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O trabalho que produz bens materiais e imateriais para satisfazer as necessidades do ser humano é também produtor da própria humanidade, forma de expressão e criação do ser humano, responsável pela construção da sua identidade e fator de reconhecimento. No entanto, a exploração capitalista também faz do trabalho fator de negação das potencialidades humanas, degradação da subjetividade e alienação. Para Wandeli, essa contradição origina a

71DELGADO, Maurício Godinho; DELGADO, Gabriela Neves. Constituição da República e Direitos

Fundamentais. São Paulo: LTr, 2012, p. 184.

72

Idem, p. 176-177.

73 DELGADO, Maurício Godinho; DELGADO, Gabriela Neves. Constituição da República e Direitos

necessidade de regulação do trabalho pelo Estado e ―relevância do trabalho como um direito

na sociedade capitalista‖ 74

:

Quando os textos normativos da Constituição ou de normas internacionais falam do direito ao trabalho ou do valor social do trabalho (CRFB, art. 1º, IV e 170), apontam criticamente para essa contradição, de modo que se intervenha, tensionando e contra-arrestando essa tendência e reafirmando, mesmo parcial e limitadamente, a dimensão de liberdade do trabalho. É claro que para isso o trabalho precisa tornar-se algo bastante diferente daquele que se observa no cotidiano. E o direito do Estado tem um potencial limitado para promover essa transformação. Mas se não for para intervir na realidade das relações de dominação e exclusão, de que serve a luta por direitos?75

Na perspectiva do direito ao trabalho inserido no sistema capitalista – no qual se reconhece a possibilidade de exploração do trabalho alheio juridicamente regulada - a ordem jurídica do Estado Democrático de Direito não admite o trabalho enquanto sujeição pessoal, mas sim como um direito, isto é, ―vantagem protegida juridicamente”, o que exclui a possibilidade, ao menos do ponto de vista jurídico, de prestação de trabalho servil ou na condição análoga ao escravo – situações consideradas marginais à luz do Direito e inscritas,

portanto, na ilegalidade.76

Nesse sentido, ao se referir a existência de diferentes tipos de trabalho, Boaventura de Sousa Santos, afirma que, admiti-los ―só é democrático na medida em que cria em cada um deles um patamar mínimo de inclusão. Ou seja, o polimorfismo do trabalho só é aceitável na

medida em que o trabalho permanece como critério de inclusão.‖77

O enquadramento do trabalho digno como direito fundamental afasta a viabilidade jurídica de reconhecimento de hipóteses de trabalho exercido em condições indignas. No Estado Democrático de Direito o trabalho constitui direito fundamental, sendo assim, as hipóteses de sujeição pessoal não são admitidas pelo ordenamento jurídico, embora a realidade fática da exploração humana em condições degradantes persista no sistema capitalista 78.

74 WANDELI, Leonardo Vieira. O direito ao trabalho como direito humano fundamental: elementos para sua

fundamentação e concretização. (Tese de Doutorado). Universidade Federal do Paraná, Orientadora: Adalcy

Rachid Coutinho. 2009, p. 48-49. Disponível em:

<http://www.dominiopublico.gov.br/download/teste/arqs/cp143699.pdf> Acesso em: 29/07/2018.

75

Idem.

76

DELGADO, Maurício Godinho; DELGADO, Gabriela Neves. Constituição da República e Direitos Fundamentais. São Paulo: LTr, 2012, p. 64-65. (Grifos dos autores).

77SANTOS, Boaventura de Sousa. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. São Paulo: Cortez,

2006, p. 379.

78 DELGADO, Maurício Godinho; DELGADO, Gabriela Neves. Constituição da República e Direitos

O ordenamento jurídico internacional79 corrobora a ideia de afirmação do direito ao trabalho digno, a partir do art. 23, § 1.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que afirma: ―Toda pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha de seu trabalho, a condições

equitativas e satisfatórias de trabalho e à proteção contra o desemprego‖.80

O art. 6.º do Protocolo adicional ao Pacto de San José da Costa Rica sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais proclama que ―Toda pessoa tem direito ao trabalho, o que inclui a oportunidade de obter os meios para levar uma vida digna e decorosa por meio do

desempenho de uma atividade lícita, escolhida ou aceita‖ 81

.

