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Capítulo II: A evolução dos salários do emprego formal no Brasil

2.1 O crescimento dos salários do emprego formal

O crescimento da economia brasileira que se deu entre 2003 e 2013 não apenas se refletiu em um forte crescimento do estoque de vínculos de emprego formal no Brasil, como também em um aumento dos salários e em relativa diminuição da desigualdade de renda entre os trabalhadores. Entre 2003 e 2013, o salário médio19 do conjunto dos empregados formais no Brasil registrou um aumento nominal de R$985,30 em 2003 para R$2.177,60 em 2013, significando, descontada a inflação20, um crescimento real de 30,6% em dez anos, ou 2,7% ao ano (ver Figura 2, abaixo). Neste capítulo, será estudada a distribuição dos salários do emprego formal e sua evolução entre 2003 e 2013.

Figura 2: Evolução do salário médio do emprego formal, nominal e real – preços de dez/2013 (INPC-IBGE)

Fonte: RAIS-MTE (Elaboração própria)

Embora ainda fosse 42% maior que o salário médio em 2013, o desvio padrão dos salários aumentou de 2003 para 2013 menos que o salário médio (18%, ou 1,7% ao ano), de

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Na RAIS, diferentemente da variável “Remuneração Média” que faz referência à média dos salários recebidos pelo trabalhador nos 12 meses do ano de referência, a variável “Salário Médio” é compreendida como sendo a remuneração do trabalhador relacionado somente no mês de Dezembro, mês de referência da RAIS.

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Segundo o IBGE, entre Dezembro de 2003 e Dezembro de 2013, a inflação acumulada medida pelo INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) foi de 69,2%, ou seja, uma inflação média de 5,4% ao ano.

R$- R$500,00 R$1.000,00 R$1.500,00 R$2.000,00 R$2.500,00 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 SA LÁ R IO MÉ DIO

modo a possibilitar uma redução do coeficiente de variação dos salários de 1,57 em 2003 para 1,42 em 2013. Em suma, pode-se dizer que juntamente com o forte crescimento do estoque de empregos formais, o poder de compra dos salários também aumentou, ao passo que diminuíram as diferenças de remuneração entre os empregados formais.

O forte aumento do emprego formal decorreu do crescimento econômico, da maior regularização dos estabelecimentos - especialmente dos menores e que pagam menores remunerações - e da melhora do ambiente político e institucional de regulação do trabalho. Não obstante, o salário médio dos empregados formais teve um aumento expressivo no seu poder de compra e houve redução na dispersão relativa das remunerações dos empregados formais, embora esta ainda tenha continuado muito alta. O ambiente político no país, com um governo mais comprometido com os interesses dos trabalhadores, teria facilitado estas mudanças de maneira geral. De qualquer modo, destacam-se dois elementos que contribuíram para que o crescimento do emprego formal e do PIB se traduzissem em elevação do nível dos salários. Segundo Dedecca e Lopreato (2013: p.21-22):

(...) a expansão do produto a partir de 2003 tem sido acompanhada da recuperação tanto do rendimento médio do trabalho como do salário médio, sendo que tal movimento não foi interrompido com a crise de 2008. Dois elementos explicam esse comportamento positivo. O primeiro se associa ao comportamento do salário mínimo, responsável por garantir que os salários de bases tenham aumentado, ao menos, no mesmo ritmo do PIB. O outro decorre dos resultados das negociações coletivas que tem se traduzido, majoritariamente, em aumentos reais de salários. É importante ressaltar que a força desses determinantes recebeu a contribuição da recorrência de uma taxa de inflação de um dígito, fator fundamental para a preservação do poder de compra dos rendimentos do trabalho.

Por um lado, em um quadro de crescimento do emprego, redução no desemprego e baixa inflação, teria sido cada vez mais fácil aos sindicatos alcançar reajustes salariais maiores do que a inflação (ver Figura 3, abaixo). Assim, desde 2003, cada vez mais sindicatos e categorias ocupacionais alcançavam ganhos reais em seus reajustes salariais. Segundo dados do Sistema de Acompanhamento de Salários (SAS), do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), 18,8% das unidades de negociação salarial21 pesquisadas em 2003 registraram reajustes salariais acima da inflação. Em 2004, esta proporção passava para 54,9% das unidades pesquisadas, e em 2005 esta porcentagem passava para 71,7%, permanecendo em 86,3% em 2006, 87,7% em 2007 e caindo para 76,6% em 2008. Em 2009, mesmo com a breve recessão causada no país pela crise financeira

