3. PARADIGMAS DE MEIO AMBIENTE
3.1 O conceito de meio ambiente e a problemática ambiental
A fim de situar o tema meio ambiente no contexto da divulgação científica e Representações Sociais faz-se necessário, em primeiro lugar, compreender o conceito de meio ambiente. Tal conceito, como é visto hoje no meio científico, é um resultado do século XX. Durante os séculos anteriores, meio ambiente e natureza eram equivalentes, o que, segundo Simons (1993) remete ao caráter cultural destes conceitos. Em diferentes épocas na cultura ocidental, o homem exibiu formas específicas de se relacionar com a natureza: da natureza mágica (animista e antropomórfica), a natureza objetiva e jurídica dos gregos e no século XVII, resultante da revolução científica até uma visão de natureza mecânica (Lenoble, 1969). A emergência do conceito de meio ambiente, no último século, é fruto de uma crescente mudança de paradigmas que envolvem a ciência e a sociedade como um todo.
A “visão de mundo Ocidental”, pautada em crenças advindas dos filósofos gregos, da tradição judaico-cristã, de pensadores iluministas e de acontecimentos como a revolução industrial, a revolução científica e o colonialismo europeu, moldou a relação do homem com a natureza (Winter, 1996). De certa forma ainda hoje o conceito de meio ambiente se encontra impregnado por esta história, e a sua construção ao longo desde século, em meio a diferentes visões ambientalistas e um intenso debate sobre o tema, faz com que ele exiba um caráter complexo e multidimensional (Leis, 1996).
Segundo Leis (1996), o ambientalismo surge por volta dos anos 50, e com ele o conceito de meio ambiente. O contexto da Segunda Guerra Mundial permite a emergência de diversos valores, dentre eles valores ‘pós-materialistas’ e valores ligados a uma “ética ecológica”. A primeira aparição do conceito se dá no âmbito científico, através dos estudos da Ecologia - com a idéia de Ecossistema e a Teoria Geral dos Sistemas. Em 1948, cientistas vinculados à União das Nações Unidas (ONU) criam a União Internacional para a proteção da Natureza (IUPN) e em 1949, nos Estados Unidos, é realizada a Conferência Científica das Nações Unidas sobre Conservação e Utilização de Recursos (Leis, 1996). A
partir daí, este tema foi se tornando um tópico de debate em diversas instâncias da sociedade.
Nos anos 60, quando a preocupação científica com a ecologia já está instalada, o ambientalismo vai além do ambiente acadêmico e surgem grupos e Organizações Não Governamentais (ONGs). Na década seguinte, o ambientalismo passa a se manifestar como uma preocupação política e do governo, momento em que, em 1972, realiza-se a Conferência das Nações Unidas em Estocolmo com representantes de 113 países. Segundo Torres (2002) este é o primeiro momento em que se reconhece a dimensão humana no meio ambiente. Na década de 80 a preocupação com o meio ambiente avança para o sistema econômico (Comissão Brundtland se reúne em 1983 e, em 1987, publica “Nosso Futuro Comum” - Relatório Brundtland) e nos anos 90 as empresas começam a trabalhar vinculadas aos conceitos de desenvolvimento sustentável e mercado verde, e o tema meio ambiente começa a fazer parte das atividades das igrejas. Em 1992, a Eco-92 no Rio de Janeiro, cujo relatório é denominado “agenda 21”, consagra a expressão “desenvolvimento sustentável” propondo que o desenvolvimento econômico, o desenvolvimento social e a proteção ambiental sejam considerados interdependentes e mútuos, necessários para a qualidade de vida de todos os povos (Leis, 1996).
No Brasil, é em fins da década de 80 que o tema educação ambiental é inserido "oficialmente" no âmbito escolar. Em 1987, o Plenário do Conselho Federal de Educação (MEC) aprovou a conclusão da Câmara de Ensino a respeito do parecer que considerava necessária a inclusão da educação ambiental como um conteúdo a ser explorado nas propostas curriculares das escolas de ensino médio. E em 1991, uma portaria do MEC resolve que os sistemas de ensino, em todas as instâncias, níveis e modalidades deveriam contemplar em seus respectivos currículos, conteúdos referentes à educação ambiental (Dias, 1993).
