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O eu que compete

No documento Eneagrama (páginas 179-200)

“Sugiro que cada um faça a si mesmo a pergunta ‘Quem sou eu?’ Estou certo de que 95% de vocês ficarão perturbados... Isso prova que um homem viveu toda a sua vida sem se fazer essa pergunta e consi- dera perfeitamente normal que ele seja ‘algo’, e até mesmo algo muito precioso, algo que jamais pôs em dúvida. Ao mesmo tempo, é incapaz de explicar a outra pessoa o que esse algo é, incapaz de dar a menor ideia desse algo, porque ele próprio não o sabe. E se não sabe, não será simplesmente porque esse algo não existe, mas apenas se supõe existir? Não é estranho que fechem os olhos, com tão tola complacência, ao que realmente são, e passem a vida na agradável convicção de que representam algo precioso? Esquecem de ver o vazio insuportável por trás da soberba fachada criada por seu autoengano e não se dão conta de que essa fachada só tem um valor puramente convencional.”

G. I. Gurdjieff. Em Fragmentos de um ensinamento desconhecido, P. D. Ouspensky lembra que alguém perguntou: “O que é que não compreendemos?” E Gurdjieff respondeu: “Estão de tal modo habituados a mentir, tanto a si mesmos como aos outros, que não encontram nem palavras nem pensamentos, quando querem dizer a verdade. Dizer a verdade sobre si mesmo é muito difícil. Antes de dizê-la, deve-se conhecê-la. Ora, Não sabem nem mesmo em que ela consiste (...).”

“Para compreender a interdependência da verdade e da mentira em sua vida, um homem deve chegar a compreender sua mentira interior, as incessantes mentiras que conta a si mesmo.”

Aparentemente tudo está sempre bem com você, não?

Na sua obra Relatos de Belzebu a seu neto, Gurdjieff faz uma descri- ção muito engraçada dos Estados Unidos (o país mais Tipo 3 do mundo), destacando como, desde a infância, as crianças norte-americanas são programadas para entrar nos dollar business e que quando cada uma delas chega à idade adulta, “o impulso dominante de sua febril existência

é a fúria de fazer dólares e o amor a esses mesmos dólares”, e por isso “cada um deles se ocupa sempre de ‘negócios de dólares’, e de vários ao mesmo tempo”. Ele também nos lembra o arraigado hábito dos

norte-americanos de utilizar a publicidade “com o fim de oferecer da

parte deles, em todo o planeta, uma imagem que em nada corresponde à realidade”, razão pela qual se transformaram, ao longo dos anos, “em seres tão virtuosos na arte da publicidade”, que possuem o poder

de convencer-nos de que “uma mosca é um elefante, e fazem isto tão

frequentemente, que, nos dias de hoje, se a gente encontra um verdadeiro elefante americano, tem que ‘lembrar-se de si mesmo com todo seu ser’ para não ter a impressão de que é uma simples mosca”.

Quem puder refletir sobre as agudas observações que Gurdjieff faz da idiossincrasia, dos hábitos e das condutas aos norte-americanos, terá uma ideia do que constitui o Traço Principal dos Tipos 3.

No Brasil, temos exemplos muito admirados desta “máscara”. Uma delas é a “performática” atriz Cláudia Raia. No seu primeiro número, a revista Mais Vida publicou uma entrevista desta notável artista cuja aber- tura destacava: Ela faz 500 abdominais por dia, não fuma, não bebe, está

amando, é budista e consumista. Por isso Cláudia Arrasa! (Eu imagino

que o Iluminado Buda deve ter pulado de alegria no seu nirvânico estado, após tomar conhecimento desta inédita combinação budista-consumista da sua doutrina de renúncia!) Após descrever todos os “sinais externos” do sucesso da atriz e sua tremenda capacidade de trabalho, o jornalista Marcos de Moura e Souza escreve: Pode impressionar a nós, humanos

comuns, mas o que ela gosta mesmo é disso: agitação, muito trabalho e várias atividades ao mesmo tempo. Workaholic encarnada.

