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2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.2 COMPROMETIMENTO ORGANIZACIONAL: QUESTÕES QUE CERCAM O

2.2.3 O Estudo do Modelo Tridimensional em Diferentes Culturas

Em uma revisão feita sobre os resultados de pesquisa a respeito da utilização do modelo tridimensional, Meyer e Allen (1996) identificaram que muitos estudos são conduzidos na América do Norte (MCGEE & FORD, 1987; VANDENBERGHE e SELF, 1993; MEYER et al. ,1993; COHEN, 1993; DUNHAM et al., 1994; HACKETT et al., 1994). A partir dessa publicação, notam-se esforços no sentido de examinar o modelo em outras culturas.

Vandenberghe (1996) avaliou o modelo tridimensional de Comprometimento Organizacional na Bélgica utilizando a escala do construto traduzida para a língua inglesa. O autor identificou bom ajuste dos dados para a estrutura fatorial testada e ofereceu suporte para o modelo na cultura ocidental fora da América do Norte.

Um estudo conduzido por Ko, Price e Mueller (1997), em uma cultura não ocidental, avaliou a validade do construto na medida dos três componentes – Afetivo, Normativo e de Continuação - usando como amostra empregados da Coréia do Sul. A análise fatorial confirmatória revelou que um modelo enviesado de três fatores forneceu melhor ajuste para os dados do que o modelo tridimensional. No entanto, o nível em que o modelo se ajusta aos dados não se compara favoravelmente aos estudos anteriores feitos na América do Norte. Os autores observaram que essa diferença provavelmente está mais relacionada aos problemas com a medida do Comprometimento de Continuação. A versão coreana dessa dimensão do construto não atingiu nível aceitável de consistência interna. O Alpha de Cronbach foi respectivamente 0.58 e 0.64 para as duas amostras do estudo. Além disso, a análise fatorial confirmatória também revelou que alguns itens da medida na Coréia não se ajustaram da mesma forma como ocorreu na pesquisa conduzida na América do Norte. Em função desses resultados, Ko et al. (1997) questionaram a generalidade do modelo de Meyer e Allen para culturas não ocidentais.

Wasti (2000) mediu o Comprometimento nas dimensões Afetiva, Normativa e de Continuação, na Turkia, utilizando escalas com itens traduzidos a partir da escala original e incluiu itens mais específicos para o contexto desse país. Essas escalas indicaram fidedignidade e os resultados das análises confirmatórias atestaram a estrutura fatorial do modelo tridimensional.

Em 2003, Wasti mostrou que valores culturais medidos no nível individual, isto é, refletindo a internalização de valores individualistas, relacionam-se diferentemente para o Comprometimento nas dimensões Afetiva e Normativa. A autora verificou que a internalização desses valores por parte de indivíduos de uma cultura coletivista enfraqueceu a relação entre Comprometimento Normativo e intenção de rotatividade, mas não intermediaram a relação com o Afetivo.

O estudo de Clugston et al. (2000) sobre valores de distância de poder internalizados prediz a dimensão Normativa para o supervisor e o grupo de trabalho, mas não prediz o Comprometimento Afetivo em relação a esse foco.

Lee, Allen e Meyer (2001) afirmam que problemas de mensuração na pesquisa de cruzamento cultural pode incluir aspectos diferentes e citam, como exemplo, a não equivalência de dois itens que podem estar supostamente escritos de forma idêntica em diferentes línguas, no entanto podem envolver distorções na tradução ou uma tradução inapropriada, mesmo quando se procede cuidadosamente no processo de tradução. Para os autores, há a possibilidade de alguns itens não terem a mesma conotação. Além disso, a não equivalência pode também ocorrer devido a menor relevância de alguns itens em uma cultura e não em outra.

Múltiplas bases do comprometimento têm sido investigadas por autores brasileiros, mas a pesquisa unidimensional, concentrada na perspectiva afetiva, ainda é predominante, representando 50% dos trabalhos relatados, conforme mostra Medeiros et al. (2003). Os autores identificaram, no período de 1993 a 2001 em publicações da ANPAD, 14 trabalhos científicos foram desenvolvidos com base no componente Afetivo, 7 exploraram os três enfoques – Afetivo, Normativo e de Continuação -, e 3 os enfoque Afetivo e Comportamental.

O destaque ao modelo tridimensional pode ser observado nos últimos anos, tendo como referência, também, os anais e publicações da ANPAD de 2002 até 2009. O levantamento aponta que 28 trabalhos exploraram as questões e adaptações desse modelo e foi o foco de interesse de pesquisadores no Brasil. Em seguida, mas em um número bem menor (6), estão os trabalhos que abordam as bases Afetiva, Normativa, Instrumental e Afiliativa; posteriormente estão as investigações que tratam das bases Afetiva e instrumental (5); e, ainda, trabalhos com foco apenas na dimensão Afetiva (4). O detalhamento dessa informação, por ano de publicação, pode ser observado no Quadro 3, a seguir.

