1. A E DUCAÇÃO C OMO U M D IREITO S OCIAL
1.1 O Contexto da Exclusão Educacional no País
Apesar de, ao longo do século passado, ter havido um crescimento da oferta da educação pública no Brasil, ainda ocorre exclusão educacional por meio de uma educação falha, que inclui a reprodução dos padrões de desigualdade e iniquidades no Brasil (HADDAD, 2007). As razões para tal são diversificadas, dentre elas destacamos a insuficiência de instituições, as infraestruturas inadequadas para pessoas com deficiência, as condições socioeconômicas precárias das famílias e a presença ou ausência de estímulo familiar.
Os resultados de pesquisas de agências internacionais em parecerias com organizações não-governamentais nacionais mostram que o processo de exclusão na educação vem ocorrendo, no Brasil, principalmente, de duas maneiras: falta de acesso às escolas ou inserção precária dos alunos nos sistemas de ensino (HADDAD, 2007). A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) indica que um dos maiores problemas encontrados atualmente na educação no Brasil é a questão da acessibilidade e da permanência do aluno no ambiente escolar (IBGE, 2006). Assim, quanto à evasão escolar, a PNAD do ano de 2006 indicou que 2,7% da população nacional entre 10 e 14 anos estavam fora da escola e que na faixa de 15 a 17 anos o percentual de pessoas fora da escola era de 17,8%.
Utilizando os dados dos suplementos de educação da PNAD, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) efetuou uma análise dos Motivos da Evasão Escolar (FGV, 2009), agregando- os em quatro grandes grupos: Dificuldade de acesso à escola (10,9%), Necessidade de trabalho e geração de renda (27,1%), Falta intrínseca de interesse (40,3%) e Outros motivos (21,7%). De acordo com este estudo, a evasão escolar ocasionada pela dificuldade de acesso à escola é determinada pelos seguintes elementos: i) Presença de doença ou incapacidade dos estudantes; ii) Falta de vagas; iii) Não existir escola perto de casa; iv) Falta de transporte escolar; v) Escola não oferece outras séries ou curso mais elevado; vi) Problemas de documentação; e vii) Não teve quem levasse. A Tabela 2 ilustra os percentuais observados para os motivos de evasão escolar pela PNAD realizada em 2004 e 2006.
Tabela 2: Agregação dos motivos de evasão - Dificuldade de acesso à escola.
Motivos de dificuldade de acesso à escola 2004 (%) 2006 (%)
Presença de doença ou incapacidade dos estudantes 45,97 45,10
Falta de vaga 17,77 15,75
Não existir escola perto de casa 17,04 12,55
Falta de transporte escolar 12,49 10,23
Escola não oferece outras séries ou curso mais elevado - 6,92
Problemas de documentação 6,68 9,45
Não teve quem levasse 0,06 -
Total dos restritos por oferta 100 100
Fonte: FGV, 2009.
Observa-se, na Tabela 2, que a falta de transporte escolar figura entre os quatro maiores motivos de dificuldade de acesso à escola, o que reforça a necessidade de programas e projetos voltados para a melhoria da oferta e das condições desse tipo de transporte no país. Além deste, foram também citados como motivos de dificuldade, o fato de não existir escola perto da casa da população entrevistada e a falta de alguém para levar os alunos para a escola. Estes três fatores estão diretamente associados à prestação de serviço de transporte escolar, que emerge como uma alternativa possível para dirimir tais dificuldades de acesso à escola e, consequentemente, de evasão escolar.
Outro fator que deve ser considerado no contexto da exclusão educacional no Brasil são as grandes desigualdades que permeiam o território nacional, que são identificadas entre regiões, localizações de moradia (rural ou urbano), gêneros, raças e faixas de renda. O
Relatório de Monitoramento Global2, que apresenta anualmente a situação educacional dos
164 países que firmaram acordo para o desenvolvimento da educação, na Conferência da UNESCO sobre a educação mundial em Dacar, no ano de 2000, observou que o progresso no acesso ao ensino não tem sido uniforme nas diversas regiões destes países. O documento referente ao ano de 2008 destaca desigualdades observadas no interior dos países, isto é, entre regiões ou estados, áreas urbanas e rurais, populações pobres e ricas e grupos étnicos
2 O Relatório de Monitoramento Global é uma publicação anual que faz referência e que avalia os progressos
realizados no plano mundial para cumprir o compromisso de proporcionar uma educação básica a todas as crianças e a todos os jovens e adultos até 2015. O compromisso foi expresso em seis objetivos no chamado Marco de Ação de Educação para Todos (EPT), que abrangem: a expansão da educação e o cuidado na primeira infância, a universalização da educação elementar gratuita e obrigatória, a aprendizagem de jovens e adultos, a redução das taxas de analfabetismo, a igualdade entre homens e mulheres nas oportunidades educacionais e a qualidade da educação em todos os seus aspectos (UNESCO, 2008).