Quase no final do artigo outras “amostras” do Tipo 3 da grande Cláudia: “...os olhos da atriz não deixam de espiar as possibilidades de levar seu trabalho para além das fronteiras... ‘Estamos tentando ir a Portugal... os americanos (de novo os americanos!) também já ficaram muito aguçados com a proposta do show. Estamos estudando...’, des- pista. Os business de Cláudia Raia na época eram administrados pelo pessoal de sua empresa, a Raia Produções Artísticas, que empregava cerca de vinte pessoas sob o comando, é claro, dela própria. ‘Tenho uma veia empresarial muito forte’...” Possuidora de uma forte influência do Ponto 2 do Eneagrama ela atrai naturalmente as pessoas e também o sucesso. Todos os brasileiros, com certeza, esperam que essa sua performática vida de artista nos brinde sempre com ótimos espetáculos.

Outro expoente feminino deste Tipo é Marília Gabriela, jornalista e entrevistadora extraordinária.

Entre os homens Tipos 3 mais populares no Brasil, temos o sem- pre bem-sucedido Sílvio Santos, dono do SBT. Ele é o típico Tipo 3, empreendedor, alegre e seguro de si mesmo, que dirige (quase) todos os programas ao vivo do seu canal! Essa é que é vontade de ser ad- mirado! O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (equilibrado e com uma forte influência do Ponto 4 Eneagramático, aspecto que na sua juventude se refletia no seu interesse pela poesia, como pude constatar numa reportagem da revista Isto É) é outro Tipo 3 que vale a pena analisar. João Dória, do programa Business do qual participei como entrevistado, é outro bem-sucedido Tipo 3 igual ao talk show que dirige. Por último, as conhecidas Exame e VIP são as revistas mais Tipo 3 do Brasil.

Todos os Tipos 3 possuem uma mistura das características observáveis nestes exemplos citados: grande capacidade de trabalho, forte procura do sucesso e de resultados, necessidades muito fortes de comunicação

e extroversão (característica que os torna semelhantes aos Tipos 7 e 8), assim como um notável espírito empreendedor. Então, qual é o problema desta máscara? Por acaso não está tudo bem? Qual é o “calo” no qual se faz necessário “pisar” para que eles se deem conta da importância de seus mundos internos e de seus próprios sentimentos? Sentimentos? O quê?!... Está sentindo algo? Acho que já pisei no seu calo, certo? Sim, o grande problema dos Tipos 3 está muito dentro do coração...

Observando a máscara 3: ou como o aparente sucesso externo produz a falta da felicidade interna

Sim, pode parecer muito forte, porém por trás destas palavras se esconde a chave que permitirá a qualquer Tipo 3 iniciar a observação de si mesmo. Quando os possuidores desta máscara participam dos nossos workshops sobre o Eneagrama, a gente percebe quão ansiosos estão para conhecer-se, quão ansiosos estão para ter uma experiência interior. A falta de atenção aos seus mundos internos os leva a procurar com ansiedade e paixão a resposta a todas as suas “inquietudes espirituais”. Realmente, querem saber mais sobre si, porque sentem que dentro deles mesmos está o que suas atividades externas nunca lhes proporcionarão. Durante o transcurso dos workshops, percebem que gostariam de ter mais tempo para si mesmos, que não são capazes de se abrir emocionalmente com os entes queridos, que não conse- guem desfazer-se de seus papéis de grandes desempenhadores nem quando fazem o amor, e que compulsivamente cobram de seus filhos o sucesso, por que: a) eles o conseguiram e porque inconscientemente não desejam que seus filhos provoquem comentários do tipo: “os filhos de fulana (o) não são bem-sucedidos”; b) ou porque acham que além do “sucesso” não existe outra razão válida pela qual lutar nesta nossa breve existência.

Este temor não apenas tem a ver com o anseio normal que todo pai e mãe têm, mas também esconde uma egoísta necessidade de passar para os outros a imagem de um outro sucesso: “os filhos devem ter suces- so porque eu tive sucesso, devem ser trabalhadores performáticos, estudantes destacados, porque assim conseguirei fazer com que a imagem

