Sob a filosofia de se estabelecer uma ind´ustria de energia el´etrica no Brasil, em contra-ponto ao enfoque de servi¸co p´ublico de eletricidade, as bases de uma estrutura de mercado foram introduzidas com as reformas do setor e o novo modelo. Neste contexto,
Figura 2: Mudan¸cas no Setor El´etrico Brasileiro - Adaptado de (CCEE, 2012) emerge a necessidade da existˆencia de institui¸c˜oes que viabilizem a concretiza¸c˜ao de um ambiente onde a competi¸c˜ao est´a presente e com isto muito pouca regulamenta¸c˜ao seria necess´aria, concomitante com uma natureza de monop´olio natural em que muita regula-menta¸c˜ao deve existir, afim de assegurar os direitos do consumidor e a sustentabilidade econˆomica.
Os aspectos chave do tratamento do setor de energia el´etrica como um ind´ustria s˜ao (SILVA, 2001):
• O mecanismo de forma¸c˜ao de pre¸cos
• O acesso `a transmiss˜ao
• A regula¸c˜ao do setor
Sob o paradigma de mercado, a comercializa¸c˜ao de um bem p´ublico como a eletricidade necessita de regula¸c˜ao e, atrav´es de uma sinaliza¸c˜ao econˆomica consistente, o regulador orienta os agentes da ind´ustria a buscarem a eficiˆencia (SILVA, 2001).
Na forma¸c˜ao de pre¸cos ´e economicamente saud´avel que estes reflitam os custos de produ¸c˜ao. No caso de energia el´etrica, esta forma¸c˜ao depende da organiza¸c˜ao
indus-trial e das caracter´ısticas eletro-energ´eticas de cada mercado. Com um parque gerador de predominˆancia hidr´aulica, o Brasil possui um processo de forma¸c˜ao de pre¸cos ´unico no mundo. Aqui, os geradores informam suas disponibilidades e o despacho e consequen-temente o pre¸co ´e definido pelos modelos Newave e Decomp, diferentemente de outros mercados onde os geradores declaram o pre¸co pelo qual desejam vender seu produto.
O livre acesso `a transmiss˜ao ´e um requisito indispens´avel para que os consu-midores possam acessar os geradores mais eficientes e com isto promover a eficiˆencia econˆomica. Do contr´ario, alguns poucos consumidores se beneficiariam, por exemplo, da sua localiza¸c˜ao geogr´afica que eventualmente oferecesse melhores condi¸c˜oes de acesso e com isto melhores pre¸cos em detrimento das condi¸c˜oes em outras regi˜oes.
Surge ent˜ao a proposta do modelo institucional do Setor El´etrico vigente que tem como base a Resolu¸c˜ao CNPE 005 de 21 de julho de 2003 onde se destacam:
• Prevalˆencia do conceito de servi¸co p´ublico para a produ¸c˜ao e distribui¸c˜ao de energia el´etrica aos consumidores cativos
• Modicidade tarif´aria
• Restaura¸c˜ao do planejamento da expans˜ao do sistema
• Transparˆencia no processo de licita¸c˜ao permitindo a contesta¸c˜ao p´ublica, por t´ecnica e pre¸co, das obras a serem licitadas
• Mitiga¸c˜ao de riscos sistˆemicos
• Manter a opera¸c˜ao coordenada e centralizada necess´aria e inerente ao sistema hi-drot´ermico brasileiro
• Universaliza¸c˜ao do acesso e do uso dos servi¸cos de eletricidade
• Modifica¸c˜ao no processo de licita¸c˜ao da concess˜ao do servi¸co p´ublico de gera¸c˜ao priorizando a menor tarifa
Para promover a implementa¸c˜ao destas bases do modelo vigente, as v´arias ins-titui¸c˜oes que formam o SEB e suas respectivas atribui¸c˜oes de acordo com ONS (2009f) s˜ao:
• O Conselho Nacional de Pol´ıtica Energ´etica (CNPE) ´e o ´org˜ao de assessoramento do Presidente da Rep´ublica para a formula¸c˜ao de pol´ıticas nacionais e diretrizes de
energia voltadas, entre seus objetivos, para o aproveitamento racional dos recursos energ´eticos do pa´ıs, a revis˜ao peri´odica da matriz energ´etica e o estabelecimento de diretrizes para programas espec´ıficos. E ´´ org˜ao interministerial presidido pelo Ministro de Minas e Energia (MME)
• O Ministro de Minas e Energia (MME) encarrega-se da formula¸c˜ao, do planejamento e da implementa¸c˜ao de a¸c˜oes do governo federal no ˆambito da pol´ıtica energ´etica nacional
• A Empresa de Pesquisa Energ´etica (EPE) ´e uma empresa p´ublica federal dotada de personalidade jur´ıdica de direito privado e vinculada ao MME. Tem por finalidade prestar servi¸cos na ´area de estudos e pesquisas destinadas a subsidiar o planejamento do setor energ´etico. Elabora os planos de expans˜ao da gera¸c˜ao e transmiss˜ao da energia el´etrica
• O Comitˆe de Monitoramento do Setor El´etrico (CMSE) ´e constitu´ıdo no ˆambito do MME e est´a sob sua coordena¸c˜ao direta, com a fun¸c˜ao principal de acompanhar e avaliar permanentemente a continuidade e a seguran¸ca do suprimento eletroe-nerg´etico em todo o territ´orio nacional
• A Cˆamara de Comercializa¸c˜ao de Energia El´etrica (CCEE) ´e uma pessoa jur´ıdica de direito privado, sem fins lucrativos, sob regula¸c˜ao e fiscaliza¸c˜ao da Agˆencia Nacional de Energia El´etrica para administrar os contratos de compra e venda de energia el´etrica, sua contabiliza¸c˜ao e liquida¸c˜ao
• A Agˆencia Nacional de Energia El´etrica (ANEEL) ´e uma autarquia sob regime especial vinculada ao MME, que tem a finalidade de regular e fiscalizar a produ¸c˜ao, a transmiss˜ao, a distribui¸c˜ao e a comercializa¸c˜ao de energia el´etrica, em conformidade com as pol´ıticas e diretrizes do governo federal
• O Operador Nacional do Sistema El´etrico (ONS), por sua vez, ´e uma associa¸c˜ao civil de direito privado, sem fins lucrativos, autorizado a executar as atividades de coordena¸c˜ao e controle da opera¸c˜ao da gera¸c˜ao e da transmiss˜ao de energia el´etrica, no ˆambito do SIN.
