CAPÍTULO 2: EM CENA, O CORPO
2.5 DISCURSOS SOBRE O CORPO E AS SUAS PERSPECTIVAS
2.5.2 O discurso da sociedade versus o discurso da mulher
É pertinente salientar que “o entremeamento das noções de saúde e estética pode ser localizado já na antiguidade clássica”, como observa Castro (2007, p. 67), a
partir do pensamento de Hipócrates, em sua obra O Corpo Hipocrático. Entretanto, como já foi discutido anteriormente, a ideia de “corpo magro, corpo saudável” permeia o discurso da sociedade ocidental com maior ênfase desde o início do século XX.
Como discutimos anteriormente, a prática de associar o baixo teor de gordura corporal à saúde, instituída principalmente pelos higienistas e originária prioritariamente dos grandes centros europeus, ganhou força no Brasil com o auxílio dos meios de comunicação e da publicidade. Esse modelo ideal perpetua até os dias atuais e conta com o respaldo dos profissionais que fazem a mediação entre ciência e cultura de massa e transformam a linguagem médica em algo acessível à compreensão geral.
Em pesquisa realizada a partir da análise de revistas especializadas no tema saúde e beleza e voltadas para o público feminino (Corpo a Corpo e Boa Forma), além de depoimentos de frequentadores de academias de ginástica, Castro (2007) aponta que, no meio analisado, não se fala sobre estética sem associá-la à ideia de saúde. Estando, por sua vez, a preservação desse conjunto (corpo bonito e saudável), intimamente associada a uma rotina de exercícios físicos. Como discorre Castro aqui: “A prática de atividade física, prazerosa, converte-se, em alguns momentos, em obrigação quase religiosa, gerando sentimento de culpa, pela impossibilidade de realizá-la (p. 76)”.
O estudo aponta ainda que as pessoas são induzidas pela mídia, pelas dicas dos profissionais (‘experts’) e por manuais de autoajuda, a crer que “as imperfeições e defeitos corporais” são resultantes de negligência e falta de cuidados consigo mesmas. Também é propagada a ideia de que, “com disciplina e boa vontade”, qualquer pessoa é capaz de conseguir se adequar aos padrões estéticos estabelecidos. “Àqueles que
não o alcançam é reservada a estigmatização, o desprezo e a falta de oportunidades”
(CASTRO, 2007, p. 76).
É pertinente a analogia entre ‘o culto à magreza’ e uma das perspectivas analíticas da produção sociológica sobre o consumo apresentada na obra de Castro (2007, p. 85), a qual preconiza que o fato de possuir bens concede prestígio social ao indivíduo, gerando, por esse motivo, satisfação pessoal. Dessa forma, ressalta a autora, “as pessoas usam as mercadorias para criar vínculos ou para estabelecer distinções sociais, demarcando grupos e estilos de vida.”
Ainda com base no estudo de Castro (2007, p. 86) e em suas reflexões a respeito do culto ao corpo a partir das teorias de George Simmel, formuladas em torno das clássicas pesquisas deste autor sobre a moda, a autora observa:
Por ser moda, o culto ao corpo é aceito socialmente, aliviando os indivíduos de uma autocrítica exacerbada por se submeterem a sofrimentos físicos em nome da manutenção de um padrão estético. O culto ao corpo garantiria aos indivíduos o sentimento de pertencimento a um grupo social, identificando-os com os frequentadores da academia no que diz respeito à preocupação com a manutenção da boa forma.
Para Simmel (2008), a moda representa tanto um mecanismo de inclusão quanto de distinção social, à medida que, ao acompanhar as tendências do momento, o indivíduo passa a fazer parte de um certo grupo seleto e distinto dos demais. Os que deste não fazem parte e tornam-se, assim, excluídos. Surge daí a ideia de que a moda pode ser tratada como um mecanismo de individualização/particularização, ao promover uma distinção social propiciada pelo consumo e pelo alto poder aquisitivo.
Nas palavras de Simmel (2008, p. 24):
[...] a moda nada mais é do que uma forma particular entre muitas formas de vida, graças à qual a tendência para a igualização social se une à tendência para a diferença e a diversidade individuais num agir unitário.
Assim, ao dialogarmos com o pensamento simmeliano sobre a moda, podemos pensar que, da mesma forma, a magreza, ao mesmo tempo em que representa um fator de distinção social, ao colocar a mulher com aparência longilínea e saudável em uma posição diferenciada e de destaque entre as demais (‘não magras’), por outro lado, concede a esta mesma mulher a sensação de pertencimento a um grupo seleto de indivíduos dentro de uma sociedade. Estes se consideram, portanto, superiores aos que estão de fora do contexto no qual estão inseridos. Castro (2007, p. 79) reforça essa ideia:
Não descuidar da aparência constitui-se num importante item para boa aceitação social e, neste sentido, cuidar do corpo torna-se uma forma de coerção, de reforçar laços de pertencimento a um grupo.
Especificamente discutindo o segmento que envolve a moda, porém atrelado à lógica midiática, é possível verificar que esta não muda só o seu produto final, a roupa. A moda muda os padrões de corpo. Na década de 1970, Sônia Braga apresentou ao Brasil o padrão “Gabriela”, personagem de Jorge Amado, que se tornou uma novela da TV Globo. Era uma mulher bronzeada, curvilínea e corpulenta.