que eu criei de mim mesmo tenha continuidade neles”. Sempre lembro aos meus alunos o exemplo do pai Tipo 3, que quando dá um presente ao seu filho, o faz para “compensá-lo” por algum bom desempenho ou sempre aproveita para cobrar-lhe uma atitude ou lembrar-lhe o que dele se espera. Existe o caso do pai que quando dá um carro de presente para seu filho aproveita para dizer que “um carro é uma ferramenta de trabalho indispensável nos nossos dias” e que ele espera que o filho com- preenda “o valor desse presente”, “o difícil que é obter as coisas”, etc., etc. Porém, em nenhum momento conseguiu dizer para seu filho o que estava sentindo, emocionalmente, e que a razão do presente se resumiria apenas nesta simples mas verdadeira frase: “Meu filho, eu te amo.” A vaidade, o grande “pecado” desta máscara, provoca nos Tipos 3 uma incapacidade para perceber o que está por trás das aparências de suas vidas. Algo deve ser alcançado sempre, algo deve ser conquistado, não se pode parar por nenhum motivo, até porque os outros se acostumaram a vê-los sempre ativos e dispostos. Só que, às vezes, se dão conta de que esse “algo” parece não estar “lá fora” e parece “fugir” deles...

Esquecendo as necessidades emocionais e sentindo-se superficial Tudo o que se possa fazer “para fora”, para ser admirado, implica o esquecimento de si mesmo, de suas necessidades emocionais, de suas necessidades de contato mais íntimo e autêntico com os outros e até consigo mesmo. Este esquecimento faz parte do movimento ao Ponto 9 do Eneagrama. Também é típica deste Tipo Eneagramático a dificuldade para meditar, para estar consigo mesmo, para entrar no mundo interno. Certo Tipo 3 me revelava um dia como havia sentido um verdadeiro desassossego e incômodo para meditar durante apenas 20 minutos. Muitos deles percebem que estão “representando um papel” que, ainda que os outros achem bom, faz com que sintam uma espécie de irrealidade ou falta de sentido, que às vezes os deixa com a estranha sensação de estar vivendo “superficialmente”. Vaidade e mentira são os principais “desvios” a serem observados pelos possuidores desta máscara. Apenas

um lembrete para você antes de continuar: a questão de voltar a “ser e sentir verdadeiramente” não deverá ser encarada do mesmo modo com que você encara seus trabalhos, projetos ou negócios. Não precisa ter sucesso imediato, tá? Mais ainda: não precisa fazer esta observação de si para apontar mais um triunfo em suas capacidades de realizar coisas. Para voltar a ser e sentir você precisa ser verdadeiro apenas consigo mesmo e para si mesmo... Isto é muito importante. Pare de enganar-se: esse algo pelo qual você tem feito tantos esforços, está mais perto do que você imagina e supera o valor de todos esses sinais externos de sucesso que você procurou com tantos esforços, tanta competência... e tanto esquecimento de si mesmo e dos que você ama.

A “identificação” e o traço principal: “vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (e a vaidade é mentirosa!)

Com certeza muitos Tipos 3 notarão que nos seguintes depoimentos existe algo de comum com suas próprias lembranças de infância. Um dos nossos discípulos, Sérgio, lembra que: “eu era uma criança que se destacava nos estudos. A família cobrava meu desempenho e me elogia- va pelos meus resultados... buscava sempre as melhores notas, porque queria ser reconhecido como o melhor aluno. Era desinibido e por isso era comum ser um dos escolhidos para participar das festas do colégio, nas apresentações de atividades artísticas, etc.” Coincidentemente, Stela, outra aluna, escreveu: “A recordação que tenho de minha infância é, de um modo geral, de uma época de grande felicidade. Em que se fun- damentava esta felicidade? A vida corria muito harmoniosa, todas as minhas necessidades básicas estavam atendidas, e eu tinha uma enorme expectativa de que tudo seria sempre assim. O que era necessário para que fosse sempre assim? Eu deveria fazer tudo direito, como esperavam de mim, estudando, sendo organizada, procurando ser a melhor em tudo que fazia, visto que desde cedo percebi que vivíamos num mundo em que pessoas estão competindo o tempo todo e que, aquelas que alcançavam sucesso, tinham o afeto, respeito e admiração de todos.”

Após escrever sobre detalhes felizes da sua infância, outra aluna revelou: “Meus pais nunca sentaram comigo para estudar e mesmo assim sempre fui uma boa aluna. Isso dava grande satisfação ao meu pai, que sempre me presenteava, me colocava no seu colo e me dava muito amor...”

