3 CONCEITOS REFERENCIAIS 75
3.6 O COMPROMETIMENTO DO ESTUDANTE 95
[...] um trabalho docente de qualidade requer necessariamente um comprometimento do profissional em educação, no todo do seu fazer docente. Porém, o comprometimento compete, também, ao educando, visto que só aprende quem quer aprender, e só se ‘ensina’ a quem quer ser ensinado. (FELICETTI; MOROSINI, 2010, p. 2, grifo meu).
A partir de pesquisas realizadas sobre a formação docente, Felicetti e Morosini (2010) observaram que vários aspectos impactam na formação do mesmo e destacam as contínuas transformações às quais estes profissionais estão sujeitos, em termos de conhecimento e crenças, que implicam sobremaneira na forma como planejam e conduzem suas aulas, intervindo em ambos os processos, de ensino e de aprendizagem.
As autoras (2010) perguntam se somente o docente estaria sujeito a sofrer transformações, ou se apenas este teria capacidades para alterar as maneiras de ensinar ou aprender. Indo além, levando em conta a complexidade dos aspectos que envolvem o ambiente em que se vive, questionam de forma mais ampla se não estaria sendo atribuída unicamente ao professor a responsabilidade pelo aprendizado de seus alunos!
Diante de um contexto escolar que abarca problemas de ordem social, econômica, política, entre outros, não se está remetendo apenas ao professor uma responsabilidade que compete a outros também? Será que somente competências ou habilidades metodológicas são suficientes? Um professor comprometido com sua profissão docente consegue ‘ensinar’ a todos os seus alunos? E, em extensão, todos estes conseguem ‘aprender’? Certamente que não! (FELICETTI; MOROSINI, 2010, p. 24, grifo meu)
Frente à complexidade apresentada, as autoras (2008; 2010) perguntam se não deveria ser atribuída ao aluno também a responsabilidade por sua aprendizagem. De forma mais precisa, perguntam se o aluno não deveria ter uma postura mais comprometida com sua própria aprendizagem.
Este questionamento vai ao encontro do pensamento de Charlot (2012), em que o professor não consegue ensinar alguém, se este alguém não se mobilizar para aprender. Se
não houver um mínimo de interesse, significado, movimentação ou mobilização para a aquisição de novos conhecimentos, não haverá conteúdos que possam contribuir para a ruptura de barreiras ao novo. Por outro lado, a produtividade do estudante é maior quando ele deixa de ser um expectador e toma as rédeas do seu aprendizado (FELICETTI, 2011).
A propósito da responsabilidade pelo aprendizado precisar ser atribuível também ao estudante, Hunter e Baker (1987) têm duas contribuições diretamente relacionadas ao comportamento dos estudantes: 1. “Os estudantes serão melhores aprendizes se acreditarem que o sucesso depende do esforço, mais que da sorte ou habilidade”50 (HUNTER; BAKER, 1987, p. 1) e 2. “Os estudantes precisam aceitar o fato que aquilo que acontece para eles, decorre daquilo que eles próprios fazem”51 (HUNTER; BAKER, 1987, p. 3).
Felicetti (2011), no segundo capítulo de sua tese, aborda a importância do comprometimento à luz do seu referencial teórico – (Harper e Quaye, Kuh et al, Pace, Astin, Pascarella e Terenzini apud Felicetti, 2011). Nas palavras da autora, “o estudante tem papel preponderante no processo de ensino e aprendizagem, é o principal agente transformador da sua aprendizagem, da sua formação, logo, da sua realidade social”. (FELICETTI, 2011, p. 26). A autora também observa que:
[...] uma formação de qualidade na Educação Superior é formada por um conjunto de saberes representados pelas experiências de vida, pela formação acadêmica e pelas práticas exercidas e desenvolvidas enquanto estudante, as quais contribuem para com a construção de uma competência profissional própria. (FELICETTI, 2011, p. 27, grifo meu).
Sob este ponto de vista, a participação efetiva do estudante na sua formação é essencial para a qualidade do seu aprendizado. “[...] quanto maior a intensidade, variedade e qualidade das ações desenvolvidas pelo estudante durante sua formação, maior será o conjunto de competências por ele construído” (FELICETTI, 2011, p. 27).
Felicetti (2011, p. 47) afirma que “o comprometimento vem a ser um envolvimento dinâmico do aluno para com a sua aprendizagem, uma vez que envolve a questão de como fazer, ou seja, o aluno é protagonista da sua aprendizagem” (Grifo meu).
Para fundamentar o constructo comprometimento, Felicetti (2011) buscou sua precisão a partir da Teoria do Envolvimento de Astin (1984, apud Felicetti, 2011) e da importância que Harper e Quaye e Kuh et al (apud Felicetti, 2011) atribuem ao construto engajamento. Na
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Tradução livre de: Students will be better learners if they believe success depends on effort more than on luck or ability.
