• Nenhum resultado encontrado

Capítulo 2 – A integração do campo político: a democracia liberal parlamentar

2.1 O modelo democrático: as origens da democracia

Segundo Robert Dahl175, um impulso para participação democrática se desenvolve a partir de um pressuposto de igualdade que ele chama de “lógica da

igualdade”, no qual os indivíduos do grupo tomam a consciência de si e do grupo de forma não hierarquizada. Esse pressuposto teria sido basilar para formas de organização não hierarquizadas (formas primitivas de democracia) entre grupos humanos primitivos176. Contudo, com a formação das cidades e o desenvolvimento das grandes civilizações, os pressupostos para uma organização participativa nas estruturas de governo desapareceram177, dando origem a formas de governo autocráticas, altamente hierarquizadas, que predominarão durante milênios.

Excetuando algumas formas de organização política que existiram na Grécia e em Roma entre o século V a.C e o século I a.C e em pequenas cidades na península itálica entre os séculos XII e XIV, as formas de governo autocráticas predominaram até a segunda metade do século XX. Entretanto, em todas essas formas anteriores, o modelo de participação política era muito diferente do modelo representativo contemporâneo. Na experiência democrática grega paradigmática, aquela vigente na cidade de Atenas, a participação política ocorria de forma direta, os cidadãos representavam-se a si mesmos diretamente nas assembleias públicas, ainda que fosse a cidadania amplamente limitada, excluindo mulheres, estrangeiros e escravos (a igualdade do modelo ateniense era limitada a de uma “igualdade entre iguais”). No modelo político da república romana, a participação foi gradualmente sendo ampliada para um maior número de estratos sociais. A República em Roma caminhava na ampliação da participação de todos os cidadãos, e as instituições públicas se solidificavam. Nesse contexto, com as instituições políticas solidificadas e com um grau de participação política relativamente considerável, com participação de diferentes classes sociais, a República Romana teve seu auge.

Na Europa, no século XVIII, já havia surgido práticas políticas que seriam importantes elementos do sistema de governo que será a base das democracias contemporâneas – os mecanismos representativos. Na Inglaterra – após os diversos eventos que ficaram conhecidos como a Revolução Inglesa – é instaurada uma monarquia constitucional, e as diferentes classes sociais passam a participar do governo

176 Historicamente situados em períodos anteriores à formação das grandes civilizações e de certo modo

ainda presentes entre grupos ditos “não-civilizados”, que não foram integrados nos modelos políticos hegemônicos. Importante estudo sobre a organização, não hierarquizada e antiautoritária, desses grupos é encontrado em A Sociedade Contra o Estado, de Pierre Clastres.

177 Esses pressupostos são, segundo Dahal, “a identidade do grupo, a pouca interferência exterior, um

por meio de um parlamento eleito178. Contudo, a ideia que se tinha de democracia era muito diversa do modelo representativo que predomina nos dias atuais. Montesquieu, ao discorrer sobre o modelo inglês, concebia o modelo representativo de forma bem diferente de uma democracia, que era compreendida por ele como o modelo que “o povo tinha o direito de tomar decisões ativas”179. Para Montesquieu, o modelo representativo é o mais adequado, tendo em vista a incapacidade do povo de deliberar sobre questões de governo180. Começam a surgir em diversos países da Europa, como Holanda, Suíça e Inglaterra “legislativos ou parlamentos representativos eleitos em diversos níveis: local, nacional e talvez até provinciano, regional”181. Esses modelos representativos, principalmente o inglês, vão inspirar a nova nação independente que irá surgir na América – os legisladores da constituição dos Estados Unidos buscarão “criar na América do Norte uma república que teria as virtudes do sistema inglês, sem os vícios da monarquia”182. Contudo, o regime democrático ainda era compreendido como diverso do modelo representativo. James Madison, um dos principais formuladores da constituição dos Estados Unidos, considerava a democracia como “uma sociedade consistindo num número pequeno de cidadãos, que se reúnem e administram o governo pessoalmente”, em oposição a uma república “que é um governo em que há um sistema de representação”183.

O Estado em sua forma moderna – enquanto Estado-Nação – surge a partir das revoluções do século XVII e XVIII (apesar de haver divergências históricas sobre essa origem). Conhecidas como revoluções burguesas (a Restauração Inglesa de 1690, a Revolução Americana de 1776 e a Revolução Francesa de 1789) foram mudanças na estrutura econômica, na sociedade e na política. Esse Estado, instaurado após vários eventos revolucionários, se apresenta como República Representativa. Contudo, o conceito de cidadania ainda era limitado dentro dessa nova concepção de Estado.

178 “o rei e o Parlamento eram limitados um pela autoridade do outro: no Parlamento, o poder da

aristocracia hereditária na Casa dos Lordes era contrabalançado pelo poder do povo na Casa dos Comuns. As leis promulgadas pelo rei e pelo Parlamento eram interpretadas por juízes que, de modo geral (embora não sempre), independiam tanto do rei quanto do Parlamento.” DAHL, 2001, p. 31.

179 MONTESQUIEU, Charles de Secondat, Barão de. O espírito das leis. São Paulo: Martins Fontes,

1996, p. 171.

180 Nas palavras de Montesquieu: “A grande vantagem dos representantes é que eles são capazes de

discutir os assuntos. O povo não é nem um pouco capaz disto, o que constitui um dos grandes inconvenientes da democracia. [...] Ele só deve participar do governo para escolher seus representantes”. (MONTESQUIEU, 1996, p. 171).

181 DAHL, 2001, p. 32. 182 Idem, ibidem, p. 31. 183 Idem, ibidem, p. 26.

Julgava-se inconcebível que um não-proprietário pudesse ocupar um cargo num dos três poderes. Cidadãos eram os homens livres e independentes, sendo que eram dependentes e não-livres os que não possuíssem propriedade privada. Estavam excluídos do poder político os trabalhadores e as mulheres, isto é, a maioria da sociedade. No entanto, lutas populares intensas, desde o século XVIII, forçaram o Estado a se tornar uma República Democrática Representativa, ampliando a cidadania política.