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Conforme referido, a matriz constitucional brasileira, segundo Maurício Godinho Delgado e Gabriela Neves Delgado, estabeleceu-se sobre três pilares de sustentação - a arquitetura constitucional de um Estado Democrático de Direito, a arquitetura principiológica humanística e social da Constituição da República e a concepção constitucional de direitos

fundamentais da pessoa humana57.

Após a abordagem da arquitetura constitucional de um Estado Democrático de Direito, destaca-se a arquitetura principiológica humanística e social presente na Constituição, na qual

adquirem importância os princípios58. Para Maurício Godinho Delgado e Gabriela Neves

Delgado, a matriz constitucional de 1988 apresenta como um de seus eixos principais ―um núcleo principiológico humanístico e social‖, que não se restringe apenas ao campo social do Direito e, especialmente ao Direito do Trabalho, mas abarca variados campos jurídicos, como o Direito Civil, o Direito Penal, o Direito Previdenciário, o Direito do Consumidor, o Direito Ambiental, o Direito Tributário, entre outros. A Constituição apresenta desta forma, princípios jurídicos gerais, que alcançam diversos campos do Direito, mesmo que, em razão de diferenças, requeiram uma ―leitura algo particularizada para permitir sua melhor compreensão extensiva. Trata-se de princípios constitucionais gerais que, nessa qualidade,

produzem efeitos normativos em searas bastante diferentes do universo jurídico‖.59

Os autores citam como exemplos de princípios gerais presentes na Constituição de 1988: o princípio da dignidade da pessoa humana; o da centralidade da pessoa humana na vida socioeconômica e na ordem jurídica; o da valorização do trabalho e do emprego; o da

57 DELGADO, Maurício Godinho; DELGADO, Gabriela Neves. A reforma trabalhista no Brasil: com os

comentários à Lei 13.467/2017. 2.ª Ed. São Paulo: LTr, 2018, p. 21-22.

58Paulo Bonavides destaca o conceito de princípio, formulado por Crisafulli em 1952: ―Princípio é, com efeito,

toda norma jurídica, enquanto considerada como determinante de uma ou de muitas outras subordinadas, que a pressupõem, desenvolvendo e especificando ulteriormente o preceito em direções mais particulares (menos gerais), das quais determinam, e portanto resumem, potencialmente, o conteúdo: sejam , pois, estas efetivamente postas, sejam, ao contrário, apenas dedutíveis do respectivo princípio geral que as convém‖. In: BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. 29.ª ed. (em apêndice à CF/1988, com as Emendas Constitucionais até a de n. 77, de 11.2.2014). São Paulo: Editora Malheiros, 2014, p. 262.

59DELGADO, Maurício Godinho; DELGADO, Gabriela Neves. A reforma trabalhista no Brasil: com os

inviolabilidade do direito à vida; o do bem-estar individual e social; da justiça social; o da submissão da propriedade à sua função socioambiental; o da não discriminação; o da igualdade em sentido material; o da segurança; o da proporcionalidade e razoabilidade; o da

vedação do retrocesso social60.

Ao lado desses princípios gerais, há alguns princípios específicos do Direito Individual e do Direito Coletivo do Trabalho presentes na matriz constitucional de 1988. No campo do Direito Individual do Trabalho, os autores destacam: o princípio da norma mais favorável, o da continuidade da relação de emprego e da irredutibilidade salarial. No campo do Direito Coletivo do Trabalho, relacionam: o princípio da liberdade associativa e sindical; da autonomia sindical; da interveniência sindical na negociação coletiva trabalhista e da

equivalência entre os contratantes coletivos trabalhistas61. Para os autores

Esse largo rol de princípios constitucionais humanísticos e sociais, além do importante grupo de princípios justrabalhistas individuais e coletivos constitucionalizados, tudo estabelece balizas e limites inegáveis para a norma jurídica infraconstitucional na ordem jurídica brasileira. Esses limites constitucionais enfáticos devem estar presentes ao intérprete conclusivo do Direito em seu desafio de bem interpretar novos diplomas e regras jurídicas aprovados na realidade institucional do país.