51
leitura das fontes referenciadas pelas autoras utilizo a versão de Astin (1999, p. 518), onde o autor associa o envolvimento à quantidade de energia física e psicológica dispendida pelo estudante na sua vida acadêmica. Com relação a Harper e Quaye (2009), nas páginas iniciais de sua obra, destacam seus pontos de vista sobre o engajamento daquele que aprende. Segundo os autores, e utilizando a tradução livre de Felicetti (2011, p. 49), “Estudante engajado é simplesmente caracterizado como a participação efetiva nas práticas escolares, tanto dentro como fora da sala de aula, as quais levam a uma série de resultados mensuráveis52” (HARPER; QUAYE, 2009, p. 2). Harper e Quaye (2009) ratificam as falas de Kuh et al (2005), o qual destaca que a primeira componente do engajamento é a “[...] quantidade de tempo e esforço que o estudante aloca em seus estudos e outras atividades que levam a experiências e resultados que constituem o seu sucesso53 (KUH et al, 2005, posição
36054, grifo meu).”.
Kuh et al (2005, posição 3402) testemunha que “Estudantes aprendem mais quando estão intensamente envolvidos em sua educação e têm oportunidades de refletir e aplicar o que aprendem em ambientes e condições diferentes.”55
Apesar da existência das sutis diferenças entre os substantivos envolvimento, comprometimento e engajamento, Felicetti (2011) observa que todos convergem para o verbo comprometer. No entanto, vale ressaltar a sutil diferença que Harper e Quaye (2009) percebem entre os constructos envolvimento e engajamento, contrastando a opinião de Astin (1999). Aos olhos dos autores, existe a possibilidade de alguém estar envolvido, porém não necessariamente engajado56, exemplificando que um estudante, pontual e presente em todas as aulas, apesar de se comportar de forma passiva, e sem oferecer qualquer contribuição ao grupo, pode argumentar estar envolvido.
De forma análoga, Felicetti e Morosini (2010) argumentam também haver sutil diferença entre os termos compromisso e comprometimento. Enquanto compromisso representa algo por acontecer, comprometimento toma a conotação de ações e mobilizações
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Tradução livre de Felicetti: Student engagement is simply characterized as participation in educationally effective practices, both inside and outside the classroom, which leads to a range of measurable outcomes.
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Tradução livre de: Engagement has two key components. The first is the amount of time and effort students put into their studies and other activities that lead to the experiences and outcomes that constitute student success. The second is the ways an institution allocates resources and organizes learning opportunities and services to induce students to participate in and benefit from such activities.
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Tradução livre de: “Students learn more when they are intensely involved in their educational and have opportunities to think about and apply what they are learning in different settings”. (KUH ET AL; 2005, posição 3402).
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A partir do original: “Although conceptualy similar, there is a key qualitative difference between involvement and engagement: It is entirely possible to be something without being engaged”. (HARPER; QUAYE; 2009, p. 3)
para cumprir o compromisso. Neste sentido, guardam respectivamente analogia com os termos motivação e mobilização. Enquanto motivação pode significar uma atenção,
inclinação ou propensão para fazer algo, isto é, assumir um compromisso por parecer
interessante, mobilização representa a ação em direção a este algo, em outras palavras, um comprometimento via atitudes.
Na opinião das autoras, o aluno, apesar de ter um compromisso com uma instituição de ensino, não parece estar comprometido como um estudante. A impressão que têm é que toda responsabilidade pelo desempenho escolar, sucesso ou fracasso, continua repousando sobre os professores.
De forma resumida, o comprometimento com o aprendizado tem maior significado que somente compromisso para o aprendizado. Neste sentido compromisso seria um evento que foi tratado, acordado, previsto, entretanto que pode, ou não, acontecer. Por outro lado, comprometimento teria o significado dinâmico de atos e fatos que levam ao aprendizado.
Frente ao ponto de vista das autoras, seria justo afirmar que para haver o comprometimento com a aprendizagem o aluno precisaria estar mobilizado para o cumprimento dos compromissos assumidos?
Este capítulo abordou os conceitos referenciais utilizados para a elaboração do questionário de pesquisa sintetizados a seguir.
Iniciando com Charlot (2000) que contribuiu com a fundamentação sobre os motivos naturais para o ser humano precisar aprender. Aprendizado este que ocorre de forma mais efetiva na medida em que, à luz de Moreira (2003), seu conteúdo apresente significância ao aprendiz. Conteúdo este que pode representar aprendizado com significado distinto, que pode variar, conforme Illeris (2013) de acordo com o padrão mental de aprendizado do aprendiz (tipos de aprendizado: Cumulativo, Assimilativo, Acomodativo ou Transformador). A Teoria do Envolvimento de Astin (1999) e o Modelo I-E-O de Astin e Antonio (2012), foram utilizados para estruturar e ordenar o conjunto de questões, elaboradas à luz dos autores adotados. Questões estas que primordialmente buscaram compor o quadro de interpretação sobre os fatores que impactam no aprendizado do aluno do curso de graduação em Administração, e que dificultam a Mobilização para a aprendizagem comentada por Charlot (2012). Para terminar, busquei utilizar a contribuição de Felicetti (2011) como reflexão complementar sobre a necessidade do comprometimento do estudante para acontecerem, de forma mais gratificante, os processos de ensino e de aprendizagem.
Apresento, no capítulo que segue, a análise do resultado da pesquisa e seu consequente diagnóstico.