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PARTE 1: A PERCEÇÃO VISUAL ENQUANTO CARACTERÍSTICA HUMANA

1.3. Perceção: Relação Cérebro-Mente: Sensação, Perceção e Cognição

1.3.2. Teorias da Perceção Visual

1.3.2.6. Teoria da Gestalt

Sendo uma das primeiras teorias generalistas, a Gestalt49 surge como uma doutrina que tem por base a perceção sensorial e o conceito de psicofísica50, tendo desde cedo uma forte conexão com a questão da perceção da arte. A ela associados destacam-se os nomes de Max Wertheimer, Wolfgang Köhler e Kurt Koffka (Arnheim, 2005, p.12).

Muito baseada na visão nativista51 de Immanuel Kant, surge como uma tentativa de comprovadamente refutar as doutrinas estruturalista52 e behaviourista53.

O foco fenomenológico desta teoria prende-se ao facto de tentar entender o mundo real para além dos mecanismos percetivos. Para isso tornou-se necessário definir e entender esses mecanismos de forma a perceber os seus efeitos e tentar ver para além deles (Gordon, 1989, pp. 50-51).

Também conhecida por “Psicologia da Gestalt” ou “Psicologia da Boa Forma” esta rege-se por um conjunto de leis e princípios da perceção visual que, de acordo com Kurt Koffka na sua obra “Princípios da Psicologia da Gestalt”54 permitem organizar e interpretar visualmente a informação disponível, fazendo a distinção entre o que são unidades e o que são conjuntos ou grupos (Erlhoff & Marshall, 2008, p. 192).

Um desses pressuposto era o da relação entre o Todo e as suas Partes.

De acordo com o grande contributo do filósofo Christian von Ehrenfels, a Gestalt defende que não é possível ter o conhecimento do "todo" apenas por meio do conhecimento das suas “partes”, uma vez que o “todo” é diferente da soma das suas “partes” (Arnheim, 2005, p.12). Ou seja, 'A+B' ≠ '(AB)', mas sim 'A+B' = 'C', por possuir características próprias. Recorrendo a um exemplo: isoladas, as letras “m”, “a”, “r”, não têm o mesmo significado que a sua junção “mar”. Esse “todo” desperta algo mais: a capacidade de criar uma imagem traduzida por um conceito associado à palavra (Gordon, 1989, pp. 53-54).

49 Gestalt: cuja tradução aproximada é “forma” ou “configuração”, também conhecida por Gestaltismo ou Psicologia da Forma, surge na Alemanha no final do século XIX, com um conjunto de teorias cujo desenvolvimento foi significativo em várias áreas de estudo no início do século XX.

50 Ver “Psicofísica” em “Glossário - Conceitos de Psicologia, Filosofia, Comportamento e Comunicação”.

51 Ver “Nativismo” em “Glossário - Conceitos de Psicologia, Filosofia, Comportamento e Comunicação”.

52 Ver “Teoria Estruturalista” em “Glossário - Conceitos de Psicologia, Filosofia, Comportamento e Comunicação”.

53 Ver “Behaviourismo” em “Glossário - Conceitos de Psicologia, Comportamento e Comunicação”.

54 Originalmente publicada em 1935.

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Da mesma forma, surge um segundo pressuposto, o de que para que determinada forma seja bem entendida, tem de existir um contraste claro no binómio figura-plano. A este princípio foi dado o nome de Lei da Figura-Fundo. Esta foi uma área muito explorada por estudiosos das questões da ilusão na perceção visual, como foi o caso do psicólogo Edgar Rubin, criador da famosa ilusão “Vaso de Rubin” (Gordon, 1989, pp. 49-50).

O foco de estudo da Gestalt não se restringiu apenas à bidimensionalidade; um dos principais estudos, da autoria de Max Wertheimer, refere-se à sua investigação relativamente ao movimento ilusório, apelidado de Movimento Aparente ou Fenómeno Phi55, que deu o mote para o conceito de persistência da visão56 atualmente aceite.

Para haver a possibilidade de ter este tipo de comportamento associativo, foi determinado que a informação tinha de ser organizada de acordo com três pontos: quantidade, ordem e significação (Koffka, 1975, p. 184).

Tendo por base esses pontos, é identificada uma nova lei que afirma que:

“a organização será sempre tão ‘boa’ quanto as condições reinantes o permitirem”

(Koffka, 1975, p. 121).

