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O conceito atual do elemento “território”

No documento LIVRO DIDÁTICO - Ciencia Politica (páginas 74-80)

Espacial do Poder

4.3 O conceito atual do elemento “território”

O território possui como característica a multidimensionalidade, ou seja, seus limites jurisdicionais podem ser terrestre, marítimo e aéreo. A partir de agora, nosso objetivo será o de examinar mais detidamente os limites da jurisdição nacional sobre o território marítimo estatal e sobre o espaço aéreo sobrejacen- te, complementando assim nossos estudos sobre o conceito de território.

Comecemos pelo território marítimo estatal. Aqui será analisado não so- mente o conceito de Mar Territorial, mas também algumas diferentes áreas do

território marítimo estatal derivadas das normas estabelecidas na Convenção de Montego Bay, devidamente ratificada pelo Brasil em 1982 e em vigor no or- denamento jurídico por meio do Decreto 1.530/1995.

São as seguintes as áreas do território marítimo estatal: a) Mar Territorial (MT); b) Zona Contígua (ZC); c) Zona Econômica Exclusiva (ZEE); d) Plataforma Continental (PC). Essas diferentes áreas, como não poderia deixar de ser, rece- bem diferentes nomenclaturas para deixar claro que estão submetidas a dife- rentes regimes jurídicos.

Sem desmerecer a importância de todas as áreas componentes do territó- rio marítimo estatal, é importante destacar, desde logo, que somente o Mar Territorial pode ser considerado parte do território, na medida em que so- mente nele o Estado Costeiro tem soberania plena. Nas demais áreas, o Estado terá direitos específicos que não se confundem com o poder de império, já que não se coadunam com o princípio da impenetrabilidade da ordem jurídica. Ou seja, o Estado não tem soberania plena nessas áreas do território marítimo. Porém, tratemos de cada um deles de forma individualizada, começando exata- mente pelo “Mar territorial”.

Mar Territorial – O primeiro grande componente do território marítimo es- tatal é o Mar Territorial (MT), aqui compreendido como a faixa de mar de 12 (doze) milhas marítimas (uma milha marítima tem 1.852 metros) que se enten- de a partir da linha de baixa-mar do litoral continental e insular. Ou seja, a par- tir desta linha, temos um pouco mais de 22 km de território marítimo onde o Brasil mantém sua soberana autoridade.

Dentro dos limites do Mar Territorial, o Estado exerce soberania plena sobre a massa líquida, sobre o espaço aéreo sobrejacente, bem como tam- bém sobre o leito e o subsolo deste mar. Os navios estrangeiros no Mar Territorial brasileiro estarão sujeitos aos regulamentos estabelecidos pela lei brasileira.

A ideia de Mar Territorial é muito antiga e, tradicionalmente, estava volta- da para a defesa do Estado; daí a fixação do seu limite segundo a potência dos canhões dos navios da época. Com o passar do tempo, o Direito Internacional consagrou o limite de 3 (três) milhas, tese esta defendida pela grande maioria dos Estados. No entanto, tendo em conta as crescentes possibilidades de ex- ploração das riquezas advindas do solo e do subsolo marítimo, alguns Estados

passaram a pleitear internacionalmente a extensão do Mar Territorial para 12 milhas e até mesmo 200 milhas.

O limite de 200 milhas defendido de forma veemente pelo Brasil foi muito contestado no âmbito da comunidade internacional por ferir o princípio da li- berdade dos mares. Aliás, o Brasil desde 1970 estabelecia (unilateralmente) o limite de 200 milhas, com base no que estabelecia o Decreto-lei nº 1.098, de 25 de março de 1970. Este decreto continuou em vigor no decorrer da vigência da Convenção de Montego Bay, de 1982, a qual fixara o limite de 12 milhas para o Mar Territorial.

Aos poucos, em razão da pressão internacional, o Brasil teve que alterar sua posição, sendo que no ano de 1993, aceitou reduzir seus limites marítimos de acordo com a norma internacional. Assim sendo, o Mar Territorial brasileiro de 200 milhas foi reduzido para 12 milhas, nos termos estabelecidos pela Lei nº 8.617/93.

Zona Contígua (ZC) – o segundo grande componente do território marítimo estatal é a Zona Contígua, que se estende de 12 a 24 milhas marítimas. Ou seja, a Zona Contígua inicia logo após o Mar Territorial (12 milhas) e vai até o limite máximo de 24 milhas. Na Zona Contígua, o Estado costeiro não tem soberania plena, mas tão somente capacidade de controle relativo dessa área de 12 milhas marítimas, após o Mar Territorial.

