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O EPISÓDIO DO MAPA DO B RASIL SEM A A MAZÔNIA

No documento Forças Armadas e Amazonia : (1985-2006) (páginas 152-156)

No primeiro semestre de 2000, o tema da internacionalização da Amazônia foi ampla e nacionalmente propalado, inclusive suscitando pronunciamentos de autoridades governamentais e pareceres de colunistas de jornais de grande circulação. Evidentemente, o debate que se criou contou com a ampla participação de oficiais das Forças Armadas brasileiras, não exatamente expressa nos sites oficiais de responsabilidade das forças singulares ou do próprio Ministério da Defesa, mas, particularmente, em escritos constantes em sites extra-oficiais.

O elemento deflagrador dessa polêmica foi a divulgação em um site hospedado nos Estados Unidos, <www.brasil.iwarp.com>, de um mapa do Brasil dividido e

um texto31, ambos supostamente contidos em um livro de geografia adotado em uma escola de ensino médio norte-americana, instruindo aos alunos que a Amazônia não pertence ao Brasil, sendo uma floresta sob jurisdição internacional. A autoria desse site - contendo artigos e mensagens ultranacionalistas, e cujo mote é "Brasil, ame-o ou deixe-o" - foi, posteriormente, atribuída à oficiais reformados das Forças Armadas brasileiras. (O ESTADO DE SÃO PAULO, 08 Dez. 2002).

Em março e abril daquele ano, o referido site também publicou na seção "curtas", uma nota informando, de forma indignada, que além do mapa, em algumas escolas dos Estados Unidos, os professores estariam conclamando o apoio dos alunos a uma intervenção e, se preciso, uma guerra, para tirar a região amazônica dos "destruidores da natureza", os brasileiros. Isso seria prova de que a idéia estrangeira de intervir na Amazônia já teria alcançado a "fase operativa". Logo após a publicação, cópias do mapa constante no site e da nota começaram a ser espalhados pela internet, através de mensagens de e-mails aparentemente criados pelos mesmos autores do site.

Em 11 de maio de 2000, uma professora do Departamento de Ecologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Simone de Freitas, após ter recebido uma das mensagens apócrifas, transcreveu-a em uma carta endereçada ao jornal Ciência Hoje Eletrônico (CHE), da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Na seqüência, o CHE, sem verificar a origem da informação, publicou on-line a carta da professora, contribuindo para disseminar ainda mais o "fato" criado pelos autores do site, e, o que é pior, dando-lhe credibilidade. No mesmo dia, o ministro-conselheiro Paulo Roberto de Almeida, da embaixada brasileira em Washington, escreveu ao CHE, pedindo que fizesse contato com a leitora Simone de Freitas para obter esclarecimentos, a partir dos quais a embaixada iniciaria uma investigação sobre o assunto. Como resultado, em 16 de maio, o CHE publicou uma carta de Simone de Freitas pedindo desculpas por ter divulgado informação possivelmente incorreta. (BECK, 13 Jun. 2000).

Poucos dias antes, ainda no início de maio, a pesquisadora Michelle Zweede, do Brazil Center da Universidade do Texas em Austin, recebeu um telefonema da então senadora Marina Silva (PT-AC), que havia recebido as tais mensagens e pedia sua ajuda na investigação. A Sra. Zweede enviou, então, uma mensagem eletrônica ao endereço indicado no website, <[email protected]>, na qual perguntava quais escolas americanas estariam usando os mapas. Além de nunca ter recebido uma resposta dos responsáveis pelo site, três dias depois de enviada sua mensagem, Sra. Zweede recebeu uma mensagem da Universidade da Flórida que lhe fazia exatamente as mesmas perguntas que fizera ao site autor da denúncia. Para sua grande surpresa, a mensagem da Flórida reproduzia a nota do <www.brasil.iwarp.com> assinada por ela mesma, Michelle Zweede, e pelo Brazil Center da Universidade do Texas, reforçando ainda mais a credibilidade da informação inventada. Provavelmente, foram os próprios autores do site que acoplaram a assinatura eletrônica da pesquisadora e o nome da universidade à mensagem original. (BECK, 13 Jun. 2000).