Na década seguinte, musas como Xuxa e Luiza Brunet alteraram este padrão para mulheres mais magras e altas. E quando se achava que as mulheres magras
dominariam o espaço, a chegada do movimento da Axé Music, nos anos 1990, trouxe à tona a mulher ‘boazuda’. Foi a vez do padrão Carla Perez (dançarina do grupo baiano É o Tchan), uma mulher cheia de curvas generosas. Uma resposta às passarelas? Talvez. Atualmente, esse padrão se apresenta ainda mais multifacetado e tem-se pelo menos três aspirações muito desejadas: o padrão da miss, o padrão da modelo, e o padrão cheio de curvas da Valesca Popozuda – todos sendo amplamente copiados.
É nesse tom de imposição que a indústria da beleza, da saúde e da boa forma oferece constantemente soluções para satisfazer as necessidades que a mídia cria e repassa para a mulher: o ideal do corpo perfeito, um movimento intenso e que muitas vezes é chamado de ditadura da beleza.
Dentro da perspectiva que associa a magreza dos corpos à saúde, que se constitui em um discurso predominante na sociedade ocidental, voltamos nosso olhar para a pesquisa de Flores-Pereira (2007), em sua abordagem sobre “o corpo como artefato hierarquizado”. A autora dialoga com pesquisadores das Ciências Humanas e
Sociais28 que desenvolveram estudos sobre o corpo tendo como referencial teórico os
preceitos da Antropologia Estrutural e seus processos socioculturais de classificação,
preocupação principal da obra clássica de Émile Durkheim e Marcel Mauss – Algumas
formas primitivas de classificação, publicada em 1903.
Flores-Pereira (2007, p. 60) enfatiza que a intenção dessa corrente de estudos do corpo, a qual ela chama de ‘corpo artefato hierarquizado’, é identificar de que maneiras o corpo humano é utilizado como “um dispositivo” de classificação e hierarquização. Os estudiosos que analisaram o corpo como objeto de estudo, com base nessa perspectiva, creram que este deve ser entendido como um artefato, para o qual atribuem “uma ordem hierárquica social”. Daí surgem como temas de pesquisas categorias como ‘cor de pele’, ‘sexo’, ‘gênero’ e ‘inscrições estéticas’.
Podendo ser inserida, nesta última, a temática do ‘volume corporal’:
A ideia é a de que o corpo emite símbolos – através de sua cor, seu sexo, seu gênero, seus ornamentos, seu volume, etc. – que permitem a rápida classificação em relação ao grupo social ao qual o corpo pertence (FLORES PEREIRA, 2007, p. 60)
28 Scheper-Hughes e Lock, (1987); Schiebinger, (1987); Fischler, (1995); Bourdieu, (1999); Sant'anna,
(2001); Farias, (2002); Fry, (2002); Goldenberg e Ramos, (2002). Disponíveis nas referências bibliográficas desta pesquisa.
A autora discorre ainda acerca da “cobrança social pela magreza dos corpos” (PEREIRA FLORES, 2007, p. 64), também presente no estudo de Sant'Anna (2001), que deu origem ao livro Corpos de passagem, publicado em 2001. A obra aponta que a busca constante pelo corpo magro é decorrente da necessidade de velocidade, agilidade e eficácia no desempenho das atividades do mundo contemporâneo, para corresponder às exigências do mercado por mais produtividade.
Assim, o cumprimento eficiente das obrigações seria impossibilitado pela presença de qualquer carga extra de peso corporal. Prevalece, portanto, o privilégio de uns, em detrimento de outros.
A demanda contemporânea por rapidez, desse modo, tem efeitos diretos nos corpos dos atores sociais, pois à medida que associa simbolicamente o corpo gordo à lentidão e o magro à velocidade, cria uma hierarquização na qual os gordos são excluídos e os magros enaltecidos (FLORES PEREIRA, 2007, p. 64).
Na visão de Novaes (2011, p. 477), essa luta constante contra os efeitos do tempo e a busca incessante pela aparência física perfeita vão de encontro à própria natureza humana, cujo ciclo natural envolve nascer, envelhecer e morrer. “Mulher e beleza são historicamente associadas [...], e a feiura, hoje intimamente ligada à gordura e ao envelhecimento, é a maior forma de exclusão socialmente validada”.
Com o advento da internet e a consolidação das redes sociais como um dos canais de comunicação predominantes no mundo ocidental, os discursos sobre o modelo de corpo ideal, mais especificamente sobre o corpo feminino perfeito, ganharam uma visibilidade ainda maior. Além da mídia, os próprios usuários assumiram o papel de produtores e propagadores de conteúdo, aumentando assim o alcance das informações sobre este e qualquer outro tema em questão.
O que vemos atualmente é uma enxurrada de informações referentes à saúde, à boa alimentação e à forma física ideal. Partindo de todos os lados e com alcance imensurável, os conceitos sobre aparência que estão na moda penetram na mentalidade dos indivíduos, se consolidando como ideais intrínsecos. Assim, é impossível não pensar que o discurso da mulher, de um modo geral, se apresenta completamente atrelado aos ditames da mídia, da medicina, da estética, das academias, bem como ao que diz e pensa a sociedade em geral.
É como se o corpo se tornasse, para as mulheres, o centro das atenções e preocupações, apesar das outras inúmeras atribuições da vida cotidiana. O papel
feminino é, portanto, direcionado para um novo foco, que consiste em manter uma preocupação e um cuidado permanentes com a aparência exterior, para, de fato, pertencer verdadeiramente à sociedade da qual faz parte. Como enfatiza Novaes (2011, p. 489):
Além de tornar o corpo objeto de consumo e vitrine de seus méritos, a mulher passou a privilegia-lo na construção de sua própria identidade: tudo o que eu sou é o meu corpo, está sobre ele, digo com ele.
O corpo, dessa maneira, foi sendo estabelecido por meio de padrões, onde o conceito de beleza exerce um aspecto de grande relevância, chegando a limites ditatoriais de entendimento e prática.