Para usar de maior clareza, podemos afirmar que na Zona Contígua o Estado poderá adotar as medidas de fiscalização necessárias para: a) evitar as infrações às leis e aos regulamentos aduaneiros, fiscais, de imigração ou sanitários, no seu território ou no seu mar territorial; e b) reprimir as infrações às leis e aos regulamentos no seu território ou no seu mar territorial.

Em síntese, na denominada Zona Contígua, o Estado costeiro ainda está autorizado a realizar inspeções sanitárias em navios (a fim de impedir alguma epidemia no território), inibir a entrada de imigrantes ilegais, evitar que seres humanos sejam transportados de forma degradante, adotar medidas aduanei- ras e fiscais etc.

Zona Econômica Exclusiva (ZEE) – O terceiro componente do território ma- rítimo estatal é a chamada Zona Econômica Exclusiva (ZEE), faixa adjacente ao mar territorial até o limite de 200 milhas marítimas, na qual o Estado costeiro exerce direitos específicos para fins econômicos.

Com efeito, na ZEE, o Estado também não tem soberania na sua máxima amplitude, mas tão somente direitos para a exploração e aproveitamento, con- servação e gestão dos recursos naturais, vivos ou não vivos, das águas sobreja- centes ao leito do mar, do leito do mar e seu subsolo, e a outras atividades com vistas à exploração e ao aproveitamento da zona para fins econômicos.

Além disso, na ZEE, o Estado costeiro também dispõe de direitos especiais para a investigação científica marinha e para a produção de energia (água, cor- rentes e ventos). A investigação científica marinha na ZEE só poderá ser con- duzida por outros Estados com o consentimento prévio do Estado costeiro. De outro lado, o Estado costeiro passa a ter o dever de proteger e preservar o meio marinho desta área.

Plataforma Continental (PC) – Finalmente, o quarto e último componente do território marítimo estatal é a Plataforma Continental (Continental Shelf). Dentro dos limites da Plataforma Continental, a soberania é limitada ao exer- cício de direitos para efeitos de exploração dos recursos naturais. Mas quais são os seus limites? Nos termos da lei brasileira, a Plataforma Continental do Brasil compreende o leito e o subsolo das áreas submarinas que se estendem além do seu mar territorial, em toda a extensão do prolongamento natural de seu território terrestre, até o bordo exterior da margem continental, ou até uma distância de duzentas milhas marítimas das linhas de base, a partir das quais se mede a largura do mar territorial, nos casos em que o bordo exterior da margem continental não atinja essa distância (artigo 11 da Lei nº 8.617/93).

A figura abaixo sintetiza as diferentes áreas do teritório maritimo:

Com a ajuda da figura acima, observe que, de acordo com as normas inter- nacionais, a Plataforma Continental significa, geograficamente, a parte do lei- to do mar com declive suave (não exceder 200 metros de profundidade), que acaba exatamente quando iniciam as inclinações abruptas que conduzem aos fundos marinhos.

Pela Convenção de Montego Bay (1982), o limite exterior da Plataforma Continental coincidirá com o limite da ZEE (200 milhas náuticas). A pergunta que surge, então, é: para que demarcar uma região específica que cumpriria os mesmos objetivos da ZEE? É que os limites entre a ZEE e a PC coincidirão somente se as inclinações abruptas ocorrerem nos limites das 200 milhas. Se as inclinações abruptas que conduzem aos fundos marinhos estiverem mais distantes ainda, ou seja, ultrapassarem as 200 milhas da ZEE, a norma inter- nacional reconhece ao Estado costeiro o direito de estender os limites da sua Plataforma Continental até o limite máximo de 350 milhas náuticas. Trata-se do que denominamos “Plataforma Continental estendida.”

Portanto, observe com atenção que a Plataforma Continental estendida é a faixa de mar que se encontra entre 200 e 350 milhas do litoral. A dimensão exata da Plataforma Continental estendida depende de um levantamento físico feito pelo Estado costeiro. Assim sendo, é de capital importância destacar o re- levante trabalho científico realizado pelo Estado brasileiro que conseguiu fazer o levantamento completo de sua plataforma continental e com isso acabou por ganhar uma área chamada de “Amazônia Azul”, que possui área superior à da cobertura vegetal da floresta amazônica.

A figura a seguir mostra toda a área da Amazônia Azul, valendo destacar tanto a ZEE de 200 milhas (azul mais claro), quanto às áreas de Plataforma Continental estendida (azul mais escuro).

Figura 4.3

Ressalte-se que parte da exploração das reservas de hidrocarbonetos da ca- mada do "pré-sal" encontra-se na Plataforma Continental Estendida. Assim, se o Brasil não tivesse feito o levantamento dessa área, não seria possível realizar sua exploração econômica.

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