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1 A VISÃO NIETZSCHIANA DO JOGO DE FORÇAS: VONTADE DE POTÊNCIA,

2.2 A condição da violência: espaço marcado e construtor de memória social

2.2.2 O jogo de forças na esfera pública e privada

Sem a vitória sobre as necessidades da vida na família, nem a vida nem a ―boa‖ vida é possível; a política, porém, jamais visa à manutenção da vida. No que tange aos membros da pólis, a vida no lar existe em função da ―boa‖ vida na pólis.251

No percurso do pensamento arendtiano há uma questão importante que está tematizada, principalmente, em sua obra ―Da condição humana‖: a esfera pública e a privada.

Pensar a sociedade como uma totalidade dinâmica que trafega livremente entre essas duas dimensões, não é tarefa fácil, principalmente se tomar como parâmetro a constituição da pólis grega na qual ―a capacidade humana de organização política não apenas difere, mas é diretamente oposta a essa associação natural cujo centro é constituído pela casa e pela família.‖252 Nessa direção, Arendt destaca que há um profundo jogo de forças entre o âmbito privado e o público e frisa que somente a ação é capaz de romper essas fronteiras de onde se torna necessária a presença de outros253. Na tradição política grega, este fato se concretiza na criação da cidade-estado que, segundo a filósofa, une os dois movimentos (privado e público), sendo a pólis um espaço onde tudo era ―decidido mediante palavras e persuasão e não através de força ou violência.‖254

Para Arendt, havia no período clássico uma distinção entre a esfera da vida privada, presente no âmbito familiar, e da vida pública, própria do espaço da pólis – centro dos

250 ―O súdito ideal do governo totalitário não é o nazista convicto nem o comunista convicto, mas aquele para quem já não existe a diferença entre o fato e a ficção (isto é, a realidade da experiência) e a diferença entre o verdadeiro e o falso (isto é, os critérios de pensamento)‖. (ARENDT, OT, 1989, p. 526).

251 Idem, CH, 2005, p. 47.

252 Ibidem, p. 33.

253 A ação é entendida como próprio do homem, pois ―nem um animal, nem um deus é capaz de ação, e só a ação depende inteiramente da constante presença de outros.‖ (Ibidem, p. 31).

254 Ibidem, p. 34.

debates, embates, assim como também do consenso. No entanto, no decorrer desse processo histórico, principalmente na era moderna, ocorreu o que ela denominou de esfera social, espaço onde não há mais fronteira entre o público e o privado, locus de onde surge a questão social255. Em decorrência desse movimento, o fator econômico familiar entra no cenário político, rompendo com os limites da intimidade privada, próprio da pólis grega.

A esfera privada da família e do lar, na pólis grega, estava intimamente ligada à participação política, uma vez que ―sem ser dono de sua casa, o homem não podia participar dos negócios do mundo porque não tinha nele lugar algum que lhe pertencesse‖256. A vida familiar e sua própria dinâmica de relações nascem de uma condição própria do homem de satisfazer suas necessidades mais primitivas vinculadas à sobrevivência da espécie, portanto ela possuía uma organização baseada não na liberdade, mas na necessidade. Por outro lado, no ambiente da pólis, a ação está na relação, no entre estas esferas, que se dá pela liberdade de superar o campo das necessidades. Este é o campo próprio da política, estabelecido no jogo de forças entre a liberdade e a necessidade, derivando sua constituição e limite. No entender de Arendt, não é função da política:

Ser apenas um meio de proteger a sociedade – uma sociedade de fiéis, como na Idade Média, ou uma sociedade de proprietários, como em Locke, ou uma sociedade inexoravelmente empenhada num processo de aquisição, como em Hobbes, ou uma sociedade de produtores, como em Marx, ou uma sociedade de operários, como nos países socialistas e comunistas.257

Arendt associa o fluxo de forças, situado entre o privado e o público, à dinâmica que oscila entre a necessidade e a liberdade. O homem para satisfazer as suas necessidades de sobrevivência utiliza-se da força e da violência na relação com os outros, quer na forma de domínio ou de submissão, presentes na esfera privada e não derivadas da esfera pública. É interessante perceber que a necessidade faz também gerar, no interior da vida privada, a desigualdade própria do poder de quem comanda e obedece. Para Arendt, ―a liberdade não existia, pois o chefe da família, seu dominante, só era considerado livre na medida em que tinha a faculdade de deixar o lar e ingressar na esfera pública, onde todos eram iguais.‖258

