PARTE 2: A PERCEÇÃO VISUAL APLICADA AO CONTEXTO HISTÓRICO DO DESIGN DE PRODUTO
2.1. Origem dos conceitos de “designer” e “design industrial”
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PARTE 2: A PERCEÇÃO VISUAL APLICADA AO CONTEXTO HISTÓRICO
envolvidas – o que seria impossível tendo em conta a abrangência de alguns projetos e a diferença entre eles – conseguir identificar e apreender aquilo que lhe será útil em cada situação, juntando e gerindo os ativos que necessite, sejam eles pessoas, métodos ou ferramentas. A esse tipo de pessoas foi atribuída a denominação de “designer”.
“Design Industrial”
O foco de atividade do designer é, e sempre, foi bastante amplo e abrangente. Devido a esses mesmos fatores, o papel a ele atribuído nem sempre foi alvo de consenso; a própria definição de design (que refere sobretudo a componente projetual de caráter industrial) foi matéria de significativos ajustes ao longo dos anos.
Segundo os registos existentes, a ideia moderna de “desenho industrial” foi formulada pela primeira vez em 1901 no livro “The Art and Craft of the Machine” da autoria de Frank Lloyd Wright (Silva, 2005, p. 5).
Devendo a sua origem à palavra “desenho” – que por sua vez provem do latim, deriva para a palavra italiana “disegno”. Esta analogia entre as palavras “desenho” e “design”
não é uma coincidência; na verdade, o desenho é a ferramenta mais antiga e mais comum aquando a atividade projetual. No entanto, tendo em conta um mais recente apuramento desta atividade face à do desenho – que atualmente é vista como uma ferramenta e não como a finalidade em si mesma, no que ao Design diz respeito – houve assim uma evolução semântica, no sentido de criar dois conceitos distintos, onde podem ser encontradas analogias como “dibujo” e “diseño” em espanhol ou “draw” e “design” em inglês. No entanto, a grande maioria dos idiomas (entre os quais o Português) adotou o vocábulo inglês em vez de criar uma nova palavra (Rodrigues, 2007, p. 13).
Segundo o ICSID76, foram estabelecidas várias retificações à primeira definição aceite em 1959, aquando a realização do Congresso e Assembleia Geral, em Estocolmo77: uma
76 ICSID: International Council of Societies of Industrial Design, hoje conhecida por “The World Design Organization”.
77 “Um designer industrial é aquele que é qualificado por treino, conhecimento técnico, experiência e sensibilidade visual para determinar os materiais, mecanismos, forma, cor, acabamentos de superfície e decoração de objetos que são reproduzidos em quantidade por processos industriais. O projetista industrial pode, em diferentes momentos, estar preocupado com todos ou apenas alguns desses aspetos de um objeto produzido industrialmente. O designer industrial também pode preocupar-se com os problemas de embalagem, publicidade, exibição e marketing, quando a resolução de tais problemas requer
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em 196078, realizada devido à inclusão de países não capitalistas; e outra, passados apenas nove anos, por sugestão Tomás Maldonado79.
De forma muito sistematizada, e de acordo com a exposição que Tomás Maldonado faz no primeiro capítulo da sua obra “Design Industrial”, inicialmente entendia-se por design industrial uma conceção de objetos para fabrico industrial, por meio de máquinas, e em série (Maldonado, 2015, p. 11). No entanto esta definição revelava algumas ambiguidades, uma vez que não conseguia apontar, de forma concreta, a diferença entre a atividade exercida por um designer (industrial) e aquela que era tradicionalmente a de um engenheiro, não conseguindo igualmente definir quando acaba o papel de um e começa o de outro. É ainda bastante incompleta e confusa, no sentido em que não há uma separação concreta entre Design e Artesanato ou entre Design Industrial e Arte Aplicada, algo que viria a ter uma importância crucial no desenvolvimento e evolução do Design, como será descrito posteriormente. No entanto, contrariamente ao que acontecia até aí, a atividade do designer deixa de ter um caráter simplesmente estético e formal, e passa a adquirir um estatuto de “atividade projetiva” (Maldonado, 2015, p. 13).
