O Estado Constitucional e
12.4 O Estado e suas perspectivas contemporâneas
12.4.5 O Estado e sua fragmentação quantitativa e qualitativa
Sendo um fenômeno recente, vivenciado a partir do fim da Segunda Guerra, a fragmentação é o fenômeno de multiplicação dos Estados no ambiente in- ternacional, com algumas consequências sensíveis, como veremos. Este fenô- meno pode ser analisado tanto do ponto de vista quantitativo, como do ponto de vista qualitativo. Comecemos pela mais simples, ou seja, pela perspectiva quantitativa.
O primeiro passo no recente processo de multiplicação de países ocorreu em função da emancipação de antigas colônias europeias na África e na Ásia no período que se seguiu ao pós-guerra (principalmente a partir dos anos 50). Com o enfraquecimento das antigas potências da Europa iniciaram-se os mo- vimentos pela independência fazendo nascer, depois dos movimentos de liber- tação, aproximadamente 50 novos países. Na Ásia, as colônias se impuseram à dominação europeia, americana e japonesa (com apoio americano e soviético)
fazendo-se independentes em processo que teve início mesmo no decorrer da Segunda Guerra, levando ao surgimento de quase 20 novos Estados no cenário internacional.
Mais recentemente, depois da derrocada do império soviético e após a que- da do Muro de Berlim, ocorre um novo grande aumento do número de estados por intermédio da fragmentação de outros estados anteriormente existentes. Apenas para que possamos ter uma ideia, a antiga União Soviética se fragmentou em 15 novos estados, a antiga Iugoslávia em 7 novos estados (se considerarmos o Kosovo como estado, já que reconhecido por 106 países) e a ex-Checoslováquia dividiu-se em República Checa e Eslováquia. Mesmo que consideremos o caso da reunificação das “Alemanhas” Oriental e Ocidental, formando a atual Alemanha, mais de 20 novos Estados surgiram a partir dos anos 90 do século XX.
Hoje, vários territórios lutam para serem reconhecidos como estados. Embora sejam mais notados os casos da Palestina e Chechênia, são oficiais o pleito de nove casos de territórios que buscam a independência, com con- sequente reconhecimento de soberania estatal (Abecásia; Camarões do Sul; Chipre do Norte; Nagorno-Karabakh; Ossétia do Sul; Saara Ocidental; Saaland; Transnítria; Venda).
Assim, o reconhecimento de inúmeros novos países levou o número de es- tados a triplicar. Este dado, por si só, nada significa, mas embora os novos esta- dos, devidamente reconhecidos pela ONU, tenham afirmado a sua soberania, o respeito pelo princípio de não interferência, o direito a livremente poderem escolher o seu sistema político, econômico e social, a verdade é que na maior parte deles as crises ainda repercutem no seu processo de organização interna. Este é o aspecto que iremos analisar a partir de agora, sob uma perspectiva qua- litativa de análise.
No plano qualitativo, apesar de ter auxiliado na produção de estados, o sistema internacional parece não saber como consolidá-los, não só quanto ao desenvolvimento econômico, mas, sobretudo em termos institucionais, legais, políticos e sociais, o que ajuda a explicar em grande parte o insucesso da “nova ordem internacional” . Após algumas décadas de independência, muitos dos novos estados formados a partir da década de 1940 têm sido incapazes de asse- gurar a sua estabilidade política e social, permanecendo frágeis e vulneráveis.
Por isso, para muitos dos povos organizados finalmente em Estados nacio- nais pouco aproveitou a proclamada igualdade com os restantes Estados sobe- ranos. A comunidade internacional esforçou-se, então, no sentido de promover uma rede de proteção e sustentação de muitos desses estados. Particularmente
nos últimos tempos, vêm sendo empreendidas operações de manutenção e de implementação da paz, a fim de prevenir a (auto) destruição e permitir a re- construção em países na África, Europa, Balcânica, Sudeste Asiático e América Central. Nesse contexto, as Nações Unidas passaram a ter um papel fundamen- tal, principalmente no que se refere às intervenções humanitárias.
Outro problema no âmbito da fragmentação está na íntima relação entre separatismo e nacionalismo. O separatismo consiste na pretensão de reco- nhecimento da independência política de um determinado povo ou nação. Em muitas culturas os ideais nacionalistas continuam fazendo eco pelo mundo afora e são o principal combustível para estas pretensões separatistas.
No século XX foram vários os conflitos que tiveram origem no nacionalismo de alguns grupos separatistas, sendo que a questão está longe de ser superada neste começo de século. Pelo contrário, o fogo nacionalista continua ardendo. Para fins de exemplificação, podemos citar alguns dos casos mais emblemáti- cos e conhecidos noticiados pela mídia, embora distante de serem os únicos: Crimeia, Chechênia, Caxemira, Timor Leste, País Basco, Catalunha, Palestina, entre muitos outros.
O protagonismo de outros atores internacionais é outro fator desta denomi- nada fragmentação. A erosão que vem sofrendo o Estado em seu papel sobe- rano também pode ser creditada ao crescente protagonismo dos outros atores internacionais, como as empresas multinacionais e as organizações não gover- namentais, as chamadas ONGs. As atividades destes atores ocorrem no interior dos Estados, mas escapam muitas vezes às jurisdições e ao controle dos gover- nos (e, por isso mesmo, da soberania) em razão de sua relevante atuação por todo o globo.
