A pesquisa realizou-se a partir dos pressupostos da pesquisa-intervenção por compreendermos que no processo e no percurso da pesquisa nos colocamos en- quanto pesquisadores, atuando com os sujeitos participantes, que se encontra- vam num movimento de estar, aprender, ouvir e deliberar em colaboração. Bem como sinaliza Moreira (2008, p. 430), “a pesquisa não é feita ‘sobre’ um grupo, mas ‘com’ um grupo”.
Desse modo, a intervenção aconteceu desde o momento em que começamos a circular e a dividir os espaços da instituição. Passando pelo estágio da obser- vação, exibição de filmes, debates e avançando pela interação na cibercultura. O material que subsidiou a análise foi coletado por entrevistas, conversas na es- cola e na rede social. Os critérios que balizaram essas escolhas foram norteados pelo delineamento da pesquisa e pela flexibilidade que o campo apresentou. Tendo como prioridade as narrativas dos professores da escola e dos sujeitos da pesquisa.
O campo de pesquisa foi constituído a partir da parceria entre duas univer- sidades, a Unirio – onde realizei meu mestrado – e a Universidade Católica de Petrópolis (UCP) em processo de parceria entre os projetos de pesquisa institu- cionais de seus professores. (FERNANDES, 2010; GARCIA, 2010) O local de pes-
quisa foi um colégio em que ambos os professores já faziam projeto em parceria e ao entrar no mestrado foi aberta a possibilidade para que fizesse meu campo de pesquisa nesse mesmo local. Trata-se de um colégio estadual no municí- pio de Petrópolis que oferta o Ensino Médio Integral (EMI) com o Curso Médio Integrado de Formação Profissional em Áudio e Vídeo. A proposta do curso é oferecer e desenvolver as práticas audiovisuais a partir dos princípios da ciência, cultura e trabalho, e a formação de técnico audiovisual oferecida busca contem- plar os estudos: de roteiro; de direção; produção de pequenos curtas-metragens; análises de filmes e de textos.
Nosso campo de pesquisa ocorreu nos tempos de aula da disciplina de Comunicação crítica num total de sete encontros às quartas-feiras, sempre no período da manhã. Os filmes exibidos2 tinham a característica de serem histórias
adaptadas de obras literárias, com temática diversificada, de países variados. As narrativas não seguiam um padrão comum nos filmes de alta comercializa- ção, procurando sempre trazer filmes com narrativas instigantes e artísticas.
Participaram da pesquisa, nos momentos de exibição e debate, 30 alunos. Após os debates, foram feitas seis entrevistas com: três jovens do 2º ano e outros três do 3º ano, escolhidos pela intensa participação nos debates. Além disso 12 alunos – os seis da entrevista e outros seis alunos – nos aceitaram para amizade no Facebook, o qual se constituiu num espaço fora da escola para nossas conver- sas. Como percepção geral sobre esse grupo, evidenciamos que:
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Falavam muito sobre cinema, conversando sobre os filmes que assisti- ram, sobre os atores e atrizes, o que gostavam e o que não gostavam; • Possuíam um repertório construído de histórias para contar sobre situa-ções vividas em relação ao cinema. De idas ao cinema, realização de ati- vidades que envolviam filmes e a produção de audiovisual como propos- ta da escola;
• A faixa etária dos jovens eram entre 17 e 20 anos, se interessavam por di- ferentes gêneros de filmes. Boa parte deles eram “amigos” no Facebook e também interagiam em outros espaços fora da escola.
2 Os filmes da pesquisa foram: O carteiro e o poeta, Fahrenheit 451, Adeus Lenin!, Ensaio sobre a ceguei- ra, Balzac e a costureirinha chinesa, Edifício Master.
Estar na escola no horário integral – manhã e tarde – apresentava uma rup- tura aos jovens que estudavam no ensino regular, com carga horária de meio pe- ríodo. E o deslocamento para alguns deles que moravam na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro, também era um fator de adaptação pela distância com o des- locamento. Para muitos deles, a entrada no EMI significou uma passagem para outra fase da vida em que o jovem deixou, de certo modo, uma condição com menos tarefas e tempos escolares, para se envolverem mais questões formais da escola. De um lado, a preocupação com a formação profissional e, de outro, com o ingresso no ensino superior.
O Facebook, como espaço não escolar dos alunos, era um espaço de conti- nuidade de alguns debates promovidos pela escola. Nele, havia uma intensa tro- ca de ideias, opiniões diferentes entre os alunos, e isso se concretizava também fora da escola. O consumo do cinema estava tão presente na vida desses jovens que o espaço e o tempo dado pela escola pareciam poucos para as construções vivenciadas por eles. Nesse sentido, o cenário das relações sociais e das formas de aprender de crianças, jovens e adultos se redesenham no espaço das redes sociais, envolvendo processo de conectividade, de autoria e de coautoria, que se estruturam a partir da comunicação e da circulação de informações na rede. O cinema tem esse poder, enquanto linguagem audiovisual, real e de ficção, atra- vessa os limites territoriais e do imaginário, trazendo acima de tudo elementos para pensarmos o consumo na sociedade contemporânea e dos jovens da pes- quisa. Para García Canclini (2010), a apropriação dos bens culturais nos diz que o consumo sofre um processo de racionalidade, não se consome apenas por ma- nipulação, por passividade de receber a informação e acatá-la. O consumo exige um ato pensado, que se estrutura pelas organizações sociais dos sujeitos, nas mediações entre ele e o grupo social ao qual pertence. A escola era um desses espaços de mediação do consumo para esses jovens.