• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO I – CAMINHOS SEMIÓTICOS 20 

1.2.  Charles Sanders Peirce 32 

1.2.4.  O Interpretante 41 

O pensamento peirceano é claro ao afirmar que o interpretante é um signo, além de ser o terceiro elemento da tríade. O processo de semiose só é possível a partir da junção dos três elementos da cadeia sígnica, ou seja, dentro de um processo que requer algum tipo de significação.

De acordo com a definição de signo, não pode haver representação se tivermos apenas um signo. A representação mediada toma como pressuposta a pluralidade dos signos, visto que algo só funciona como signo exclusivamente sob a condição de ser interpretado como tal, isto é, sob a condição de ter um interpretante que é, ele também, um signo. Significado é um fenômeno de um sistema; ele não existe separadamente. Todo signo significativo deve ser, do acordo com a definição de Peirce, traduzível em outro signo significativo, e assim por diante. Então, um interpretante como terceiro, a fim de ser capaz de trazer um primeiro para uma relação com um segundo, deve ser um signo que pertença a qualquer universo de signos e não algo que exista separadamente (BUCZINSKA-GAREWICZ, 1983, p. 318).

Deve-se entender que a ação do signo, ou semiose, objetivado no interpretante ocorre através do crescimento e da continuidade. O interpretante é um signo que acabará por gerar um outro signo sucessivamente. A figura abaixo representa esse processo.

Figura 2- Gráfico Utilizado por Santaella Fonte: Santaella, 1983:59

Johansen menciona uma divisão tricotômica feita em um rascunho de carta datando de 1906, rascunho esse destinado à Lady Welby. Essa tricotomia é conhecida como a divisão tricotômica de 1906 ou tricotomia comunicacional do interpretante:

Há o interpretante Intencional, que é uma determinação da mente do emissor; o interpretante Eficiente (effectual) que é uma determinação da mente do intérprete; e o interpretante Comunicacional, ou melhor, o Cominterpretant, que é uma determinação daquela mente na qual as mentes do emissor e do intérprete têm de se fundir a fim de que qualquer comunicação possa ocorrer. Esta mente pode ser chamada de Comens. Ela consiste de tudo aquilo que, de saída, é e deve ser bem compreendido entre emissor e intérprete a fim de

que o signo em questão cumpra sua função. (PEIRCE apud

SANTAELLA, 2000, p.68).

Esse tipo de abordagem surge com a intenção específica de tentar classificar situações de caráter comunicacional verbal onde o diálogo se faz presente (LALOR, 1997). Essa tricotomia raramente é utilizada. É importante lembrar que Peirce ainda estava por formar as bases doutrinárias da semiótica como é conhecida nos dias atuais. Essa tricotomia pode ser de interesse para aqueles que desejam analisar sucintamente áreas do conhecimento onde há o predomínio de contextos dialógico-comunicacionais e para a presente pesquisa de mestrado justifica-se apresentá-la, à medida que os processos comunicativos através das imagens poderiam ter uma aplicação prática observando-se essa tricotomia.

Existe ainda outra tricotomia conhecida como tricotomia de 1906-1907 ou tricotomia efectual do interpretante. Nessa tricotomia Peirce relaciona os níveis de interpretante emocional, energético e lógico com sentimentos, esforços e mudanças de hábitos.

[...] Se um signo produz algum outro efeito próprio de significado, ele o fará por meio da mediação do interpretante emocional, e tal efeito posterior sempre envolverá um esforço. Eu o chamo de interpretante energético. O esforço pode ser muscular, como no caso de um comando para baixar armas; mas é muito mais comum um esforço no Mundo Interior, um esforço mental. Ele jamais pode ser o significado de um conceito intelectual, pois é um ato singular, [enquanto] tal conceito é de natureza geral. Mas que outro tipo de efeito ainda pode existir? (CP 5.475)

O Interpretante possui uma divisão triádica. A tricotomia de 1904-1909 ou tricotomia geracional do interpretante é a tricotomia mais conhecida na semiótica peirceana. Essa tricotomia divide o interpretante em: Imediato, Dinâmico e Final. Concebe-se o Interpretante Imediato como sendo o primeiro nível da classificação, ou

seja, interpretante antes mesmo do signo se deparar com um intérprete potencial qualquer; representa a sua potencialidade, a sua potencialização, o seu potencial interpretativo em si mesmo; está diretamente ligado aos fenômenos de primeiridade. De acordo com Peirce, “O Interpretante Imediato consiste na Qualidade da Impressão que

um Signo está apto a produzir, não diz respeito a qualquer reação de fato” (CP 8.315). O Interpretante Dinâmico, ou segundo nível de interpretante tem a ver com o efeito

objetivo sentido pelo intérprete sob sua influência, obviamente todo esse processo se dá no nível de secundidade, pois o efeito causado no intérprete está no nível do psicológico, refere-se a uma entidade particular, singular.

O Interpretante Dinâmico é qualquer interpretação que qualquer mente realmente faz do Signo. Este Interpretante deriva seu caráter da categoria diádica, a categoria da ação [...] O significado de qualquer Signo sobre alguém consiste no modo como esse alguém reage ao Signo (CP 8.315).

O interpretante dinâmico possui uma subdivisão em três níveis, de acordo com as categorias já mencionadas (primeiridade, secundidade e terceiridade).

É agora necessário apontar para o fato de que há três tipos de interpretantes. Nossas categorias os sugerem, e a sugestão é confirmada por exame cuidadoso. Eu os chamo de interpretante emocional, energético e lógico. Estes consistem respectivamente em sentimentos, esforços e mudanças de hábitos (MS 318, p. 244).

O primeiro efeito de significado de efeito de um signo é uma simples qualidade de sentimento (SANTAELLA, 2002, p. 40). Peirce denominou esse primeiro estágio de Interpretante Emocional, que são aqueles [signos] interpretáveis na forma de qualidades de sentimento ou aparência; o segundo estágio, o Interpretante Energético são aqueles signos que são interpretáveis através da experiência concreta e o Interpretante Lógico que são aqueles interpretáveis através de pensamentos ou outros signos da mesma espécie numa série infinita (CP 8.339). O terceiro nível de interpretante é chamado de Interpretante Final. As definições de interpretante final ainda estavam sendo elaboradas: “Finalmente, há o que provisoriamente eu chamo de Interpretante Final, que se refere à maneira pelo qual o Signo tende a se representar como estando relacionado ao seu Objeto” (CP 4.536). Há de se ter bastante cuidado ao se pensar a expressão “final”. A tendência seria pensar em algo como acabado, o fim de algo que começou; entretanto, final nesse contexto relaciona-se com a ideia de final enquanto meio, objetivo, meta. A questão parece ser paradoxal porque esse fim nunca chega, é

idealizado, é uma busca inatingível a qual os objetos dinâmicos procuram chegar, porém sem nunca alcançá-los.

Documentos relacionados