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3 PENSANDO O CAMPO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS EM SUA

3.1 O DEBATE TEÓRICO SOBRE OS MOVIMENTOS SOCIAIS

3.1.1 O Contexto de Surgimento e o debate conceitual dos “Novos

Segundo Montaño e Duriguetto (2010), o contexto de surgimento e expansão dos chamados “Novos Movimentos Sociais” (NMS) dá-se em uma conjuntura histórica marcada pela expansão capitalista e pela Guerra Fria, maior símbolo da polarização que existia neste período de dois projetos que disputavam a hegemonia da sociedade: o bloco socialista e o bloco capitalista.

Conforme os autores, uma série de conflitos políticos se desenvolveu em diversos países da Europa, Estados Unidos e América Latina, no ano de 1968, marcando a entrada na arena política do movimento estudantil como protagonista de diversas mobilizações sociais. Na França, as lutas realizadas com a aliança entre trabalhadores e estudantes, desencadearam uma greve geral, afetando setores importantes para a economia do país, como o automobilístico, o de combustível, o de eletricidade e água, dentre outros, atraindo parte da classe média.

Montaño e Duriguetto (2010, p. 258) consideram que “[...] o maio francês ajudou a abrir caminho para que surgissem movimentos que levantaram bandeiras político- culturais progressistas como os feministas, o dos negros [...], os ambientalistas, os movimentos contra a opressão homofóbica”. Conforme os autores, o Maio de 1968 apontou para diferentes análises.

Gohn (2006) divide estas análises em dois grandes paradigmas de explicação: o dos NMS e o marxista.

Na análise de Gohn (2006), diversos autores como Touraine, Offe, Mellucci, dentre outros, considerando o paradigma marxista clássico inadequado para explicar os movimentos sociais que surgiram na Europa, passam a elaborar interpretações “[...] que enfatizavam a cultura, a ideologia, as lutas sociais cotidianas, a solidariedade entre as pessoas de um grupo ou movimento social e o processo de identidade criado”.

a) interpretação baseada na cultura;

b) negação do marxismo clássico como campo teórico capaz de explicar a ação coletiva da sociedade contemporânea;

c) a não consideração da centralidade de um sujeito histórico específico predeterminado pela contradição capital-trabalho. Aponta para o surgimento de um novo sujeito coletivo difuso, não-hierarquizado, cujas lutas são motivadas pelo acesso aos bens da modernidade. Os participantes das ações coletivas são denominados “atores sociais”;

d) a análise da política torna-se central, entretanto, o enfoque pauta-se em questões microssociais e culturais;

e) a análise dos “atores sociais” se dá, primariamente, a partir de suas ações coletivas e da identidade coletiva gerada no processo.

Segundo Gohn (2006), a interpretação dos NMS, coloca como central a categoria de identidade coletiva, considerada fundamental para a formação dos movimentos sociais. Por isso, para esta autora o “novo” que caracteriza este paradigma deve ser descartado, pois, considera que esta vertente do paradigma europeu, é apenas uma releitura de orientações teóricas já existentes extraídas da “teoria da ação social” (cujas matrizes básicas são weberiana, durkheimiana, tidas como clássicas e, a parsoniana, considerada contemporânea), dos neomarxistas (da escola Frankfurt, principalmente Adorno e Habermas), dos idealistas contemporâneos (destaque para Foucault) e da fenomenologia (com interpretações de Goffman e Garfinkel).63

Da teoria da ação social são retiradas categorias como cor, raça, nacionalidade, vizinhança, que serviam para explicar a ação dos sujeitos individuais ou em grupos; já das formulações neomarxistas e idealistas contemporâneas são tomadas formulações dos “movimentos sociais alternativos” como o ecológico, o feminista, o homossexual, o negro, o movimento pela paz, dentre outros, da fenomenologia64

63Gohn (2006, p. 141) observa no tocante às matrizes referenciais básicas de sustentação dos “NMS” que “[...] as novidades se encontram mais na composição, no arranjo e na disposição das categorias explicativas do que na criação de novos instrumentos conceituais. A rigor, as categorias teóricas e as diferenças demarcadas são as mesmas que marcaram o debate intelectual desde o século XVIII”. Para aprofundamento ver especialmente o capítulo IV deste trabalho.

