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7.1 Antecedentes relevantes

7.1.2 O caso Russel Wayne Weisse

Embora o Supremo Tribunal Federal já tivesse uma posição sedimentada sobre comutação da pena perpétua de extraditando que se refugiasse no Brasil, os Ministros desta Corte decidiram inovar no pedido de extradição de Russel Wayne Weisse (extradição nº 426- 3) não mais condicionar a entrega à conversão da pena perpétua em pena restritiva de liberdade não superior a trinta anos.

Condenado à pena de prisão perpétua, sem possibilidade de liberdade condicional devido a prática dos crimes de homicídio e seqüestro com o propósito de roubo, mediante uso de arma de fogo e roubo com intenção de infringir lesões graves, pelo Tribunal Superior de Califórnia (Los Angeles), Russel Wayne Weisse refugiou-se no Brasil em 1980.

Sob a presidência do Ministro Moreira Alves, o Tribunal Pleno entendeu ser desnecessária a comutação da pena perpétua em pena privativa de liberdade conforme preceitua a legislação brasileira.

Durante o debate, o que se pode perceber é que a decisão de entregar o súdito americano sem a ressalva prevista na lei pátria deve-se ao fato deste ter ingressado no país tardiamente, no momento em que já havia sido condenado e cumpria a pena nos Estados Unidos.

Entretanto, nas entrelinhas é possível identificar no argumento de alguns dos Ministros o desinteresse por tal ressalva, na medida em que ela apenas traria péssima imagem ao país. Ou seja, o país que concede refúgio e abranda pena de delinqüentes internacionais.

O Relator Ministro Rafael Mayer, atendendo à recomendação do então Procurador Sepúlveda Pertence no sentido de deferir a entrega sob o compromisso de comutação da pena perpétua, votou neste sentido.

Entretanto, o voto do Ministro Relator foi o único a favor do deferimento com ressalvas de os Estados Unidos da América converter a pena perpétua em pena privativa de liberdade conforme a legislação brasileira preceitua.

O primeiro Juiz a manifestar seu voto após o Relator, o Ministro Francisco Rezek, alegou que a lei brasileira, em absoluto, não faz outra restrição salvo aquela que tange á pena de morte. De acordo com o Ministro não se refere à lei extradicional à pena de prisão perpétua, no sentido de excluí-la em caso de deferimento da extradição. Se a lei o fizesse,

encontrar-nos-íamos – como o tratado entre o Brasil e Estados Unidos é de década de 60- numa situação de conflito real entre tratado e lei nacional superveniente.

E arremata:

No caso, porém, não há conflito real. As regras pertinentes à solução de conflito não devem ser trazidas à mesa, pela boa razão de que nada há, na lei extradicional brasileira, que diga que não se defere extradição para quem vai ser punido com pena de prisão perpétua181.

Em seguida, o Ministro Octavio Gallotti apresentou seu voto preferindo-se alegar a permanência irregular no Brasil do extraditando como motivo para sua entrega sem a comutação da pena perpétua. Menciona o Ministro:

Sr. Presidente, considerando que o extraditando não tinha residência no Brasil, aonde chegou para evadir-se da condenação já proferida no Estado requerente, acompanho o voto do eminente Ministro Francisco Rezek, para dispensar a ressalva proposta pela douta Procuradoria-Geral da República.

Como se verifica, o argumento do Ministro Gallotti carece de sustentação teórica que convença até mesmo o mais leigo em matéria jurídica. A permanência irregular de estrangeiro no território nacional não é carta branca para a violação dos seus direitos, sobretudo o direito fundamental à liberdade de ir e vir.

Por sua vez, o Ministro Sydney Sanches, ateve-se a inexistência de impedimentos de natureza legal que pudesse reverter a situação do extraditando no território nacional e permitisse a interrupção da pena perpétua que já havia iniciado seu cumprimento nos Estados Unidos da América. Argumentou o Ministro:

(...) a meu ver, nem a Constituição Federal, nem o Tratado ou Protocolo Adicional entre o Brasil e os Estados Unidos da America, nem nossa legislação extradicional ou qualquer outra estão a impedir execução (já iniciado) de pena de prisão perpétua pelo Estado requerente ao extraditando, seu nacional, por crime já praticado. No entendimento do Ministro, a clareza da legislação que regula a extradição entre o Brasil e aquele país nórdico não deixa margem de dúvidas quanto ao dever do Supremo Tribunal Federal de extraditá-lo para que ele retorne à prisão, lugar de onde ele jamais deveria ter saído.

181

BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Extradição n.º426-3. Disponível em

<http://www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/listarJurisprudencia.asp?s1=ext+426&base=baseAcordãos>. Acesso em: 11 Nov.2010.