No entanto, voltando ao momento do surgimento do conceito de Design, e apesar de apenas a partir da Era Industrial começarem a surgir referências a este conceito, isto não implica que este tenha simplesmente surgido por si mesmo nessa altura. Na verdade, o início desse caminho, de acordo com diferentes autores e estudiosos, poderá ter começado mais cedo ou mais tarde na linha cronológica. A teoria defendida por alguns autores como John Broadbent, Herbert Read ou Herbert Lindinger (Sobral, Azevedo & Guimarães, 2013, p. 27) defendem, por exemplo, que as primeiras produções de artefactos – onde se
apreciação visual, além de conhecimento técnico e experiência. O projetista de indústrias ou negócios artesanais onde os processos manuais são usados para produção, é considerado um projetista industrial quando os trabalhos que são produzidos nos seus desenhos ou modelos são de natureza comercial, são feitos em lotes ou em quantidade e não são trabalhos pessoais de artesão ou artista” (World Design Organization, s.d.).
78 “A função de um designer industrial é dar forma a objetos e serviços que tornem a conduta da vida humana eficiente e satisfatória. A esfera de atividade de um projetista industrial no presente, abrange praticamente todo o tipo de artefacto humano, especialmente aqueles que são produzidos em massa e acionados mecanicamente” (World Design Organization, s.d.).
79 “O design industrial é uma atividade criativa cujo objetivo é determinar as qualidades formais dos objetos produzidos pela indústria. Essas qualidades formais não são apenas as características externas, mas são principalmente as relações estruturais e funcionais que convertem um sistema numa unidade coerente, tanto do ponto de vista do produtor quanto do usuário. O design industrial estende-se para abranger todos os aspetos do ambiente humano, que são condicionados pela produção industrial” (World Design Organization, s.d.).
incluem os paus para desenhar na parede ou as pedras lascadas que datam do Paleolítico Inferior – podem ser considerados os primeiros exemplares daquilo que, através da evolução, veio a derivar no Design (Dorfles, 1978, p. 13).
A ainda recorrente classificação destes objetos como mais do que ferramentas manuais, alegando mesmo uma alçada dentro da classificação de “design”, é uma posição que pode facilmente ser identificado por meio de uma simples comparação entre estes e as premissas de um objeto de Design.
Segundo a definição aventada por Gillo Dorfles no seu livro publicado em 1963 sob o título original “ Il Disegno Industriale e la Sua Estetica”, além de defender categoricamente que design e indústria têm de estar ligados, afirma existirem três características imprescindíveis para que um objeto seja classificado dessa forma: ser totalmente obtido por meio de produção mecanizada, que as suas características permitam uma tiragem seriada e ter um coeficiente estético presente desde a fase de projeto, e por esse motivo dependente das capacidades e limitações da máquina, não sendo algo acrescentado posteriormente de forma manual (Dorfles, 1978, pp.8-9).
Após uma análise a estes três pontos, são notórias as incongruências, ao ponto de serem autoexclusivas.
Não haverá dúvida que ainda assim pode existir algum espaço para afirmar que existia pensamento por detrás da produção das primeiras ferramentas, no entanto, este está muito longe de poder ser comparado à metodologia de design. Quando os antepassados iniciaram o caminho da resolução de problemas por meio da materialização de artefactos por eles criados, na falta de base empírica, recorriam ao único mecanismo de que dispunham: a experimentação (Sobral, Azevedo & Guimarães, 2013, p. 27). Com essa base, o método utilizado era o de tentativa e erro que, eventualmente, iria levar, não só a uma solução que resolvesse o problema no seu imediato, como permitir, a longo prazo, que essa solução fosse otimizada, quer a nível de implementação, quer de produção.
Comparativamente com a metodologia projetual atual, muitas vezes o designer-projetista depara-se com o mesmo tipo de questões quando está face a um problema novo. A diferença está no facto de este não partir para produção enquanto não tiver descoberto a solução mais viável tendo em conta o conhecimento existente. Isso deve-se ao facto de a
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solução ter sempre uma origem racional associada à experimentação direta proveniente do empirismo interdisciplinar que serve de base ao designer – as suas referências.
Retomando novamente a definição de Dorfles, é de referir que apesar dessas três premissas se terem mantido, a abrangência de cada uma delas foi, como seria de esperar, sofrendo alterações.
Tendo em conta que a temática deste trabalho concerne a vertente visual, é importante determinar a abrangência dos fatores estéticos e percetivos da questão formal, dentro da evolução da história do design.
2.2. Questões Formais e Funcionais entre o final do Século XIX e XX: um Preâmbulo