A produção da arquitetura apenas como lugar que articula funções práticas enfraquece o grau de relação com o homem. A importância da experiência corporal se torna clara “uma vez que o corpo é referência de toda a ação que empregamos em direção as coisas, de toda a noção que temos de espacialidade.” (FRANÇA, 2010). Logo ao se conceber um espaço há de se levar em consideração a relação entre espaço com o corpo e o sujeito.
O estudo do corpo foi discutido notadamente na década de 70 e 80, nos campos da arte, humanidade e disciplinas científicas. Este interesse deveu-se em grande parte aos escritos de Michel Foucault. Seus textos sobre a história do poder político e subjugação gradual das massas ‘desregrada’ apresenta o corpo como vítima passiva das práticas institucionais repressivas. (HALE, HANKS e MACLEODD, 2012). Jonathan Hale (2012) em seu texto sobre o paradigma do corpo, parte da noção de que por sermos sujeitos deste mundo e nascermos num ambiente com valores e leis estabelecidos, necessariamente seguimos papeis sociais pré-estabelecidos para nós. Colocando em questão a reação deste corpo e as possibilidades existentes que o sujeito poderia ter para criar um lugar alheio as estruturas institucionais que o prendem.
Figura 13: Imagem da série Body Configurations do artista Valie Export.1972-1976. Fonte: socks- studio.com
Na arquitetura o interesse por temas relacionados ao corpo, a experiência sensorial e materialidade, hoje divulgados por arquitetos e teóricos como Peter Zumthor, Steven Holl e Juhanni Pallasmaa, pode ser visto como parte de uma reação ao modelo textual de comunicação e sentido que predominava durantes os anos 80 e 90. A visão do edifício como texto começa a ganhar popularidade no fim dos anos 60 e se estende aos anos 70, devido especialmente aos impactos de modelos de interpretação semióticos que circulavam entre diversas áreas de análise culturais. Outra razão, no meio arquitetônico, para este interesse por temas fenomenológicos é a falha e esgotamento da arquitetura racionalista, e então, novos arquitetos voltam a debater questões ignoradas pelos arquitetos modernistas. (HALE, 2012)
O que permanece destas reações hoje é a predominância do modelo textual para o projeto arquitetônico nos que diz respeito ao debate e decisões sobre ele. Como é dito por Hale basicamente todo arquiteto que quisesse ser levado a sério tinha que escrever sobre seu trabalho, o projeto não estava completo se não estivesse acompanhado de um texto ‘filosófico’. Um dos grandes motivos dessa importância textual de base filosófica no projeto vem do relacionamento do filósofo francês Jacques Derrida com os arquitetos Bernard Tschumi e Peter Eisenman. De modo que a partir da década de 90 a validação última do projeto passa a ser então entendido pelo rigor conceitual, mediado pelo seu texto, ao invés da performance funcional do projeto já construído. De acordo com Julia Schulz-Dornburg (2002) a arquitetura atual está de fato mais interessada no conceito e nos efeitos que eles têm sobre nós, “o caminho para o projeto acabado é mais importante do que o produto final; o processo, mais importante que o resultado. Estamos menos interessados no começo ou no fim, do que no progresso que leva de um ao outro”. (SCHULZ-DORNBURG, 2002)
Na década de 80, quando os museus passaram a se identificar como uma instituição pública disciplinadora, a importância do texto para mediação entre o sujeito e o objeto foi usada em demasia no formato de painéis e notas descritivas. Diante da necessidade do acompanhamento de textos e gráficos para a narrativa do museu, este intermédio de entendimento da obra, mesmo que também nos faça reagir
emocionalmente, desafia a experiência da resposta emocional e corpórea com objeto em si. (DUDLEY, 2009).
Esta relação entre a experiência no espaço e a questões de uso e movimento é um tema que os happenings artísticos do final dos anos sessenta já haviam sedimentado e trabalhado. O trabalho de Hermann Nitsch e Marina Abramovitch, por exemplo, foram trabalhos que reintroduzem o corpo como um elemento na percepção arquitetônica e artística, tornando o corpo não só tela, mas como conteúdo. (SCHULZ-DORNBURG, 2002). Figura 14: Imponderabilia de Marina Abramovic e Ulay em 1977. Fonte: pinterest.com
Alguns arquitetos também citam o movimento no espaço como de importância vital na arquitetura. Bernhard Tschumi, por exemplo, acredita que não existe arquitetura sem ação, pois a arquitetura deve lidar com o movimento e a ação no espaço. O parque de La Villette, em Paris, é espaço que vai contra a ideia da arquitetura como espaço de fácil leitura. O parque e seus follies devem ser experimentados de maneira sucessiva, a partir um conceito de fragmentos, visões incompletas, onde “os cantos obscuros da experiência são como um labirinto, onde todas as sensações, todos os sentimentos são ampliados, mas onde não existe uma visão geral que forneça uma pista sobre onde fica a saída. ” (TSCHUMI, 1990). Julia Schulz-Dornburg (2002), revela os arquitetos e a arquitetura atual que possuem esta relação entre o movimento, o corpo e o objeto/ação:
Para Gordon Matta-Clarck, o ambiente construído era formado por uma série de “ocorrências”. Haus-Rucker-Co denominou esses mesmos incidentes de “experiências”. Bernand Tschumi definiu nosso entorno artificial como uma série de eventos e Rem Koolhaas descreveu-os como “vazios” nos quais o inesperado se manifesta. Todas estas definições tem algo em comum: elas não se referem a um objeto acabado, mas descrevem uma sequência de ações. A arquitetura não pode mais ser uma unidade homogênea que representa um todo, somente pode ser entendida como uma série de fragmentos que são interligados pela pessoa que os experimenta. O apelo por uma arquitetura flexível e interativa restabeleceu no projeto e na construção de edifícios um elemento óbvio, mas há muito tempo esquecido: as pessoas. (SCHULZ-DORNBURG, 2002)
Figura 15:Parc de La Villette. Projeto de Bernhard Tschumi. Fonte: pinterest.com