Outros autores, baseados nas suas observações, também concordam em destacar que a maior parte dos Tipos 3 teve infâncias nas quais o bom desempenho e os bons resultados obtidos eram o meio pelo qual se conquistava o amor e/ou a atenção positiva das pessoas. Por terem todos influência do Ponto 2 do Eneagrama, essa percepção de receber admiração e atenção “em troca de”, os leva a estar sempre “fora de si mesmos”. A questão de ser para os outros que destaca os Tipos 2 se torna necessária também para este Tipo, só que com uma grande diferença. Ser querido é sentir-se admirado, transformando os relacionamentos em uma troca quase comercial, “eu dou isto, então eu recebo isto”. Quanto mais ações adequadas melhores resultados, quanto melhor desempenho, mais satisfação narcisista. Por outro lado, já que acham que deveriam procurar sempre esses resultados, essas reações positivas dos outros, eles decidem que não podem parar. Será necessário continuar fazendo essas coisas certas que produzem resultados bons e admiráveis. A máscara começa a ser formada e justificada pelo resto da vida.

Aprendendo a mentir e a mentir-se: afinal, “é muito fácil enganar os adultos”

É indubitável que a gente cansa, ninguém é de ferro, certo? Porém os Tipos 3 ficam tão identificados com a necessidade de se mostrarem sempre como os melhores exemplos de bom desempenho que surge a necessidade de “se ocultar” dos outros. Como fazer isto? Muito simples: eles criam uma imagem, uma espécie de ilusão por intermédio da qual parecerão sempre performáticos, bem-sucedidos, prontos e dispostos, cheios de trabalho e dinâmicos. Enfim, aprendem que podem iludir os ou- tros. Só que o preço dessa descoberta é paradoxalmente mentir também

para si mesmo e mentir para si mesmo, como cantava Renato Russo “é sempre a pior mentira”. O grave é que Tipos 3 terminam acreditando na imagem criada. Quando surge essa percepção de que se pode enganar os outros? Todos os Tipos 3 possuem uma versão diferente, porém, escolhi uma muito profunda e verdadeira.

Amanda, revela-nos: “Havia em mim uma enorme curiosidade sobre o mundo dos adultos, ao mesmo tempo em que eu intuía que não era muito difícil agir dentro deste mundo, pois os adultos, diferentemente

das crianças, eram muito fáceis de serem enganados.”

Que grande descoberta! Nos custa muito aprender esta lição... Tal- vez por isso continuamos sendo enganados por produtos que oferecem vantagens inexistentes, bancos que ficam com o dinheiro de seus clientes, médicos que são comerciantes, advogados que são criminosos, professo- res que não querem educar, políticos que não ligam para o bem comum, companhias de telefones que não funcionam, etc. Sim, é muito fácil en- ganar os adultos. Quando Tipos 3 se cansam de parecer performáticos, quando necessitam encontrar-se com eles mesmos, quando seus mundos internos reclamam atenção, quando é preciso parar eles se perguntam: como é que eu posso parar, se todos acham que nunca vou parar? Como vou fazer para fugir desta absorvente atividade, se todos acham que eu sou o super-homem ou a super-mulher? Simples, pregando “pequenas mentiras que não farão mal a ninguém”. Um exemplo simpático:

Um dos meus alunos, Tipo 3, Mário, contou que durante muito tempo ele trabalhara “quase 24 horas por dia” na clínica médica da qual era sócio-fundador. Muitas vezes, saía de casa cedo e não voltava até tarde da noite... Certa vez decidiu que era necessário mudar esse ritmo... mas, como mudar? Tinha passado sempre uma imagem de superdesempenho... O que pensariam os outros se ele começasse a sair antes do trabalho? Que fazer? Simplesmente, decidiu “enganar” (no bom sentido) os outros. Ele esperava que todo o mundo fosse embora, enquanto isso, mostrava-se muito atarefado porque ele tinha muito trabalho por realizar. Logo, quando os demais já tinham terminado, ele ia embora... Todos pensariam que ele continuava com o mesmo ritmo, só que era mentira. Uma mentira que visava conservar a imagem

de homem eficiente, trabalhador e incansável que ele tinha criado com tanta paixão e da qual se envaidecia. Como muitos Tipos 3 que acabam compreendendo essas armadilhas psicológicas que não lhes permitem fugir dessa atividade desenfreada, ele reconhece que hoje se importa com seus sentimentos e necessidades, sem culpar-se. Está trabalhando em si mesmo e dá-se conta de que deixar espaço e tempo apenas para meditar, viajar e curtir seus filhos e esposa é muito valioso. Ele descobriu que pode usar 10% de seu tempo para seu lazer e para estar com a família, segundo ele, após ler alguns autores de livros de autoajuda, dos quais Tipos 3 gostam muito!

