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O território e o poder de império do Estado

No documento LIVRO DIDÁTICO - Ciencia Politica (páginas 72-74)

Espacial do Poder

4.2 O território e o poder de império do Estado

No mundo antigo (Cidade–Estado) e na Idade Média (concepção medieval de Estado), a noção de território como elemento essencial do Estado não existia. Assim sendo, é importante compreender que somente com o Estado Moderno é que o território passou a ser considerado como elemento essencial do Estado. Desde então, a compreensão do que vem a ser Estado tem por pressuposto a existência de um território.

Vale lembrar, como vimos um pouco mais acima, que a ideia de que o ter- ritório é a base geográfica do poder surgiu em um contexto de superação do feudalismo em que se passou a propugnar pela implantação de uma ordem ju- rídica única de soberania incontrastável, absoluta, seja no plano interno, seja no plano internacional. A partir do surgimento do que estamos denominan- do “Estado westfaliano”, o conceito de território passou a ser associado dire- tamente a um poder de império, dotado de latitude jurídico-política capaz de impor coercitivamente a vontade do Estado.

Porém, no âmbito da demarcação das linhas essenciais do Estado, há quem le- vante a questão sobre a possibilidade de se reconhecer a existência de um Estado sem território. Nesse sentido, deve-se colocar o problema de ser ou não o território elemento essencial do Estado. Ou seja, existe Estado sem território ou não?

Dalmo de Abreu Dallari lembra que a quase totalidade dos autores concor- da em reconhecer o território como indispensável para a existência do Estado, mesmo que a partir de diferentes argumentos. Enquanto para muitos deles o território é elemento material constitutivo essencial do Estado, há quem aceite a base territorial como condição necessária exterior ao Estado, afirmando que, embora necessária, esta base representa tão somente o quadro natural no qual os governantes exercem suas funções.

Embora não devamos deixar de refletir sobre esta última posição, a verdade é que entendemos (na direção seguida pela maior parte dos autores) que o ter- ritório é sim elemento essencial do Estado, de acordo com a doutrina majoritá- ria. Na linha do que afirmou Hans Kelsen, a delimitação territorial é uma neces- sidade, pois torna possível a vigência simultânea de diversas ordens estatais.

Outro ponto relevante: há que se reconhecer que a perda temporária do terri- tório não o desqualifica como elemento essencial, ou seja, o Estado continuará

a existir enquanto não se caracterizar que esta perda foi definitiva, sem possi- bilidade de reintegração do território perdido. Nesse caso, ficando evidenciada a perda definitiva, segundo o percurso teórico por nós seguido, não existiria Estado, pois ausente sua base territorial. O mesmo raciocínio deve valer para perdas parciais de território, seja por alienação, seja por outro motivo qualquer.

Alguns pontos são interessantes de serem abordados. Por exemplo: o terri- tório é patrimônio do povo ou é propriedade do Estado? Nos dias atuais, seguin- do uma linha de respeito à pessoa, não há nenhuma divergência doutrinária no sentido de reconhecer que o território é patrimônio do povo e não propriedade do Estado. Porém, há de se ter cuidado com a extensão a ser dada a esta formu- lação teórica, pois havendo interesse desse último (Estado), o território pode até ser alienado parcialmente, ou mesmo, em circunstâncias excepcionais de crise (Estado de Defesa ou de Sítio) ser usado com imposição de limites aos di- reitos de particulares sobre porções determinadas.

Outra questão: existiria um limite mínimo de extensão para que o Estado seja reconhecido como tal? Não, não existe regra internacional que quantifique o mínimo de extensão ter- ritorial que um determinado Estado deva possuir. Nesse sentido, basta lembrar o caso do Vaticano, cujo território ínfimo, vale dizer, 0,44 km², está situado dentro da cidade italiana de Roma. E há outros muito pequenos como, entre os mais conhecidos, Mônaco, com 2 km² e San Marino com 62 km².

Mas qual seriam as principais teorias acerca da natureza jurídica do terri- tório? No Brasil, destaca-se a construção doutrinária desenvolvida por Paulo Bonavides que estabelece originalmente quatro grandes teorias para explicar a natureza jurídica do território: a) teoria do território-patrimônio; b) teoria do território-objeto; c) teoria do território-espaço; d) teoria do território-compe- tência. Analisemos cada uma delas:

Teoria do território-patrimônio – Por esta teoria, o território é considerado propriedade do Estado. É uma concepção medieval, cuja característica era exa- tamente essa ideia de que os senhores feudais e os reis eram considerados pro- prietários de seus respectivos domínios, assim como dos servos hereditários da gleba, considerados acessórios da terra e do solo. Com isso, tal teoria não faz a distinção entre direito público e privado, nem entre imperium e dominium.

Teoria do território-objeto – segundo esta teoria, o Estado exerce um direi- to real de caráter público, chamado domínio eminente sobre o território. Esse

direito estatal (dimensão positiva), no entanto, coexistiria com o chamado do- mínio útil, exercido pelo cidadão (dimensão negativa). Observe, portanto, que há uma incongruência nessa teoria, uma vez que não se admitem dois direitos de propriedade sobre a mesma coisa.

Teoria do território-espaço – Esta terceira teoria vislumbra que o poder que o Estado exerce sobre o território é um poder exercido sobre pessoas, ou seja, um poder de imperium, de comandar pessoas. Diferentemente da segunda te- oria que se pauta no poder exercido sobre coisas (dominium), a teoria do terri- tório-espaço, na qualidade de direito pessoal do Estado, tem dificuldade para explicar o direito do Estado de praticar certos atos fora do seu território, como por exemplo, no alto mar em navios sob sua bandeira, ou, então, dificuldade para explicar o exercício do poder em áreas anecumênicas (áreas inabitadas pelo homem).

Teoria do território-competência – Finalmente, a teoria do território-com- petência, concebida pela Escola de Viena, vislumbra o território como ele- mento determinante da validez da norma jurídica, isto é, o território é o âm- bito espacial de validade da ordem jurídica estatal, com exclusão dos outros. Sintetizando, é no território do Estado que se podem aplicar as leis por ele produzidas.

De tudo se vê, portanto, que essa última teoria é a que mais se aproxima do conceito de território nos dias atuais. Ou seja, com base na monopolização da feitura da lei nas mãos de um único centro de poder normativo, a teoria do território-competência faz a associação direta entre o princípio da impene- trabilidade da ordem jurídica e a visão do território como base geográfica do poder do Estado.

No documento LIVRO DIDÁTICO - Ciencia Politica (páginas 72-74)