Uma das grandes questões discutidas nos escritos produzidos pelas Forças Armadas acerca da defesa da Amazônia refere-se à necessidade de regulamentação da denominada lei do "Abate", que é a lei nº 9.614, de 05 de março de 1998. A lei prevê a possibilidade de abate de aeronaves hostis com o chamado "tiro de destruição", sendo a Força Aérea a instituição que dispõe dos meios repressivos necessários ao seu cumprimento. Evidentemente, o tema adquire especial relevância e é mais debatido por oficiais da Força Aérea Brasileira (FAB), especialmente em uma monografia defendida na Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica (Ecemar), pelo major aviador Felipe Alberto B. Siaudzionis (2002), em que elabora uma proposta de regulamentação para a referida lei. A FAB ressente-se da falta de uma regulamentação que propicie efetividade à lei do "abate", pois perpetua uma situação em que aeronaves interceptadas respondem desdenhosamente aos procedimentos indicados.
A gênese da lei nº 9.614 se deu em 03 de novembro de 1995, quando os Ministros de Estado da Justiça e da Aeronáutica encaminharam a Exposição de Motivos nº C-004/GM3 à Presidência da República, que mencionava a necessidade de que o Código Brasileiro de Aeronáutica (CBA), a Lei nº 7.565, de 19 de dezembro de 1986, recebesse complementação a respeito do policiamento do espaço aéreo brasileiro. O documento fazia menção à atribuição da FAB em preservar a inviolabilidade do espaço aéreo pátrio, impedindo o seu uso por aeronaves e outros engenhos aéreos para a prática de atos hostis ou atentatórios contra a segurança nacional. Entre os dispositivos disponíveis citados pelo CBA, encontrava-se a determinação para que aeronaves suspeitas pousassem em aeródromos pré-determinados, com o propósito de submetê-las às denominadas "Medidas de Controle de Solo".
Entretanto, ocorria que, uma vez recebida a ordem de pouso, as aeronaves abordadas freqüentemente adotavam procedimentos evasivos, obrigando o Sistema de Defesa Aeroespacial Brasileiro (SISDABRA) a autorizar que o avião interceptador iniciasse uma série de medidas, denominadas "Medidas de Policiamento do Espaço Aéreo", com o objetivo de compeli-las a pousar. Segundo as Normas Operacionais do Sistema de Defesa Aeroespacial (NOSDA) em vigor, nessa situação, cabia à aeronave interceptadora executar o "tiro de aviso" e, em caso extremo, o "tiro de destruição", que, em tempo de paz, somente pode ser disparado quando expressamente autorizado pelo Presidente da República. Todavia, o texto do Código Brasileiro de Aeronáutica não esclarecia devidamente quais seriam as situações extremas que legitimariam o abate de aeronaves infratoras, ainda que civis.
Sendo assim a referida Exposição de Motivos propunha um projeto de lei que incluía dispositivos de coerção contra aeronaves classificadas como hostis, sujeitando- as à medida de destruição. Após os trâmites no poder legislativo, a nova lei foi aprovada no Congresso Nacional, sendo sancionada pelo Presidente da República em 05 de março de 1998, sob o número 9.614. Seu texto alterava o Código Brasileiro de Aeronáutica, precisamente ao incluir um parágrafo referente à hipótese de destruição de aeronaves. A íntegra do parágrafo do Artigo 303 da Lei nº 9.614 é a que segue.
§ 2° Esgotados os meios coercitivos legalmente previstos, a aeronave será classificada como hostil, ficando sujeita à medida de destruição, nos casos dos incisos do caput deste artigo e após autorização do Presidente da República ou autoridade por ele delegada. (BRASIL, 1998).
Apesar da lei do "abate" procurar reforçar a autoridade aeronáutica no exercício do policiamento do espaço aéreo, por empregar termos interpretação duvidosa e polêmica, consequentemente, não tem sido cumprida pelo Comando da Aeronáutica. Portanto, trata-se de uma lei sem efetividade. Para o Maj.-Av. Felipe Alberto B. Siaudzionis (2002, p. 17), embora o texto legal deixe claro que o legislador intenta atuar com rigidez sobre aeronaves utilizadas para propósitos ilícitos, somente o denominado "espírito da lei" é insuficiente para permitir sua aplicação, fazendo-se mister o
esclarecimento e o detalhamento de alguns termos e expressões, ou seja, faz-se necessário a regulamentação dessa lei para que não haja dúvidas quanto à sua aplicação.
