4. DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA
4.1. O conceito de pessoa e personalidade jurídica
O instituto da desconsideração da personalidade jurídica e a sua relação com o direito tributário tem sido um tema gerador de muitas controvérsias tanto na doutrina quanto na jurisprudência pátria, principalmente após o advento da Lei Complementar nº 104/2001 e do Código Civil de 2002 (Lei n° 10.406/2002).
A Lei Complementar n° 104/2001 introduziu um parágrafo único ao art. 116 do CTN e trouxe a possibilidade de:
A autoridade administrativa poderá desconsiderar atos ou negócios jurídicos praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo ou a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária, observados os procedimentos a serem estabelecidos em lei ordinária.
O Código Civil de 2002, por intermédio do seu art. 5096, introduziu no sistema jurídico uma norma que possibilita ao Juiz, quando verificado o “abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade, ou pela confusão patrimonial” e, “a requerimento da parte, ou do Ministério Público
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Art. 50. Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade, ou pela confusão patrimonial, pode o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica.
quando lhe couber intervir no processo”, determinar “que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica”.
Temos ainda o art. 135 do CTN, por intermédio do qual, são pessoalmente responsáveis pelos tributos, resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto: I - as pessoas referidas no art. 134 do Código Tributário Nacional; II - os mandatários, prepostos e empregados; e III - os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado.
Apresentados os dispositivos normativos do CTN e do Código Civil, acima transcritos, temos que não encontra mais espaço na doutrina o pensamento de que o direito tributário se trata de um ramo autônomo do direito positivo, pois este é uma unidade que não pode ser decomposta, somente podendo ser dividido em ramos, para atender a uma questão didática. Valemos-nos da observação de Paulo de Barros Carvalho97, para quem:
a ordenação jurídica é una e indecomponível. Seus elementos — as unidades normativas — se acham irremediavelmente entrelaçados pelos vínculos de hierarquia e pelas relações de coordenação, de tal modo que tentar conhecer regras jurídicas isoladas, como se prescindissem da totalidade do conjunto, seria ignorá-lo, enquanto sistema de proposições prescritivas. Uma coisa é certa: qualquer definição que se pretenda há de respeitar o princípio da unidade sistemática e, sobretudo, partir dele, isto é, dar como pressuposto que um número imenso de preceitos jurídicos, dos mais variados níveis e dos múltiplos setores, se aglutinam para formar essa mancha normativa cuja demarcação rigorosa e definitiva é algo impossível.
Isso não quer dizer que os institutos de direito privado serão sempre aplicados às lides tributárias, justamente em face do observado por Paulo de Barros Carvalho, no sentido de se encontrarem as normas jurídicas entrelaçadas pelos vínculos de hierarquia e pelas relações de coordenação, sendo tais vínculos os limites que devem ser observados. No mesmo sentido, ensina Heleno Taveira Tôrres98:
As normas jurídicas não existem isoladamente, antes, apresentam-se estritamente relacionadas, por coordenação e subordinação, enquanto elementos que são de um sistema. Por este motivo não seria possível a tentativa de isolamento de regras jurídicas em confins arbitrariamente demarcados, na medida em que verteria a ideia de sistema jurídico.
Pretendemos construir a correta significação das normas jurídicas para verificarmos se o art. 50 do Código Civil de 2002 pode ser fundamento de validade para a responsabilização dos sócios ou administradores por débitos fiscais da sociedade à qual pertençam; e se a teoria geral da desconsideração da personalidade jurídica pode ser aplicada ao direito tributário.
Abordaremos ainda nesse capítulo se as normas insculpidas no parágrafo único do art. 116 e no art. 135, ambos do CTN, podem ser consideradas como normas afetas à desconsideração da personalidade jurídica.
A personalidade das pessoas jurídicas é instituto de máxima relevância, haja vista constituir-se em uma segurança aos sócios e acionistas
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que se agrupam para a consecução de determinados fins, que não seriam alcançados, caso não houvesse essa associação.
Para melhor compreensão do tema, convém estabelecermos os conceitos de pessoa e personalidade jurídicas. Vejamos, primeiramente, o conceito de pessoa jurídica fornecido por De Plácido e Silva99:
Em oposição à pessoa natural, expressão adotada para indicação da individualidade jurídica constituída pelo homem, é empregada para designar as instituições, corporações, associações e sociedades, que, por força ou determinação da lei, se personalizam, tomam individualidade própria, para constituir uma entidade jurídica, distinta das pessoas que a formam ou que a compõe. Diz-se jurídica porque se mostra uma encarnação da lei. E, quando não seja inteiramente criada por ela, adquire vida ou existência legal somente quando cumpre as determinações fixadas por lei. ... a pessoa jurídica somente tem existência quando o Direito lhe imprime o sopro vital. Criando-se ou as confirmando, é, pois, o Direito que determina ou dá vida a estas entidades, formadas pela agremiação de homens, pela patrimonização de bens, ou para cumprir, segundo as circunstâncias, a realização do próprio Estado.
No que diz respeito à natureza jurídica da pessoa jurídica, formou- se, ao longo do tempo, teorias baseadas em três sistemas, sendo eles: a) da ficção; b) da negação da personalidade; c) da realidade100.
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SILVA, De Plácido e. Vocabulário Jurídico. 15. ed. Rio de Janeiro: Editora Forense, 1999, p. 606.