Em 18 de maio, o referido site publicou uma quase retratação32, informando que a fonte da notícia não estava mais disponível, em razão de "problemas computacionais" (perda do disco rígido). Os autores do site retiraram a denúncia, admitindo que, por não conseguirem localizar a origem da notícia e por não disporem de provas, julgavam ser leviano mantê-la na página. Entretanto, já em 23 de maio uma cópia do e-mail falso assinado por Zweede chegou a César Giobbi, colunista do jornal O Estado de São Paulo, que, induzido ao erro, publicou uma nota que, mais uma vez, reproduzia o exato teor da mensagem original. Rapidamente, uma cópia da nota de Giobbi também passou a ser divulgada pela Internet. (BECK, 13 Jun. 2000).

Na tentativa de desfazer o mal-entendido gerado pela falsa denúncia e também de estancá-la, em 8 de junho de 2000, o então embaixador brasileiro nos Estados Unidos, Rubens Antônio Barbosa, remeteu uma carta ao jornal Ciência Hoje Eletrônico (CHE), explicando não haver evidências encontradas pelo Itamaraty da existência dos tais

mapas nos EUA. Na carta esclarecia que o episódio do falso mapa não era resultado de uma suposta conspiração norte-americana para desmembrar a Amazônia, mas havia sido forjado por brasileiros mesmo. (BECK, 14 Jun. 2000). Também no site oficial da embaixada brasileira em Washington consta uma nota explicativa afirmando que a página copiada de certo livro de geografia "supostamente adotado em escolas de ensino médio norte- americanas, que afirmaria ser a Amazônia área sujeita a controle internacional [...], de autoria de um certo David Norman [...], trata-se de uma falsificação". (BRAZILIAN EMBASSY IN WASHINGTON, 08 Dez. 2002).

Em resumo, a partir da denúncia leviana do site "brasil-iwarp", de 2000, a cada temporada, em anos subseqüentes, têm surgido novas ondas de milhares de mensagens reproduzindo os rumores do falso mapa e da internacionalização da Amazônia, demonstrando também toda a potência de boatos que trafegam na internet. Uma dessas ondas se deu em outubro de 2001, em mensagens que continham um fac-símile de uma única página da suposta obra, que foram espalhadas inclusive por professores e pesquisadores de universidades paulistas.

Ocorre que a informação de que escolas norte-americanas estariam usando um mapa do Brasil dividido ao meio, em que a Floresta Amazônica aparece como área de "Controle Internacional", em aulas de geografia é fictícia. Até hoje, nenhum exemplar do livro jamais foi obtido por alguém ou apresentado pelos denunciantes. A imagem do tal livro, em formato ".jpg", anexada às mensagens distribuídas por e-mail, não constitui prova alguma, pois, como se sabe, as imagens digitalizadas são facilmente editáveis e falsificáveis. Além disso, o inglês do texto que acompanha a figura do mapa é péssimo, típico daqueles produzidos por quem não domina o idioma ou por tradutores eletrônicos. Por fim, nenhum escritor chamado "David Norman", citado como autor do livro, foi encontrado.

Enfim, a credibilidade do site que apresentou o mapa, é totalmente questionável. A identidade dos autores do mapa e do website <www.brasil.iwarp.com> é obscura, pois cita nomes vagos como "Rafael M.M." e "Luiz Antônio", não constando

endereços físicos ou telefones. Posteriormente, a autoria do site foi atribuída a ex- integrantes das Forças Armadas brasileiras, ligados à direita nacionalista. (O ESTADO DE SÃO PAULO, 08 Dez. 2002). Além disso, os autores do site fizeram circular pela rede mundial de computadores mensagens apócrifas ou, o que é lastimável para sua credibilidade, se apropriaram indevidamente das chancelas de autoridades acadêmicas, como a do Brazil Center, da Universidade do Texas.

No documento Forças Armadas e Amazonia : (1985-2006) (páginas 152-156)