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2 O CONTROLE SOCIAL PUNITIVO EXERCIDO PELO CAPITAL

2.3 O CONTROLE SOCIAL DOS CORPOS PELO CAPITAL

A partir da compreensão das transformações sofridas pelo capital, desde o modelo agrário até o industrial ou fordista, e o seu processo de reprodução e expansão no modelo pós-industrial, pós-fordista ou flexível, é possível realizar uma análise crítica, ainda sob o viés marxista, visualizando o controle social engendrado por essas transformações do capital sobre os corpos.

Conforme se observou anteriormente, o acontecimento que gera o assalariado e o capitalista deita raízes na sujeição do trabalhador, que na visão de Marx (2011, p. 829-830) se encontra relacionado, sobretudo, “com os deslocamentos de grandes massas humanas, súbita e violentamente privadas de seus meios de subsistência e lançadas no mercado de trabalho como levas de proletários destituídas de direitos”. Desse modo, a expropriação do camponês, privado de suas terras, constitui a base do processo de transformação.

A ineficiência do modo de produção feudal fez incidir sobre os camponeses uma carga de trabalho cada vez mais pesada, resultando por parte destes a alternativa de fuga para as cidades, que também já exerciam uma atração pelo desenvolvimento da atividade econômica, e a consequente formação de uma multidão de desempregados e mendigos.

Os camponeses expulsos violentamente de suas terras com a dissolução das vassalagens feudais não podiam ser absorvidos pela manufatura nascente com a mesma rapidez com que se tornavam disponíveis. Depois de bruscamente arrancados das suas condições habituais de existência, os camponeses não podiam se enquadrar, da noite para o dia, na disciplina exigida pela nova situação, de maneira que, conforme assinala Marx (2011, p. 848), “muitos se transformaram em mendigos, ladrões, vagabundos, em parte por inclinação, mas, na maioria dos casos, por força das circunstâncias”. Surge, daí, no final do século XV e no decorrer do século XVI, na Europa Ocidental, uma legislação sanguinária contra a vadiagem, que tratava os camponeses “como pessoas que escolhem propositalmente o caminho do crime, como se dependesse da vontade deles prosseguirem trabalhando nas

velhas condições que não mais existiam”.34 Observa-se, assim, que nos séculos anteriores a classe trabalhadora foi punida, inicialmente, por se transformar em vagabunda e indigente, transformação esta que lhes fora imposta pelas transformações do capital.

Com o olhar, agora, dirigido ao controle social exercido pelo capital sobre os corpos, verifica-se, como diz Sobrinho (2010, p. 40), que a violência estrutural e institucional estabelece e reproduz a propriedade privada dos meios de produção, fornecendo os meios adequados à contenção dos excluídos, no intuito de conservar a ordem social necessária ao processo de reprodução do capital, fazendo com que o indivíduo não detentor dos meios de produção venda sua capacidade de trabalho àquele que os possui, fornecendo parte de seu trabalho sob a forma de mais-valia. Esse processo de acumulação de capital produz o aumento do proletariado, gerando o distanciamento entre as classes sociais e mais exclusão.

Uma das principais contribuições sobre tal situação vem da obra “Punição e Estrutura Social” (Punishment and Social Structure -1939), em que Rusche e Kirchheimer investigam os sistemas penais em suas manifestações específicas, a partir de suas mudanças e de seu desenvolvimento, demonstrando que são determinados por forças sociais e econômicas. Depois de uma sólida pesquisa empírica de base histórica, constatam que as formas específicas de punição correspondem a um dado estágio de desenvolvimento econômico.

Ao estudarem a relação mercado de trabalho-prisão em fontes históricas e de diversos países europeus, de fins da Idade Média até o século XIX, Rusche e Kirchheimer (2004, p. 20) concluem que “todo sistema de produção tende a descobrir formas punitivas que correspondem às suas relações de produção”.35 Na mencionada obra, os pesquisadores procuram revelar mais o processo de ideologização subjacente à problemática da punição do que a questão do cárcere propriamente dita.

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Segundo Marx, essa legislação iniciou na Inglaterra, no reinado de Henrique VII.

