5.1 A comunicação do Partido
5.1.1 O Grande Irmão: a imagem onipresente do poder
A primeira página do romance revela logo a relação entre a miséria do indivíduo106, a precariedade do Estado e a onipresença do poder ao nível simbólico e prático no cotidiano. Quando Winston chega ao prédio onde fica a sua casa, ele se depara com o elevador que não funciona há tempos, a falta de eletricidade por causa da “campanha de economia” que fazia parte da preparação para a “Semana do Ódio” e a imagem do Grande Irmão através de cartazes coloridos em toda parte: “Em cada patamar, diante da porta do elevador, o cartaz da cara enorme o fitava da parede. Era uma dessas figuras cujos olhos seguem a
106 A descrição de Winston diz que ele “tinha trinta e nove anos e uma variz ulcerada acima do
tornozelo direito” que o fazia ter que parar várias vezes durante o percurso pela escadaria até o seu apartamento (p. 5)
gente por toda parte. O GRANDE IRMÃO ZELA107 POR TI, dizia a legenda” (p. 5). Assim que ele entra no apartamento ele encontra a única coisa que se mantém funcionando ininterruptamente independente do racionamento de energia:
Dentro do apartamento uma voz sonora lia uma lista de cifras relacionadas com a produção de ferro-gusa. A voz saía de uma placa metálica retangular semelhante a um espelho fosco, embutido na parede direita. Winston torceu um comutador e a voz diminuiu um pouco, embora as palavras ainda fossem audíveis. O aparelho (chamava-se teletela) podia ter o volume reduzido, mas era impossível desligá-lo de vez. (p. 5)
A imagem do Grande Irmão e as siglas do Ingsoc são as únicas coisas que se sobressaem na paisagem urbana monocromática da Londres de 1984: “parecia não haver cor em coisa alguma, salvo nos cartazes pregados em toda parte. O bigodudo olhava de cada canto” (p. 6). Como Winston relata: “Até do dinheiro aqueles olhos o perseguiam. Moedas, selos, capas de livros, faixas, cartazes, maços de cigarro – em toda parte. Sempre os olhos fitando o indivíduo, a voz a envolvê-lo” (p. 28). Em toda parte há uma imagem dele, assim não há como esquecer da sua onipotência, da sua presença e, principalmente, do seu poder de saber o que cada um faz e pensa. Em oposição a essa presença absoluta, a essa memória incessante, o indivíduo é uma peça maleável e pode desaparecer fisicamente; pode ser apagado da memória, da história. O trabalho de Winston no Departamento de Registro era justamente nesse sentido e, como ele lembra, um traidor, um praticante de crimidéia, podia ser aprisionado durante a noite e, então, desaparecia sob todos os aspectos: “O nome do cidadão era removido dos registros, suprimida toda menção dele, negada sua existência anterior, e depois esquecido. Era-se abolido, aniquilado, vaporizado era o termo corriqueiro” (p. 21).
Em Nós, o Benfeitor se revela fisicamente nos eventos públicos e executa pessoalmente a tarefa máxima de poder sobre a vida dos cidadãos-números: é ele quem ativa a campânula pneumática. Em Admirável, há dez Administradores Mundiais que são discretos em suas tarefas. Não há adoração nem exibições
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públicas. Eles são diferentes das imensas populações subordinadas, já que não parecem ser condicionados psicologicamente, e se prestam à tarefa de manter o Estado Mundial socialmente estático. Eles sabem como o sistema funciona e possuem uma consciência clara do maquinismo social. O Grande Irmão é, acima de tudo, um símbolo, uma representação humanizada - “o rosto de um homem com uns quarenta e cinco anos, com espesso bigode preto e traços rústicos mas atraentes” (p. 5) – do poder do Partido, mas não se revela pessoalmente em momento algum. O livro de Goldstein deixa evidente o papel do Grande Irmão na forma como o Partido organiza e mantém o poder a partir dessa imagem:
No alto da pirâmide está o Grande Irmão. O Grande Irmão é infalível e onipotente. Cada sucesso, realização, vitória, descobrimento científico, toda sabedoria, sapiência, virtude, felicidade, são atribuídos diretamente à sua liderança e inspiração. Ninguém nunca viu o grande Irmão. É a cara nos tapumes, uma voz nas teletelas. Podemos ter razoável certeza de que nunca morrerá, e já existe considerável incerteza da data em que nasceu. O Grande Irmão é a forma com que o partido resolveu se apresentar ao mundo. Sua função é a de ponto focal para o amor, medo, reverência, emoções que podem mais facilmente ser sentidas em relação a um indivíduo do que a uma organização. (p. 200)
Steinhoff (1983) lembra que Orwell desconfiava que mesmo no mundo moderno da ciência e da tecnologia não se pudesse escapar de forças poderosas como o nacionalismo, o fanatismo religioso e a lealdade feudal. Nesse sentido, Steinhoff afirma que “essas são precisamente as forças de que o Grande Irmão mais notavelmente tira partido através dos meios de comunicação de massa de Oceania” (p. 153). Assim como aconteceu na Alemanha com Hitler, como ainda se apresentava com Stalin na União Soviética e como iria acontecer logo com Mao Tsé-Tung na China, a forma como essas figuras eram representadas era simbolicamente mais eficiente como uma imagem unificadora e, ao mesmo tempo, ameaçadora desses totalitarismos. Assim, os discursos e métodos adquirem, como Booker (1994a, pp. 210-211) sublinha, uma dimensão religiosa.
Gottlieb (2001) destaca que a manutenção dessa figura poderosa se articula através de um estado permanente de guerra engendrado pelas três grandes nações de 1984. É assim que as populações são mantidas “escravizadas, desnutridas, sobrecarregadas, assim como em estado permanente de medo do
traidor e inimigo „satânico‟ e, consequentemente, prontos para adorar o ditador e Salvador.” Essa figura é representada pelo Grande Irmão que
usa a máscara do protetor benevolente e salvador e o Ministério da Verdade fabrica as mais sofisticadas mentiras de propaganda para provar que ele é benevolente e infalível. Para prevenir que as pessoas comprovem essas mentiras flagrantes, a Polícia do Pensamento intimida os “pensamentos criminosos” com a ameaça dos julgamentos e interrogatórios do Ministério do Amor. (Gottlieb, 2001, p. 82)
O Grande Irmão não parece ter surgido como um líder espontaneamente. Se foi assim, o registro da história tratou de transformá-lo num ente, numa criatura superior, imaterial e intocável. Não há referências a ele através de um nome ou sobrenome. Sua existência tem uma função clara e a aplicação da sua imagem e da sua voz é feita de forma calculada. No caso de 1984, ele é uma figura que serve como “ponto focal para o amor, o medo, a reverência”, mas o sentimento melhor trabalhado é o temor contínuo. Se Deus era a figura que puniria depois da morte porque era onipotente e tudo sabia, o Grande Irmão é capaz de executar isso em vida. As aplicações previstas para os meios de comunicação servirão para amplificar essa capacidade junto aos membros do Partido. Para os proles, os propósitos serão menos ligados à coação e a disciplina. Os proles deverão ser mantidos num certo estado letárgico e nada mais.
5.1.2 Ministério da Verdade: a fabricação da realidade e os operários da