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Ao longo do século XIX, a adoção da racionalidade liberal pelo Estado deixou ao mercado a responsabilidade maior pela organização da economia, se comprometendo apenas com a questão de segurança pública. Além disso, o liberalismo como política organizacional significou a construção de um Estado em que o poder se fazia função do consenso, e em que a divisão de poderes se tornava princípio obrigatório; o direito prevalecia em seu sentido formal e a ética social repudiava as intervenções governamentais (SALDANHA, 1976, p. 51- 53). O Estado liberal assumiu essencialmente características de abstenção: não atuar na ordem econômica nem afrontar os direitos e as liberdades individuais (NOVAIS, 1987, p. 73).

Coube ao Estado mínimo a missão de não intervir, a fim de possibilitar a concretização dos anseios liberais, sob os dogmas do livre mercado e da livre iniciativa. A realização dos direitos fundamentais (em especial à vida, à liberdade e à propriedade) não pressupõe a existência de prestações estaduais, mas apenas a garantia das condições que permitam o livre encontro das autonomias individuais (NOVAIS, 1987, p. 73). Referidos direitos ganham o caráter de direitos dos indivíduos contra o Estado, ou seja, são reconduzíveis a uma esfera livre da intervenção estatal onde se prosseguem fins estrictamente individuais (NOVAIS, 1987, p. 74).

Os dogmas adotados no liberalismo – não intervencionismo e importância dos direitos de primeira dimensão, em especial os direitos de liberdade e propriedade, com sua máxima no laissez faire, laissez passer, le monde va de lui-même, fez com que as contradições sociais se evidenciassem e agravassem cada vez mais o quadro de diferenças existentes no século XIX, o que levou o referido sistema à sua crise, conforme destaca Bonavides (2001).

Esta crise, associada às graves consequências da Segunda Guerra Mundial, evidenciou a necessidade de um Estado centralizador e interventor para conter a estipulação unilateral, pelos detentores dos meios de produção, das regras referentes à classe trabalhadora, relegada à sua própria sorte, levando à ruína deste modelo de estado, conforme diz Bazilli e Montenegro (2003),

O Estado liberal, no qual não se falava de iniciativa estatal, salvo a relacionada exclusivamente com a manutenção de ordem e segurança, cede lugar ao Estado intervencionista; o movimento liberal, que teve em Adam Smith a sua grande expressão, não resiste às conseqüências da Revolução Industrial; e a experiência da Primeira Grande Guerra Mundial e a Revolução Russa de 1917 determinaram profundas modificações no Estado ocidental que abandona a sua postura de mero guardião da ordem e da segurança e transforma-se em inspirador e realizador do bem-estar social (BAZILLI; MONTENEGRO, 2003, p. 12).

Neste contexto, Sparapani (2012) afirma que ao adotar a ordem jurídica do Estado do bem-estar o enfoque central deixou de ser a liberdade e passou a ser a igualdade. Considerada um direito fundamental, a igualdade tornou-se uma espécie de “centro medular” deste modelo organizacional, que tem como escopo prover as necessidades básicas da população que estava à margem dos benefícios sociais (tais como saúde, educação, previdência, proteção contra o desemprego, moradia etc. (SPARAPANI, 2012).

A adoção do estado do bem estar social possui a intenção de intervir não só no âmbito econômico, mas aspira à justiça social, buscando instituir a era do Estado produtor, repartidor, distribuidor e distributivo, que não deixa à sorte dos indivíduos a sua situação social, mas vem auxiliá-los através de medidas positivas e de garantias efetivas (TORRES, 2001, p. 51).

Neste contexto, é correto afirmar que

O Estado social, por sua própria natureza, é um Estado [...] que requer sempre a presença militante do poder político nas esferas sociais, onde cresceu a dependência do indivíduo, pela impossibilidade em que se acha, perante fatores alheios à sua vontade, de prover certas necessidades existenciais mínimas (BONAVIDES, 2001, p. 200).

No Brasil, este Estado emergiu após 1988, com a promulgação da Constituição Federal, que determinou a instituição de um Estado Democrático

[...] destinado à assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem

preconceitos, fundadas na harmonia social e comprometida na ordem interna e internacional (Preâmbulo da CF/88).

Neste contexto, a Constituição Federal de 1988, tendo como norma de base o respeito pela dignidade da pessoa humana, consagrada como direito universal, oponível ao Estado autoritário e de aplicação imediata dos direitos fundamentais e suas garantias, que compreendem os direitos individuais, os direitos coletivos, os direitos sociais e os direitos políticos (CARVALHO, 1992).

Como se observa, o sistema de direitos fundamentais do Estado Constitucional engloba direitos sociais, que para Netto (2015),

[...] não são elementos acidentais na construção da identidade estatal, ao revés, conferem-lhes os contornos de um Estado que, num quadro de juridicidade e democracia, persegue também a sociabilidade. O reconhecimento dos direitos sociais traduz a consagração juspositiva da solidariedade, da justiça social, da igualdade de fato e da complementariedade entre liberdades individuais e suas condições sociais (NETTO, 2015, p. 136).

Os direitos sociais visam a melhoria das condições de existência, através de prestações positivas do Estado, que deverá assegurar a criação de serviços que garantam a efetividade dos mesmos, enumerados no artigo 6º da Constituição Federal de 1988: saúde, educação, trabalho, lazer, segurança, previdência social, proteção à maternidade e à infância e assistência aos desamparados. Neste sentido, Carvalho (1992, p.105) afirma que o conteúdo dos direitos sociais consiste em „um fazer‟, „um contribuir‟, „um ajudar‟, por parte dos órgãos estatais.

Diante disto, Netto (2015) defende que o primeiro dever estatal perante os direitos sociais está na interposição legislativa, que configuram as políticas públicas necessárias para a sua efetivação, colocando as balizas para sua aplicação, quer pela Administração Pública, quer pelo Poder Judiciário. Neste sentido, a autora ressalta a imposição dirigida ao legislador no que tange à concretização dos direitos sociais, afirmando que a liberdade deste perpassa apenas quanto ao meio e ao momento de sua concretização. Porém, ressalta que nenhuma delas é absoluta. Com relação ao meio, pontua que a liberdade para o legislador no desenho das políticas públicas de concretização destes direitos exige que este seja idôneo para garantir

eficácia aos direitos sociais, sob pena de configurar déficit de proteção. Com relação ao momento, explicita que promulgada a Constituição (1988), impõe-se a sua concretização, não havendo margem de livre conformação do legislador na verificação do “política e economicamente oportuno” e na escolha de prioridades estatais, sob pena de gerar uma situação de inconstitucionalidade por omissão.

Fica evidente que a efetivação dos direitos sociais possui relações intrínsecas com a configuração e implementação de políticas públicas. Dado isso, buscou-se aproximar análises que permitiram entender a infância brasileira na conjuntura das políticas públicas de educação.