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Em nota introdutória a essa edição brasileira (p. 13), Gizlene Neder afirma que, no Brasil, o livro de Rusche e Kirchheimer é inicialmente conhecido através de outros autores que o citam, sendo o primeiro contato feito a partir de uma extensa e destacada referência feita pelo economista inglês Maurice Dobb, que enfatiza os aspectos históricos relacionados ao processo de constituição do mercado de trabalho na Inglaterra na passagem ao capitalismo, no século XVI, em sua obra “A Evolução do Capitalismo” (tradução em português).

Posteriormente, Melossi e Pavarini retomam a linha de pesquisa iniciada por Rusche e Kirchheimer, culminando com a publicação da obra “Cárcere e fábrica: as origens do sistema penitenciário (séculos XVI-XIX)” (1977), em que definem a relação capital-trabalho assalariado como ponto de compreensão da instituição carcerária. Conforme já salientado anteriormente, também demonstram que na formação do proletariado, como aspecto subordinado das relações de produção capitalistas, os camponeses foram expropriados dos meios de produção e expulsos do campo, durante o processo de acumulação primitiva do capital nos séculos XV e XVI, concentrando-se nas cidades e dando origem à formação de massas de desocupados urbanos, ante a insuficiente absorção de mão de obra pela manufatura e a inadaptação à disciplina do trabalho assalariado.

Outra contribuição relevante à compreensão dos mecanismos de punição e do estudo da prisão é feita por Foucault, em sua grandiosa obra denominada “Vigiar e punir: nascimento da prisão” (Surveiller et

punir - 1975). O pensador francês observa com precisão as

transformações das instituições e dos mecanismos de punição, principalmente entre os séculos XVIII e XIX, onde os suplícios e os espetáculos punitivos são deixados de lado para darem lugar a mecanismos específicos de disciplinamento dos corpos36, como o panoptismo penal.37

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Vale registrar, por oportuno, a síntese de Guido Neppi Modona acerca dos trabalhos de Melossi, Pavarini e Foucault, na apresentação da obra “Cárcere e Fábrica” (p. 12): “Foucault, de um lado, e Melossi e Pavarini, do outro, seguem posturas e métodos ideológicos muito diferentes para chegar a uma mesma conclusão, que pode ser considerada, desde já, como o ponto de partida da atual pesquisa histórica sobre as instituições penitenciárias. Para Foucault, o cárcere é o emblema do modelo de organização do poder disciplinar exercitado no contexto social de quem detém o próprio poder, um modelo que assume aspectos quase metafísicos e que perde, exatamente devido à sua generalização e abstração, uma dimensão histórica precisa”. Foucault examina o nascimento da instituição carcerária na França entre o final do século XVIII e o início do século XIX. Diferentemente, para Melossi e Pavarini, “a preocupação de situar o cárcere num contexto histórico preciso constitui o fio condutor da pesquisa”. 37

Foucault (1987, p. 168) cita que Le Vaux construíra, em Versalhes, o primeiro zoológico em que os elementos não estavam, como tradicionalmente, espalhados em um parque. Havia, no centro, um pavilhão octogonal, onde, no primeiro andar, comportava apenas uma peça (o salão do rei). E todos os lados se abriam com janelas largas, sobre sete jaulas (o oitavo lado era a entrada), onde se encerravam diversas espécies de animais. Registra, ainda, o pensador francês que apesar de Bentham não ter dito se inspirou seu projeto nesse

Ao analisarem as penas em suas manifestações específicas, desenvolvimentos e mudanças, bem como a escolha dos métodos penais em períodos históricos determinados, Rusche e Kirchheimer (2004, p. 19-20) concluem que “a transformação em sistemas penais não pode ser explicada somente pela mudança das demandas da luta contra o crime, embora esta luta faça parte do jogo”, mas pela mudança dos sistemas de produção.

Para Rusche e Kirchheimer (2004, p. 20-21), as formas específicas de punição correspondem a um determinado estágio de desenvolvimento econômico, de modo que a escravidão como forma de punição não existe sem uma economia escravista, a prisão com trabalho forçado não existe sem a manufatura ou a indústria, assim como as fianças para todas as classes da sociedade não existem sem uma economia monetária. Por outro lado, o desaparecimento de um determinado sistema de produção faz com que a pena correspondente se torne inaplicável.

