4. A institucionalização do município como entidade descentralizada territorial e
4.1. O contributo da Constituição da República Portuguesa (1976)
«A promulgação da Constituição Portuguesa de 1976 consagra a organização democrática das autarquias locais, definindo os princípios do seu estatuto jurídico e da sua autonomia financeira e administrativa reconhecida no artigo 237.° da Lei Fundamental. A reforma do regime financeiro das autarquias locais consagrou constitucionalmente dois objectivos, a «Justa repartição dos recursos públicos pelo Estado e pelas autarquias» e a «correcção das desigualdades entre autarquias do mesmo grau».» Bilhim (2004: 11)
A intervenção municipal no sistema educativo e o seu papel na gestão da educação, tem-se revelado de primordial importância desde o 25 de abril de 1974. A evolução da política educativa, a todos os níveis, a informação política/politização do país, a liberdade de participar e comunicar, vão contribuir para um melhor desempenho ao nível da gestão autárquica, assegurando a autonomia municipal.
A Constituição da República Portuguesa de 19767 assenta em princípios de regionalização, descentralização, autonomia e aumento do poder local. Também projeta os princípios de regionalização do Sistema Educativo, contextualizando-os nos movimentos de descentralização e de desconcentração, como consta nos seguintes artigos:
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A Constituição da República Portuguesa de 2 de Abril de 1976 (CRP), na redação que lhe foi dada pelas Leis Constitucionais nºs 1/82, de 30 de Setembro; 1/89, de 8 de Julho; 1/92, de 25 de Novembro; 1/97, de 20 de Setembro; 1/2001, de 12 de Dezembro e 1/2004, de 24 de Julho (…), teve a última (sétima) revisão constitucional através da Lei Constitucional 1/2005 de 12 de Agosto.
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«1. As atribuições e a organização das autarquias locais, bem como a competência dos seus órgãos, serão reguladas por lei, de harmonia com o princípio da descentralização administrativa.» (art. 237º)
Em matéria de educação e ensino, sobre liberdade de aprender,determina que:
«1. É garantida a liberdade de aprender e ensinar; 2. O Estado não pode atribuir-se o direito de programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas; 3. O ensino público não será confessional.» (art. 43º)
É garantido aos portugueses o direito à educação e atribuída ao Estado a promoção da democratização da educação e as condições para que esta contribua para o desenvolvimento da personalidade e para o progresso da sociedade democrática e socialista (art. 73º).
A garantia a todos os cidadãos do direito ao ensino e à igualdade de oportunidades na formação escolar (art. 74º), supõe alguma incapacidade imediata de o Estado dar resposta a todos estes direitos e garantias (dos cidadãos). Também por esta razão, ao assumir-se a organização do poder político e a criação do poder local, as autarquias locais, constituídas pelas freguesias, municípios e regiões administrativas (art. 236º) apresentam-se como complemento à realização daquela garantia.
Com a criação das autarquias está implícita a transferência de competências para o poder local, porquanto o Estado, não poderá, rapidamente, dar resposta aos “interesses próprios das populações”, previstos no texto da CRP. Estas competências estão inscritas no âmbito das suas atribuições, subordinadas ao princípio da descentralização político-administrativa, financeira e patrimonial. Como refere Pinhal (2004: 45):
«Os municípios são pessoas colectivas públicas, dotados de poderes públicos e de legitimidade democrática para o seu exercício, e que visam a satisfação de certas necessidades públicas – as suas atribuições. A educação é, naturalmente, uma dessas atribuições, já que constitui o motor e a evidência do desenvolvimento social e humano que os municípios têm que desenvolver.»
Analisando em pormenor a autonomia municipal na atualidade, podemos concluir que tem sofrido tal evolução, em matéria educativa e outras, que já só tem em comum com o passado pós-abril, a área territorial.
A participação do Estado na educação e instrução tem sido, nas últimas décadas, objeto de estudo de sociólogos, pedagogos, professores, políticos e outros. Em função dos períodos históricos e das opções, políticas, administrativas ou financeiras, a dimensão dos vetores: aluno – família – escola – comunidade – poder local – estado, vai originar uma caraterização social e pedagógica diferenciada.