Gabriela Neves Delgado afirma que o direito fundamental ao trabalho digno, ―não pode ser confundido com o direito de trabalhar, muito menos com o direito de escolher um trabalho, porque esses direitos pertencem à esfera da liberdade, ou seja, da faculdade

individual de cada ser humano‖82

.

Leonardo Vieira Wandeli considera que só se reconhece a liberdade de trabalhar quando se assegura ―um mínimo existencial correspondente à satisfação das necessidades

básicas (não mínimas, conforme se viu), integradas também pelo trabalho‖83

. Para o autor, o capitalismo impõe relações de poder desiguais, o que faz com que a liberdade de trabalhar atribua ao Estado o dever de proteger o trabalhador frente aos ―constrangimentos que essa

desigualdade acarreta à liberdade de trabalhar‖84

.

79

Desde a Declaração de Filadélfia, que afirmou, em 1944, que ―o trabalho não é mercadoria‖,79 e da Declaração Universal dos Direitos do Homem que, em 1948, consignou que ―Todo ser humano que trabalha tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência compatível com a dignidade humana e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social‖ 79, princípios relacionados ao Direito Internacional do Trabalho são apresentados como balizadores do ordenamento jurídico interno dos países integrantes de organismos internacionais como a ONU e a OIT. A preocupação da Organização Internacional do Trabalho em afirmar os direitos trabalhistas como direitos fundamentais foi materializada na Declaração sobre os Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho (Declaração de 1998). A OIT conta com um sistema de normas relacionadas diretamente ao desenvolvimento de condições de trabalho dignas, com destaque para a Convenção sobre o Trabalho Forçado, 1930 (nº 29), Convenção sobre a Liberdade Sindical e a Proteção do Direito Sindical, 1948 (nº 87), Convenção sobre o Direito de Sindicalização e de Negociação Coletiva, 1949 (nº 98), Convenção sobre a Igualdade de Remuneração, 1951 (nº 100), Convenção sobre a Abolição do Trabalho Forçado, 1957 (nº 105), Convenção sobre a Discriminação (Emprego e Profissão), 1958 (nº 111), Convenção sobre a Idade Mínima para Admissão a Emprego, 1973 (n° 138), Convenção sobre a Proibição das Piores Formas de Trabalho Infantil e a Ação Imediata para a sua Eliminação, 1999 (n° 182) O Brasil ratificou um total de 82 das 189 convenções da OIT, sendo todas as convenções fundamentais, salvo a 87.

80 Declaração Universal dos Direitos Humanos. Disponível em:

<http://www.dhnet.org.br/direitos/deconu/textos/integra.htm> Acesso em: 28/10/2018

81 Ratificado pelo Brasil pelo Decreto Legislativo n.º 56, de 19/4/1995. Introduzido no direito interno brasileiro

em pelo Decreto n.º 3.321, de 30/12/1999.

82

DELGADO, Gabriela Neves. Direito fundamental ao trabalho digno. São Paulo. LTr, 2006, p. 67.

83

WANDELLI, Leonardo Vieira. O Direito ao Trabalho como Direito Humano e Fundamental: Elementos para sua fundamentação e concretização. [tese] Faculdade de Direito, Setor de Ciências Jurídicas da Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2009, p. 363.

84

O trabalho, portanto, nos marcos do sistema capitalista, somente se viabiliza em sua

―conotação ética‖85

e revestido de dignidade, se assegurado como direito fundamental sujeito à proteção jurídica do Estado.

Por ser uma faculdade essencial da pessoa humana, que concretiza a sua identidade social e possibilita o seu autoconhecimento e sua socialização, é que ―o trabalho se insere, originalmente, no mundo do “ser‖, existindo antes mesmo da sua regulamentação jurídica. O

trabalho pode revelar em si o valor da dignidade - ou não‖ 86.

