qualquer outra interpretação. Fato que torna permanente a problemática da comutação da pena perpétua e a deixa dependente de interpretação e bom senso dos Ministros do Supremo Tribunal Federal.

Não é demais lembrar, que a pena perpétua contraria o princípio da humanidade tendo em vista que ao indivíduo é aplicada a pena sem a devida individualização, sem que este saiba o tempo certo em que deva cumprí-la. O cidadão é condenado ao “belo prazer” do Estado a permanecer o resto da sua vida no cárcere, fora do convívio familiar e da sociedade sem a esperança de um dia reconquistar a liberdade.

Como já dito, a única forma de resolver esse conflito e evitar restrição contínua do direito fundamental à liberdade de locomoção de todo e qualquer cidadão que resida no Brasil após o cometimento de crime no estrangeiro, é editar nova lei corrigindo a citada omissão.

Algo que parece estar distante de encontrar uma solução definitiva em face da ausência de debates que permitam o engajamento dos parlamentares sobre a relevância do instituto da extradição para a cooperação penal internacional.

O caso Franz Paul Stangl torna-se assim, o primeiro julgado de extradição de maior relevância no Supremo Tribunal Federal envolvendo a questão da pena perpétua. É, portanto, impossível escrever sobre a pena perpétua e a extradição no Brasil sem fazer qualquer referência a este caso histórico.

Daí porque fiz a questão de descrever nessa dissertação a trajetória percorrida por esta Corte para firmar a jurisprudência em torno da pena perpétua, modalidade de pena vedada pelo ordenamento jurídico brasileiro há várias décadas.