O sistema educativo atual, herdeiro de um estado centralizado e autoritário, com caraterísticas de “estado-educador”, manteve durante muitos anos a escola fechada à comunidade, subordinada apenas à administração estatal e aos objetivos nacionais, descrita
33 por Formosinho (1999: 30) como escola “serviço local do estado”, conforme caraterização de Amaral (1988: 387-400). No entanto, Fernandes (2005: 195-196) considera a centralização como poderoso instrumento para a modernização e desenvolvimento, nos séculos XIX e XX. Em países com atraso social e económico como o nosso, o processo de centralização concebido como o de um “estado social e promotor do desenvolvimento”, criou condições de alargamento da educação escolar, novas condições escolares e aumentou os apoios socioeducativos.
Como já foi dito anteriormente, a revolução de abril, a Constituição da República Portuguesa e, posteriormente, a Lei de Bases do Sistema Educativo, integradas numa conjuntura de integração europeia, são os principais veículos para as mudanças consagradas no sistema educativo português. O município recupera a sua intervenção efetiva junto das populações, o poder local ganha competências e aproxima-se dos munícipes, disponibilizando-lhes ofertas educativas e formativas de qualidade. Ganham-se competências e conhecimentos, através do aumento de escolaridade em todos os estratos sociais, fatores para que muito têm contribuído os Fundos Comunitários, com diferentes apoios para programas e projetos.
Consolidam-se mudanças na sociedade que vão interferir com a escola de sistema educativo centralizado (Fernandes, 2005: 196) - a massificação escolar, a heterogeneidade de alunos, as mudanças tecnológicas e crises económicas, a desertificação das zonas rurais, a movimentação demográfica para os centros urbanos -, atribuindo à escola obrigações, responsabilidades e competências acrescidas.
A dificuldade do estado centralizado dar resposta às exigências educativas operadas pela sociedade vai implicar mais solicitações à comunidade educativa, nomeadamente às autarquias locais, que passam a assumir outras obrigações, mesmo para além das já legisladas. E assim temos assistido à erosão do estado-educador e à construção do município- colaborador. A expressão de Fernandes (2005: 200), sobre o assunto evidencia com bastante clareza, a importância deste, na sociedade portuguesa, da seguinte forma:
«Porém, ao centrar a política educativa na cidade e no município como expressão dinamizadora da cidade, não imaginamos o município como uma reprodução, a nível local, do paradigma do Estado Educador com a intenção de hegemonizar a educação da cidade em detrimento das outras instituições educativas.
Vemo-lo no papel de coordenador e dinamizador de iniciativas surgidas no território municipal, de promotor de um projecto que influencie as potencialidades educativas locais de forma a que se constitua uma rede educativa com a intencionalidade expressa de melhorar a qualidade de vida dos seus cidadãos.»
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O poder local é reforçado em termos de regalias, através de remunerações dos titulares de cargos municipais, enunciadas na Lei 44/77 de 23 de junho, com a criação de um novo regime, por o então sistema ser “manifestamente insuficiente para a compensação dos serviços que agora prestam às autarquias”. Já anteriormente, o Ministério da Educação e Investigação Científica, através das Secretarias de Estado da Administração e Equipamento Escolar e do Ensino Superior, havia acautelado regalias para os professores eleitos ou a eleger para Assembleia da República, assembleias regionais das regiões autónomas e órgãos executivos do poder local ou nomeados para funções governamentais, governadores civis e ainda para o exercício de funções nos gabinetes ministeriais. Essas regalias foram determinadas no Decreto-Lei 901/76, de 31 de dezembro, e referem-se, no seu conjunto, às seguintes situações: ingresso nos estágios pedagógicos após cessação de funções, contagem do tempo de serviço de estágio, com se fosse realizado na data de colocação, contagem do tempo de serviço «como serviço docente, reingresso aos estabelecimentos de ensino, de onde saíram, terminado o mandato e regime especial para os docentes universitários.