(UNESCO, 2008). A UNESCO entende que estas desigualdades são apontadas como grandes desafios ao alcance dos objetivos da Educação Para Todos (EPT) em muitas nações.
Segundo o Relatório de Monitoramento Global, a análise da proporção de alunos dos diferentes segmentos demográficos e sociais que estão na escola cursando o nível de ensino apropriado à idade possibilita ilustrar, de forma simples, as desigualdades sociais brasileiras. Assim, a UNESCO elaborou uma comparação dos dados anteriores ao Compromisso de Dacar (ano de 1999) com os dados disponibilizados pela PNAD do ano de 2006, segundo o nível de ensino, grandes regiões e algumas outras categorias selecionadas, tais como: sexo,
situação de domicílio, renda e raça, conforme é apresentado na Tabela 3.
Tabela 3: Taxa de escolarização na idade correta - 1999 e 2006.
Níveis de Ensino e Faixas Etárias
1999 2006
Infantil
(0 a 6) Fund. (7 a 14) (15 a 17)Médio Superior (18 a 24) Infantil (0 a 6) Fund. (7 a 14) (15 a 17)Médio Superior (18 a 24)
Regiões Norte 25,5 91,4 24,3 3,8 27,7 93,8 34,7 7,5 Nordeste 30,7 89,1 16,7 3,7 38,0 93,4 33,0 6,9 Sudeste 29,2 93,9 42,4 9,4 43,1 95,7 57,7 15,0 Sul 42,2 95,0 44,9 10,4 35,2 96,2 54,8 16,8 Centro-Oeste 22,4 93,3 32,2 7,7 30,0 95,4 48,0 14,7 Localização Urbano/Metropolitano 31,3 93,5 41,4 10,7 43,3 95,2 55,2 16,1 Urbano/Não-Metropolitano 30,7 93,3 35,6 7,6 39,5 95,3 49,9 12,9 Rural 19,3 88,9 15,2 1,5 25,8 93,1 26,9 2,4 Sexo Masculino 27,9 91,7 28,3 6,3 37,9 94,8 41,9 10,4 Feminino 28,5 92,9 37,2 8,5 37,7 94,9 52,0 13,9 Raça ou Cor Branca 29,3 94,2 44,2 11,9 39,1 95,7 58,3 18,8 Negra 27,0 95,5 21,2 2,5 36,6 94,2 37,4 6,1 Renda 20% mais pobres 22,2 89,3 12,1 0,4 30,5 93,0 24,5 0,8 20% mais ricos 41,9 95,2 60,5 24,1 53,8 96,3 77,2 40,4
Fonte: Dados da PNAD (IBGE), processados por Disoc/Ipea (UNESCO, 2008).
Com relação às grandes regiões, observa-se que as desigualdades são proporcionalmente menores no Ensino Fundamental, pois neste nível de ensino existem enormes esforços em prol de sua universalização. As discrepâncias regionais aumentam no Ensino Médio e mais ainda na Educação Superior. A região Norte apresenta a pior situação na Educação Infantil, e a região Nordeste está em maior desvantagem nas demais etapas. Entre zonas urbanas e rurais, os dados apresentados na Tabela 3 indicam igualmente grandes disparidades. Mesmo sendo inferior no Ensino Fundamental, a desigualdade entre as taxas das cidades e do campo é considerável, tratando-se do Ensino Médio.
Em se tratando das relações de paridade de gênero, os dados indicam uma pequena desigualdade na Educação Infantil e no Ensino Fundamental. Contudo, as diferenças entre gêneros acentuam-se nos Ensinos Médio e Superior, nos quais as mulheres estão em vantagem. Quanto à cor, as desigualdades são bem mais acentuadas quando se trata do acesso na idade correta ao Ensino Médio e Superior. Os dados apresentados na Tabela 3 refletem também o quanto o país encontra-se distante da igualdade racial na educação: mesmo tendo um aumento na taxa de escolarização na idade correta, a proporção de desigualdade racial permaneceu equivalente, entre os anos de 1999 e 2006. Mas, as maiores desigualdades na freqüência à escola na idade apropriada no Brasil são encontradas quando se confrontam os segmentos populacionais mais pobres e mais ricos do país (UNESCO, 2008).