O princípio da dignidade da pessoa humana, consagrado no art. 1.º da Constituição Federal, erigiu o ser humano, com sua dignidade, ao centro do ordenamento jurídico pátrio. Nesse sentido, a concepção constitucional de direitos fundamentais da pessoa humana completa a arquitetura da matriz constitucional de 1988 como terceiro pilar de sustentação62. Para Ingo Wolfgang Sarlet, a distinção entre direitos humanos e direitos fundamentais não se trata meramente de uma diferenciação de rótulo, mas do conteúdo essencial desses direitos. Segundo o autor

os direitos fundamentais, considerados como tais aqueles consagrados nas ordens jurídicas constitucionais e dotados de um particular regime jurídico que é constitutivo da própria fundamentalidade, podem ter (e em muitos casos o têm) uma amplitude muito maior que a do universo dos direitos humanos, seja qual for o critério justificador de tal noção. 63

60DELGADO, Maurício Godinho; DELGADO, Gabriela Neves. A reforma trabalhista no Brasil: com os

comentários à Lei 13.467/2017. 2.ª Ed. São Paulo: LTr, 2018, p. 31

61

Idem, p. 30.

62 DELGADO, Maurício Godinho; DELGADO, Gabriela Neves. A reforma trabalhista no Brasil: com os

comentários à Lei 13.467/2017. 2.ª Ed. São Paulo: LTr, 2018, p. 21-22. (Grifos acrescidos)

63

SARLET, Ingo Wolfgang. Pena de morte na Indonésia e FGTS no Brasil – a distinção necessária. Disponível em <https://www.conjur.com.br/2015-fev-13/direitos-fundamentais-pena-morte-indonesia-fgts-brasil-distincao- necessaria> Acesso em: 28/07/2018. (Grifos do autor).

Para exemplificar a diferença, o autor destaca o FGTS, o adicional de um terço sobre as férias, as ações constitucionais como o Habeas Data e o Mandado de Injunção que podem, como no Brasil, ―assumir a condição de direitos fundamentais e ainda assim não serem direitos humanos‖ e ressalta que, a depender da ordem constitucional, haverá coincidência, ou não, entre a condição de direito humano e de direito fundamental.

Segundo o autor, tal distinção subsiste. Para elucidá-la, cita Joaquim Gomes Canotilho, para quem o termo ―direitos fundamentais‖ se aplicaria àqueles ―direitos do ser humano reconhecidos e positivados na esfera do direito constitucional positivo de determinado Estado‖, e, de outro lado, menciona Jorge Miranda, para quem a expressão ―direitos humanos‖, se relacionaria a documentos de direito internacional que reconhecem o ser humano como tal, a despeito de vinculação a uma determinada ordem constitucional, e que, desta forma, ―aspiram à validade universal, para todos os povos e tempos, de tal sorte que revelam um inequívoco caráter internacional‖.

Esta não seria, no entanto, segundo Sarlet, a única definição possível, uma vez que a matéria envolve controvertidos argumentos de ordem moral, de direito natural e relacionados

ao critério da titularidade. 64

José Afonso da Silva, ao conceituar o que entende ser ―direitos fundamentais do homem‖, afirma:

[...] No qualificativo fundamentais acha-se a indicação de que se trata de situações jurídicas sem as quais a pessoa humana não se realiza, não convive, às vezes, nem mesmo sobrevive; fundamentais do homem no sentido de que todos, por igual, devem ser, não apenas formalmente reconhecidos, mas concreta e materialmente efetivados. Do homem não como macho da espécie, mas no sentido de pessoa humana. Direitos fundamentais do homem significa direitos fundamentais da pessoa humana ou direitos fundamentais. 65

No caso do Brasil, o constituinte optou por fazer uma expressa distinção entre direitos humanos e direitos fundamentais, com fulcro no critério de que direitos humanos são aqueles consagrados na esfera do direito internacional (ressaltando a prevalência dos direitos humanos

64

SARLET, Ingo Wolfgang. As aproximações e tensões existentes entre Direitos Humanos e Fundamentais. Disponível em:

<https://www.conjur.com.br/2015-jan-23/direitos-fundamentais-aproximacoes-tensoes-existentes-entre-direitos- humanos-fundamentais>Acesso em: 28/07/2018.

