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4 CHILE: DA DITADURA AO NEOLIBERALISMO, FRAGMENTAÇÃO DOS

4.1 A TRAJETÓRIA POLÍTICA E ECONÔMICA DO CHILE A PARTIR DO GOLPE

4.1.1 O golpe militar de 1973 e o período ditatorial (1973-1989)

Imediatamente após o golpe de Estado, a junta militar comandada por Pinochet fechou o congresso, declarou Estado de sítio, suspendeu os direitos civis, interviu nos meios de comunicação, perseguiu e reprimiu os partidos de esquerda e estabeleceu toque de recolher para a população (VARGAS, 2012; AGGIO; QUIERO; 2000). O governo militar derrubou não apenas um presidente eleito democraticamente, mas destruiu a base do sistema democrático formal que havia sido construída pela burguesia nos quarenta anos anteriores. Isso colocou por terra a noção de que a democracia no Chile constituía uma tradição, sobre a qual o próprio governo Allende projetou sua plataforma de transição pacífica e livre do capitalismo para o socialismo democrático. Entretanto, diante da impossibilidade da retomada do poder pelas vias eleitorais, a burguesia chilena (incluída a ex-classe dos latifundiários) renunciou à democracia para fazer valer seus interesses econômicos, restabelecer sua dominação social de classe e assegurar a reprodução de seus privilégios (KAY, 1980; GARCÉS, 2004).

O que viria a ocorrer durante o Estado de Exceção, que durou dezessete anos, impactou profundamente o atual contexto institucional chileno por conta das heranças antidemocráticas denominadas por Garretón (1991) como ‘enclaves autoritarios’. Um primeiro elemento a se destacar neste sentido foi o terrorismo de Estado como padrão de ação para extirpação da Unidade Popular, coalizão de partidos de esquerda que permitiu a vitória do Governo socialista de Salvador Allende nas eleições de 1969. Este era composto pelo Partido Comunista, Partido Socialista, Partido Radical, Movimento de Ação Popular Unitário e o Partido de Esquerda Radical. Mais tarde se incorporaram ainda a Esquerda Cristã e MAPU-operário-camponês. As perseguições, sequestros, torturas, desparecimentos e/ou

mortes de líderes civis alinhados com o governo socialista de Allende representaram uma profunda – e não sarada – ferida do período recente da história chilena. Não houve espaços poupados: das igrejas às universidades, passando pelos sindicatos, partidos políticos e organizações de bairros e, especialmente, nos movimentos sociais camponeses – que haviam sido beneficiados com os processos da reforma agrária do governo socialista (conforme se verá no tópico seguinte) –, todos foram vítimas da ação terrorista estatal executada pelas forças militares chilenas sob o discurso de afastar a ‘ameaça comunista’ nos tempos da Guerra Fria. Vargas (2012) aponta que a ideia-força por trás da ação terrorista do Estado Chileno era de despolitizar a sociedade.

O resultado dessa barbárie gerou um quadro com mais de 40.000 vítimas da ditadura segundo os dados oficiais dos relatórios da comissão da verdade, sendo que o informe oficial reconhece 3.065 mortos e desaparecidos entre 19733 e 1990, mas fontes extraoficiais adicionam mais 22.000 pessoas a esses dados (DÉLANO, 2011). Por conta desse cenário, o Chile contabilizou em torno de 200.000 exilados políticos e um enorme contingente de civis que emigraram nesse período diante do medo das retaliações por parte do regime militar e do desmantelamento da economia. Em função do Estado terrorista construído no Chile pela ditadura militar, internacionalmente o país foi duramente criticado pelos desrespeitos aos Direitos Humanos Fundamentais, sobretudo nos espaços de encontros dos líderes internacionais da ONU. Nesse contexto, é importante destacar o papel desempenhado por setores progressistas da Igreja Católica na busca de mediar o conflito existente e de dar voz aos povos oprimidos (PERRET, 2015; VARGAS, 2012).

Um segundo elemento central inaugurado com a ditadura chilena tem a ver com o que ficou conhecido como o ‘modelo chileno’ de crescimento econômico sem desenvolvimento. Por meio de uma aliança constituída pelos militares, capital financeiro internacional e neoconservadores, a qual estabeleceu um novo bloco de poder político-econômico, houve uma aplicação ortodoxa dos princípios neoliberais. O Chile funcionou como um ‘laboratório social das políticas neoliberais’ (VARGAS, 2012) a ‘sangue e fogo’ (GARRETÓN, 2012). O país foi pioneiro em transformar radicalmente sua estrutura nacional mediante um processo agudo de privatizações e desmantelamento do Estado. Isso se deu por meio da transferência das responsabilidades sociais e de recursos públicos para a iniciativa privada, juntamente com o fechamento de instituições públicas, demissões em massa e diminuição do gasto fiscal.