A Figura 3mostra o relacionamento entre as principais institui¸c˜oes presentes no SEB.
Neste contexto institucional, o atual marco regulat´orio do setor el´etrico brasileiro que tem sua origem na d´ecada de 90 com o projeto Re-Seb consolida–se atrav´es das Leis
Figura 3: Estrutura Institucional do SEB, adaptado de (ANEEL, 2008)
10.847 e 10.848, de 15 de mar¸co de 2004. Neste per´ıodo os setores de energia el´etrica em todo mundo passavam por mudan¸cas no mesmo sentido (SILVA, 2001).
Na busca de uma estabilidade regulat´oria perene que cumpra os objetivos pro-postos pelo novo marco regulat´orio possibilitando a garantia do suprimento ao mercado, expans˜ao permanente e sustent´avel das atividades, sendo esta orientada pelo equil´ıbrio entre seguran¸ca, justa remunera¸c˜ao e busca da modicidade tarif´aria, foram implementadas atrav´es das institui¸c˜oes j´a mencionadas, as seguintes a¸c˜oes:
• A desverticaliza¸c˜ao das empresas do setor, obrigando as empresas a segregarem seus ativos de gera¸c˜ao, transmiss˜ao e distribui¸c˜ao em empresas distintas, tamb´em denominados Agentes de Gera¸c˜ao, Transmiss˜ao e Distribui¸c˜ao.
• A existˆencia do Produtor Independente de Energia (PIE) e do Consumidor livre.
• A cria¸c˜ao de dois ambientes de contrata¸c˜ao de energia: O Ambiente de Contrata¸c˜ao Regulado (ACR) onde a contrata¸c˜ao de energia se d´a em um pool de distribuidoras contratando energia de um pool de geradores por meio de leil˜oes promovidos pela ANEEL/CCEE e o Ambiente de Contrata¸c˜ao Livre (ACL) onde a contrata¸c˜ao se d´a por meio de contratos bilaterais entre consumidores e geradores ou comerciali-zadores. Para se contratar no ACL os consumidores devem ser classificados como
consumidores livres de acordo com legisla¸c˜ao espec´ıfica. Vallejos (2008) detalha a contrata¸c˜ao entre os agentes do setor
• Obrigatoriedade da contrata¸c˜ao de toda a energia consumida por parte dos consu-midores, quais sejam, distribuidoras, comercializadoras e consumidores livres.
• Despacho centralizado atribu´ıdo ao ONS.
• Pre¸co da energia no mercado SPOT fornecido por modelos (Newave e Decomp).
• Mecanismo de Realoca¸c˜ao de Energia (MRE) criado com a finalidade de mitigar o risco hidrol´ogico ao qual os agentes de gera¸c˜ao hidroel´etrica s˜ao submetidos.
• Um montante cont´abil de energia, denominado Garantia F´ısica (GF), facultado ao propriet´ario de ativos de gera¸c˜ao e calculado de acordo com m´etodo espec´ıfico, que lastreia os contratos de venda efetuados por este propriet´ario (BLOOT, 2011).
Neste ambiente, o despacho ´e centralizado e sob a responsabilidade do ONS.
Desta forma este decide sobre a gera¸c˜ao das usinas de grande porte, fazendo com que o propriet´ario n˜ao tenha muito controle sobre a opera¸c˜ao de seus pr´oprios ativos, maiores detalhes dispon´ıveis em Bloot (2011). Para que o despacho centralizado n˜ao prejudique o desempenho financeiro dos Agentes de Gera¸c˜ao, a opera¸c˜ao foi desvinculada da comercia-liza¸c˜ao de energia atrav´es do uso de alguns instrumentos cont´abeis como o Mecanismo de Realoca¸c˜ao de Energia (MRE) e a Garantia F´ısica (GF). Com o MRE o ONS pode operar o sistema com vistas `a otimiza¸c˜ao sem levar em conta aspectos comerciais, sendo que a estrat´egia comercial de cada agente se realiza atrav´es da gest˜ao da sua GF no ˆambito da CCEE e n˜ao da gera¸c˜ao f´ısica medida em seus geradores. Os modelos utilizados pelo ONS para o planejamento da opera¸c˜ao fornecem como subproduto do processo de otimiza¸c˜ao o Custo Marginal da Opera¸c˜ao (CMO) e a CCEE utiliza estes mesmos modelos na apura¸c˜ao do Pre¸co de Liquida¸c˜ao das Diferen¸cas (PLD) que ´e utilizado como referˆencia no mer-cado de curto prazo. As rodadas dos modelos pelo ONS e CCEE s˜ao muito parecidas possuindo pequenas altera¸c˜oes nos dados de entrada. Bloot (2011) detalhou a quest˜ao do despacho centralizado, comercializa¸c˜ao de energia, MRE e GF e a utiliza¸c˜ao dos modelos de otimiza¸c˜ao no ˆambito da comercializa¸c˜ao de energia.