A «IDENTIDADE ADOLESCENTE» NO ROMANCE JUVENIL CONTEMPORÂNEO PORTUGUÊS E ALEMÃO
1. Conteúdo pessoal capacidades psíquicas
3.2 A «identidade adolescente» no romance juvenil português
3.2.5 O eu adolescente e as suas convicções abstratas
Os conteúdos da categoria “convicções abstratas” (religião, convicções filosóficas, convicções políticas, posições científicas), como elementos que intervêm ativamente na construção identitária do indivíduo jovem, apresentam-se, ao nível do texto narrativo, como importantes marcas da identidade do/da protagonista, embora não tenham relevância igual em todos os romances selecionados. Assim, numa obra será, por exemplo, a própria visão da vida e do mundo assumida pela personagem central que mais sobressai, noutra a religião por ela professada, noutra as suas convicções ideológicas e/ou políticas, havendo outras em que este aspeto está muito esbatido, ou é mesmo inexistente.
Assim, no romance Rafa e as Férias de Verão as convicções abstratas do protagonista não têm grande significado, sendo apenas de realçar a sua visão do mundo social à sua volta, que divide em dois grandes grupos, o feminino e o masculino, cada um com os seus códigos próprios. Por essa razão, admite que lhe é, muitas vezes, difícil compreender os comportamentos das raparigas e das mulheres e saber como reagir perante elas, o que o leva a confessar: “É bom ser rapaz. Não é preciso que ninguém nos acompanhe. Depois de as [as irmãs] deixar em casa, fui ao bar ter com a malta. Só homens no nosso grupo. Ou melhor, só rapazes. O mais velho tem 17 anos. Os rapazes quando não têm nenhuma miúda ao pé ficam diferentes” (Pombo, 2008: 66).
Este herói revela igualmente ter algumas preocupações ambientais, que manifesta ao referir-se, com agrado, ao facto de Pilar, no dia em que ambos foram à praia, ter guardado na mochila os desperdícios do picnic. Também ele iria ter os mesmos cuidados, pois não queria que a rapariga pensasse que ele era um troglodita, que não se preocupava com o ambiente. (Pombo, 2008: 103).
No que respeita às convicções abstratas de Jasmim, a heroína de Baunilha e Chocolate, conclui-se que as mesmas adquirem importância no contexto da história narrada, apenas na medida em que apontam para uma visão do mundo, a preto e branco, como o próprio título
167 da obra indicia. Esta sua forma de perspetivar o mundo, contribui, de facto, para que a jovem negra se sinta, inicialmente, deslocada no ambiente de uma escola onde, tudo leva a crer, os outros – colegas, professores e empregados – são maioritariamente (ou mesmo todos) brancos. Sobre a sua incapacidade de adaptação a este mundo de brancos, Jasmim escreve no diário:
S’tores, não se cansem com esta miúda negra que vem para a escola nuns ridículos sapatos de verniz e num acanhado vestido branco, porque esta miúda hoje aprendeu tudo ou quase tudo o que há de importante para aprender na Escola e na Vida, ou seja, que as raparigas ricas e bem-falantes, e bonitas, se podem dar ao luxo de ter adolescência e fazer algumas asneiras, mas as pobres e feias, como eu, para se defenderem devem crescer depressa. E sair da Escola ainda mais depressa. (Meireles, 2001: 21)
Além disso, há aqui expressa a ideia de uma inevitabilidade, no sentido de que os negros têm que ser pobres e feios em contraste com os brancos, ricos, bonitos, bem-falantes e de que nada pode alterar a situação. No entanto, a posição da heroína ir-se-á alterando ao longo da narrativa, e ela acabará por descobrir que não têm, necessariamente, que existir barreiras entre as duas raças, que lhe é permitido ter os mesmos sonhos e sucessos que as raparigas brancas, que é possível a amizade e o amor entre indivíduos de raças diferentes.
Por sua vez, no romance adolescente Para Maiores de Dezasseis Anos não é muito nítida a presença de conteúdos que se possam associar às convicções abstratas de Dulce, a protagonista. Com efeito, a imagem que nos é dada ao longo da obra, apresenta-a como uma adolescente de quase dezasseis anos que, como todas as raparigas da sua idade, “gosta muito de ler, de ir ao cinema e à discoteca, gosta de comprar roupa, anda sempre de jeans” (Saldanha, 2009: 16,17). Além disso, sabe-se ainda que a jovem estava a dar os primeiros passos no caminho da procura de uma identidade própria, depois de uma infância e entrada na adolescência marcadas pela ausência de um pai mulherengo e pelos cuidados excessivos da mãe e da avó e, sobretudo, pela sua condição de menina gorda, frequentemente rejeitada e ridicularizada pelos seus pares.
No entanto, a sua pretensão em assumir uma maturidade que não tinha, para agradar a um individuo mais velho, levou-a a criar uma identidade falsa – virtual e, posteriormente, real – e a adotar comportamentos que considerava serem próprios das mulheres mais velhas e mais experientes.
168 Conclui-se, assim, que o processo de desenvolvimento adolescente desta heroína, ainda numa fase titubeante do seu percurso, é bruscamente intercetado pela intromissão de um individuo adulto que se aproveita da sua condição de jovem ingénua, um tanto fútil e sem convicções bem definidas quanto a aspetos importantes da vida, para fazer dela sua presa fácil.
No que respeita à obraAmor de Miraflores, nada se sabe sobre as convicções abstratas do jovem Amor, uma vez que é o narrador que, num tempo ulterior à história narrada, a relata, expressando as suas opiniões sobre a mesma e procurando tirar dela ilações éticas e morais. Neste sentido, são as subjetividades do narrador adulto, que permeiam toda a narrativa, patentes na forma como avalia o espaço onde viveu na infância e nos primeiros anos da sua adolescência, as gentes que o habitaram durante esse período de tempo e, sobretudo, os comportamentos e atos do protagonista, que reprova vivamente.