Por essa premissa, havendo escassez de oferta de escravos numa economia escravista, a pressão por demanda implicará a escravidão como método de punição. Tanto é assim que, com a passagem para o feudalismo, esse método punitivo cai em desuso, retornando-se aos anteriores métodos da pena corporal, na medida em que a pena pecuniária era inviável para atingir todas as classes.

A intensificação dos conflitos sociais, especialmente no norte da Itália e da Alemanha, marcou a transição das relações capitalistas entre os séculos XIV e XV e, segundo Rusche e Kirchheimer (2004, p. 31), levou à criação de leis criminais rígidas, dirigidas contra as classes subalternas. Nesse contexto, o aumento no número de crimes entre o proletariado empobrecido, especialmente nas grandes cidades, fez com que as classes dirigentes buscassem novos métodos para tornar a lei penal mais eficaz. Assim, o sistema de penas, com seu duplo regime de punição corporal e fianças variava de acordo com a classe social do condenado.

Diante desse desenho, a criação de leis específicas para combater crimes contra a propriedade consistiu numa das principais preocupações zoológico, que em sua época desaparecera, encontra-se no programa do panóptico a mesma preocupação da “observação individualizante, da caracterização e da classificação, da organização analítica da espécie”. Assim, diz Foucault, o panóptico é um zoológico real, em que “o animal é substituído pelo homem, a distribuição individual pelo grupamento específico e o rei pela maquinaria de um poder furtivo”.

da burguesia urbana emergente, já que o maior número de crimes contra a propriedade passou a ser cometido por aqueles que não possuíam propriedade. O castigo físico era a regra, mas, por ter crescido consideravelmente, deixou de ser suplementar para se transformar na forma regular de punição.

No início do século XVI, a deterioração das condições de vida e o aumento da mendicância, em razão da situação econômica, obrigaram as cidades a adotarem novas regras, mais duras, no tratamento dos mendigos como criminosos. Na Inglaterra, segundo Rusche e Kirchheimer (2004, p. 65), chegou-se a prever que todos os vagabundos que se recusassem a trabalhar seriam entregues a senhores como escravos.

No mesmo período, os métodos de punição sofreram uma mudança gradual e profunda, de forma que a exploração do trabalho dos aprisionados recebera mais atenção, com a adoção de escravidão nas galés, deportação e servidão penal por meio de trabalhos forçados. Contudo, afirmam Rusche e Kirchheimer (2004, p. 43), essas mudanças não decorreram de considerações humanitárias, “mas de um certo desenvolvimento econômico que revelava o valor potencial de uma massa de material humano completamente à disposição das autoridades”.

No caso do trabalho compulsório nas galés, como remadores, esse método persistiu após o fim do sistema econômico em que se baseava a escravidão, por volta de fins do século XV, em razão da natureza servil e arriscada que dificultava o recrutamento de homens livres e de sua necessidade decorrente das guerras navais. Em seus estudos, Rusche e Kirchheimer (2004, p. 85) evidenciam que “o que é significativo no uso das galés como método de punição é o fato de ser uma iniciativa calcada em interesses somente econômicos e não penais”, na medida em que se desejava obter a força de trabalho necessária em condições mais baratas. Os autores citam, inclusive, que em França o governo teria pressionado os tribunais a fim de conseguir prisioneiros em número suficiente para manter as tripulações completas. Portanto, a servidão nas galés representava um caminho racional para obtenção de mão de obra para um serviço rejeitado pelo trabalhador livre, não tendo qualquer relação com a recuperação do condenado.38

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A guerra aos pobres e desocupados, durante a escassez de mão de obra, era tão brutal que havia quem impusesse às pessoas sem meios de subsistência a alternativa de serem expulsas do reino ou condenadas à escravidão nas galés. As “caças aos vagabundos” foram organizadas tanto na Holanda quanto na França

Já no final do século XVI, houve nova mudança no tratamento dos pobres, em face da crescente escassez de força de trabalho no mercado, que corresponde ao declínio demográfico característico desse período. Conforme destacam Rusche e Kirchheimer (2004, p. 66) em suas investigações, “as pessoas que perambulavam e mendigavam e se dirigiam às cidades em busca de condições de vida mais favoráveis durante o período mercantilista nem sempre estavam aptas a se defender da opressão social, exceto em tempos de crise”.