Bases do Comprometimento 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 Total Afetiva - 1 - 2 1 - - - 4 Afetiva, Normativa e Continuação 2 4 2 2 2 4 5 7 28 Afetivo, Normativo e Comportamental - - - - Afetivo e Comportamental - - - - Afetivo e Oportunidade - - - - Afetivo, Normativo, Instumental e Afiliativo - 1 1 1 1 - - 2 6 Afetivo e instrumental - - - 1 - 1 1 2 5

Quadro 3. Evolução do estudo das bases do Comprometimento Fonte: Anais do ENANPAD.

Observa-se que o interesse pelo modelo unidimensional, focando a dimensão afetiva do construto, recebeu menos atenção em função da análise que têm sido feito em torno dos aspectos de adequação das bases Normativa e de Continuação, enquanto elementos constituintes do conceito de comprometimento. Os trabalhos que analisam a proposta de Meyer e Allen (1991,1997) se concentram no anos de 2007 a 2009 (16 estudos e publicações).

Esse dado mostra que o interesse pelo modelo tridimensional, no Brasil, aumentou consideravelmente nos últimos anos e vários questionamentos tem contribuído para aprimorar o estudo sobre o construto Comprometimento Organizacional e, ao mesmo tempo, apontar sugestões para nova agenda de pesquisa.

No contexto brasileiro, tanto o instrumento utilizado para medir o Comprometimento numa perspectiva unidimensional (OCQ) quanto o modelo tridimensional de Meyer e Allen (1991) já foram validados, mas algumas críticas têm sido realizadas, ao mesmo tempo em que se identificam novas tentativas de construção de instrumentos.

Um estudo conduzido, por Medeiros e Enders (1998), em empresas do Rio Grande do Norte identificou a dificuldade de equivalência do conteúdo em alguns itens propostos por Meyer e Allen (1991) para o modelo tridimensional do Comprometimento. Os autores citam, como exemplo, a ênfase no aspecto afetivo existente no item ‘esta organização merece minha lealdade’ para a realidade brasileira. Segundo eles, a palavra loyalty não possui na língua inglesa a mesma interpretação sentimental que tem na língua portuguesa. Apesar

desse item ser um dos que compõem a escala normativa de Meyer e Allen (1991), adequou-se melhor na dimensão Afetiva para esta validação feita para o modelo.

Outro exemplo dado por Medeiros e Enders (1998) foi um dos itens de Comprometimento instrumental presente na escala de Meyer e Allen (1991), ‘Na situação atual, ficar com minha organização é na realidade uma necessidade tanto quanto um desejo’, os autores comenta que a expressão final ‘tanto quanto um desejo’ provoca um efeito moderador à primeira afirmação ‘é na realidade uma necessidade’, tornando esse item um dos componentes mistos das dimensões Afetiva e de Continuação. Os autores concluem que esse item fez parte da dimensão Afetiva para a população estudada naquela pesquisa feita em 1998.

O modelo tridimensional foi validado no Brasil por Medeiros e Enders (1998) e por Medeiros, Bandeira, Marques e Veiga (1999). Os valores de alpha de Cronbach encontrados nas duas pesquisas foram 0,68 para o Afetivo; 0,70 e 0,73 para a dimensão Normativa e 0,61 e 0,62 para o fator de Continuação. Os estudos apresentaram índices moderados de consistência interna para os três componentes do construto e baixo percentual de variação total explicada, denotando a existência de indicadores pouco adequados dentro do instrumento.

A terceira validação foi realizada por Bastos et al. (2008a). O aprimoramento da medida do modelo proposto por Meyer e Allen (1997) ocorreu através de uma escala elaborada a partir da revisão dos instrumentos previamente validados no Brasil e no exterior, composta por 42 itens e aplicada a uma amostra de 691 trabalhadores. Os resultados indicaram, efetivamente, um aprimoramento da medida do construto, alphas de Cronbach 0,88 para a base Afetiva, 0,80 para a de Continuação e 0,76 para a Normativa.

Uma lacuna citada, na pesquisa de Comprometimento, por Meyer e Allen (1997) é a de que poucas pesquisas têm sido conduzidas para avaliar quais benefícios são vivenciados pelos empregados aos demonstrar esse vínculo - Comprometimento. Conforme levantamento feito por Medeiros et al. (2003) acerca da produção científica sobre o construto no Brasil, nenhuma pesquisa relatou algo consistente a esse respeito. Os autores apontam também a necessidade de investigar, no país, modelos mais complexos que englobem variáveis organizacionais e desempenho e que explorem relações de causa e efeito, identificando os impactos para os resultados organizacionais.