Kuhn (2000), analisando a estrutura das revoluções científicas, afirma que uma revolução cientifica ocorre quando se instala uma crise paradigmática. Esta se dá através de uma mudança de paradigma, onde um novo paradigma substitui o antigo. No âmbito científico, uma nova de concepção de mundo (ou paradigma) que tem emergido no último século está relacionada ao “paradigma sistêmico”. Como representantes deste paradigma atualmente, pode-se citar por exemplo pesquisadores como Ilya Prigogine e Isabelle
Stengers na Bélgica, Humberto Maturana no Chile, Franciso Varela na França e Fritjof Capra nos Estados Unidos. Segundo Capra (1998), a concepção sistêmica aborda o mundo em termos de relações e de integração - “Os sistemas são totalidades integradas, cujas propriedades não podem ser reduzidas às de unidades menores. Em vez de se concentrar nos elementos ou substâncias básicas, a abordagem sistêmica enfatiza princípios básicos de organização” (p. 260).
Capra (1998) afirma que a crise que os cientistas viveram durante os primeiros trinta anos do século XX com as mudanças de conceitos e idéias que ocorreu na física, e que ainda está sendo elaborada nas atuais teorias da matéria, é vivida hoje pela sociedade como um todo. Segundo o autor, vive-se hoje uma “crise de percepção” porque “para descrever este mundo precisamos de uma perspectiva ecológica que a visão cartesiana de mundo não nos oferece” (p. 14).
Moraes (1998) também argumenta que é na fragmentação do conhecimento que se encontra a gênese da problemática ambiental e sua compreensão. Segundo o autor, "a tentativa de simplificar o mundo para melhor entendê-lo tem resultado na fragmentação do conhecimento que tem sido utilizado pelos seres humanos como fundamento na gestão das suas relações com o mundo" (Moraes, 1998, p. 35). Desta forma, o desenvolvimento das sociedades humanas têm se fundamentado em concepções fragmentadas do mundo "sem a devida percepção, entendimento e consideração das interações existentes entre seres humanos, o meio físico-químico e os outros seres vivos" (p. 36). Este tipo de interação tem colocado em risco tanto as sociedades humanas, como todo o planeta.
Em 1990, foi publicado pelo Programa das Nações Unidas para o meio ambiente os Conceitos Básicos de Educação Ambiental23, onde se aborda conceitos a serem considerados nos processos de educação ambiental (independentemente das características ambientais de cada região). Um dos conceitos relaciona-se ao conceito de sistemas de vida. Segundo Dias (1993), este conceito está relacionado à idéia de que existem três níveis ou sistemas distintos de existência - o físico-químico, o biológico e o social. Além desta compreensão, também seria necessário que a educação ambiental incorporasse dimensões como a sócio-econômica, a política, a cultural e a histórica ao abordar o tema meio
23 Os tópicos referentes a estes conceitos podem ser encontrados na publicação UNESCO/UNEP (1990)
Donella Meadows’ Harvesting One Hundredfold: Key Concepts and Case Studies in Environmental Education. Nairobi.
ambiente. Segundo o autor, nesta mudança de conceitos ao longo do tempo em educação ambiental, o conceito de meio ambiente reduzido exclusivamente a seus aspectos naturais "não permitia apreciar as interdependências, nem a contribuição das ciências sociais à compreensão e melhoria do meio ambiente humano" (Dias, 1993, p. 25).
Winter (1996), afirma também que através de conhecimentos advindos da filosofia e da psicologia pode se ter uma compreensão mais ampla das questões ambientais. Levando- se em conta que nossas crenças sobre o que é a natureza são construídas socialmente, pode- se supor que a própria percepção que se possui sobre a “problemática ambiental” tem interferência da cultura e dos sistemas de valores que os homens possuem. Karl Dake (1991 apud Winter, 1996), por exemplo, em um estudo sobre a percepção dos riscos ambientais, constatou que esta percepção é sustentada por crenças e valores ligados à “sociedade, seu funcionamento, e seu destino potencial” 24 (idem, p. 61). Encontrou em seus resultados que, as pessoas que valorizavam o individualismo, tinham mais medo de um “desvio social” (‘social deviance’) do que de uma degradação ambiental. No entanto, as que manifestavam valores mais igualitários não se preocupavam com os riscos econômicos, tanto quanto com a poluição ambiental, a superpopulação e a fome.