64"[...] os pressupostos básicos da fenomenologia são: abordagem subjetivista dos fenômenos, importância da consciência dos indivíduos no questionamento cotidiano da vida social, busca da intencionalidade da consciência, importância da experiência na vida dos indivíduos, gerando hábitos e atitudes cognitivas (GOHN, 2006, p. 136)”.

foram considerados pontos como a questão da consciência e da vida cotidiana (GOHN, 2006).

Para Gohn (2006), a descrença nas experiências concretas dos regimes socialistas, foi a desencadeadora, no século XX, do desenvolvimento das “teorias micro”. Na análise da autora, os intelectuais passaram a negar o papel determinante dos processos objetivos e focar a subjetividade dos indivíduos nas lutas cotidianas, adotando a categoria da “autonomia” para caracterizar as ações dos grupos sociais no confronto ao Estado.

A autora agrupa as principais correntes teóricas europeias dos NMS, em três blocos: a corrente francesa, cujo maior expoente foi Touraine, com suas formulações sobre o acionalismo dos “atores sociais”; a corrente italiana, referenciada em Mellucci, e seu conceito de “identidade coletiva”; e a corrente alemã, baseada na abordagem neomarxista de Offe.

Segundo Gohn (2006, p. 149), para Touraine, “[...] os movimentos sociais são ações coletivas que se desenvolveram sob a forma de lutas ao redor do potencial institucional de um modelo cultural, num dado tipo de sociedade. Assim, os conflitos sociais devem ser entendidos em termos normativos e culturais”.

Já para Melluci (apud GOHN, 2006, p. 160), “[...] os movimentos sociais são vistos como fenômenos simultaneamente discursivos e políticos, localizados na fronteira entre as referências da vida pessoal e a política [...]” e ainda

[...] a maioria dos movimentos sociais surge não porque indivíduos isolados decidem participar de lutas. Antes, grupos estabelecidos definem metas, planos, fazem acordos, estabelecem obrigações etc. em resumo, um movimento nunca é um processo espontâneo, criado a partir apenas de necessidades ou da vontade de indivíduos isolados (GOHN, 2006, p. 163).

Enquanto que para Offe, segundo Gohn (2006, p. 167):

[...] os movimentos sociais são elementos novos dentro de uma nova ordem que estaria se criando. Eles reivindicam seu reconhecimento como interlocutores válidos, atuam na esfera pública e privada. Objetivam a interferência em políticas do Estado e em hábitos e valores da sociedade, articulando-se em torno de objetivos concretos.

Na interpretação de Montaño e Duriguetto (2010), as abordagens que balisaram as interpretações sobre os “Novos Movimentos Sociais” podem ser divididas em três principais vertentes teóricas:

[...] a) uma primeira teoria, conhecida como “acionalista”, cujas abordagens enfatizam os novos movimentos sociais organizados em torno das questões da esfera da reprodução, como as da cultura e da identidade – raça, gênero, nacionalidade etc. – em detrimento da ênfase nas relações de produção e da configuração das classes sociais; b) uma segunda vertente, pós-moderna, que inspirada e influenciada na teoria acionalista, desenvolve-se no contexto da hegemonia neoliberal, do pensamento único, renunciando à perspectiva da totalidade, da luta de classes e da revolução; e c) uma terceira, baseada na tradição marxista, com ênfase nas estruturas

econômicas, nas classes sociais e nos conflitos de classe (MONTAÑO;

DURIGUETTO, 2010, p. 312, grifos dos autores).

Segundo esses autores, a primeira vertente, a “acionalista”, foi fundada por autores europeus não marxistas, sob inspiração do Maio Francês. O “novo” para estes intérpretes significava a constituição heterogênea dos movimentos sociais, compostos por identidades diversas, sem caráter classista e cujas lutas objetivavam mudanças pontuais.