3 Mais da metade desse número ocorreu somente entre os meses de setembro a dezembro de 1973 (VARGAS,

Aggio e Quiero (2000, p. 89) destacam que, no Chile da ditadura militar, “conviviam um capitalismo quase sem regulações, um Estado autoritário que praticou o terrorismo massiva ou seletivamente e uma institucionalidade conservadora disposta apenas em transigir em favor de uma economia mínima ou restrita”.

Nesse contexto, destacam-se os ‘Chicago Boys’, economistas chilenos que realizaram pós-graduação na Universidade de Chicago, Estados Unidos. Sob a perspectiva e supervisão de Milton Friedman (expoente do pensamento econômico neoliberal). Estes economistas foram os responsáveis pela política econômica da ditadura militar, a qual reproduziu pensamento econômico conservador e ortodoxo que vislumbrava a aplicação de orientações racionais e eficientes. Dentre as principais ações econômicas desenvolvidas no período, destacam-se: a reforma do Estado e o seu papel subsidiário aos interesses dos agentes econômicos privados; a abertura ao mercado internacional e o fomento das exportações; a revalorização da empresa privada como motor do crescimento econômico; a importância dos equilíbrios macroeconômicos; a necessidade de regras do jogo estáveis e a modernização da infraestrutura de produção (DELANO; TRASLAVIÑA, 1989). Ffrench-Davis (2016, p. 4), aponta que a primeira etapa do processo de reformas econômicas após o golpe militar (1973- 1981) se caracterizou pela versão mais extrema do receituário neoliberal:

Profundas liberalizaciones comerciales y financieras indiscriminadas y la eliminación de la “selectividad” en las políticas económicas fueron acompañadas de la reducción de los impuestos al capital, del gasto social e inversión pública, acompañadas de privatizaciones masivas. Hacia 1981 se había reducido drásticamente la inflación y el déficit fiscal había sido reemplazado por un elevado superávit, pero a expensas de un notable desequilibrio externo, con un déficit en cuenta corriente de 21% del PIB, acompañado de una débil inversión productiva (un promedio de 4 puntos del PIB menor que en los sesenta).

A partir de então, a economia do Chile se abriu para o mundo e o livre funcionamento do mercado sobrepujou a regulação estatal e se institucionalizou como a regra do jogo. As políticas econômicas favoreceram a especulação financeira, a especialização produtiva e o aumento da exploração dos recursos naturais dos bens em que possuía vantagens comparativas. Nesse período são inaugurados os primeiros shoppings centers, os produtos importados começam a se proliferar no país e os chilenos são introduzidos precocemente em uma sociedade de consumo com acesso facilitado ao crédito, o que resultou em altas taxas de endividamento (DELANO; TRASLAVIÑA, 1989; VARGAS, 2012).

De acordo com Vargas (2012), dentre as estratégias do governo militar que tiveram grande impacto na sociedade chilena estavam ‘las siete modernizaciones sociales’, anunciadas em setembro de 1979, onde os princípios do livre mercado e da iniciativa privada foram estendidos para áreas sociais-chave. Trataram-se de mudanças radicais nas políticas trabalhistas, seguridade social, educação, saúde, descentralização regional, agricultura e aparelho judiciário com o objetivo de adaptação ao projeto de sociedade que se desejava construir. Houve o desmantelamento da ação sindical como resultado das reformas trabalhistas, o que enfraqueceu significativamente a capacidade de mobilização dos trabalhadores chilenos. Isso se expressou no fim da obrigatoriedade da contribuição sindical, na permissão de existir mais de um sindicato por empresa (favorecendo a criação de sindicatos pequenos e débeis), no fim do recebimento dos lucros da empresa, na não intervenção governamental nos processos de negociação coletiva. Tal processo de atomização social foi o resultado esperado de uma estratégia que objetivava socializar uma força de trabalho sob valores, normas e condutas absolutamente distintas do ciclo anterior representando pelo socialismo democrático de Allende.