Estas diferentes crenças sobre meio ambiente são visíveis quando se faz uma retrospectiva a respeito de estudos científicos e políticas relacionadas à “problemática ambiental”. Dunlap, Van Liere, Merting e Jones (2000), avaliando estudos de opinião pública a respeito das questões ambientais, perceberam uma mudança no foco dos “problemas ambientais” nas últimas décadas. Na década de 70, quando as questões ambientais eram pauta predominante da agenda política, as pesquisas eram ligadas à poluição do ar e da água, à perda de valores estéticos e à conservação dos recursos naturais. Nesta época, os problemas ambientais apresentavam-se isolados e localizados geograficamente. Em décadas mais recentes, tais problemas ambientais foram se tornando mais genéricos e geograficamente difusos de forma que suas causas se tornaram mais complexas, assim como as soluções a serem implementadas. Esta mudança refletiu-se em uma mudança no foco das pesquisas: os instrumentos utilizados passaram a medir temas como a “consciência ecológica”, o “antropocentrismo” e o “antropocentrismo versus ecocentrismo”. Era necessário um outro foco a respeito do que poderia estar levando o
planeta a sofrer um “desequilíbrio ecológico” que se reflete ainda hoje em um verdadeiro “paradoxo” no âmbito da educação ambiental, onde, ao menos duas visões co-existem: uma educação voltada “para atividades pontuais e mudanças comportamentais específicas” e outra focada na cidadania e voltada para uma mudança de valores (Layrargues, 2001 apud Spinelli, Arruda, Paredes, 2003).
Buscando compreender os paradigmas implícitos nas concepções de meio ambiente da sociedade em geral, na década de 70, Dunlap e Van Liere desenvolveram o conceito de um “Novo Paradigma Ambiental” (New Ecological Paradigm). Este paradigma estaria ligado a uma visão sistêmica a respeito da natureza, do homem e de sua relação com a mesma. No “Paradigma Social Dominante” (Dominat Social Paradigm), que se antepõe ao anterior, o homem vê-se como separado da natureza, sendo esta uma composição de elementos físicos inertes, em uma relação de dominação, onde a natureza existe para ser controlada e servir ao homem em termos econômicos. Os problemas ambientais atuais, segundo os autores, são principalmente resultado de concepções que estão implícitas no paradigma social dominante (Dunlap e Van Liere, 1978).
A partir desde conceito, Dunlap e Van Liere construíram, em 1978, uma escala de atitudes que visava medir a existência deste "novo paradigma ambiental". A escala, composta por 12 itens, centrava-se em medir três aspectos principais: (1) crenças sobre a habilidade da humanidade em manter o equilíbrio da natureza, (2) a existência de limites para o crescimento das sociedades humanas e (3) o direito da humanidade em dominar o resto da natureza. Em 2000, após estudos em diversos paises da Europa, Ásia e América, a escala foi revisada incluindo-se duas novas facetas: (1) a isenção da responsabilidade do homem em relação aos problemas ambientais e (2) a possibilidade de uma “eco-crise”. Os resultados destes anos de estudo têm demonstrado que as pessoas cada vez mais estão aderindo à crenças que estão presentes neste Novo Paradigma Ambiental (Dunlap e cols, 2000).
Segundo Leis (1996), a nova “ética ecológica” que vem emergindo se apresenta de forma complexa e multidimensional. Dessa forma, seria possível encontrar uma diversidade de aspectos além das crenças que foram conceituadas por Dunlap e cols (2000) no Novo Paradigma Ambiental, como por exemplo, na dimensão em um sentido espiritual da vida
social e natural como a que foi encontrada na pesquisa de Nascimento-Shulze e cols (2002).