A leitura fragmentada da sociedade, concebendo de forma desarticulada os campos econômico, político e social, levou os intérpretes desta vertente a considerar os NMS “[...] como movimentos de luta e pressão fora da esfera da produção, mais vinculados ao mercado de consumo (MONTAÑO; DURIGUETTO, 2010, p. 310)”. Segundo, Montaño e Duriguetto (2010), esta vertente tornou-se hegemônica nas décadas de 1970-80. Como grandes expoentes do pensamento acionalista, os autores destacam Alain Touraine e Tilman Evers.

Os “acionalistas” consideravam que as lutas dos NMS seriam constituídas de ações locais, ligadas ao cotidiano, rejeitando a contradição capital/trabalho e apontando para autonomia do Estado e de partidos políticos (MONTAÑO; DURIGUETTO, 2010). Para estes intérpretes,

[...] os “NMS” não têm e não devem ter o foco de ação no conflito capital X trabalho nem no fim do capitalismo. Para eles, a formação e o agir dos “NMS” dependem menos de condições objetivas (estruturais) do que da existência de um conflito (manifesto) e da vontade (subjetiva) de participação social em torno desse conflito: o ator desses conflitos é o Movimento Social, não as classes, não o Estado (MONTAÑO; DURIGUETTO, 2010, p. 314).

Analisando o pensamento de dois dos grandes teóricos da teoria acionalista dos NMS, Montaño e Duriguetto (2010), mostram que para Touraine há três elementos que compõem os movimentos sociais: o ator, o adversário e o tema do conflito. Ou seja, analisa-se a ação do ator em torno de um tema específico e determinado, buscando compreender o adversário imediato.

Conforme estes autores, por não considerar a estrutura e as contradições sistêmicas como questões determinantes, Touraine compreende os NMS avessos à possibilidade de transformação social, compreendendo que as ações desses movimentos são questionadoras apenas das orientações culturais da sociedade e não do Estado ou do mercado, por exemplo. E por considerar a sociedade contemporânea, pós-industrial, o conflito social não estaria mais na relação capital/trabalho e sim em questões culturais e simbólicas das relações sociais. Para Montaño e Duriguetto (2010), assim como Touraine, Evers compreende que os NMS não lutam por transformações ligadas à esfera central do poder. O “novo” estaria no potencial desses movimentos sociais de experimentar novas formas de fazer política, ligadas a um potencial sociocultural e não político. “[...] A luta de classes seria reduzida ao jogo de diferentes grupos de pressão, às pequenas lutas pelas transformações moleculares de cada relação de dominação (MONTAÑO; DURIGUETTO, 2010, p. 316)”.

Ainda segundo os autores, os NMS interpretados pela perspectiva pós-moderna possuem duas premissas teóricas balizadoras: “[...] a) a defesa da crise da razão

moderna e a rejeição do conhecimento totalizante; b) o fim de qualquer projeto societário que parta pela emancipação do trabalho e que se contraponha ao do capitalismo (MONTAÑO; DURIGUETTO, 2010, p. 317, grifos dos autores)”.

A primeira baliza aponta para uma suposta crise dos paradigmas e por isso indica a necessidade de novos modelos teóricos que observem as diferenças da sociedade atual, fundada em fragmentos (MONTAÑO; DURIGUETTO, 2010). Na interpretação destes autores, a concepção da sociedade como um todo fragmentado implica no campo da teoria social, no abandono da interpretação da realidade como uma

totalidade conectada e no campo da práxis política, acaba com qualquer projeto totalizante de emancipação.

A segunda baliza sustenta que na sociedade contemporânea, marcada pela fragmentação social, não há mais possibilidade de identificação tradicional, por exemplo, a de classe. Por isso, nessa perspectiva os NMS defendem o protagonismo das políticas de identidade e decreta o fim da política clássica de classes (MONTAÑO; DURIGUETTO, 2010).

Montaño e Duriguetto (2010) citam como um dos teóricos defensores desta perspectiva Boaventura de Souza Santos, para ele, os “velhos” movimentos sociais seriam os partidos, sindicatos e movimentos agrários, cujas lutas estariam pautadas na reivindicação objetiva, contra o Estado e pela democracia representativa; enquanto que os “novos” movimentos sociais reivindicariam questões “pós- materialistas” e culturais e lutariam pela democracia participativa.

