CAPÍTULO 3 – COMPORTAMENTOS DE RISCO, IMPLICAÇÕES E PREVENÇÃO
1. Comportamentos de Risco e Consumo de Substâncias
1.2. O Consumo de Tabaco
O consumo de tabaco, considerado como uma epidemia de expressão pandémica é um fenómeno recente, que teve início com a industrialização de produtos da folha do tabaco, nos princípios do século XX. Constitui seguramente o mais importante problema evitável de saúde pública. A comunidade científica é consensual, sobre os efeitos da inalação do fumo do tabaco como agente causal de doenças oncológicas, respiratórias, cérebro-cardiovasculares e em todos os sistemas do organismo. Além de cancro do pulmão, está na origem de vinte doenças graves (DGS, 2013b).
Em 2006, 20,8% da população residente em Portugal Continental era fumadora, entre estes, 10,6% fumava apenas ocasionalmente e 89,4% fazia-o diariamente. A proporção verifica-se mais elevada na população masculina (30,5%) contra 11,8% nas mulheres. O valor mais elevado de consumo manifesta-se no grupo entre os 35 e os 44 anos: 44,6% para os homens e 21,2% para as mulheres (DGS, 2013a).
Em relação à população adolescente, existe uma elevada prevalência de consumo de tabaco (WHO, 2002; Ogden, 2004; Dupont, 2005). Entre 1990 e 1992, Ogden (2004) refere uma redução do consumo de tabaco em indivíduos com idade idades superiores a
16 anos, de 30% para 28% respectivamente, e com tendência para descer; as mulheres fumam menos que os homens, mas menos indivíduos de ambos os sexos estão a deixar de fumar.
Segundo o European School Survey Project on Alcohol and Other Drug (ESPAD, 2011), a prevalência do consumo de tabaco na população escolar é de 29% (consumo no ultimo mês), tendo-se registado um aumento em relação aos dados de 2007. Ferreira et al (2008) verificaram que o consumo de tabaco, em adolescentes do 6º, 8º e 10º anos, subiu entre 1998 e 2002, baixou de 2002 para 2006, e voltou a baixar de 2006 para 2010, tendo o número de fumadores diários baixado de 5% para 4,5%.
Balsa et al (2013) verificaram que o consumo de tabaco é mais expressivo na faixa etária entre os 25 e os 34 anos de idade, com prevalência de 38% (consumo no último ano) e 34% (consumo no ultimo mês), e uma taxa de continuidade de consumo de 72%, para a mesma faixa etária.
Braconnier & Marcelli (2000) referem a existência de flutuações nos resultados dos estudos sobre o consumo de tabaco, apesar de os consumos de álcool e tabaco apresentarem sinais de estar a decrescer nas últimas duas décadas. O tabaco mostra ser a substância mais consumida entre os 11 e os 19 anos, com 14,5% de consumo regular contra 12,4% para o consumo d e álcool. Mais recentemente Marcelli & Braconnier (2005) referem que um terço dos adolescentes entre os 11 e os 19 anos fuma e, entre estes, um terço fuma irregularmente, um terço fuma regularmente menos de 10 cigarros por dia, e um terço fuma pelo menos dois maços de cigarros por dia; o consumo aumenta significativamente (sete vezes mais) entre os 13 e os 18 anos; os autores referem ainda que, em relação ao tabagismo, a sintomatologia depressiva não deve ser subestimada, uma vez que 53% dos adolescentes dizem fumar em momentos de solidão, e 60% quando estão muito tristes.
O tabaco é, de todas as substâncias, a que tende a apresentar um padrão se consumo diário; são os rapazes e os adolescentes mais velhos e de descendência europeia, que referem maiores consumos de tabaco (Sells & Blum in Simões, 2007). Também Matos et al (2010) verificaram que são os indivíduos do sexo masculino e os estudantes mais velhos, os que mais referem consumir tabaco, diária ou semanalmente.