Na perspectiva desta pesquisa, o ―trabalho não violará o homem enquanto fim em si mesmo, desde que prestado em condições dignas. O valor da dignidade deve ser o

sustentáculo de qualquer trabalho humano‖.87

Immanuel Kant foi o primeiro teórico que atribuiu ao conceito de dignidade humana maior densidade, a partir da ideia de que os homens estão submetidos a um imperativo categórico que determina que ―cada um deles jamais trate a si mesmo ou aos outros simplesmente como meios, mas sempre simultaneamente como fins em si‖88 Sobre o conceito desenvolvido pelo filósofo, Othon de Azevedo Lopes esclarece:

Sinteticamente, pode-se dizer que o cerne da dignidade da pessoa humana em Kant seria considerar o homem universalmente, em função de sua autonomia, como um fim em si mesmo e por isso com um valor sem equivalente e inapreciável. Então, os desdobramentos morais e sociais dessa ideia seriam: 1) a impossibilidade de coisificar o homem, relativizando-o ou mensurando-o; 2) a indisponibilidade de tal condição; 3) a transformação do ser humano em meio quando seus direitos fundamentais são violados; 4) a necessidade de se promover a humanidade como um fim em si mesma; 5) a constituição de uma comunhão de fins para a promoção da felicidade de cada indivíduo; 6) a afirmação da dignidade humana como um princípio supremo.89

Como dignidade humana, destaca-se o conceito de Ingo Wolfgan Sarlet, segundo o qual

(...) temos por dignidade humana a qualidade intrínseca e distintiva reconhecida em cada ser humano que o faz merecedor de respeito e consideração por parte do Estado

85 Conforme expressão de Jorge Luiz Souto Maior, ―conotação ética‖ do trabalho pressupõe a socialização do

homem trabalhador, que reconhece a dignidade alheia e ao mesmo tempo em que requer o reconhecimento da sua própria dignidade, numa exigência de paridade e reciprocidade. MAIOR, Jorge Luiz Souto. O direito do trabalho como instrumento de justiça social. São Paulo: LTr, 2000, p. 104.

86

Idem, p. 27

87

DELGADO, Gabriela Neves. Direito Fundamental ao Trabalho Digno. São Paulo: LTr, 2006, p. 207.

88 KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Tradução de Paulo Quintela. Lisboa: Edições

70, 1995, p. 76- 77.

89

SILVA, Alexandre Vitorino da ... [et. al]. LOPES, Othon de Azevedo. A dignidade humana como princípio fundamental. In: Estudos de Direito Público: Direitos Fundamentais e Estado Democrático de Direito, 2003, p. 204.

e da comunidade, implicando, neste sentido, um complexo de direitos e deveres fundamentais que assegurem a pessoa tanto contra todo e qualquer ato de cunho degradante e desumano, como que venham a lhe garantir as condições existenciais mínimas de uma vida saudável, além de propiciar a promover sua participação ativa e corresponsável nos destinos da própria existência e da vida em comunhão com os demais seres humanos.90

O trabalho é suporte do valor dignidade. Para Gabriela Neves Delgado, ―a existência de um patamar mínimo de direitos trabalhistas é condição para a viabilidade do valor da dignidade no trabalho e para a afirmação social do sujeito que labora‖. Segundo a autora, o trabalho digno apresenta-se ―simultaneamente como direito fundamental universal (do trabalhador) e como uma obrigatoriedade ou dever fundamental universal (do tomador de

serviços)91. Nesse sentido, preceitua Jorge Luiz Souto Maior:

O trabalho é da essência humana, no sentido de dever de valorização pessoal e de integração social, e será ao mesmo tempo um dever e um direito, na relação do indivíduo com a sociedade e o Estado. O direito do trabalho, que regula o trabalho prestado por uma pessoa a outra, deve ter por base, portanto, o respeito à essência do trabalho, enquanto dever e direito. Nisso consiste a ética do direito do trabalho, e sua existência só terá sentido na medida em que respeitar isso.