Este contexto de exclusão educacional, em que muitos brasileiros se enquadram, não é uma realidade única do Brasil. Segundo o Relatório de Monitoramento Global, existem no mundo 774 milhões de adultos que não possuem as competências elementares para ler, escrever e calcular. Esse número é calculado por meio de levantamentos em que as pessoas declaram se possuem ou não essas competências e se tais competências fossem medidas diretamente, o número de analfabetos seria ainda maior. Três quartos desses analfabetos mundiais concentram-se em 15 países, dentre eles o Brasil (UNESCO, 2008).
O Brasil apresenta taxa de analfabetismo semelhante à da China, Indonésia e México. Em relação aos outros países sul-americanos mais populosos, a taxa brasileira é equivalente apenas à do Peru e pior que a dos demais. No Brasil havia, em 2005, cerca de 15 milhões de analfabetos absolutos, ou seja, pessoas que declaram não saber ler e escrever um bilhete simples. O estudo da UNESCO observou que este analfabetismo é mais elevado nas pessoas de mais de 60 anos, na região Nordeste, na zona rural e na população negra ou parda. Além disto, apresentou também que a disparidade entre homens e mulheres no Brasil não é elevada e que a situação é um pouco mais favorável às mulheres (UNESCO, 2008), como apresentam os dados da Tabela 4.
Tabela 4: Taxa de analfabetismo, segundo categorias e grandes regiões - 1999 e 2006. Categorias 1999 2006 15 anos ou mais Brasil 13,4 10,5 Norte 12,3 11,3 Nordeste 26,5 20,8 Sudeste 7,9 6,1 Sul 7,8 5,7 Centro-Oeste 10,8 8,3 Localização Urbano/Metropolitano 5,9 4,5 Urbano/Não-Metropolitano 12,2 9,9 Rural 28,8 24,2 Sexo Masculino 13,4 10,8 Feminino 13,4 10,3 Raça ou Cor Branca 8,3 6,6 Negra 19,8 14,7 Renda 20% mais pobres 26,3 20,6 20% mais ricos 4,4 1,8 Faixa Etária 10 a 14 anos 5,5 3,1 15 a 24 anos 4,8 2,4 25 a 39 anos 8,8 6,4 40 anos e mais 22,9 18,1
Fonte: Dados da PNAD (IBGE), processados por Disoc/IPEA (UNESCO, 2008).
Os dados educacionais coletados pela PNAD sobre as taxas de analfabetismo, de escolarização e de frequência escolar da população brasileira evidenciam como os fatores região geográfica, gênero e situação de domicílio (localização urbana ou rural) continuam sendo determinantes na caracterização da situação da exclusão educacional no Brasil. Esse quadro não muda quando analisamos a situação de crianças e adolescentes entre 6-19 anos, isto é, os indivíduos na faixa etária apropriada para cursar regularmente a Educação Básica. E é exatamente esta parcela da população que constitui a demanda potencial por transporte escolar no país. No ano de 2008, esta faixa etária correspondia a 11% da população analfabeta do país, conforme mostra a Figura 2, que apresenta a distribuição percentual de analfabetos no Brasil, segundo os grupos de idade.
20% 4% 4% 2% 1% 6% 9% 12% 13% 29%
Taxa de analfabetismo no Brasil -2008
5 ou 6 anos 7 anos 8 ou 9 anos 10 a 14 anos 15 a 19 anos 20 a 29 anos 30 a 39 anos 40 a 49 anos 50 a 59 anos
Figura 2: Taxa de analfabetismo da população brasileira, em 2008, por grupos de
idade. Fonte: IBGE (2008).
No que tange à faixa etária de 7 a 19 anos de idade, as Figuras 3 e 4 apresentam a distribuição percentual desta população sem instrução, de acordo com os dados coletados na PNAD do ano de 2008, segundo o sexo e a situação do domicílio (urbana ou rural). No Brasil, dentre os grupos de idade analisados, observou-se que os homens possuem maior taxa de analfabetismo do que as mulheres (ver Figura 3).
55.2 60.9 68.8 66.8 44.8 39.1 31.2 33.2 0% 20% 40% 60% 80% 100%
7 anos 8 ou 9 anos 10 a 14 anos 15 a 19 anos
Taxa de analfabestimo por sexo - 2008
Mulheres Homens
Figura 3: Taxa de analfabetismo da população de 7 a 19 anos de idade, segundo
o sexo. Fonte: IBGE (2008).