255 Para Aguiar (2009, p. 247): ―A questão social é um tema de enfrentamento difícil em Hannah Arendt. Difícil porque a categoria do social na autora não tem o assentimento que a faz vigorar e constituir pressuposto científico, notadamente no Brasil, onde a influência do marxismo nessa área do saber, pelo menos num certo período, é inquestionável.‖

256 ARENDT, CH, 2005, p. 39.

257 Ibidem, p. 40.

258 Ibidem, p. 42. Para completar essa ideia, a questão da igualdade, para a filósofa, não está relacionada ao sentido da justiça, como se entende no mundo moderno, mas na compreensão de que no espaço público da pólis todos são caracterizados pela ―igualdade‖, da capacidade de se ―mover‖ sem a presença de governo e governados. Esse tema também aparece em ―Origens do totalitarismo‖, quando Arendt (OT, 1989, p. 335)

Esse jogo de forças, originário da pólis grega, estabelecia uma fronteira muito clara entre a vida privada e a pública.

Em contrapartida, no mundo moderno há uma linha muito mais tênue que chega a se constituir em um discurso econômico, no qual a necessidade se confunde com a liberdade, passando despercebidos os limites entre o público e o privado. A história, ao longo de seu processo, utiliza-se de mecanismos para sustentar uma harmoniosa relação entre esses dois campos da vida em sociedade. Muitas vezes o privado dita normas e regras de conduta à vida pública, como registra Arendt ao descrever o processo medieval no qual ―quem quer que ingressasse na esfera pública deveria, em primeiro lugar, estar disposto a arriscar a própria vida; o excessivo amor à vida era um obstáculo à liberdade e sinal inconfundível de servilismo.‖259 Este movimento, entendido por Arendt como um ato de coragem, só é possível quando superado o anseio inato de sobrevivência, ou seja, quando a liberdade fosse assumida independentemente das necessidades biológicas.

Nesse movimento de assimilação e submissão da vida privada à pública, encontra o perigoso jogo da uniformização da ação que pode gerar um discurso único no qual ―pouco importa se uma nação se compõe de homens iguais ou desiguais, pois a sociedade exige sempre que os seus membros ajam como se fossem membros de uma enorme família dotada apenas de uma opinião e de um único interesse.‖260 Esse discurso único quebra potencialmente o jogo de forças e acaba por assumir o conformismo social, excluindo de seu meio a ação, própria do entre os homens, e, portanto, da liberdade. A falta da ação quebra o que é próprio da esfera pública, que é ―marcado intrinsecamente pelo dissenso, pelo agonismo, até mesmo pelo antagonismo e, em sua extrema possibilidade, pela guerra.‖261

Ao perder essa dimensão agonística, os tempos modernos, anularam a singularidade, quando o homem podia mostrar quem ele realmente era, para assumir um padrão coletivo e normativo ao qual todos deviam se submeter: a esfera social de convivência262. No espaço social de convivência, cria-se um fio condutor que aproxima (por vezes, se fundem) as esferas afirma: ―Não nascemos iguais; tornamo-nos iguais como membros de um grupo por força da nossa decisão de nos garantirmos direitos reciprocamente iguais.‖

259 ARENDT, CH, 2005, p. 44.

260 Ibidem, p. 48, grifo nosso. É importante ressaltar que Arendt faz menção a Rousseau e a Tocqueville para descrever o conformismo presente tanto na esfera pública como na política.

261 BRAGA, Barbara Gonçalves de Araújo. Instituição e estabilização do espaço público no pensamento de Hannah Arendt. In: ENCONTRO HANNAH ARENDT: O FUTURO ENTRE O PASSADO E O PRESENTE.

5., Passo Fundo, 2012. Anais..., Passo Fundo: IFIBE, 2012, p. 250.

262 Arendt (op. cit., p. 52) chama atenção ao movimento presente no mundo moderno com o advento das ciências, principalmente do tratamento estatístico dos dados com relação à ação política. Segundo a autora,

―politicamente, isto significa que quanto maior é a população de qualquer corpo político maior é a probabilidade de que o social, e não o político, constitua a esfera pública.‖

da família com a política. Para Arendt, isso representa uma ―linha divisória inteiramente difusa, porque vemos o corpo de povos e comunidades políticas como uma família cujos negócios diários devem ser atendidos por uma administração doméstica nacional e gigantesca.‖263