A garantia de um patamar mínimo civilizatório de direitos trabalhistas é condição para alcançar o valor da dignidade no trabalho, destacando-se, nesse sentido, a importância da constitucionalização do Direito do Trabalho.

O direito fundamental ao trabalho foi constitucionalizado a partir da segunda metade do século XX, com as Constituições do México (1917) e da Alemanha (1919), no entanto, sua consolidação ocorreu somente com o final da Segunda Guerra Mundial e o apogeu do Estado

Social de Direito, sobretudo pela inclusão nas Constituições francesa, italiana e alemã. 92

No Brasil, a primeira Constituição a prever direitos de cunho econômico e social foi a de 1934, introduzindo normas heterônomas trabalhistas, como a garantia de salário mínimo, a isonomia salarial, a jornada diária de 8 horas de trabalho, o repouso semanal remunerado, a proibição de trabalho noturno para os menores de quatorze anos e de trabalho insalubre para menores de dezoito anos e mulheres, entre outros. No campo do Direito Coletivo, consagrou a pluralidade e a autonomia sindicais. De breve duração, a Constituição de 1934 teve seus efeitos suspensos pelo Estado de Sítio decretado por Getúlio Vargas, três anos depois de ser

promulgada. 93

90 SARLET, Ingo Wolfgan. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na Constituição Federal de

1988. 3.ª ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2004, p. 59-60.

91

DELGADO, Gabriela Neves. Direito fundamental ao trabalho digno. São Paulo. LTr, 2006, p.240-241.

92DELGADO, Maurício Godinho. Curso de Direito do Trabalho. São Paulo: LTr, 2018., p. 96-97. 93DELGADO, Gabriela Neves. Direito fundamental ao trabalho digno. São Paulo. LTr, 2015, p.74-75.

A Constituição posteriormente outorgada por Getúlio Vargas, em 1937, sob a ditadura do Estado Novo, impôs retrocessos não apenas no que se refere às liberdades democráticas e direitos políticos, mas também no que se refere aos direitos sociais e econômicos. Nesse sentido, não faz referência ao princípio da isonomia salarial, proibiu a greve e o lockout e, apesar de manter a liberdade de associação, atrelou os sindicatos ao reconhecimento pelo

Estado. 94

Em 1943 foi aprovada a Consolidação das Leis do Trabalho – CLT, que, apesar da inspiração autoritária, consistiu em uma importante conquista para os trabalhadores brasileiros. Posteriormente, a Constituição de 1946, elaborada após a Segunda Guerra Mundial, refletiu o contexto histórico de preocupação com os direitos humanos e referiu-se expressamente à dignidade humana, afirmando que ―a todos deveria ser assegurado trabalho que possibilitasse a existência digna‖, relacionando o conceito à dinâmica social do trabalho95.

O golpe militar de 1964 iniciou um processo de desconstrução da Constituição de 1946 por meio de Atos Institucionais que durou três anos, até que, em 1967, foi publicada uma nova Constituição, sem que houvesse um processo de redação legítimo. Embora tenha sofrido os efeitos nefastos do Ato Institucional n. 5, e apesar do seu caráter autoritário e antidemocrático, a Constituição de 1967 manteve os direitos trabalhistas previstos nas Constituições anteriores, acrescentou a criação dos Tribunais Regionais do Trabalho e do Tribunal Superior do Trabalho, tornou obrigatório o voto nas eleições sindicais e instituiu a

contribuição sindical obrigatória.96

A derrocada do regime militar e a redemocratização do país, iniciada no final dos anos de 1980, proporcionaram a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte e, posteriormente, a aprovação da Constituição Federal de 1988, com a consequente inauguração de um novo paradigma constitucional, em que adquire destaque o trabalho, relacionado aos princípios e a valores, como o da dignidade humana, do valor social do trabalho e da justiça social. 97