Segundo os autores, para Boaventura Santos, os NMS, constituem uma crítica tanto à regulação social capitalista quanto à emancipação social socialista, e apontam para lutas transclassistas, ou seja, contra opressões que não atingem uma classe social específica, que colocam a cultura e a qualidade de vida no centro das lutas. Montaño e Duriguetto (2010) refutam Santos, por considerarem que: 1) a afirmação de que todos os NMS constituem uma crítica ao capitalismo e ao socialismo não é generalizável; 2) porque as expressões da questão social perdem o fundamento no capitalismo, como se a guerra e o racismo, por exemplo, não assumissem particularidades nesse sistema, pois, 3) desconsidera que a qualidade de vida e a cultura possuem sustentação na desigualdade social; 4) porque não leva em conta que a forma de descanso e de vida são condicionadas ou determinadas pela inserção na divisão social do trabalho; 5) porque afirma que as opressões atingem a sociedade como um todo, ignorando que diversas formas de opressão, como segregação sexual, racial, ausência de habitação ou precariedade da mesma, afetam de maneira particular as classes trabalhadoras de baixa renda. Concluem

[...] a proposta de Boaventura de Souza Santos não é a de ampliar as lutas de classes com as lutas atreladas a ‘outras formas de opressão’ mas de substituí-las. Portanto, nessa análise, essas lutas perdem o caráter verdadeiramente emancipador, podendo realizar seus objetivos exatamente dentro dos marcos do capitalismo; assim, mantendo exploração, alienação, comando do trabalho pelo capital e desigualdade estrutural: com a perpetuação disto, a “emancipação” vira mera retórica! (MONTAÑO; DURIGUETTO, 2010, p. 322).

Os autores ainda apontam que na perspectiva pós-moderna a sociedade civil é tomada como a esfera da “diferença, diversidade e pluralismo”, ou seja, a sociedade civil é caracterizada como um campo que possibilita escolhas individuais e desta forma, as diferentes subjetividades apontam para a impossibilidade de um ethos integrador. Por isso, os pós-modernos consideram que a base dos NMS não é mais a identidade de classe e nem tampouco a exploração e, sim, as identidades individuais de um grupo, direcionando suas lutas contra as diversas opressões que atentam contra estas, ainda que em alguns momentos o enfrentamento a determinadas formas de opressão seja feito em conjunto com outros grupos, por exemplo, contra a fome, o aquecimento global, dentre outros.

A terceira vertente teórica apontada por Montaño e Duriguetto (2010) para explicar os NMS é a marxista. Conforme os autores, a análise marxista dos movimentos sociais dos anos de 1960-70, denominados pelos acionalistas como “novos”, parte de uma leitura contextualizada dos aspectos da realidade social.

[...] Ou seja, a crise capitalista, os novos centros de conflito e suas novas formas de organização e expressão sociais nada mais são, nessa ótica, do que novas e diversas maneiras de manifestações da fundante contradição capital/trabalho, fundamento da chamada “questão social”, que se expressa das mais variadas formas, e as quais os sujeitos enfrentam com um infindável leque de possibilidades. Antes de negar a contradição capital/trabalho, como categoria fundante da sociedade capitalista, esses fenômenos a confirmam (MONTAÑO; DURIGUETTO, 2010, p. 323-324).

Conforme os autores, a perspectiva marxista considera o Estado, a sociedade civil e o mercado como parte da mesma realidade histórico-social, e como tal, constituem- se esferas conflituosas e de disputas, constituem-se espaços de lutas de classes. Apontam como grandes pensadores desta vertente Castells e Lojkine65. Não vamos

65Gohn (2006) situa os mesmos pensadores na vertente marxista, entretanto denomina-os de neomarxistas, o que estamos em desacordo, pois como vemos em Montaño e Duriguetto (2010), os autores em questão (Castells e Lojkine) apesar de trazerem uma leitura contextualizada do seu tempo, observando as particularidades do mesmo, não perdem de vista em suas análises a

aqui resumir o pensamento desses teóricos como o fizemos nas outras vertentes, visto que tomaremos os mesmos em nossa análise dos movimentos sociais urbanos.