Quando Tipos 3 começam a parar de mentir a si mesmos, descobrem que as mudanças de vida só implicam uma maior autenticidade a nível emocional e que essa autenticidade pode fazer bem aos outros, especial- mente aos filhos. Eva, nossa aluna, descreve assim esta descoberta: “O sucesso profissional não se reflete no meu lado emocional. Como mãe não sou pegajosa, sou rigorosa e ditatorial. Com o trabalho que venho realizando com Khristian Paterhan estou mudando. Começo a tratá-los com mais amor, isto é, consigo verbalizar frases como “mamãe te ama”. Mesmo não falando, eu sempre adorei e adoro meus filhos.” Porém ela mesma percebe hoje que o modo de expressar essa “adoração” pelos filhos era incompleta. Como ela, muitos pais Tipo 3 tentam justificar suas ausências por falta de tempo e trabalho excessivo, mediante o for- necimento de tudo o que parece valioso, materialmente. Transformam amor em produtos valiosos que são dados para que os filhos façam tudo direito e para expressar deste modo o que não podem dizer verbalmente. A mesma aluna nos relatou que: “Para agradá-los compro roupas, brin- quedos, etc. Hoje percebo que estava condicionando meus filhos a um jogo do tipo ‘se você fizer isso, você recebe isso’. Hoje tento conversar e não mais fazer essas trocas. Meu filho mais velho ficou carente de amor e atenção. Pois sempre cobrei isso ou aquilo, dentro dos padrões que eu achava corretos. Falando para ele ‘estude para amanhã ter seu carro, seu apartamento, etc. Aproveite as oportunidades que mamãe lhe dá, olhe quantos meninos gostariam de estudar, ter uma cama quente, ter roupas, etc’.”

Concordamos que muitas coisas valiosas podem ser compradas com o fruto dos nossos trabalhos e esforços, porém as mais valiosas para o desenvolvimento de uma psique equilibrada e sadia não são encontra- das nos grandes shoppings centers de nossas cidades e sim nos nossos próprios corações.

À procura da admiração e do reconhecimento alheio: “comprando” o amor dos outros

Os Tipos 3 mostram que uma das razões para serem workaholic é a procura de admiração e reconhecimento. Miguel, um aluno Tipo 3, reco- nheceu: “A vaidade é manifestada em relação ao trabalho. Busco sempre reconhecimento por aquilo que faço. Tenho compulsão pelo trabalho. Tenho que estar em atividade o tempo todo. Não tenho moderação. Minha dedicação é excessiva, procurando sempre a superação.” Esta procura de reconhecimento e admiração é provocada na infância, porque os Tipos 3 percebem que alcançar resultados é garantir a atenção dos outros. Assim como os Tipos 2 precisam sentir-se amados dando amor aos outros, os Tipos 3 aprendem a comprar o amor dos outros, fazendo tudo o que os outros consideram valioso e importante. Outra aluna Tipo 3, Letícia, descreve esta questão numa profunda reflexão sobre sua infância:

“De um modo geral as crianças são carentes do amor dos adultos, dos pais em particular. Quando eu tinha três anos de idade minha mãe decidiu que eu ia para o colégio. É importante observar que naquela ocasião, em 1941, as crianças só iam ao colégio por volta dos sete ou oito anos. Depois de três semanas de grandes protestos de minha parte – chorava e gritava todos os dias – minha mãe se deu por vencida e me comunicou que eu não iria mais ao colégio, antes dos sete anos, como todas as outras crianças. Nesse exato momento, não sei por que tipo de inspiração, afirmei que agora quem quer ir ao colégio sou eu... Fui objeto

No documento Eneagrama (páginas 179-200)