Por “boa” refere-se a algo com propriedades simplificadoras como seja a regularidade, a simetria ou a simplicidade, que têm em vista facilitar a perceção e identificação de informação de forma mais rápida. Estas podem ser encontradas em diversas características como a cor, a forma ou mesmo a textura. A esta dá-se o nome de Lei da Pregnância, Prägnanz ou Boa Forma (Koffka, 1975, p. 121). Esta lei, é colocada na base do pensamento “gestáltico”, na medida em que não só determina a “boa forma”

preferencial ao Homem, como aplica princípios quantitativos (o máximo e o mínimo de características) e qualitativos (nível de simplicidade) para que uma imagem seja identificada em si mesma como unicista (Koffka, 1975, pp. 161 e 185).

Sobretudo no que concerne à questão da ordem e da organização como base para a boa perceção, é de referir novamente Ehrenfels e a sua teoria de que para melhor compreender

55 Ver “Movimento Aparente” em “Glossário - Conceitos de Psicologia, Comportamento e Comunicação”.

56 Ver “Persistência da visão” em “Glossário - Características e Fenómenos relativos à Visão”.

o fenómeno da perceção humana deveria ser dada atenção à forma como os indivíduos, perante determinados grupos de estímulos, são capazes de formar padrões, simplificando a sua interpretação (Gordon, 1989, p. 49):

“qualquer padrão de estímulo tende a ser visto de tal modo que a estrutura resultante é tão simples quanto as condições dadas permitirem” (Arnheim, 2005, p.62).

Diferentes formas de agregação e composição de unidades, trabalham em conjunto para um único pressuposto: a simplificação. Assim nasceram as Leis da Organização da Gestalt (ou da forma).

Na base da sua determinação esteve a interpretação de códigos visuais com correspondência de significado enquanto unidade e conjunto, ou seja, em ponto e linha (enquanto conjunto de pontos).

Atualmente, são inúmeras as leis atribuídas à Gestalt, no entanto, existe um pequeno conjunto que é considerado ser a origem das demais. São elas:

. Lei da Unificação: é o mecanismo pelo qual um conjunto de elementos individuais pode formar um todo através da sua agregação, secundarizando o seu significado individual, em prol do geral. Esta pressupõe um equilíbrio entre elementos (Koffka, 1975, p. 126);

. Lei da Segregação: contrariamente à Lei da Unificação, esta demonstra a capacidade mental em separar determinados elementos individuais dentro de uma forma composta por vários elementos (Koffka, 1975, p. 126);

. Lei do Fechamento: este é o princípio pelo qual é possível criar contornos mentais em formas que não os têm, de maneira a fechá-las, sendo esta a realidade mais familiar no contexto visual humano. Uma linha fechada equivale a uma área delimitada, ou seja, a uma figura (Koffka, 1975, pp. 160 e 178);

Figura 7. Esquema Ilustrativo das Principais “Leis da Gestalt”

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. Lei da Continuidade ou Boa-Continuação: é obtida por meio de uma certa harmonia entre os vários elementos representados que, devido à replicação das suas caraterísticas, permite a visualização de uma forma única, composta, por exemplo, por uma constância de espaçamentos e elementos, através de colunas e linhas (Koffka, 1975, p. 163);

. Lei da Proximidade: mediante formas espacialmente próximas, existe a tendência para criar grupos de acordo com as qualidades formais dos elementos existentes, pela constância da sua forma, localização espacial ou distanciamento (Koffka, 1975, p. 174);

. Lei da Semelhança: trata-se de uma forma de agrupar informação semelhante, de acordo com determinadas características – cor, forma ou tamanho (Koffka, 1975, p. 174).

A estas leis, existe ainda espaço para acrescentar princípios facilitadores de perceção que são muitas vezes apelidados de “lei”:

. Lei da Simetria: uma imagem simétrica é mais facilmente entendida, memorizada e agradável do ponto de vista da perceção humana. Muito associada à Lei da Pregnância;

. Lei da Constância57: a identificação de um determinado objeto é percetível independentemente do ângulo ou tipo de representação que este tenha. Muito associada à Lei da Semelhança;

. Lei do Destino Comum: é utilizado em formas em movimento, cuja direção seja a mesma, e que enquanto unidades com semelhanças comportamentais, simulam um todo.

Muito associada ao Movimento Aparente (phi);

. Lei da Experiência Passada: todas as leis e princípios apresentados são possíveis de estipular tendo por base a ideia de que a perceção visual humana funciona devido à memória e acumulação de informação proveniente de experiências passadas (Eissen &

Steur, 2014, p. 51).

A Gestalt tenta assim justificar a perceção visual como o produto de um processo formado a partir de características sensíveis (relativas ao objeto em si) e cognitivas (relativas a cada indivíduo), (Eissen & Steur, 2014, p. 49).

57 Ver “Constância” em “Glossário - Características e Fenómenos relativos à Visão”.