65 SILVA, José Afonso. Curso de direito constitucional positivo. 9.ª ed. São Paulo: Malheiros, 2000, p. 182

no artigo 4º, inciso II) e os direitos e garantias fundamentais (expressas na epígrafe do Título

II) são aqueles consagrados pela Constituição. 66

Elucidada a diferenciação entre direitos humanos e direitos fundamentais, Maurício Godinho Delgado e Gabriela Neves Delgado destacam que, a concepção de direitos fundamentais da pessoa humana firmou-se a partir do novo constitucionalismo europeu, desenvolvido após a Segunda Guerra Mundial, em decorrência do Estado Democrático de Direito, ―dos princípios humanísticos e sociais fundantes das novas constituições erigidas desde 1946 no Ocidente, além de ser mecanismo de efetivação da objetivada centralidade da

pessoa humana na vida socioeconômica e na ordem jurídica‖. 67

Para os autores, essa concepção está expressamente consignada na Constituição Federal de 1988, em seu Título I - ―Dos Princípios Fundamentais‖ (arts. 1º até 4º) e em seu Título II - ―Dos Direitos e Garantias Fundamentais‖ (arts. 5º até 17), sendo que, no Título II, ao tratar dos Direitos e Garantias Fundamentais, a Constituição engloba princípios e regras que regulam direitos fundamentais da pessoa humana, mas também regras de organização de partidos políticos, como as previstas no art. 17 do Capítulo V do Título II – ―Dos Partidos Políticos‖, portanto, direitos e institutos de natureza diversa. Em conclusão, os direitos fundamentais da pessoa humana consistem em direitos que ―são inerentes ao universo de sua personalidade e de seu patrimônio moral, ao lado daqueles que são imprescindíveis para garantir um patamar civilizatório mínimo inerente à centralidade da pessoa humana na vida

socioeconômica e na ordem jurídica‖. 68

O constituinte incluiu os direitos fundamentais da pessoa humana entre aqueles que,

pela sua essencialidade, são protegidos pelo art. 60, § 4.º, IV, da Constituição de 198869, razão

pela qual não serão objeto de deliberação projetos de emenda constitucional que visem a

abolir ―IV – direitos e garantias individuais‖. 70

Compreendidos os direitos trabalhistas insculpidos no art.7.º como direitos individuais da pessoa humana do trabalhador, assim como os direitos sociais trabalhistas, seriam estes abarcados pela proteção constitucional contra quaisquer reformas, intentadas tanto pelo Poder Legislativo Reformador, quanto pelo Poder Legislativo Ordinário.

66 SARLET, Ingo Wolfgang. Pena de morte na Indonésia e FGTS no Brasil – a distinção necessária. Disponível

em <https://www.conjur.com.br/2015-fev-13/direitos-fundamentais-pena-morte-indonesia-fgts-brasil-distincao- necessaria> Acesso em: 28/07/2018.

67

DELGADO, Maurício Godinho; DELGADO, Gabriela Neves. A reforma trabalhista no Brasil: com os comentários à Lei 13.467/2017. 2.ª ed. São Paulo: LTr, 2018, p. 32.

68Idem, p. 33. 69

Art. 60. A Constituição poderá ser emendada mediante proposta: (...) § 4º Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: (...) IV - os direitos e garantias individuais.

Importante destacar que a Organização Internacional do Trabalho – OIT, por ocasião da sua 86ª Conferência Internacional do Trabalho, em 1998, produziu documento intitulado ―Declaração sobre os Princípios e Direitos Fundamentais do Trabalho‖ (Declaração de 1998), no qual definiu como Direitos Humanos dos Trabalhadores os direitos à liberdade de associação e à negociação coletiva, dispostos na Convenção n. 87 da OIT, não ratificada pelo Brasil e na Convenção n. 98 da OIT, o direitos à eliminação de todas as formas de trabalho forçado ou compulsório, conforme as Convenções n. 29 e 105, o direito à abolição do trabalho infantil, consignado nas Convenções 138 e 182 da OIT e o direito à eliminação de todas as formas de discriminação no trabalho ou ocupação, disposto nas Convenções 100 e 111 da OIT.71

Por fim, ressalta-se que os Direitos Humanos não se desenvolvem de maneira estanque, pois ―enquanto padrão de humanidade e também reinvindicação de ordem moral, encontram-se em permanente processo de construção e reconstrução, surgindo, no curso

histórico, mediante processo cumulativo e qualitativo e não por meio de evolução linear‖.72

Embora decorram de uma realidade dinâmica e se apresentando em diferentes dimensões ou gerações, há que se afirmar o caráter indivisível, interdependente e inter-relacionado dos Direitos Humanos. Decorre dessa teoria da indivisibilidade um ―novo conceito de sujeito de direitos‖, que ultrapassa ―o paradigma liberal‖ e elastece o ―sentido de cidadania, assegurando-lhe o amplo leque de direitos fundamentais que lhe permita a plena integração da

vida em sociedade.73