A Constituição de 1988 assegurou uma amplitude normativa e vinculante ao princípio da dignidade humana para além da esfera meramente individual, alçando a pessoa humana ao centro do ordenamento jurídico. Desta forma, Gabriela Neves Delgado conclui que, ―a dignidade humana traduz, na Constituição Federal de 1988, a ideia de que o valor central da

94Idem, p. 71. 95

Idem. p. 72

96DELGADO, Gabriela Neves. Direito fundamental ao trabalho digno. São Paulo. LTr, 2015, p. 78. 97Idem, p. 79.

sociedade está na pessoa, centro convergente dos direitos fundamentais‖ 98. Expressa como fundamento da matriz constitucional, a dignidade humana constitui ―princípio fundamental de

todo o ordenamento jurídico brasileiro‖.99

A dignidade humana se manifesta na matriz constitucional brasileira de 1988 em diversas dimensões, como no art. 170 que determina que a ordem econômica deverá ser fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tendo por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social. Para Fabio Goulart Villela

O trabalho é direito social previsto no art. 6º, o qual deve ser interpretado de forma sistêmica com o art. 1º, inciso III, em busca da unidade constitucional. Logo, todo o cidadão tem direito a um trabalho digno ou decente, que seja instrumento de concretização de sua dignidade e cidadania. 100

Para Othon de Azevedo Lopes, a afirmação da dignidade humana com sua adoção pela Constituição brasileira após um período autoritário aponta a preocupação em positivar o

princípio de forma a afastar a possibilidade de sua redução ou relativização101.

Sobre a incorporação do trabalho como valor social na Constituição brasileira, Gabriela Neves Delgado explica:

[...] o valor expresso em uma norma jurídica reflete o ato de vontade regulamentado de que aquele significado axiológico participe da realidade da vida, de onde curiosamente vem a sua gênese. Assim é o caminho percorrido pelos valores entre o mundo do ser e do dever-ser: naturalmente transitório, destacando no seu âmago um imponderável vislumbrar. 102

Portanto, adquire relevância na nova ordem constitucional o valor social do trabalho, um dos fundamentos consagrados pela República Federativa do Brasil, o que implica em afirmar que ―a Constituição fixa um conteúdo para o Direito, para a sociedade e para o

próprio Estado em torno do valor trabalho‖.103

A Constituição Federal apresentou de maneira inédita, um capítulo próprio para inscrever os direitos trabalhistas – o art. 7.º, Capítulo II, do Título II.

98 Idem, 75. 99 Idem, p. 79-80. 100

VILLELA, Fábio Goulart. A Centralidade da pessoa humana na ordem jurídica e o direito social ao trabalho digno. In: O Mundo do trabalho em movimento e as recentes alterações legislativas. MEDEIROS, Benizete Ramos de. 1.ª ed. São Paulo: LTr, 2018, p. 97.

101 SILVA, Alexandre Vitorino da ... [et. al]. LOPES, Othon de Azevedo. A dignidade humana como princípio

fundamental. In: Estudos de Direito Público: Direitos Fundamentais e Estado Democrático de Direito, 2003, p. 206.

102 DELGADO, Gabriela Neves. Direito fundamental ao trabalho digno. São Paulo. LTr, 2015, p.75 103Idem, p. 75.

No que se refere aos direitos fundamentais, a Constituição inseriu em seu texto a definição da proteção à intimidade e à imagem, a previsão de indenização por dano moral (art. 5.º, V e X) , a proteção à imprensa (art. 220) e a proibição da censura (art. 5.º, IX), a garantia de igualdade entre homens e mulheres em direitos e obrigações (art. 5.º, I), a proibição expressa à tortura (art. 5.º, XLIII), a tratamentos desumanos (5.º, III), ao racismo (art. 5,º, VIII e XLII) e à qualquer forma de discriminação (art. 5.º, XLI) e, ainda, a proteção ao direito do