Quando o analfabetismo é analisado segundo a situação do domicílio tem-se que o percentual de pessoas analfabetas na área rural é maior do que na área urbana, destacando-se que 46,8% das crianças de sete anos residentes na área rural são analfabetas, conforme
mostram as Figuras 4 e 5. Assim, um bom sistema de Transporte Escolar Rural para esta faixa etária ajudaria a reduzir o percentual de crianças que não freqüentam à escola.
53.2 77.2 94.1 96.3 46.8 22.8 5.9 3.7 0% 20% 40% 60% 80% 100% 7 anos 8 ou 9 anos 10 a 14 anos 15 a 19 anos
Alfabetizados x Não-alfabetizados - Área Rural - 2008
Não alfabetizados Alfabetizados
Figura 4: Relação entre alfabetizados e não-alfabetizados, em 2008, da
população de 7 a 19 anos de idade residente em Área Rural. Fonte: IBGE (2008). 78.3 92.4 98.0 98.7 21.7 7.6 2.0 1.3 0% 20% 40% 60% 80% 100% 7 anos 8 ou 9 anos 10 a 14 anos 15 a 19 anos
Alfabetizados x Não-alfabetizados - Área Urbana - 2008
Não alfabetizados Alfabetizados
Figura 5: Relação entre alfabetizados e não-alfabetizados, em 2008, da
população de 7 a 19 anos de idade residente em Área Urbana. Fonte: IBGE (2008).
Observa-se, nas Figuras 4 e 5, que as crianças pertencentes aos grupos com menor faixa etária (até 10 anos de idade) são mais vulneráveis e apresentam maior taxa de analfabetismo, independentemente da localização de suas residências. Estes dados indicam que as políticas educacionais voltadas à inserção escolar deveriam considerar com mais atenção as necessidades desta população e buscar atender melhor esta demanda. Neste
sentido, entende-se que um bom sistema de transporte escolar pode assegurar, em parte, o acesso destas crianças ao sistema de ensino.
Outra importante variável a ser analisada, no que tange à situação educacional do país, é a taxa de escolarização da população. A Tabela 5 apresenta os dados referentes à distribuição percentual da taxa de escolarização da população brasileira de 6 a 17 anos de idade, de acordo com a região geográfica, a faixa etária e o sexo. Uma análise destes dados coletados na PNAD 2008 sobre a taxa de escolarização, apresenta que as pessoas entre 6 e 14 anos de idade possuem uma maior taxa de escolarização do que as pessoas de 15 a 17 anos. Considerando que estas pessoas estão cursando regularmente a escola, que a faixa de idade de 6 a 14 anos corresponde aos alunos do Ensino Fundamental e que a faixa de 15 a 17 anos corresponde ao Ensino Médio, infere-se que este resultado já é produto das políticas e esforços do Poder Público de universalização do Ensino Fundamental no Brasil.
Tabela 5: Taxa de escolarização das pessoas de 6 a 17 anos, segundo grandes regiões, grupos de idade e sexo - 2008.
Grupos de idade e sexo
Taxa de escolarização das pessoas de 6 a 17 anos de idade (%)
Brasil Grandes Regiões
Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste
6 a 14 anos 97.5 96.1 97.3 98.1 97.5 97.1 Homens 97.3 96.2 97.2 97.8 97.4 96.4 Mulheres 97.7 96.0 97.5 98.3 97.6 97.7 15 a 17 anos 84.1 81.8 82.8 86.5 82.4 83.4 Homens 83.5 82.6 81.9 85.9 80.8 83.3 Mulheres 84.8 81.0 83.7 87.2 84.0 83.4 Fonte: IBGE (2008).
Por fim, destacam-se como informação fundamental para o entendimento da exclusão educacional no Brasil, os dados referentes à taxa de frequência escolar. O suplemento especial sobre educação da PNAD do ano de 2004 coletou estes dados de acordo com a situação de domicílio. Segundo esta pesquisa, mais de 60% das pessoas de 0 a 17 anos de idade frequentavam a escola no Brasil. Contudo, a frequência escolar para os alunos domiciliados na área rural do país era menor em todas as regiões geográficas, conforme ilustra a Figura 6, ilustrando as dificuldades de acesso aos serviços públicos daqueles que residem no meio rural.
82.1 73.1 70.5 91.8 82.6 87.3 17.9 26.9 29.5 8.2 17.4 12.7 0% 20% 40% 60% 80% 100%
Taxa de frequência escolar, por situação de domicílio - 2004
Rural Urbana
Figura 6: Taxa de frequência escolar de pessoas de 0 a 17 anos de idade, por
situação do domicílio. Fonte: IBGE (2004).