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I. OS DIREITOS HUMANOS E SEUS SISTEMAS DE PROTEÇÃO

I.5 Os Sistemas de Proteção de Direitos Humanos: o Universal e o Europeu

I.5.1 O Sistema da Organização das Nações Unidas

I.5.1.2 O Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos

Em que pese aqui esteja em cotejo a análise primária do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, é imperioso destacar que este, já em seu preâmbulo bem assenta a indivisibilidade e indissociabilidade destes direitos e dos Direitos Econômicos, Sociais e

118CLAUDE, Richard Pierre. Direito à Educação…, p.45 coloca como três os objetivos dos redatores da Declaração Universal dos Direitos Humanos: “(1) pleno desenvolvimento pessoal; (2) promoção da tolerância e (3) progresso nos objetivos de paz da ONU.”

119 “Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo;” – Preâmbulo Declaração Universal dos Direitos Humanos.

120PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e…, pp.239-240.

Culturais, deixando claro o que acima foi já traçado quanto à equiparação de todos os direitos conforme apresentados através da Declaração Universal121.

No entanto, apesar dessa equiparação, fato é que foram criados dois Pactos distintos, aprovados juntos122, mas que geraram diferentes entendimentos sobre as razões de não estarem todos os dispositivos num único documento123.

Há posição na doutrina que justifica a separação com base nas alterações que se passavam no mundo à época, fazendo com que fossem criados dois Pactos distintos a fim de que os Estados-membros da ONU pudessem ter a liberdade de optar os documentos que pretenderiam aderir124, sendo certo, todavia, que hoje, superadas as questões ideológicas que moviam o mundo na altura, os Estados-membros aderentes ao Pacto dos Direitos Civis e Políticos também são aderentes ao Pacto dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais.

Ocorre que, basta uma leitura do preâmbulo de ambos os Pactos para se perceber que não há supremacia ou diferentes tipos de obrigações entre os direitos tutelados que promoveram a criação de dois documentos em separado, prevalecendo a indivisibilidade dos direitos como assenta Cançado Trindade125:

121 “ (…). Reconhecendo que, em conformidade com a Declaração Universal dos Direitos do Homem, o ideal do ser humano livre, liberto do temor e da miséria não pode ser realizado a menos que se criem condições que permitam a cada um gozar de seus direitos econômicos, sociais e culturais, assim como de seus direitos civis e politicos, …” O preâmbulo deixa clara a equiparação dos direitos levando por terra qualquer argumentação contrária.

122 Ambos os Pactos foram aprovados pela Resolução 2.200 A pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 16/12/1966.

123 VELASCO, Manuel Diez. Las Organizaciones Internacionales.p.291, dispõe que enquanto o PIDCP traz

“obligaciones automáticas, asumiendo el Estado el deber de reconocimiento e garantía imediata de los derechos en el mismo (art. 2.1)”, o PIDESC configura-se como um “instrumento progressivo, que define derechos cuyo disfrute sólo se garantiza en un determinado horizonte” uma vez que o Estado ali assume um compromisso de adotar medidas que assegurem o que o Pacto traz insculpido, conforme o artigo II do documento, concluindo que a questão de serem feitos dois documentos distintos deve-se ao fato que “… cada uno de los Pactos regula por separado una categoría de derechos, siguiendo un modelo que ya se há consolidado en el Derecho Internacional de los Derechos Humanos”, referindo essa questão da suposta divisão conforme os direitos tutelados como

“tratados setoriales”.

124EIDE, Asbjorn. Economic, Social and Cultural Rights as Human Rights. Holanda, 1995, pp21-22. TRINDADE A. A. Cançado. A Justiciabilidade dos…, p.176-177, ao tratar da divisão dos direitos em dois Pactos, entende que tal divisão “… afigurou-se, antes, como um reflexo da profunda divisão ideológica do mundo no início dos anos cinquenta, a repercutir inexoravelmente nos trabalhos das Nações Unidas. No presente domínio, por exemplo, o então “grupo ocidental” enfatizava os direitos civis e políticos, ao passo que o então “bloco socialista” privilegiava os direitos econômicos, sociais e culturais. Não há que passar despercebido, no entanto, que tal compartimentalização não havia sido antecipada ou propugnada pelos redatores da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948.”, sendo certo que adiante assinala que esse posicionamento reverberou em outros diplomas regionais de proteção dos direitos humanos como ocorreu com a Convenção Europeia de Direitos Humanos, à qual, paralelamente, em 1961 foi adotada “… a Carta Social Europeia, incorporando os direitos económicos e sociais.”

