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O fenómeno da multiculturalidade nos contextos educativos

Capítulo I Contexto conceptual da educação multicultural

4. O multiculturalismo e a interculturalidade

4.1. O multiculturalismo

4.1.5. O fenómeno da multiculturalidade nos contextos educativos

A existência de realidades culturais diversas constitui uma característica iniludível da realidade educativa quotidiana. Durante muito tempo as instituições educativas impuseram uma educação que fomentava a exclusão da diversidade e que homogeneizava a aprendizagem. As escolas na sua maioria, desde o ponto de vista organizacional e pedagógico, configuraram como um instrumento de assimilação dentro da cultura dominante. Este etnocentrismo cultural impede que a cultura dos grupos minoritários seja aceite na escolaridade, limitanto deste modo a igualdade de oportunidades. A integração de minorias étnicas e do aluno de origem estrangeiro nas escolas implica modificar a forma de praticar e aceitar a cultura dominante no ensino. Mas nem sempre somos conscientes dos valores que culturalmente transmitimos, porque costumam ser os valores da cultura dominante daquela a quem pertencemos. Construimos a cultura diariamente, ao expressarmo-nos, com aquilo que compramos, aquilo que vemos na televisão, a roupa que vestimos ou a forma como decoramos a escola. Todos somos agentes de cultura, reforçamos ou combatemos determinados aspectos com qualquer dos nossos comportamentos. Neste sentido, cada membro da comunidade educativa é transmissor de cultura. Acolher a diversidade obriga-nos a analisar em que medida conservamos, eliminamos ou incorporarmos a identidade cultural de todo o aluno e valorizamos ou não de forma positiva as relações interculturais.

Portanto, o interculturalismo concebido como a convivência na diversidade e se orienta por três princípios: (a) Princípio da igualdade; (b) Princípio da diferença; (c) Princípio da interacção positiva (relações inter-étnicas, inter-religiosas). De tal maneira, a educação intercultural traduz-se por um lado num currículo centrado na diversidade

cultural, que propõe incluir os conteúdos das diferentes culturas no currículo desde

uma perspectiva mais critica, fazendo fincapé naquilo que une os alunos e não naquilo que os desune; num enfoque educativo centrado na igualdade para a diversidade, que as actividades sejam compensatórias. Além das diferenças culturais, também é de considerar as desigualdades próprias das pessoas das distintas culturas para se pretender enriquecer o currrículo educativo. O processo educativo é concebido como marco para um diálogo igualitário que ajude a transformar o contexto, e não adaptar-se a ele.

Os educadores do século XXI têm que aproveitar a riqueza que impõem os contextos multiculturais na busca de novas fórmulas de adaptação aos mesmos para contibuir o

intercâmbio na base do respeito à identidade cultural de cada povo e de cada indivíduo. Apesar do encontro de povos e culturas diferentes que as relações internacionais contribuíram, permitindo um intercâmbio de formas de vida, conhecimentos, costumes e técnicas, todavia cada cultura possui um capital específico de crenças, ideias, valores e mitos próprios, que ligam uma comunidade singular aos seus antepassados, às suas tradições e ao seu sistema de valores. Neste âmbito considera-se a educação como um recurso básico para o progresso de toda a sociedade. Por isso, é necessário sobressair uma série de características gerais que devem ter-se em conta na educação, entre as quais se podem destacar as seguintes:

Primeiro, a educação multicultural é relevante para toda a povoação e não deve limitar- se somente à intervenção de povoações subordinadas (pequenos grupos étnicos), deve considerar-se como uma concepção global da educação. Segundo, a educação multicultural não pode renunciar ao desenvolvimento de atitudes e aptidões comuns a todos os homens. É certo que existe a percepção, aceitação e valorização da diferença, mas as próprias diferenças tem sentido no contexto da semelhança e da comunidade humana. Terceiro, a multiculturalidade supõe uma interacção entre culturas e grupos, e na educação o diálogo como base do conhecimento e o respeito mútuo deve ocupar um lugar relevante.

Dentro de qualquer sistema educativo existe uma representação do fenómeno da multiculturalidade, em que a relação dos indivíduos com os grupos articula-se em três planos: (a) entre indivíduos: dimensão intercultural; (b) dentro dos grupos: dimensão intracultural; (c) entre os grupos: dimensão multicultural.

Gimeno (1992) expõe que compreender e atender à diversidade cultural que vivemos nas escolas, ajuda a analisar e a questionar os valores que transmitimos aos nossos alunos, quer seja do relativismo ou das discriminações encobertas da exclusão, assim como dos conteúdos de ensino. No âmbito educativo propõe analisar os seguintes elementos:

CURRÍCULO E DIVERSIDADE CULTURAL

ELEMENTOS CARACTERÍSTICAS

Currículo escolar Real

Faz referência ao conjunto de aprendizagens que tem lugar durante o processo de escolarização, como resultado da influência do meio educativo, que impõe não só conteúdos de conhecimento que se tem de assimilar mas também do sistema de comportamentos e de valores. Currículo semi-

elaborado: materiais

Os materiais pedagógicos utilizados pelo professor e o aluno são mediadores da cultura, ao determinar o quê e como se apresenta a cultura. Currículo social

extraescolar

Refere-se à bagagem prévia de conhecimentos, significados culturais, crenças, valores, atitudes e padrões de comportamento adquiridas fora das escolas. A multiculturalidade transcede o currículo escolar.

Quadro 4. Currículo e diversidade cultural. Fonte: Gimeno (1999).

Podemos concluir que todas as escolas são interculturais, uma vez que em todas elas temos portadores de cultura transformando continuamente o seu património pessoal por influência da interacção com os outros. Todas são também multiculturais pois em todas encontramos uma pluralidade de grupos, reais ou conjeturais, mais nítida, mais difusamente definidos, identificados e tratados como tal pelos indivíduos e pelos restantes grupos em presença. Contudo, não seria correcto afirmar que todas as escolas são interculturalistas ou multiculturalistas, pois essa qualidade não é um dado involutário e terá de derivar de um esforço consciente do uso destas dimensões. Constatar que uma dada escola tem alunos de grupos étnicos distintos, por exemplo de várias nacionalidades, certifica-a como um espaço potencialmente multicultural apenas e tão só se o corpo docente também reflectir essa diversidade. Mas mais importante ainda, não a qualifica como multiculturalista se esse capital de variedade e de multiplicidade não for investido ao nível dos conteúdos e dos métodos pedagógicos.

Como resultado das reflexões realizadas durante a investigação pode-se justificar uma série de eixos de política educativa que podem sustentar os critérios abordados anteriormente (a) Educar para a participação plena dos alunos estrangeiros e das minorias na vida social do país receptor; (b) Educar para que valorizem, conservem e ampliem sua cultura de origem, com o fim de que mantenham a sua identidade; (c) Educar para que conservem e ampliem o conhecimento e o domínio da sua língua ou variante de dialecto; (d) Educar para que compreendam e valorizem a língua e cultura do país receptor.

Tudo aquilo que foi exposto anteriormente sustenta-se a partir da elaboração de programas educativos, materiais, objectivos, conteúdos e actividades que integrem a

diversidade dos vários grupos culturais, para conseguir uma educação verdadeiramente multicultural.