Na análise do caso, o Ministro Aldir Passarinho, embora não tenha usado literalmente as palavras do colega Sydney Sanches, seguiu a mesma linha argumentativa para também negar a conversão da pena perpétua que cumpria Russel Wayne Weisse, em pena de prisão com prazo certo. Convém citá-lo mesmo num pequeno trecho:

De fato, o extraditando já se encontrava condenado e fugiu do país estrangeiro, para o Brasil. Procura, então, obter proteção na proibição constante do art.153§11 da Constituição, segundo a qual, no nosso país, não há prisão perpétua. (...) Foi o extraditando condenado à prisão perpétua, foge para o Brasil e pretende obter uma modificação de sua pena à base de tal circunstância. Não creio que, em tal hipótese, possa ele encontrar-se abrigo.

Ao examinar a situação do extraditando, o Ministro Oscar Corrêa também vota a favor da entrega do extraditando sem demonstrar qualquer preocupação com a natureza da pena que cumpria na sua terra natal antes de refugiar-se no Brasil, objetivando modificá-la. Salienta o Ministro:

(...) O argumento que me parece importante é o tratar-se de pena já em cumprimento, nos Estados Unidos, à qual procurou escapar o referido. De modo que não vejo, a esta, altura, como alterar condenação imposta pela Corte Americana, cujo cumprimento já se iniciara.

Lamentavelmente, restou evidente, a manifestação sincera do citado Ministro quanto à impossibilidade de impedir a continuação do sofrimento permanente a que seria submetido Russel Wayne Weisse após poucos meses de sua interrupção.

O Ministro Cordeiro Guerra, ao votar não trouxe qualquer inovação que pesasse na consciência dos seus colegas e forçasse a revisão dos seus votos. O Ministro simplesmente seguiu os votos apostos e os reforçou com o seu argumento. Para o Ministro a pena perpétua aplicada ao extraditando é uma pena adequada para os Estados Unidos de América. E sendo adequada lá, não compete ao Estado brasileiro verificar se ela é exorbitante ou não, compete tão-somente entregá-lo. No entendimento do Ministro não entregá-lo é demonstrar ao mundo que o Brasil é um Estado à margem da civilidade que aparenta ter perante a ordem internacional. Deste modo vota o Ministro:

(...) Não vejo como comutar uma pena americana, porque o delinqüente, condenado, fugiu para o Brasil. Isso seria até um desprimor para a nossa forma de civilização, e um estímulo para que nós nos tornássemos um valhacouto internacional dos delinqüentes.

Finalmente, vota o Ministro Djaci Falcão seguindo o argumento apresentado por todos outros Ministros que o antecederam na votação. Eis o seu voto:

Sr. Presidente, o extraditando já estava condenado e cumpria pena quando se evadiu e veio para o Brasil. A meu ver, é de deferir-se o pedido, sem qualquer ressalva no que toca à natureza e ao quantum da pena.

Como se vê, a proteção esperada por Russel Wayne Weisse não foi acolhida pelos Ministros do Supremo Tribunal Federal. Não é por outra razão, senão, aquela apresentada na parte inicial deste texto que a jurisprudência firmada a partir do caso Franz Paul Stangl foi ignorada pelo Egrégio Plenário.

Não deixa de ser relevante observar que, a despeito do país ter assumido o compromisso de reprimir a criminalidade comum mediante a cooperação internacional, o dever de proteger os direitos humanos é também a tarefa desta Corte.

Mesmo tendo a obrigação de entregar o extraditando aos Estados Unidos em virtude do tratado celebrado com o mesmo, a sentença deste Tribunal poderia ter sido pautada na jurisprudência dominante na época sem questionamentos daquele Estado. Afinal de contas, esta Corte tem o entendimento firmado no sentido que decisões judiciais de um Estado não podem ser questionadas por outro, em observância ao princípio fundamental da soberania dos Estados, que rege as relações internacionais. Questionar sua decisão é constrangê-lo.

Entretanto, o Tribunal Pleno dessa forma não enveredou. Decidiu tão simplesmente romper com a jurisprudência dominante e firmar uma nova a partir do caso Russel Wayne Weisse, fazendo também desse caso uma referência nesta Corte Suprema.

7.2 O novo paradigma: leading case Maurício Hernandez Norambuena

Quase duas décadas após a consolidação da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal no sentido de não exigir do Estado requerente a obrigação de comutar a pena de prisão perpétua em pena em pena privativa de liberdade não superior à trinta anos, a Suprema Corte, destemidamente, reviu a sua posição passando a exigi-la no julgamento do caso Maurício Hernandez Norambuena.

Em 26.08.2004, o Supremo Tribunal Federal, julgou o pedido de extradição n.º 855- 2, formulado pelo Governo do Chile contra o seu súdito, condenado naquele País, a 2 (duas) penas de prisão perpétua, pela prática dos crimes de homicídio, de formação de quadrilha