125TRINDADE, A. A. CANÇADO. A Justiciabilidade dos…, p.198. Quanto a esta questão ainda PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e…, p.205, coloca que a Declaração de 1948, ao apresentar a indivisibilidade dos direitos

“… a denegação ou violação dos direitos econômicos, sociais e culturais, materializada, (…), afeta os seres humanos em todas as esferas de suas vidas (inclusive a civil e política), revelando assim de modo marcante a interrelação ou indivisibilidade de seus direitos. (…). Em definitivo, todos experimentamos a indivisibilidade dos direitos humanos no quotidiano de nossas vidas: é esta uma realidade inescapável. Já não há lugar para compartimentalizações, impõe-se uma visão integrada de todos os direitos humanos.”

Ultrapassados tais esclarecimentos preliminares, passa-se mais especificamente à matéria atinente ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, documento este que traz o que se conhece como o maior dos direitos, o direito à vida, haja vista que, sem este, não há como se falar em nenhum outro direito126.

Para uma caracterização sintetizada, mas abrangente dos direitos civis e políticos trazidos no Pacto, pode-se dizer que estes são um conjunto de obrigações negativas, consubstanciadas numa abstinência de atuação em determinadas situações e obrigações positivas de atuar para a garantia da autonomia individual127.

Seu texto, dividido em seis partes, sendo de relevância aqui a Terceira Parte que efetivamente indica os direitos que por ele são protegidos, trazendo desde o direito dos direitos que é o direito à vida, passando pelo direito a um tribunal equitativo (acesso à justiça - artigo 14), até o direito de igualdade de todos perante a lei.

O artigo 14 é de relevante importância por tratar do acesso à justiça, sendo de relevo aqui a disposição do Comitê de Direitos Humanos128 ao posicionar-se no sentido de que seja assegurado a todo o indivíduo, nacional ou não de um Estado, que não haja qualquer privação, em questões processuais, para seu efetivo acesso à justiça. Importa assim que a possibilidade e

humanos, “Combina a, assim, o discurso liberal e o discurso social da cidadania, conjugando o valor da liberdade com o valor da igualdade.” E igualmente ”

126 Tamanha a importância do direito à vida que este, assim como outros direitos insculpidos no Pacto dos Direitos Civis e Políticos não sofrem nenhuma limitação ou suspensão, ainda que em situações de emergência. Alguns dos demais direitos são: o direito a não ser submetido à tortura, o direito a não ser submetido à escravidão ou servidão, o direito à liberdade de pensamento, consciência e religião, dentre outros. Somente alguns direitos podem sofre a limitação ou suspensão de gozo em situações de emergência, mas de forma devidamente delimitada nos termos de seu Artigo IV. Diferentemente, pontua-se que os Direitos Sociais, Econômicos e Culturais, em seu Artigo IV permite que alguns de seus direitos sejam limitados por lei se for para o bem-estar geral de uma sociedade deocrática.

127ABRAMOVICH, Victor. Linhas de trabalho em direitos econômicos, sociais e culturais: instrumentos e aliados. São Paulo, 2005, p.191. Disponível em: < https://www.scielo.br/pdf/sur/v2n2/a09v2n2.pdf>, acessado em 03/05/2020.

128 Ao Comitê de Direitos Humanos, cuja criação está disposta no artigo 28 do documento e sua atuação nos artigos subsequente, cumpre promover verdadeiro monitoramento acerca do cumprimento das disposições do Pacto por seus signatários

igualdade no acesso a persecução de seu direito à justiça, esteja lado a lado com à igualdade perante um Tribunal e a paridade de armas129.

Todos os direitos trazidos pelo Pacto Internacional foram acolhidos pelos Estados que ratificaram-no; entretanto, entre um direito estar assegurado numa lei interna e ser de conhecimento real do cidadão, por mais atuante que seja o Comitê em suas funções, sabe-se que nesse ponto, ainda existe um real abismo, em especial em países mais pobres.

Ao Pacto foram apresentados dois Protocolos Facultativos, onde o Primeiro aborda a atuação do Comitê de Direitos Humanos quando se verificar reclamação de indivíduo que entenda ter direito civil e/ou político lesado, permitindo que o Comitê, através de comunicação de indivíduo que entenda ter tido direito violado e já tenham sido esgotadas todas as possibilidades de recursos em esfera nacional.

O Segundo Protocolo Facultativo surge posteriormente e trata de atos voltados à abolição da pena de morte, sendo entendido, por força de seu Artigo VI como um adicional ao Pacto dos Direitos Civis e Políticos.