Esta reprovação surge como um aviso dirigido ao narratário, e através deste, aos potenciais leitores jovens, para os perigos de se trilharem incautamente caminhos que os possam conduzir a mundos de perdição, como é o do álcool e da droga. Para o efeito, o narrador recorre, como já foi atrás referido, a determinadas expressões vocativas, mas também a elementos que adquirem um valor simbólico no contexto da história. Um exemplo disso é o carreiro do autocarro 50, que é apresentado como “um caminho tão imprevisível e cheio de armadilhas”, “o caminho de todos os perigos e de todas as aventuras sonhadas”, que o Amor passou a usar todos os dias, como “uma lufada de ar fresco na sua vida inglória de aluno expulso de todos os colégios”. (Borges da Cunha, 2004: 37).
Sobre o carreiro, o narrador informa ainda que ele atravessava a antiga ribeira de Miraflores, mais tarde conhecida por caneiro, devido ao seu estado nauseabundo, pelo que as suas margens “eram áreas interditas”; no entanto, era precisamente aí que “se podia achar o Amor quando andava fugido.” (Borges da Cunha, 2004: 40). O facto de o herói trilhar com frequência estes espaços perigosos e interditos conduzi-lo-á a uma inevitável queda nas águas putrefactas do caneiro, que lhe provocará um mal do qual não mais se conseguirá libertar. O mesmo se verificou com a sua entrada no mundo do álcool e, depois, da droga, pois, a partir do momento em que enveredou por esse caminho, não mais conseguiu forças para retroceder.
169 Quanto às convicções abstratas que se podem imputar à heroína da obra A Lua de Joana, importa referir que elas se manifestam, antes de mais, nas críticas que faz aos seus familiares mais próximos – pais e irmão –, e também a Marta, a amiga que morreu vítima de overdose. Com efeito, ao avaliar negativamente os comportamentos destes, Joana está, simultaneamente, a expressar a sua opinião quanto à forma como esperaria que eles agissem ou tivessem agido em determinados momentos.
No que respeita aos pais, a jovem lamenta a sua falta de disponibilidade para com os filhos: o pai, demasiado ocupado, sem tempo para conhecer os seus problemas, comungar dos seus interesses, estar presente nos seus bons e maus momentos; a mãe, pouco informada e demasiado fútil, sem capacidade para partilhar as suas alegrias e tristezas, para entender os seus modos de agir. Relativamente ao irmão, a heroína revolta-se principalmente contra a sua ignorância, frivolidade, desrespeito pelos outros.
Em oposição a estes três membros da família, surge a figura da avó, carinhosa e compreensiva, mas que morreu antes de poder impedir que o processo de desenvolvimento identitário da jovem adolescente enveredasse pelo mesmo caminho desviante – a droga – que conduzira sua amiga Marta àquele seu fim trágico. De facto, durante algum tempo, a Joana não conseguira entender o que se passara com a amiga, nem mesmo perdoar-lhe, o que nos leva a concluir que teria, nessa altura, uma posição bastante crítica relativamente aos jovens que se deixavam seduzir pelo mundo da droga. No entanto, também ela se deixou levar por esse caminho, razão por coloca, numa das cartas, a seguinte questão: “Que foi que me aconteceu, Marta? Como é que eu vim aqui parar? Será que também fizeste estas mesmas perguntas a ti própria ou nem sequer tiveste tempo para isso? Talvez, por um lado, tenhas tido sorte, aquela maldita overdose evitou que continuasses a sofrer…” (Gonzalez, 2008: 147).
Nos aspetos que podem ser associados às convicções abstratas da heroína são, ainda, de destacar as suas posições ecologistas, que a levam a inscrever-se na Liga de Proteção da Natureza, a pedir à mãe que compre uma árvore de Natal artificial e a decidir tornar-se vegetariana.
Também a religião e a busca de Deus fazem parte das preocupações de Joana, razão por que escreve numa das cartas:
170 Quando cheguei a casa, sentei-me na minha lua a pensar que deve haver muitas formas de as pessoas encontrarem Deus. Eu ainda não descobri nada de especial, se calhar porque sou adolescente, ou então é porque não sei em que é que hei-de acreditar. Continuo a achar que Deus existe, mas o problema é que não consigo vê-Lo em parte nenhuma, por isso é difícil pensar em Deus sem ficar confusa. (Gonzalez, 2008: 91).
Com base no que foi dito se conclui que a jovem heroína, na fase conturbada da sua entrada na adolescência, revela ter já opiniões sérias e fundamentadas sobre determinados comportamentos dos outros, especialmente dos pais e do irmão. Com efeito, para além do que considera serem os deveres dos pais para com os filhos, a jovem crítica também a ignorância e a frivolidade da mãe, a indisponibilidade do pai, a leviandade e irresponsabilidade do irmão, a insensatez dos jovens que, como a Marta, entram, incautos, no mundo da droga. Constata-se, ainda, que, antes de ela própria enveredar por esse caminho trágico, Joana interessava-se por algumas práticas culturais (literatura, música, pintura, teatro, desporto), pela defesa do meio ambiente e por questões de ordem social e que, mais tarde, quando se viu perdida e só, deu por si a questionar-se sobre a existência de Deus, em quem continuava a acreditar, mas que não conseguia ver, nem sequer imaginar. Em suma, trata-se de uma jovem no início da adolescência, a dar os primeiros passos na formulação fundamentada dos seus valores e das suas convicções, quando a sua vida é abruptamente interrompida por algo que sempre reprovara: o consumo da droga.