Em razão da elevada proporção de mendicância em Londres, na Inglaterra, foi autorizado pelo rei o uso do castelo de Bridewell para acolher os vagabundos, os ociosos, os ladrões e os autores de pequenos delitos a fim de reformá-los através do trabalho obrigatório e da disciplina. Desse modo, afirma Melossi (2010, p. 36), a instituição visava desencorajar outras pessoas à prática da vagabundagem e do ócio, de modo que, em pouco tempo, se espalhou pela Inglaterra como casas de correção (Houses of correction).

O internamento compulsório de ociosos, vagabundos, ladrões, entre outros autores de delitos, para submetê-los ao trabalho obrigatório e à rígida disciplina, portanto, tem origem na Inglaterra, na segunda metade do século XVI, com o experimento no castelo de Bridewel e nas casas de correção, destinado a enfrentar as massas de trabalhadores expropriados do campo que deslocaram para as cidades, mas que não podiam ser absorvidos pela manufatura com a mesma velocidade com que abandonavam os campos.

No início do século XVII, em Amsterdã, na Holanda, a nova instituição da casa de trabalho atinge sua forma mais desenvolvida, conhecida como Rasp-huis. Na interpretação de Melossi (2010, p. 43), tratava-se de uma atividade de trabalho consistente em “raspar, com uma serra de várias lâminas, um certo tipo de madeira até transformá-la em pó, do qual os tintureiros retiravam o pigmento usado para tingir os fios”. As duras condições de trabalho no interior da casa de correção tinham também um efeito sobre o lado de fora, consistente na função intimidatória para com o operário livre, que preferia aceitar as condições impostas pelo trabalho na manufatura do que ir para a casa de trabalho.

Importante destacar que a casa de trabalho tinha por objetivo forçar o pobre a se submeter a qualquer oferta de trabalho, independentemente das condições oferecidas. Para tanto, bastava que a com o objetivo de fornecer tripulações aos navios, inclusive pressionando-se os tribunais a fim de que tornassem a condenação às galés uma punição comum, mesmo que as infrações fossem pequenas.

vida na casa de trabalho oferecesse menos do que o trabalhador livre do mais baixo estrato social pudesse alcançar. Assim, o internamento na casa de trabalho atuava sobre o mercado, fazendo com que o trabalhador fosse levado a evitar, a qualquer custo, ser movido para a instituição. Segundo Melossi (2010, p. 66-67), essa situação foi denominada de princípio da menor elegibilidade (princípio da less eligibility), em que a eficácia da prisão pressupunha condições carcerárias piores do que as condições do trabalho livre.

O resultado disso, conforme observa Melossi (2010, p. 55), é que o segredo da Workhouse ou da Rasp-huis reside na concepção burguesa da vida e da sociedade, na preparação dos homens (especialmente os pobres, proletários) “a aceitar uma disciplina que os transforme em dóceis instrumentos da exploração”. Assim, o sistema capitalista substitui a velha ideologia religiosa por novos instrumentos de submissão, de disciplinas que se tornam fórmulas gerais de dominação, na medida em que fabricam corpos dóceis e submissos.39

O problema, então, foi enfrentado com a criação das casas de correção, que forneciam trabalho aos desempregados e obrigavam a trabalhar aqueles que se recusassem. Além disso, essas instituições passaram a atender uma população bastante heterogênea, não apenas de vagabundos, ladrões, prostitutas, ociosos, entre outros que representavam a classe perigosa, mas também os filhos de pobres e desempregados em busca de trabalho, inclusive suas crianças rebeldes e dependentes dispendiosos.40

O método adotado pelas casas de correção expressava uma nova política econômica com o objetivo de limpar as cidades dos vagabundos

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Conforme destaca Mészáros (2004, p. 65), “a ideologia não é ilusão nem superstição religiosa de indivíduos mal-orientados, mas uma forma específica de consciência social, materialmente ancorada e sustentada” e, como tal, não podendo ser superada nas sociedades de classe. Assim, “sua persistência se deve ao fato de ela ser constituída objetivamente (e constantemente reconstituída) como consciência prática inevitável das sociedades de classe, relacionada com a articulação de conjuntos de valores e estratégias rivais que tentam controlar o metabolismo social em todos os seus principais aspectos”.