Conforme Siaudzionis (2002, p. 17), a expressão "meios coercitivos legalmente previstos" carece de explicitação. No caso, a fim de garantir à sociedade que o Comando da Aeronáutica vai agir em conformidade com a norma, sem emulação ou uso excessivo de poder, a regulamentação deve expressar a obrigatoriedade de uma aeronave interceptada em cumprir uma ordem de modificação em sua rota e pousar em aeródromo previamente preparado a fim de ser vistoriada por autoridades competentes. Caso a ordem não seja cumprida, medidas de persuasão deverão ter início através do "tiro de aviso". Outro esclarecimento refere-se à expressão "a aeronave será classificada como hostil". Essa classificação já foi normatizada pelo SISDABRA para um contexto de conflito, no qual o emprego do poder militar é utilizado para neutralizar uma ameaça imediata, porém, ela não se estende para os períodos de paz, podendo trazer complicações jurídicas. Nesse caso, o termo "hostil" é muito genérico, que deve ser evitado, sendo necessário descrever em detalhes os critérios de classificação. Alguns exemplos de critérios para adotar medidas de averiguação seriam: não possuir plano de vôo autorizado, quando proceder do exterior; não possuir autorização de sobrevôo do território nacional ou estiver sendo utilizada com propósito diferente da autorização obtida, quando legalmente exigida; houver decolado de pista clandestina; omitir aos órgãos de controle de tráfego aéreo informações necessárias a sua identificação; estiver equipada com armamento militar ou meios de reconhecimento eletrônico, de sensoriamento remoto ou de interferência no uso do espectro eletromagnético, sem prévia autorização. Somente baseado nesses e em outros critérios que uma aeronave pode ser classificada como "hostil" e, conforme a lei, esgotados outros recursos de intervenção e persuasão, ser abatida. (SIAUDZIONIS, 2002, p. 28).
Obviamente, independente da aplicação dos meios coercitivos, um aeronave pode ser classificada como hostil se adotar uma ou mais das seguintes atitudes: empregar qualquer tipo de armamento contra aeronaves brasileiras ou manobrar colocando-se em posição de ataque; atacar qualquer instalação brasileira, ou preparar-se para fazê-lo; lançar em território nacional ou em águas territoriais brasileiras, sem a devida autorização,
quaisquer artefatos bélicos ou materiais que provoquem danos, morte ou destruição, ou preparar-se para fazê-lo; e lançar pára-quedistas, desembarcar tropas ou materiais de uso militar no território nacional, sem a devida autorização, ou preparar-se para fazê-lo. Com esses comportamentos indicando hostilidade objetiva, essas aeronaves deixam claros seus propósitos de causar danos graves, imediatos e de difícil reparação - podendo, portanto, ser submetidas às medidas de destruição, ou seja, serem alvejadas pelo tiro de destruição, o disparo de armamento adequado, com a finalidade de incapacitar a aeronave hostil a prosseguir o vôo. (SIAUDZIONIS, 2002, p. 30).
Em julho de 2004, o Código Brasileiro de Aeronáutica foi novamente alterado através do Decreto nº 5.144, que entrou em vigor em outubro do mesmo ano. Entre outras medidas relativas às denominadas aeronaves hostis, o decreto procurava sanar uma falta de explicitação referente à delegação de competência do Presidente da República a autoridade de menor escalão, pois em termos jurídicos, é perfeitamente possível que a competência para o tiro de destruição seja delegada ao Ministro da Defesa e ao Comandante da Aeronáutica. Assim, de acordo com o decreto, o conjunto de procedimentos para o cumprimento da lei, desde a abordagem via rádio até os tiros de advertência e de destruição, estão a cargo do Comando de Defesa Aeroespacial Brasileira (Comdabra), órgão subordinado ao Comando da Aeronáutica.
Em resumo, até o presente, a Lei do Abate ainda permanece polêmica. Além de questionarem a falibilidade do sistema de identificação e reconhecimento de aeronaves hostis, como a Constituição brasileira veda a pena de morte, juristas da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), entre outros, alegam que ela é inconstitucional, dado que são mínimas as possibilidades de sobrevivência dos ocupantes de uma aeronave abatida.
CONCLUSÃO
Empreendemos nesse capítulo uma interpretação das concepções de defesa da Amazônia tal como elaboradas por oficiais superiores das Forças Armadas brasileiras diante das questões suscitadas pelos contextos nacional, regional e internacional, entre os anos de 1985 e 2006. Buscamos analisar e compreender o enfoque militar, apresentado no capítulo quatro deste trabalho, à luz das teorias das relações internacionais, por sua vez, sintetizadas no primeiro capítulo.