21 “Por unidade de negociação, entende-se cada núcleo de negociação coletiva entre representantes de trabalhadores e empresários que resulta em um ou mais documentos formalizados entre as partes, nos quais são estabelecidas normas para a regulamentação do trabalho.” (DIEESE, 2012: p.292)

mundial de 2008, pelo menos 79,5% das unidades de negociação salarial alcançariam reajustes salariais acima da inflação. Esta porcentagem se manteve acima dos 80% nos anos seguintes, mesmo com o arrefecimento do ritmo do crescimento econômico após 2011, chegando a alcançar 88,2% em 2010, caindo para 86,8% em 2011, subindo para 94,6% em 2012 e caindo novamente para 84,5% em 2013 (DIEESE, 2012; KREIN e TEIXEIRA, 2014). Além disso, a diferença entre os reajustes de salário e a inflação tendeu a aumentar enquanto se manteve o quadro de forte crescimento do emprego, redução do desemprego e baixa inflação.

Figura 3: Balanço das negociações coletivas – reajustes salariais entre 1998 e 2013

Fonte: SAS-DIEESE, adaptado de KREIN e TEIXEIRA, 2014.

Por outro lado, a instituição da política nacional de valorização do salário mínimo e as transferências diretas e indiretas de renda por parte do Governo Federal, tanto no âmbito da previdência social quanto no âmbito dos programas sociais, auxiliaram não apenas na elevação dos patamares dos salários mais baixos do emprego formal (e, indiretamente, dos empregos informais, através do chamado “efeito farol”), como também contribuíram para a diminuição da desigualdade de rendas entre os trabalhadores de um modo geral (SABOIA, 2006; SOUEN, 2013). As aposentadorias de valor inferior, bem como os Benefícios de Prestação Continuada (idosos e deficientes físicos de baixa renda), seguem o valor oficial do salário mínimo. Essas transferências de renda e o programa Bolsa Família foram

43,5 35,1 51,5 43,2 25,8 18,8 54,9 71,7 86,3 87,7 76,6 79,5 88,2 86,8 94,6 84,5 19,8 14,6 15,2 19,6 27,7 23,0 26,1 16,3 10,7 8,3 12,0 11,9 7,6 7,5 4,1 7,0 36,7 50,3 33,3 37,2 46,5 58,2 19,0 12,0 3,0 4,0 11,4 8,6 4,2 5,7 1,3 8,5 1 9 9 8 1 9 9 9 2 0 0 0 2 0 0 1 2 0 0 2 2 0 0 3 2 0 0 4 2 0 0 5 2 0 0 6 2 0 0 7 2 0 0 8 2 0 0 9 2 0 1 0 2 0 1 1 2 0 1 2 2 0 1 3

particularmente importantes para ampliar a renda das famílias incapazes de obter um emprego remunerado, ou seja, que não foram beneficiadas pela melhora do mercado de trabalho (BALTAR et al., 2010).

A valorização do salário mínimo ainda teria contribuído para que os sindicatos e as categorias profissionais negociassem pisos salariais acima do mínimo, de modo que os pisos de várias categorias acompanhassem a evolução do salário mínimo. Estes reajustes dos pisos, que em média ocorreram acima dos reajustes das categorias, contribuíram para a elevação dos salários mais baixos e mais próximos ao valor do salário mínimo, de modo que muitas categorias conseguiram elevar as suas bases salariais, contribuindo assim para elevar o nível geral dos salários do emprego formal e diminuir as diferenças salariais, muito embora esta pressão tenha ainda contribuído para que muitos setores passassem a diferenciar os pisos de acordo com o tamanho do estabelecimento (KREIN e TEIXEIRA, 2014).

No entanto, ainda que de modo geral os salários tenham aumentado bastante e a desigualdade tenha diminuído, as diferenças de remuneração do emprego formal continuaram ainda muito grandes. Mesmo assim, este crescimento dos salários, acompanhado do crescimento do emprego, reforçou a retomada da demanda por bens e serviços na economia brasileira, contribuindo assim para a retomada do investimento e do crescimento econômico verificado no período. A seguir, passamos a utilizar os dados da RAIS para um estudo pormenorizado da evolução dos salários do emprego formal.