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Segundo Dobb (1987, p. 237-238), os recrutamentos forçados de mão de obra para estabelecimentos privilegiados de todos os tipos eram comuns, “e os pais que não mandassem os filhos para a indústria eram ameaçados com multas pesadas”, assim como as casas de correção para os sem-trabalho se multiplicavam “como estabelecimentos que eram virtualmente colônias de trabalhos forçados, sendo seus ocupantes freqüentemente alugados a empregadores particulares”.

e mendigos. Para Rusche e Kirchheimer (2004, p. 69), “a essência da casa de correção era uma combinação de princípios das casas de assistência aos pobres (Poorhouse), oficinas de trabalho (Workhouse) e instituições penais”, cujo objetivo era “transformar a força de trabalho dos indesejáveis, tornando-a socialmente útil”. A partir do trabalho forçado no interior da instituição, os presos adquiriam hábitos e treinamento profissional.

Muito embora houvesse, no século XVII, quem diferenciasse casa de trabalho de casa de correção, sendo aquela para os pobres e esta para os vagabundos e criminosos, na prática, segundo Melossi (2010, p. 59- 60), as instituições eram a mesma coisa, tendo em vista que o delito tinha como fundo a pobreza e a finalidade da instituição era o aprendizado de uma disciplina, visto como punição. Portanto, é difícil distinguir o desenvolvimento da casa de correção propriamente dita do da Workhouse para pobres ou Poorhouse.41 A prática da casa de correção se tornou cada vez mais uma punição do tipo detentivo, absorvendo aos poucos a prisão de custódia.

Entre os séculos XVII e XVIII, a política institucional para as casas de correção na sociedade não significava o resultado de um senso oficial de obrigação para com os desvalidos, mas parte do desenvolvimento do capitalismo, na perspectiva de Rusche e Kirchheimer (2004, p. 80). As casas de correção eram tão valiosas para a economia nacional como um todo, que “seus baixos salários e o treinamento de trabalhadores não qualificados eram fatores importantes no crescimento da produção capitalista”. Por isso, espalharam-se facilmente por toda a Europa.

Para Melossi (2010, p. 37-38), as casas de correção ou trabalho forçado foram criadas para resolver os problemas oriundos da exclusão social produzidos pelo capitalismo42, com a finalidade de disciplina para

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Conforme assinala Hobsbawm (2010, p. 266), “a Nova Lei dos Pobres de 1834, um estatuto de insensibilidade incomum, deu aos trabalhadores o auxílio- pobreza somente dentro das novas workhouses (onde tinham de se separar da mulher e dos filhos para desestimular o hábito sentimental e não malthusiano de procriação impensada) e retirou a garantia paroquial de uma manutenção mínima”.

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No século XVIII ocorrem profundas transformações, com a aceleração do desenvolvimento econômico promovido pela Revolução Industrial. A introdução das máquinas e a passagem do sistema manufatureiro para o sistema de fábrica aumentam a expulsão dos camponeses e a oferta de mão de obra no mercado, contribuindo para a compressão dos salários na Inglaterra. Desse modo, os fenômenos do pauperismo e da “criminalidade” crescem de

o trabalho assalariado na manufatura. Com isso, as massas marginalizadas do mercado de trabalho eram obrigadas a aceitar empregos por salários miseráveis para evitar a internação nas

Workhouses.

Afirma-se que a primeira forma de prisão se encontra estreitamente ligada às casas de correção manufatureiras. Isso porque, considerando que a finalidade não era a recuperação dos reclusos, e sim a exploração racional da força de trabalho, o período de detenção era determinado pelas necessidades da instituição. Assim, trabalhadores aptos, cuja manutenção e treinamento envolvessem despesas significativas, deveriam ser retidos o maior tempo possível, segundo Rusche e Kirchheimer (2004, p. 99).

Mas, se por um lado, nos séculos XVII e XVIII a existência de escravidão nas galés, deportação e encarceramento nas casas de correção, como formas de punição, limitaram a pena capital, por outro, dizem Rusche e Kirchheimer (2004, p. 103), a principal motivação da nova ênfase no encarceramento, como método de punição, era o lucro, “tanto no sentido restrito de fazer produtiva a própria instituição quanto no sentido amplo de tornar todo o sistema penal parte do programa