As ONGs (Organizações não governamentais) são organizações formadas pela sociedade civil sem fins lucrativos e que têm como missão a resolução de algum problema da sociedade, seja ele econômico, racial, ambiental etc., ou ainda a reivindicação de direitos e melhorias e fiscalização do poder público.
No processo de interação com instituições internacionais, e mesmo com outros governos (com baixa “filtragem” ou intromissão do Estado), podem até contribuir, ou ser decisivos, para a elaboração da agenda global e das regras in- ternacionais. É o caso de algumas relevantes ONGs como a BRAC, International Rescue Committee, PATH, CARE, Médecins Sans Frontières, Danish Refugee Council, todas com importantes trabalhos voltados para o interesse das popu- lações dos países em que funcionam.
BRAC é uma organização de desenvolvimento dedicado a aliviar a pobreza através do empoderamento dos pobres para trazer mudanças em suas próprias vidas. Atua em diversas áreas, como educação, formação de pequenas empre- sas etc.
International Rescue Committee oferece assistência para refugiados de guerras ou desastres.
PATH é uma organização internacional sem fins lucrativos que cria solu- ções sustentáveis e culturalmente relevantes, para quebrar ciclos antigos de saúde precária.
CARE é uma organização líder humanitária luta contra a pobreza global além de também fornecer ajuda de emergência aos sobreviventes de guerras e catástrofes naturais.
Médecins Sans Frontières os chamados “Médicos Sem Fronteiras é uma or- ganização médico-humanitária internacional, independente e comprometida em levar ajuda às pessoas que mais precisam. Também é missão de MSF tornar públicas as situações enfrentadas pelas populações atendidas.
Danish Refugee Council - O Conselho Dinamarquês para os Refugiados (RDC) é uma instituição humanitária, não governamental, sem fins lucrativos fundada em 1956 que funciona em mais de 30 países de todo o mundo. RDC cumpre seu mandato, prestando assistência direta a populações atingidas por conflitos.
Porém, estes atores não só concorrem com os Estados tradicionais como contribuem decisivamente para a erosão do seu papel na sua dupla dimen- são, interna e internacional. Procuram ocupar competências tradicionais do Estado, muitas vezes rivalizando com estes sob a alegação que a pesada buro- cracia estatal é um obstáculo à eficiência das ações.
Neste sentido, buscam neutralizar as intervenções estatais ou mesmo ins- trumentalizá-las em próprio benefício. Nestas circunstâncias, como é perceptí- vel, o Estado, entidade reguladora, produtora do corpo normativo, controlado- ra das atividades e garante da lei e da estabilidade no seio dos seus territórios e populações, tem visto mitigado o seu poder soberano de exercer tais funções, ou mesmo o seu poder de controle sobre estes entes.
Analisando a questão sob a perspectiva do indivíduo temos outra aborda- gem preocupante. Em direção inversa àquela criada pelos nacionalismos, e to- mando por referência o fenômeno migratório, parece estar surgindo um novo tipo de indivíduo. Este, desenraizado, ligado a múltiplas “nacionalidades indi- viduais” e usando de seu crescente status de “cidadão do mundo”, parece estar
disposto a conceder tão somente um tipo especial de lealdade: a “lealdade par- tilhada”. O fenômeno da “lealdade partilhada” expressa a dissociação entre os laços únicos que ligam o indivíduo e o Estado, com a possibilidade de se estar criando um “cidadão” de lealdade nula.
Surge, então, no cenário contemporâneo outro tipo de cidadania, que com- partilha lealdades e que se vê vinculada não apenas ao direito produzido pelo Estado nacional, mas também àquele produzido por outros entes. Isto porque, por trás do direito a ser diferente, do respeito pelos direitos culturais e pelos laços transnacionais, pode estar surgindo um regime legal, estabelecido por, até mesmo, fontes extra-estatais que, ao estabelecer a quebra do monopólio estatal, compartilhando competência de produção normativa, contribui forte- mente para a relativização da soberania estatal e dos vínculos Estado/cidadão.
Últimas palavras
Bom, chegamos ao fim de nosso livro. Como tivemos a oportunidade de ver, a política é a via hábil para extração da vontade do povo soberano. Longe de ser um espaço monopolizado pelos “políticos profissionais”, ela é o campo natural de atuação da cidadania, que só aí pode manifestar a sua autonomia coletiva, garantindo uma sociedade livre, justa, igualitária e solidária.
Como vimos, o Estado é uma instituição histórica, forjada no decorrer do tempo. A crise por ele vivenciada na contemporaneidade, por si só, não é nega- tiva. Ela é um momento necessário para que as instituições sejam repensadas e adequadas às necessidades históricas do ser humano. Por isso, a remodelação do ente estatal torna-se um imperativo para que este se mostre cada vez mais capacitado a realizar sua finalidade precípua: proteger na máxima extensão os direitos dos seres humanos, concedendo a estes a dignidade que lhes é própria.