Para legitimar o ajuste estrutural neoliberal no Chile sob a perspectiva jurídica, o regime militar promulgou, em 1980, uma nova Constituição Política e convocou a população a ratificá-la por uma consulta sem nenhum espaço para discussão (SZNAJDER, 2017). Elaborada sob quatro paredes por uma comissão de juristas e especialistas alinhados ao regime, a nova Constituição chilena tinha como premissa básica mudar a matriz constitutiva da Carta Magna elaborada em 1925 – que já vinha sendo gestada antes mesmo do golpe militar – para refundar o estado chileno com uma maior autoridade presidencial e autonomia das forças armadas frente ao poder civil democrático (VARGAS, 2012). De acordo com Sznajder (2017),

[…] en materia económica, la Constitución de 1980 es clara: el estado ve sus funciones claramente limitadas, aunque seguirá cumpliendo un papel central en el desarrollo minero –a través de propiedad y concesiones, de acuerdo a la voluntad militar que ve en la minería un sector estratégico–, mientras que el mercado libre no sólo será el principio que regirá la actividad económica tradicional, sino que podrá llegar a controlar sectores de dominio estatal tradicional como la salud, la educación y la seguridad social.[…] También se garantiza la libertad de adquirir el dominio de toda clase de bienes y, para limitarla, se establece nuevamente la necesidad de una ley de quórum calificado. Se garantiza el derecho de propiedad y se establecen serias garantías en caso de expropiación por causa de utilidad pública. Es decir que la iniciativa y la propiedad privadas quedan seriamente garantizadas y hasta 'sacralizadas' (SZNAJDER, 2017, p. 7).

Uma segunda etapa (1982-1989) da revolução neoliberal chilena, segundo Ffrench- Davis (2016), esteve marcada pelo enfoque mais pragmático para superar os efeitos da crise de 1982, a qual se deu em decorrência da crescente dívida externa privada, dólar muito valorizado, elevadas importações de bens de consumo, boom creditício interno e reduzida inversão na infraestrutura produtiva. Vargas (2012) destaca que a crise de 1982 levou à falência mais de 800 empresas, a indústria e a construção civil tiveram uma retração econômica de mais de 20%, o PIB teve uma retração de 14% e a produção industrial caiu 18%. Além disso, as taxas de desemprego estavam acima de 24%, a perda de salário real em mais de 20%, bem como os custos de questões básicas como o pão e o transporte estavam fora de controle, levando o desespero para a população chilena.

Ffrench-Davis (2016) ainda aponta que, durante os anos 1980, o governo chileno de Pinochet destinou um equivalente a 35% do PIB para o resgate dos setores econômicos afetados, em detrimento do investimento público e social. Os resultados dessa segunda fase se expressaram em uma modernização heterogênea entre empresários (grandes competitivos e pequenos vulneráveis) e trabalhadores (qualificados e não qualificados), diversificação da produção, controle da inflação, um aumento notório das exportações, junto com uma queda abrupta da manufatura. O reverso dessa moeda, segundo Vargas (2012), foram os enormes custos sociais que recaíram sobre os trabalhadores e os setores mais despossuídos. A concentração do poder e de renda cresceram juntamente com o aumento da desigualdade social, sendo que, em 1987, mais de 45% dos chilenos viviam abaixo da linha da pobreza.

Apesar da dura e intensa repressão da ditadura chilena contra toda e qualquer forma de oposição, aos poucos as insatisfações de diferentes setores da população chilena – especialmente as camadas mais pobres e que mais sofreram com os efeitos sociais das aplicações das políticas neoliberais ortodoxas – ganharam corpo. Neste aspecto é importante destacar o papel desempenhado pelas ‘Jornadas Nacionais de Protesto’ iniciadas em 1983 e que duraram até 19874. Estas representaram massivos protestos da população, envolvendo estudantes, trabalhadores, camponeses e movimentos culturais contestatórios que objetivavam a derrubada da ditadura e a convocação de Assembleia Constituinte.

Os objetivos diretos das ‘Jornadas Nacionais de Protesto’ não foram alcançados, mas possibilitaram as condições necessárias para que fosse pactuada uma saída da ditadura dentro

4 Em 1987 o Chile recebeu a visita do Papa João Paulo II, onde os movimentos sociais denunciaram as

opressões da ditadura militar e que foram seguidas pelo assombroso olhar do Pontífice que não conseguiu apaziguar os ânimos diante da batalha campal que se deu em uma de suas missas (VARGAS, 2012).

da institucionalidade jurídica. Em 1988 foi convocado um plebiscito junto à população chilena para decidir se haveria a continuidade ou não da ditadura militar. Com 56% dos votos, a oposição ao regime militar ganhou o plebiscito ao optar pelo "não" à continuidade de Pinochet por mais oito anos. A partir disso, foram convocadas eleições presidenciais para dezembro de 1989, nas quais o candidato oposicionista democrata-cristão pela ‘Concertación

de Partidos por la Democracia’, Patricio Aylwin venceu e encerrou o período ditatorial do

Chile (GARRETÓN, 1991; VARGAS, 2012).