consumidor (art. 5.º, XXXII).104

No campo social, ampliou os direitos assegurados aos trabalhadores urbanos e rurais (art. 7.º), aos trabalhadores jovens (art. 7.º, XXXIII) e assegurou a proteção previdenciária (art.7.º, XXIV). Além disso, a nova matriz constitucional equiparou os direitos dos trabalhadores avulsos aos que possuem vínculo empregatício (art. 7.º, XXXIV) e ampliou os

direitos dos trabalhadores domésticos (art. 7.º, parágrafo único).105

Entre as conquistas mais importantes no campo social destacam-se: a proibição de diferença salarial e de critérios de admissão em razão do sexo, da idade, da cor e do estado civil do indivíduo (art. 7.º, XXX), assim como a proibição de discriminação de qualquer forma, inclusive a salarial, ao portador de deficiência (art. 7.º, XXXI). No plano do direito coletivo, a Constituição incentiva a organização sindical (art. 8.º, caput) e o cooperativismo (art. 173, § 2.º), assegura a autonomia sindical (art.8.º, I), a negociação coletiva (art. 7.º, VI,

XIII e XXVI) e o direito de greve (art. 9.º).106

A partir da incorporação de direitos fundamentais ao ordenamento jurídico eles se tornam direitos de indisponibilidade absoluta, embora o momento histórico seja determinante para a extensão ou retração desses direitos.

Aprofundando o conceito de trabalho digno, ainda na perspectiva da historicidade dos direitos, Gabriela Neves Delgado considera ―os direitos de indisponibilidade absoluta devem ser considerados patamar mínimo para a preservação da dignidade do trabalhador‖. Tais direitos, para a autora, constituem ―o centro convergente dos Direitos Humanos, porque se

revelam, em essência, como direitos fundamentais do homem.‖107

Gabriela Neves Delgado destaca a existência de três eixos jurídicos que revelam um conteúdo ético por exaltar homem em sua condição ―valorosa e superior de ser humano‖, consequentemente, merecedor do direito de viver em elevadas condições de dignidade, o que vai além da defesa do cumprimento das necessidades vitais de sobrevivência do trabalhador.

104 Idem, p. 75-76 105

Idem.

106 DELGADO, Gabriela Neves. Direito fundamental ao trabalho digno. São Paulo. LTr, 2015, p.75-76 107 DELGADO, Gabriela Neves. Direito fundamental ao trabalho digno. São Paulo. LTr, 2015, p.184.

O primeiro eixo relaciona-se aos direitos trabalhistas de indisponibilidade absoluta, de conteúdo universal, dispostos nas normas de tratados e convenções internacionais ratificadas pelo Brasil. Garantem especialmente o direito à remuneração que assegure a existência digna do próprio trabalhador e de sua família, o direito à segurança e higiene no trabalho, o direito a proteção ao trabalho e ao emprego, o direito a períodos de descanso e ao lazer, à limitação razoável das horas de trabalho, à remuneração dos feriados, o direito de greve e o direito de os trabalhadores organizarem sindicatos e de se associarem a ele ou não.

O segundo eixo de direitos de indisponibilidade absoluta dos trabalhadores está previsto na Constituição Federal, que constitui o ―marco jurídico da institucionalização dos Direitos Humanos no Brasil". O art. 7.º do referido diploma legal elenca direitos constitucionais trabalhistas assegurados aos trabalhadores urbanos e rurais, e para a autora,

garantidos a qualquer trabalhador,conforme a possibilidade da própria estrutura de trabalho

estabelecida.

O terceiro eixo de direitos de indisponibilidade absoluta se manifesta nas normas infraconstitucionais como a Consolidação das Leis do Trabalho, por exemplo, e relaciona-se a

preceitos indisponíveis relativos à saúde e segurança no trabalho, dentre outros. 108

Assim delimitados os eixos de direitos fundamentais trabalhistas, destaca-se que a Constituição de 1988 constitui um ―novo paradigma no que se refere ao direito fundamental ao trabalho digno, criando possibilidades normativas de efetivação do Estado Democrático de

Direito, norteador de toda a ordem constitucional brasileira‖.109