3. A CRIANÇA, O DESENHO, A LINGUAGEM E O OUTRO
3.1 O DESENHO SOB O PONTO DE VISTA DAS TEORIZAÇÕES
3.1.3 O desenho como linguagem artística e criadora
O diálogo entre Arte e Educação tem se intensificado nos últimos anos, ampliando discussões e adentrando nos contextos das práticas pedagógicas com crianças. Pesquisadoras como Ana Mae Barbosa, Rosa Iavelberg e Edith Derdyk buscaram nas diversas manifestações artísticas referências para a compreensão do desenho infantil.
80 Ana Mae Barbosa (1999) embora não tenha se debruçado nos estudos acerca do desenho das crianças, trouxe contribuições significativas para o entendimento da origem de concepções de ensino dessa linguagem. A partir de uma perspectiva histórica, a autora relata o percurso do desenho no currículo escolar brasileiro, atendendo inicialmente a diversas demandas, as quais Augusto (2014) afirma que nem sempre estiveram a serviço da Arte, mas da técnica e cópia de modelos.
Gobbi e Leite (2002) ao analisarem distintas abordagens na produção acadêmica sobre o desenho das crianças pequenas, apontam que no estudo da referida autora o desenho aparece como uma das possibilidades de expressão, sendo elemento principal do ensino artístico. Em seu trabalho História da arte- educação no Brasil, Barbosa (1999) revela que o desenho acompanhava as mudanças de sua época, sendo aplicado de modo diferenciando entre homens e mulheres, onde para os primeiros estava a serviço de seu trabalho enquanto técnica e habilidade a ser aprendida, já para as mulheres, inicialmente, estava relacionado às minúcias do bordado, e só posteriormente tem-se a preocupação de empregá-lo como recurso profissionalizante.
Outra pesquisadora brasileira já apresentada, Rosa Iavelberg (2013a; 2013b), tem estudado o desenho infantil como linguagem sob a perspectiva construtivista de Piaget. Para ela, o desenho é a base de todas as linguagens artísticas e sua importância se dá “pela integração que propicia entre cognição, ação, imaginação, percepção e a sensibilidade. Por intermédio do desenho, a criança pode expressar seus conhecimentos e suas experiências, colocando sua poética de modo singular” (IAVELBERG, 2013a, p. 57). Em seu trabalho O desenho cultivado da criança: prática e formação de educadores, a autora aborda o desenho criativo como objeto simbólico e cultural, construtivo, que é singular ao mesmo tempo em que é influenciado pela cultura e que, por isso, pode ser aprendido quando orientado adequadamente. Mas, para chegar a essas conclusões, Iavelberg recupera na história as diferentes concepções acerca do desenho, analisando-as e contextualizando-as.
Segundo Augusto (2014), a principal contribuição da autora está no destaque dado ao papel da cultura nas produções gráficas infantis, opondo-se a perspectiva “espontaneísta” e assumindo a concepção de desenho cultivado, em que através
81 das interações com o desenho e com adultos e crianças, estas acabam por se envolver em um processo de aprendizagem e construção de conhecimento em Artes. Sua contribuição é rica, de maneira que muitos de seus apontamentos ampliam as discussões relativas ao ensino de Arte e embasam documentos curriculares referentes a essa área do conhecimento.
Artista plástica, ilustradora e educadora brasileira, Edith Derdyk (2014; 2015) tem se dedicado aos estudos dos processos de criação nas poéticas visuais, em especial, assumindo o desenho como linguagem criativa e poética, ato simultaneamente perceptivo e cognitivo que não se reduz às habilidades manuais, artesanais, materialmente visíveis, mas é sobretudo construção do pensamento que nos oferece um repertório amplo de possibilidades, manifestações e atuações, o que para a autora significa que não está “restrito ou circunscrito apenas dentro do universo gráfico” (DERDYK, 2014, p. 129).
Ainda, segundo a autora, é preciso refletir acerca dos modos de aquisição da linguagem do desenho desde os primórdios da infância com vista a estabelecer uma parceria real entre o desenho e as crianças, considerando sua natureza viva, fugaz e fluída (DERDYK, 2014). Para ela:
O ato de desenhar impulsiona outras manifestações, que acontecem juntas, numa unidade indissolúvel, possibilitando uma grande caminhada pelo quintal do imaginário.