O consumo regular de tabaco apresenta consequências negativas para a saúde dos adolescentes. Os consumidores regulares tendem a um maior afastamento da família, da escola e de actividades que envolvam a escola e os amigos. São também os que apresentam outros comportamentos de risco, como consumo de álcool e de drogas ilícitas, bem como comportamentos disruptivos; referem ser menos felizes e apresentam sintomatologia somática e psicológica aumentada, em relação aos não consumidores; apresentam ainda maior ansiedade face ao convívio com os pares e receiam não ser aceites como são, aspectos que sugerem uma relação entre o tabaco e dificuldades no que respeita a integração social (Matos, Carvalhosa, Vitória et al, 2001).
Uma particularidade do tabaco em relação a outras substâncias, é o facto de a nicotina, apesar de produzir apenas um pequeno grau de compensação/gratificação, provoca dependência física difícil de ultrapassar, uma vez que este químico afecta os mesmos mecanismos cerebrais de dependência, que interferem no processo de dependência de álcool e de outas drogas; o efeito de tolerância à nicotina desenvolve-se rapidamente, após alguns dias apenas, de consumo regular. O fumo do cigarro também está altamente relacionado com o consumo de álcool e de substâncias ilegais, particularmente nos jovens, aspecto que coloca o consumo de tabaco como uma referência no que diz respeito ao risco de abuso ou dependência de álcool e de outras drogas (Dupont, 2005). Ao contrário do álcool e de outras drogas, a nicotina está relacionada com mortes de pessoas mais velhas, e não de adolescentes e jovens adultos. Pelo facto de não ter um efeito intoxicante, não produz os mesmos danos perigosos e perturbadores, que o álcool e outras drogas, na escola, no trabalho, na condução automóvel ou na família. Não obstante, é a mais fatal de todas as dependências, responsável por um significativo maior número de mortes (Dupont, 2005).
A dimensão psicológica dos fumadores, particularmente as características de personalidade, parecem condicionar os movimentos de cessação tabágica. A personalidade dos fumadores é marcada pelas dimensões de extroversão, neuroticismo e psicoticismo, menos presentes em não fumadores. Os fumadores têm assim, tendência a manifestar mais ansiedade, depressão, tensão e impulsividade (Rondina et al, 2007). A presença de níveis elevados de sintomas depressivos, parece também estar relacionada com uma maior sensibilidade à influência social, para o comportamento de fumar (Sakuma et al 2010; Weinstein & Mermelstein, 2013). A compreensão dos factores de natureza psicológica associados ao consumo de tabaco têm implicações para as
estratégias de intervenção terapêutica e para a elaboração de programas de prevenção para o consumo de tabaco.
Uma outra vertente da investigação na área do consumo de tabaco, que tem vindo a ser desenvolvida, refere-se ao fumo ambiental do tabaco, especialmente no que respeita ao domicílio e ao automóvel. As crianças são particularmente vulneráveis ao fumo passivo no carro, microambiente onde os passageiros podem ficar sujeitos a elevadas concentrações de fumo ambiental do tabaco (Sly et al 2007; Jones et al 2009 in Precioso et al 2012). A qualidade do ar dentro de um veículo onde alguém fumou, contém um nível de partículas perigosas semelhante a um bar típico, onde é permitido fumar (Edwards et al 2006). Em Portugal, (Precioso et al 2012) num estudo com 513 estudantes entre os 8 e os 11 anos de idade, verificaram que 27,5% dos indivíduos estão expostos diária ou ocasionalmente a fumo do tabaco, em consequência de pelo menos um dos progenitores ser fumador, e que os pais de classes sociais mais baixas são os que mais fumam em casa. Para os autores, a prevenção do consumo de tabaco no domicílio e no automóvel, deve ser objecto de programas preventivos específicos, de modo a proteger em particular as crianças.
Podemos concluir que o consumo de tabaco constitui a mais grave e nefasta das formas de dependência química. Sob uma aparência discreta, pela ausência de efeito intoxicante visível, e com grande aceitação social, os efeitos do fumo do tabaco vão-se instalando silenciosamente no organismo, manifestando as suas consequências numa fase mais avançada da vida. A sua forte associação a outras formas de consumos, potencia a perigosidade desta substância, nomeadamente entre os adolescentes e jovens adultos onde o seu consumo tem particular expressão.