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Pessoa jurídica – Pelo sistema da ficção, as pessoas jurídicas “são aquelas, que não nascendo da natureza, como a pessoa natural, resulta, de uma ficção jurídica, uma criação imaginária da lei, do direito”: primeira teoria (representação): “É atribuída à pessoa jurídica, não a personalidade verdadeira, mas uma representação da personalidade consubstanciada no órgão representativo dessa pessoa fictícia”; segunda teoria (personificação): “A atribuição é dada a personalidade ao próprio ente fictício, criação deliberativa do legislador, conforme podemos ver o que diz Savigny: ‘Pessoa jurídica é um sujeito de direito de bens criado artificialmente’.” Pelo sistema da negação
Quanto ao conceito de personalidade jurídica, o mesmo autor acima referendado, De Plácido e Silva, assim se posicionou101:
Denominação propriamente dada à personalidade que se atribui ou se assegura às pessoas jurídicas, em virtude do que se investem de uma qualidade de pessoa, que as tornam suscetíveis de direitos e obrigações e com direito a uma existência própria, protegida pela lei. É, assim, uma especialização terminológica da personalidade civil para designar as pessoas constituídas por força da lei, em distinção à personalidade física, próprias às pessoas naturais.
Teoria, os sujeitos dos direitos são os próprios indivíduos considerados em conjunto. Ela vai de encontro com a um fenômeno jurídico, a pessoa jurídica é distinta da dos indivíduos que a compõem – universitas distat a singulis”; teoria, também individualista, de Ihering: “A pessoa jurídica não é o verdadeiro destinatário dos direitos; quem deles se utiliza são as pessoas naturais que se acham, por assim dizer, atrás daquelas pessoas jurídicas. Pouco importa que se trate de um círculo determinado de indivíduos (universitas personarum) ou de um número indeterminado (universitas bonorum), por exemplo os enfermos de um hospital”; dessa suposição, ele tira a conclusão de que as pessoas naturais são as únicas destinatárias dos direitos; segundo Giorgi, citado por Gudesteu Pires, há nessa teoria confusão do gozo e vantagens materiais que formam o objeto do direito – quaestio facti – com a existência do sujeito do direito – quaestio juris; teoria dos direitos sem sujeito, de Brinz, Beker, Windscheid, igualmente individualista: “Segundo esta Teoria, nas corporações e nas fundações existe apenas um patrimônio destinado a um certo fim. Nestes casos os direitos não têm sujeito. São os direitos sem sujeito”; “teoria da propriedade coletiva, de Planiol e Barthelemy: para Planiol, a personalidade jurídica não é a soma à classe das pessoas: é um modo de possuir os bens em comum, é uma forma de propriedade, que são duas maneiras de possuir os bens: individualmente ou coletivamente. Portanto, o que chamamos de pessoa jurídica, Planiol chama de propriedade coletiva”. Pelo sistema da realidade (são as teorias que consideram a pessoa jurídica ente de existência real e verdadeira): teoria da vontade, de Zitellman e Meurer: “Esta teoria preconiza que o verdadeiro sujeito dos direitos deve ser atribuído tanto às pessoas naturais como às jurídicas. Em toda relação de direito, dizem os seus preconizadores, há uma vontade em exercício e daí concluírem que essa vontade é o sujeito do direito que difere da vontade particular. Para tanto, recorrem a forma matemática para explicar, dizem, 7 + 5 = 12, e explicam sendo o 12 sintético, se bem igual ao 7 + 5 analítico, constitui por outra forma uma quantidade inteiramente nova. É assim, dizem eles, nas corporações, nas sociedades, etc. Nestas, o sujeito dos direitos é uma parcela da vontade do fundador”; (teoria da realidade objetiva, doutrina de Gierke e Endermann, preconizadores da doutrina, aceita por Fadda, Bensa e Giorgi, na Itália, Fouillé e René Worms com algumas variantes na França, Clóvis Beviláqua e Lacerda de Almeida no Brasil): “Partindo da afirmação de que a sociedade é um verdadeiro organismo em que se encontram vida e vontade próprias, os partidários desta teoria concluíram que as pessoas jurídicas são também organismos tão completos como as pessoas naturais. Nas pessoas jurídicas não poderemos ver uma ficção, elas não são entidades abstratas criadas pela lei: são realidades vivas que a lei apenas constata, definindo os direitos que decorrem do fenômeno natural de sua personalidade”; teoria da realidade técnica ou realidade jurídica: “Nesta teoria, os pessoas jurídicas são uma realidade, constatando essa realidade no mundo jurídico e não na vida sensível. As pessoas jurídicas são entidades reais, como o contrato ou o testamento” (LIMA, João Franzen de. Curso de direito civil brasileiro. 7. ed. 1a tiragem. Rio de Janeiro: Forense, 1984, v. 1, pp. 168-174, § 1.o). Nota: A pessoa jurídica por excelência é o Estado. Clóvis Beviláqua diz: “Não podemos admitir o Estado como simples ficção. Se o Estado fosse ficção, sendo a lei a expressão da soberania do Estado, seguir-se-ia que a lei seria emanação, a consequência de uma ficção.” In: SANTOS, Washington dos. Dicionário jurídico brasileiro. Belo Horizonte: Del Rey, 2001, pp. 187-188.
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A personificação da pessoa jurídica tem como consequência imediata, independentemente do tipo societário escolhido, a separação do patrimônio da sociedade do patrimônio dos seus sócios. Sem a proteção dada pela separação patrimonial, os sócios ou acionistas poderiam se desencorajar de constituí-las, enfraquecendo a economia.
No entanto, a separação patrimonial não é absoluta, pois admite exceções como demonstramos a seguir, mediante o estudo da teoria da desconsideração da personalidade jurídica, sua aplicação no direito brasileiro e sobre a possibilidade de sua aplicação nas lides tributárias.