O desenho como linguagem para a arte, para a ciência e para a técnica é um instrumento de conhecimento, com grande capacidade de abrangência como meio de comunicação e de expressão. As manifestações gráficas não se restringem somente ao uso do lápis e papel. O desenho, como índice humano, pode manifestar-se não só através de marcas gráficas depositadas no papel (ponto, linha, textura, mancha), mas também por meio de sinais como um risco no muro, uma impressão digital, a impressão da mão numa superfície mineral, a famosa pegada do homem na Lua etc. (DERDYK, 2013a, p. 32-34).
Em suas obras Formas de pensar o desenho: desenvolvimento do grafismo infantil e O desenho da figura humana, Derdyk apresenta reflexões referentes aos aspectos formais e expressivos da linguagem gráfica das crianças, contribuindo no campo da estética para o olhar sobre a plasticidade infantil.
Pensar o desenho como criação e, ao mesmo tempo, atividade de constituição e expressão de criatividade, implica pensar que como atividade
82 estritamente humana, a criação está presente na vida das crianças desde a mais tenra idade, principalmente em suas brincadeiras, emergindo de suas experiências pessoais e contextos sociais. De uma perspectiva histórico-cultural é possível pensar que toda criação é marcada pela história e pelo meio e, por isso, carrega em si um legado de invenções e criações elaboradas pelo homem ao longo de sua existência.
Para Vigotski (2009b, p. 15) a criação se manifesta em todos os aspectos da vida social e cultural, logo, não é privilégio de pessoas especiais, grandes cientistas e artistas famosos, mas característica de todo ser humano que “imagina, combina, modifica e cria algo novo, mesmo que esse novo se pareça um grãozinho, se comparado às criações dos gênios”, assim, não se limita às reproduções, mas a possibilidade de (re)criar a partir do antigo, algo novo, ou seja, reelaborá-lo por meio da fantasia e da imaginação, atribuindo-lhe nova significação.
Nessa perspectiva, Vigotski (2007; 2009b) enfatiza, ainda, o papel da imitação na atividade criadora, compreendendo-a não como mera repetição/cópia, mas como processo distinto, que, a partir da internalização que implica em uma reconstrução interna de operações externas, a criança, enquanto sujeito ativo, é capaz de desenvolver algo novo. Desse modo, a imitação constitui-se em atividade importante para a aprendizagem, pois oportuniza que pela sua observação e imitação do outro, a criança seja capaz de realizar ações antes não possíveis. A partir disso, o autor questiona: "por acaso é de se duvidar que [...], através da imitação dos adultos e através da instrução recebida de como agir, a criança desenvolve um repositório completo de habilidades?" (VIGOTSKI, 2007, p. 94-95).
A imaginação é a base de toda atividade criadora, construída socialmente e presente no desenvolvimento à medida em que a criança experimenta atividades criativas, está relacionada às riquezas de experiências vividas pelos sujeitos. Segundo Vigotski, a diversidade e a riqueza de experiências ampliam as possibilidades imaginativas das crianças, o que implica ressaltar a importância e necessidade de práticas pedagógicas que ampliem as experiências, planejando, viabilizando e oportunizando, de maneira mais efetiva, “bases sólidas para a sua atividade de criação” (2009b, p. 23).
Assim, o que enriquece a criança em sua capacidade criativa e seu desenvolvimento mental não é o produto de sua criação, mas o seu processo
83 criador, ou seja, seu envolvimento na atividade, as possibilidades propiciadas pelo meio para que possa tomar decisões, fazer escolhas, experimentar invenções e interações com instrumentos e práticas já disponíveis. As interações sociais e possibilidades de exploração são, portanto, fundamentais para o desenvolvimento criativo, de modo que estas podem enriquecer ou empobrecer suas possibilidades criativas e imaginativas.
3.2 O PAPEL DA MEDIAÇÃO NO DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM DA